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07 junho, 2026

O fim da retaguarda segura: guerra de drones no coração do poder russo

Ucrânia ataca São Petersburgo durante o Fórum Econômico Internacional (SPIEF 2026) que ocorreu na cidade russa e redefine os limites da guerra moderna 


*LRCA Defense Consulting - 07/06/2026

Este texto tem como ponto de partida a análise publicada por Marco K. (Cobalt Academy Inc.) no LinkedIn em 3 de junho de 2026, complementada com informações da NPR, CNN, Reuters, NBC News e The War Zone.

O palco e o alvo
Entre 3 e 6 de junho de 2026, São Petersburgo sediou a 29ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF), principal vitrine de investimentos da Rússia, batizado pela imprensa ocidental de "o Davos de Putin". Sob o lema "Diálogo pragmático: o caminho para um futuro estável", o evento reuniu mais de 20.000 participantes de 130 países, com representantes governamentais de 76 nações. O presidente russo Vladimir Putin discursou na sessão plenária do dia 5. Pela primeira vez em sete anos, uma delegação oficial dos Estados Unidos marcou presença, liderada por Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes americanas.

Na madrugada de 3 de junho, horas antes da abertura do fórum, drones ucranianos de longo alcance percorreram mais de 1.000 quilômetros e atacaram São Petersburgo e sua região. O terminal de exportação de petróleo da cidade foi incendiado. Na base naval de Kronstadt, ilha a oeste da cidade e berço histórico da Frota do Báltico da Rússia, a corveta de mísseis guiados Boikiy foi atingida enquanto estava em dique seco. Uma fábrica de armamentos na região de Tambov, a 600 quilômetros da Ucrânia, também foi atacada na mesma operação. Nos dias seguintes, novos ataques se repetiram. Na madrugada de 6 de junho, último dia do fórum, mais de 140 drones foram abatidos sobre a região de Leningrado, segundo o governador Aleksandr Drozdenko. O aeroporto Pulkovo foi paralisado, com dezenas de voos cancelados ou desviados.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia telegrafado a intenção dos ataques dois dias antes, em carta aberta na qual afirmou que muitos ucranianos apoiariam que drones fizessem "uma visita" ao SPIEF. A Rússia respondeu com ameaças de retaliação "sistêmica". Putin, interrogado sobre a carta, a classificou de "rude" e "insolente" e descartou a proposta de encontro com Zelensky.

Efeito estratégico sem bombardeiro estratégico
A análise de Marco K. identifica nessa operação uma das lições mais importantes que emergem do conflito: efeitos estratégicos já não exigem plataformas estratégicas. Durante a maior parte do século XX, atacar alvos em profundidade no território inimigo exigia frotas de bombardeiros, aviões de caça avançados e amplo apoio logístico, capacidades restritas às grandes potências militares. O surgimento de sistemas não tripulados de longo alcance alterou essa equação de forma fundamental.

Drones relativamente baratos são agora capazes de produzir consequências antes associadas a grandes campanhas aéreas: interromper redes de transporte, forçar respostas de defesa aérea, afetar sistemas de comunicação, gerar incerteza entre investidores e dominar os noticiários internacionais. O impacto econômico dessas interrupções frequentemente supera o valor dos próprios alvos físicos.

A corveta Boikiy é um exemplo concreto. Segundo a CNN, o navio era utilizado para escoltar embarcações da frota fantasma de petróleo russa, mecanismo pelo qual Moscou tenta driblar sanções ocidentais ao exportar combustível por rotas alternativas. Ao atacar esse ativo no dia de abertura do SPIEF, a Ucrânia comprometeu, em um único golpe, um vetor logístico do comércio clandestino e o cenário de normalidade econômica que a Rússia buscava projetar aos investidores presentes.

