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21 março, 2026

Até quando trataremos um ativo estratégico como Despesa?


*Luiz Alberto Cureau Jr. - 21/03/2026

Tenho escrito em vários artigos sobre um ponto que o Brasil insiste em adiar, a necessidade de previsibilidade orçamentária para a defesa e o entendimento de que defesa não é gasto, mas um ativo estratégico do Estado.

Infelizmente, ao longo dos últimos anos, diferentes governos de turno passaram a tratar defesa quase como um passivo administrativo, algo que pode ser comprimido no orçamento sempre que necessário. Essa visão ignora um princípio básico da geopolítica, países que não investem de forma consistente em sua defesa acabam pagando mais caro no futuro, seja em autonomia, capacidade de decisão ou soberania.

Outro efeito preocupante já começa a aparecer. O interesse pela carreira militar tem diminuído, e tudo que se relaciona ao tema defesa passou a enfrentar uma resistência crescente no debate público. Isso não ocorre porque a profissão perdeu relevância, mas porque o país deixou de tratar defesa como política de Estado e passou a tratá-la como tema circunstancial de governo.

Sem previsibilidade orçamentária, sem planejamento de longo prazo e sem valorização institucional, torna-se impossível sustentar uma indústria de defesa forte, manter capacidades tecnológicas críticas e formar lideranças militares altamente qualificadas. Defesa exige continuidade, visão estratégica e estabilidade, exatamente o oposto do improviso orçamentário que frequentemente vemos.

O risco de seguir nesse caminho é claro. Em um ambiente internacional cada vez mais duro, vácuos de capacidade acabam sendo preenchidos por outros atores. Quando um país demonstra incapacidade de enfrentar desafios internos complexos, como o crime organizado transnacional, abre-se espaço para pressões externas sob diferentes justificativas, inclusive a de combater ameaças à estabilidade regional.

Nesse cenário, o precedente é perigoso. Uma vez que se aceite a ideia de que atores externos precisam intervir para resolver problemas internos, a discussão deixa de ser apenas sobre segurança pública e passa a tocar diretamente a soberania nacional.

Defesa nacional não pode depender da vontade ou da visão de cada governo de turno. Ela precisa ser tratada como política permanente de Estado, com orçamento previsível, valorização institucional e planejamento estratégico de longo prazo.

Países que entendem isso preservam sua autonomia.

Os que ignoram essa realidade acabam descobrindo, tarde demais, que soberania não se improvisa. Até quando vamos viver na terra de Oz ou em Nárnia ?

Nosso país é um grande ativo e não podemos achar que tudo se resolve abrindo uma cervejinha em uma mesa de bar, como alguns governantes acreditam. 

 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.   

20 março, 2026

Sistema OTAN de Catalogação: credencial estratégica que pode impulsionar as exportações da Base Industrial de Defesa

Evento promovido pela FIESC apresenta o caminho para empresas da Base Industrial de Defesa conquistarem compradores em dezenas de países


*LRCA Defense Consulting - 20/03/2026

Num momento em que o mundo debate rearmamento e soberania tecnológica, empresas brasileiras do setor de defesa passam a ter à disposição uma via concreta de acesso ao mercado internacional: a inclusão de seus produtos e serviços no Sistema OTAN de Catalogação (SOC), o padrão global adotado pelas forças armadas de dezenas de países para identificação, classificação e gestão de itens militares.

O passo a passo para integrar esse portfólio foi apresentado a indústrias catarinenses em evento promovido pelo Conselho de Desenvolvimento da Indústria de Defesa (Condefesa), da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), em Florianópolis, no dia 18 de março.

Um passaporte para o mercado global
O SOC é administrado pelo Comitê Aliado AC/135, formado pelo Grupo de Diretores Nacionais de Catalogação dos 65 países integrantes do sistema, subordinado à Conferência de Diretores Nacionais de Armamentos da OTAN. Estar nesse catálogo equivale a ter um "passaporte" reconhecido internacionalmente: o produto catalogado recebe um código padronizado, o Número de Estoque OTAN (NSN), que facilita sua identificação, rastreamento e aquisição por qualquer força armada integrante do sistema.

A participação no SOC beneficia a interoperabilidade entre países e atribui visibilidade internacional de comercialização às empresas e a seus produtos. Para as empresas, isso significa acesso a compradores institucionais de alto valor, ou seja: governos, ministérios da defesa e forças armadas, em mercados antes praticamente inacessíveis.