 

Drones ucranianos do SBU, em colaboração com as Forças de Operações Especiais executaram a destruição da corveta Boikiy da Marinha Russa em seu dique seco em Kronstadt e de arsenais da Marinha Russa na cidade (Região de Leningrado / São Petersburgo); também do depósito de petróleo em Ust-Labinsk, no sul da Rússia, a mais de 2.000 quilômetros de distância de São Petersburgo

 

A confiança como ativo estratégico
A escolha do momento não foi acidental. O SPIEF serve como plataforma pela qual a Rússia busca fortalecer relações econômicas, atrair investimentos estrangeiros e demonstrar resiliência apesar das sanções em curso. A presença de delegações de 130 países, a primeira participação americana desde 2019 e a delegação empresarial alemã sinalizam que Moscou vinha construindo uma narrativa de retorno à normalidade diplomática e econômica.

A operação ucraniana inseriu na pauta do fórum uma variável que os organizadores não tinham planejado: a vulnerabilidade da própria cidade-sede. Interrupções no aeroporto, alertas de emergência, colunas de fumaça negra visíveis sobre a zona portuária e ampla cobertura internacional competiram, durante todo o evento, com os anúncios de acordos e investimentos. Como observa Marco K., a guerra moderna reconhece que a confiança é em si um ativo estratégico, e operações que desafiam a percepção de estabilidade geram efeitos que vão muito além dos danos físicos de um ataque isolado.

A convergência entre guerra e pressão econômica
O ataque ao SPIEF 2026 ilustra uma tendência estrutural nos conflitos contemporâneos: a convergência entre operações militares e guerra econômica. Tradicionalmente, a pressão econômica era exercida por meio de sanções, restrições comerciais ou bloqueios. Os drones oferecem agora um mecanismo pelo qual um Estado pode impor custos e criar incerteza sem a necessidade de operações militares convencionais em larga escala.

Essa dimensão vai além dos custos imediatos de reparos. Tarifas de seguros, cronogramas de transporte, confiança de investidores, requisitos de proteção de infraestrutura e gastos com segurança são influenciados pela percepção de que instalações críticas permanecem vulneráveis. Em muitos casos, os custos de longo prazo de defesa contra drones excedem o valor dos sistemas que realizam os ataques. O atacante investe relativamente pouco; o defensor precisa destinar recursos substanciais a radares, guerra eletrônica, mísseis interceptores e segurança física.

O fim da retaguarda segura
Talvez a implicação mais profunda do episódio seja a erosão do conceito de retaguarda segura. Por gerações, os planejadores militares distinguiram entre zonas de combate e áreas situadas a centenas de quilômetros das linhas de frente, tidas como praticamente imunes a ataques rotineiros. São Petersburgo fica a mais de 1.000 quilômetros da Ucrânia.

A guerra moderna com drones está eliminando rapidamente essa distinção. Sistemas de longo alcance continuam a expandir o alcance geográfico das operações, colocando um número crescente de alvos ao alcance de ataque. Aeroportos, portos, instalações de energia, centros logísticos, redes de comunicação e instalações industriais enfrentarão riscos crescentes em futuros conflitos, mesmo localizados longe dos campos de batalha convencionais.

O ataque à base naval de Kronstadt é simbólico nesse sentido. Kronstadt é o principal centro de reparo, suprimento e formação naval da Rússia no Báltico oriental, berço histórico da marinha czarista e soviética. Atingi-la com drones lançados do território ucraniano representa não apenas um resultado tático, mas uma demonstração de capacidade com efeito dissuasório e psicológico sobre toda a estrutura de defesa russa.

O que muda na guerra moderna
A análise de Marco K., fundador da Cobalt Academy Inc. e veterano de combate, sintetiza bem a mudança em curso: a guerra com drones evoluiu de uma capacidade tática para um instrumento estratégico de poder nacional. Sistemas não tripulados não se limitam mais a reconhecimento ou apoio no campo de batalha. Eles são empregados para moldar o comportamento econômico, influenciar decisões políticas, desafiar a confiança pública e gerar atenção internacional.

O episódio do SPIEF 2026 reúne, em um só evento, todas essas dimensões: um alvo militar de alto valor (a corveta Boikiy), um alvo de infraestrutura energética com impacto direto sobre as receitas de exportação (o terminal de petróleo), e um alvo psicológico e simbólico de primeira grandeza (o próprio fórum econômico, transmitido ao vivo para o mundo inteiro).

Para analistas de defesa e formuladores de política de segurança, a lição que se extrai de São Petersburgo não é restrita ao conflito russo-ucraniano. Ela aponta para um novo paradigma de guerra em que a fronteira entre o campo de batalha e a vida econômica e política da nação adversária se torna cada vez mais tênue, e em que o custo de entrada para produzir efeitos estratégicos é, a cada ano, mais acessível.

06 junho, 2026

O obuseiro na estante: o Exército escolheu, o governo não assina e a defesa segue precaríssima

Vencedor de licitação bilionária do Exército, o obuseiro autopropulsado da Elbit Systems segue sem contrato assinado. A Ares, subsidiária brasileira da empresa israelense, exibe uma maquete do sistema em suas instalações. Do lado de fora, o mundo está em guerra e o alto comando brasileiro reconhece: o país não tem defesa compatível com o que seria necessário

Maquete do obuseiro ATMOS na sede da Ares, já com a designação do EB: VBCOAP 155 mm SR (crédito: @Defence360 no X
)


*LRCA Defense Consulting - 06/06/2026

Nas instalações da Ares Aeroespacial e Defesa, no Rio de Janeiro, uma maquete do obuseiro ATMOS ocupa um lugar de destaque. O detalhe resume bem a situação do programa: a subsidiária brasileira da Elbit Systems está pronta para cumprir sua parte, os contratos de suporte logístico e transferência de tecnologia já foram desenhados, a licitação foi concluída, o Exército escolheu o vencedor. Falta apenas a assinatura.

Mais de dois anos após o início do processo formal de seleção e mais de um ano após a declaração de vencedor, o Exército Brasileiro ainda não contratou os 36 obuseiros autopropulsados de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR) que o Programa Estratégico Forças Blindadas aguarda desde os primeiros estudos, iniciados em 2017. O motivo não é técnico. Não é jurídico. É político.

Um vencedor sem contrato
Em 29 de abril de 2024, o Comando Logístico do Exército (COLOG) divulgou o resultado do processo licitatório internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, aberto em agosto de 2023. A vencedora foi a Elbit Systems Land Ltd, com o ATMOS 155 mm/52 calibres montado em chassi Tatra T-815 6×6. A empresa israelense superou três concorrentes: a tcheca Excalibur International (com o Zuzana 2, em segundo lugar), a francesa KNDS (CAESAR, em terceiro) e a chinesa Norinco (SH-15, em quarto). O sistema israelense atendeu a todos os requisitos absolutos estabelecidos pelo Exército e foi avaliado em quatro dimensões: técnica, comercial, suporte logístico integrado e offset.

A cerimônia de assinatura do contrato inicial, que previa a entrega de um lote de amostra com dois exemplares, estava marcada para 7 de maio de 2024. Não ocorreu. O Exército suspendeu o ato por 60 dias, alegando necessidade de revisão jurídica. Nos bastidores, a razão era outra: o conflito em Gaza e a resistência política de parte do governo Lula à formalização de um contrato bilionário com empresa israelense.

O presidente Lula, pressionado por parlamentares do PT, PDT, PSOL e PCdoB pela anulação de todos os contratos de defesa com Israel, acabou dando aval à compra. O argumento do Exército era objetivo: o ATMOS era a melhor proposta técnica e a mais vantajosa para o país em razão da transferência de tecnologia e da criação de empregos. Mas o contrato continuou suspenso. Em outubro de 2024, o ministro da Defesa, José Múcio, foi explícito ao admitir publicamente que o programa estava parado por questões ideológicas, citando a influência do assessor especial Celso Amorim.

Em dezembro de 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou a medida cautelar interposta pela KNDS, que pedia a reavaliação do resultado. A decisão do TCU eliminou o último obstáculo formal. Mesmo assim, no início de 2026, o status do programa era descrito por analistas setoriais como o de um "adiamento não anunciado", sem data para assinatura do contrato.

A ToT que está na mesa 
A proposta da Elbit Systems não era apenas a venda de 36 viaturas. Incluía um conjunto estruturado de contrapartidas industriais que, se concretizadas, posicionariam o Brasil como fornecedor global de munições de 155 mm. São três frentes principais.