O Brasil no sistema: de 2002 até hoje
O Brasil tornou-se membro TIER 2 do SOC em 2002 e, desde então, tem catalogado os itens de suprimento produzidos pela Base Industrial de Defesa nacional, permitindo a projeção internacional dos produtos de defesa fabricados no País. O órgão responsável por representar o Ministério da Defesa junto ao sistema é o Centro de Apoio a Sistemas Logísticos de Defesa (CASLODE).

Nos últimos anos, iniciativas concretas têm aprofundado esse caminho. Em dezembro de 2024, o CASLODE realizou a primeira Catalogação por Produto Classificado na Base Industrial de Defesa, proveniente da Unidade de Catalogação CATProBr, em apoio à Associação Brasileira de Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ). A nova modalidade, estabelecida pela Orientação Técnica nº 012/2024, permite que produtos classificados como Estratégicos de Defesa (PED) ou Produtos de Defesa (PRODE), mas não gerenciados logisticamente pelas Forças, sejam catalogados no SOC por meio de uma Unidade de Catalogação privada.

KC-390 e Super Tucano: os casos de sucesso
O maior exemplo do potencial dessa estratégia é o KC-390 Millennium, avião de transporte e reabastecimento da Embraer. A aeronave já foi adquirida ou selecionada pelas forças aéreas de 11 países: Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia, Uzbequistão, Eslováquia e Lituânia.

Mais recentemente, outro ícone da indústria aeroespacial brasileira seguiu o mesmo caminho. O A-29 Super Tucano foi reconhecido pelo NATO Allied Committee 135 (AC/135) e passou a usar o código SOC para identificação e catalogação do projeto, além de possibilitar a troca de informações e a interoperabilidade logística com outros membros da OTAN.

Para o Contra-Almirante Marcello Nogueira Canuto, diretor do CASLODE, esses exemplos revelam uma capacidade que muitas vezes é subestimada: "O Brasil não é um desconhecido no mercado internacional de defesa. Temos empresas indutoras que consolidaram produtos reconhecidos e adquiridos por membros da OTAN e países aliados."

O que muda para a indústria catarinense
Santa Catarina ocupa posição estratégica nesse cenário. O estado já é sede de projetos estruturantes da defesa nacional, entre eles, o Programa Fragatas Classe Tamandaré, executado em Itajaí. Das 114 empresas estratégicas de defesa que o Brasil possui, 14 estão em Santa Catarina.

Para o diretor de Inovação e Desenvolvimento Industrial da FIESC, José Eduardo Fiates, a catalogação no SOC representa uma mudança qualitativa para as empresas que almejam o mercado global: "Incorporar tecnologia ao que produzimos é uma mudança de patamar. Países que exportam tecnologia constroem reputação, abrem mercados e ocupam posições estratégicas na economia global." Ele ressalta, porém, que o Brasil ainda precisa superar uma cultura historicamente voltada à exportação de commodities.

No evento, a CEO da Connectree, Elaine Rodrigues, apresentou os serviços da empresa, que atua como Unidade de Catalogação (UniCAT) habilitada para apoiar empresas interessadas em integrar o sistema. A presença de uma UniCAT privada no processo é justamente o que viabiliza a participação de indústrias de médio porte que antes dependiam exclusivamente das Forças Armadas para ter seus produtos catalogados.

Os benefícios concretos da catalogação
Além do acesso ao mercado, entre os principais benefícios da catalogação estão o rastreamento preciso das fontes de aquisição, a interoperabilidade internacional entre forças armadas, a redução de estoques por meio de uma gestão mais eficiente de itens, o desenvolvimento da indústria nacional com maior inserção em cadeias produtivas globais e a identificação de itens recicláveis, contribuindo para práticas mais sustentáveis na gestão de materiais de defesa.

Do ponto de vista estratégico, o país também investe na formação de pessoal especializado. Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, um sargento do Exército Brasileiro concluiu o Curso de Identificadores de Catalogación na Espanha, com o objetivo de estruturar futuramente um curso nacional sobre o SOC.

Contexto global favorável
O movimento acontece num momento de forte expansão dos gastos militares globais. Com o aumento do interesse de países europeus e asiáticos em diversificar seus fornecedores de defesa, reduzindo dependência de potências tradicionais, o Brasil e sua base industrial têm uma janela de oportunidade rara. Estar catalogado no SOC é o primeiro passo para que uma empresa seja considerada em processos licitatórios internacionais.

A mensagem deixada pelo evento em Florianópolis é clara: a indústria catarinense tem produtos, capacidade técnica e agora orientação para dar esse passo. O catálogo da OTAN não é apenas uma lista, mas uma credencial de confiança num mercado que movimenta bilhões e seleciona seus fornecedores com rigor.

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