A primeira envolve a Indústria Brasileira de Material Bélico (IMBEL). A Elbit assinou um memorando de entendimento com a IMBEL para investimentos na Fábrica de Juiz de Fora, com o objetivo de ampliar a capacidade de produção de granadas e cargas de 155 mm e habilitar a fabricação de modelos mais modernos. Hoje, a IMBEL produz apenas a granada M107 de alto explosivo, modelo básico e sem certificação Otan, o que limita severamente seu potencial de exportação.

A segunda frente envolve a empresa brasileira CSD (Componentes e Sistemas de Defesa). A intenção declarada pela Elbit é transformar a CSD na principal fornecedora de munições para todos os sistemas ATMOS e SOLTAN em operação no mundo, incluindo munições de alcance estendido e guiadas. O projeto destacaria o Brasil como exportador de munições de artilharia de alta tecnologia para o mercado internacional.

A terceira frente é a montagem nacional. A proposta negociada com o Ministério da Defesa previa que 34 dos 36 obuseiros seriam integrados e montados no Brasil, utilizando as competências da AEL Sistemas (Porto Alegre) e da Ares Aeroespacial e Defesa (Rio de Janeiro), ambas subsidiárias brasileiras da Elbit. Os dois primeiros exemplares, do lote de amostra, seriam produzidos integralmente em Israel e enviados para avaliações técnica e operacional no Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

O diretor comercial da Ares, Frederico Medella, confirmou que a empresa "possui vasta experiência na execução de contratos de suporte logístico e ToT com o Exército Brasileiro". A Ares tem histórico comprovado nessa modalidade, incluindo o contrato de US$ 100 milhões firmado em 2017 para o fornecimento de estações de armas remotamente controladas às Forças Armadas.

O offset formal, avaliado como critério classificatório na licitação, contemplava ainda o desenvolvimento de um simulador de treinamento de baixo custo, aproveitando a experiência da Ares na área. Somados, os elementos da proposta configuravam uma das transferências de tecnologia mais abrangentes já oferecidas ao Exército Brasileiro em um programa de artilharia. 

Obuseiro israelense ATMOS 2000 - vencedor da licitação do Exército Brasileiro

"Nós não temos defesa" 
O impasse em torno do ATMOS ocorre em paralelo a um debate cada vez mais urgente sobre a capacidade de defesa do Brasil. No último dia do Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado em Brasília em 27 de maio de 2026, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, fez uma declaração que rompeu com décadas de discurso oficial. "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça, incluindo nossa atuação constitucional e legal de auxiliar os Poderes da República na faixa de fronteira, que é uma preocupação enorme, muito vasta. Temos que estar olhando para ela", afirmou.

A declaração, feita diante do Alto Comando e de representantes da Base Industrial de Defesa (BID), reconhece oficialmente uma mudança estratégica no entorno regional. O general não especificou as fontes da ameaça, mas o contexto é conhecido: a crise venezuelana, a disputa por Essequibo, a presença crescente de crime organizado transnacional na faixa de fronteira e a instabilidade política em países vizinhos.

Poucos dias antes, em encontro reservado com representantes da BID em Brasília, o ministro da Defesa, José Múcio, havia feito um diagnóstico ainda mais contundente. "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa. Muita gente pensa que nós temos como nos defender; nós não temos", declarou o ministro, segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Múcio citou como exemplo a mobilização militar realizada quando a Venezuela ameaçou avançar sobre a região de Essequibo, território disputado com a Guiana, e reforçou a necessidade de elevar os investimentos em Defesa para pelo menos 2% do PIB, contra pouco mais de 1% hoje.

O mesmo ministro que reconhece publicamente a fragilidade da defesa brasileira é o responsável por viabilizar, no plano político, a assinatura do contrato do ATMOS. A contradição não passou despercebida no setor.

Um mundo armado, um calendário que escapa 
O contexto internacional que cerca o impasse é o mais desfavorável possível para o adiamento de decisões de defesa. A guerra na Ucrânia demonstrou que o apoio de fogo de artilharia continua sendo o eixo central do combate terrestre de alta intensidade e que a autonomia industrial em munições é condição de sobrevivência operacional. O conflito no Oriente Médio, a tensão entre Estados Unidos e Irã e o rearmamento acelerado de potências médias e grandes reforçam a percepção, expressa pelo próprio ministro Múcio, de que "todo mundo está armado".

O ATMOS, ironicamente, é um produto com histórico de combate exatamente nessas regiões. Utilizado em operações no Oriente Médio, o sistema acumula registros operacionais que orientaram parte dos requisitos técnicos fixados pelo Exército Brasileiro. A escolha pelo chassi Tatra T-815 6×6, o mesmo utilizado pelo sistema de foguetes ASTROS II MK nas versões mais recentes, foi um elemento adicional de padronização logística que pesou na avaliação.

O cronograma original previa a entrega dos dois exemplares do lote de amostra no segundo trimestre de 2025, a partir da assinatura do contrato inicial ainda em 2024. Aprovados os exemplares, o COLOG assinaria o contrato principal para as 34 unidades restantes, com entregas anuais até 2034. Cada mês de atraso comprime esse horizonte e encarece o programa.

Do lado da Ares, a maquete na parede continua esperando. A subsidiária brasileira da Elbit é o elo local de uma cadeia que, para ganhar vida, depende de uma decisão que está menos no plano técnico do que no plano da vontade política.

O que está em jogo além do obuseiro 
O atraso no ATMOS não é um caso isolado. Insere-se num padrão mais amplo de programas estratégicos do Exército que dependem de importação e que encontram resistências de diferentes origens. O contingenciamento de R$ 4,363 bilhões no orçamento do Ministério da Defesa, o maior corte nominal entre os ministérios no exercício de 2025, colocou em risco simultâneo o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, as fragatas Classe Tamandaré, os caças Gripen NG da FAB, as aeronaves KC-390 e os programas de sistemas terrestres.

No setor de munições, o quadro é sintomático: em janeiro de 2025, o Exército Brasileiro emitiu, por meio de sua comissão em Washington, um pedido de informações (RFI-0159/2025) para a aquisição de munições de 105 mm e 155 mm no exterior. O país que quer ser exportador de granadas de alcance estendido ainda busca no mercado internacional as munições básicas para operar seus obuseiros existentes.

Para a BID brasileira, a equação é conhecida: sem contratos, não há escala; sem escala, não há transferência de tecnologia que se sustente. A ToT prevista no contrato do ATMOS, que incluiria a modernização da IMBEL e a transformação da CSD em fornecedora global, só se materializa se o contrato existir. Enquanto a maquete fica na parede da Ares, o potencial industrial associado ao programa permanece no papel.

05 junho, 2026

Do campo ao front: o drone pesado multimissão começa a mudar o combate, e o Brasil está atento

O Adis ucraniano consolida uma tendência já anunciada pelo SSNTFT 2026 do Exército: quadricópteros de grande porte, originalmente desenvolvidos para agricultura e logística civil, foram convertidos em ferramentas de linha de frente capazes de atacar, realizar minagem remota e reabastecer posições avançadas, e o Brasil já tem a base industrial para acompanhar essa evolução

Adis - drone bombardeiro quadricóptero pesado multimissão (Imagem: Martyn Tech)

*LRCA Defense Consulting - 05/06/2026

A empresa ucraniana Martyn Tech apresentou, no começo deste mês, o Adis, um bombardeiro quadricóptero pesado desenvolvido em resposta a necessidades diretas da linha de frente. Os números são significativos: 10 kg de carga útil em raio de combate de 20 km, cerca de uma hora de autonomia, com testes registrando 12 kg transportados por mais de 20 km ou 3 kg por mais de 50 km, a 65 km/h de velocidade de cruzeiro e até 400 m de altitude operacional. O drone está equipado com um sistema de câmera dupla para detecção e identificação de alvos. A empresa afirma que ele pode detectar objetos a distâncias de até 600 m durante o dia e até 150 m à noite.

O salto do controle via satélite
O elemento verdadeiramente diferenciador não está na carga útil, mas sim no enlace de controle. Ao incorporar comunicação via satélite como canal primário de comando, o Adis elimina a principal restrição dos quadricópteros de linha de frente anteriores: o horizonte de rádio. Com isso, os operadores podem ser posicionados muito além da área de lançamento, reduzindo sua exposição e transformando o que era uma improvisação tática de curto alcance em algo mais próximo de um sistema distribuído de fogos e logística.

A estrutura modular completa o quadro: a mesma plataforma pode ser reconfigurada para lançamento de munição, minagem remota (dispersão aérea de minas sobre acessos e flancos) ou entrega de carga, como baterias, suprimentos médicos e equipamentos especializados, a posições que estradas, valas e veículos expostos já não alcançam com segurança.

Novidade ou consolidação de uma tendência?
O Adis não inventa a categoria. Quadricópteros e hexacópteros pesados de ataque estão em uso regular na Ucrânia desde o outono de 2022, batizados pelos soldados russos de "Baba Yaga", uma referência ao aspecto abominável desses drones voando à noite carregados de munição. Plataformas como o Vampire (Skyfall) e o Kazhan (Reactive Drone) já carregam 15 kg ou mais e operam entre 20 km e 60 km. Em 2024, por decreto do presidente Zelensky, os sistemas não tripulados foram estabelecidos como uma força independente das Forças Armadas ucranianas, sinal de que a tecnologia deixou o estágio experimental.

O Adis representa um passo incremental, mas relevante: o controle via satélite é algo que as gerações anteriores resolviam com Starlink como retransmissor intermediário, solução mais vulnerável à guerra eletrônica do que um enlace direto embarcado. A diferença entre usar o Starlink como relay e ter o módulo de comunicação integrado ao piloto automático não é apenas técnica, mas sim de robustez operacional e de sobrevivência do elo de controle em ambiente saturado por contramedidas eletrônicas.

Os russos responderam... com atraso
As forças russas foram as primeiras a nomear os quadricópteros pesados ucranianos justamente porque não tinham equivalente no início do conflito. A adaptação levou tempo. Em 2024, unidades russas na região sul de Donetsk já operavam plataformas pesadas próprias equipadas com sistemas de lançamento de minas de 82 mm, projetadas para permanecer indetectáveis pelos sistemas de guerra eletrônica ucranianos.

Em maio de 2026, a Rússia apresentou o Berdysh, produzido pela Ural Drone Factory: um hexacóptero capaz de realizar funções de ataque, entrega de carga e retransmissão de comunicações, com alcance de até 25 km, teto de 1.000 m, velocidade de até 50 km/h e carga útil de até 20 kg. A plataforma confirma que ambos os lados do conflito chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão operacional.

O Brasil no mesmo espectro
O 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado entre 25 e 27 de maio de 2026 no Quartel-General do Exército e no Estande de Tiro General Darcy Lázaro, em Brasília, reuniu onze empresas da BID e revelou que o Brasil já opera nesse espectro, com objetivos e escala distintos dos do conflito ucraniano, mas com convergência técnica inegável. 

As demonstrações de maior impacto visual envolveram plataformas multirrotoras pesadas com payloads militares. 
A Taurus Armas exibiu um drone de ataque de grande porte capaz de operar armamento leve (fuzis e lança-granadas), incluindo o lançamento de projéteis de morteiro de 120 mm com 15 kg de peso, colocando o sistema diretamente no mesmo patamar de carga útil das primeiras gerações de "Baba Yaga" ucranianos. A Condor Não Letais apresentou o Condor Drop, quadricóptero tático adaptado para lançamento de agentes químicos de controle de distúrbios e apoio a missões de vigilância. As demais participantes: XMobots, Ares, PlasmaHub, Modirum Gespi, AeroID, ADTech, BR Vant, Ambipar e RADeCO, com demontrações e/ou exposições, completaram um painel que, segundo o Comandante do Exército, general Tomás Paiva, evidenciou a "rápida evolução da BID no desenvolvimento de sistemas não tripulados".

Nos casos da Condor e da Taurus, a plataforma base de voo (drone quadricóptero) foi desenvolvida sob encomenda por uma empresa brasileira especializada no desenvolvimento de RPAS (Remotely Piloted Aircraft System ou Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada, em português) para a indústria de defesa e segurança, sem que as partes tenham feito declarações oficiais sobre a natureza dessas parcerias. Este modelo de desenvolvimento já produziu, fora do contexto do SSNTFT, uma plataforma da mesma família operando um array de radar embarcado para levantamento automatizado, solução desenvolvida para a Radaz e que, inclusive, já está sendo exportada para países da Europa e do Oriente Médio.

A camada menos visível, mas estrategicamente muito relevante do SSNTFT, foi a participação institucional da própria Diretoria de Fabricação (DF) e do Arsenal de Guerra do Rio (AGR). Além de a DF apresentar a situação atual de sua Iniciativa de Drones de Ataque ao Alto Comando (programa que, desde dezembro de 2025, percorreu um RFI com 37 empresas habilitadas - sendo 33 nacionais, um workshop com a BID e, em março de 2026, o lançamento do edital de pré-qualificação de SARP - Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada de ataque), o AGR demonstrou um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes, incluindo um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva (impressoras 3D). Trata-se, em essência, de uma fábrica de drones desdobrável em campanha, capacidade que as forças ucranianas desenvolveram empiricamente na linha de frente e que o Exército Brasileiro está buscando incorporar de forma planejada, com produção descentralizada e resiliente a rupturas na cadeia logística convencional.


Taurus - TAS lançador de granada 120mm

Quadricóptero da Condor Não Letais para lançamento de agentes químicos de controle de distúrbios
 

Drone Pelicano R3 como plataforma para o radar SAR RD350 da Radaz

O que falta e como pode ser resolvido
O hiato entre o estágio brasileiro e o Adis ucraniano é identificável e, em boa medida, endereçável. O principal elemento ausente nas plataformas nacionais é o enlace de controle via satélite integrado: a comunicação entre operador e drone ainda depende de rádio convencional, com todas as limitações de horizonte e vulnerabilidade à guerra eletrônica que isso implica.

A solução passa necessariamente pela escolha do tipo de satélite. O uso do Starlink (SpaceX) oferece baixa latência (20 a 40 milissegundos) suficiente para um completo controle manual em tempo real, mas cria dependência estratégica de uma empresa privada americana e de uma infraestrutura que pode ser restringida unilateralmente. O SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas), operado pela Telebras com banda X dedicada às Forças Armadas, é soberano e cobre praticamente 100% do território nacional e a Amazônia Azul, mas a altitude de 36.000 km impõe latência de 600 a 800 milissegundos, inviável para pilotagem manual em tempo real, porém perfeitamente funcional para missões executadas por 
piloto automático com controle por waypoints, que é exatamente o modelo de emprego mais adequado para as missões de minagem remota, entrega de carga e ataques a alvos fixos.

A integração técnica em si não é um obstáculo de fronteira. Trata-se de engenharia de sistemas bem definida: seleção e qualificação do módulo de comunicação, adaptação estrutural da plataforma, desenvolvimento do firmware de integração com o 
piloto automático e validação da lógica de contingência. Um projeto dessa natureza, com financiamento e equipe adequados, pode ser executado em 12 a 24 meses.

O financiamento como elo que faltava
Em 26 de maio de 2026, a Finep e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação publicaram a Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT — Promoção da Autonomia Tecnológica na Área da Defesa (chamada pública nº 943682), destinando até R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis do FNDCT às Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação vinculadas ao Ministério da Defesa (ICTMDs).

As linhas temáticas contempladas incluem explicitamente sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados aéreos, terrestres e navais, além de inteligência artificial, robótica, visão computacional e sensoriamento remoto. O edital exige cooperação com empresas da Base Industrial de Defesa (BID), criando o elo formal entre as ICTMDs (ITA, IME, IPqM e similares) e fabricantes como SkyDrones, XMobots e Stella Tecnologia. As submissões vão até 18 de setembro de 2026.

O edital representa o maior aporte público unitário já destinado exclusivamente à BID em projetos de pesquisa e desenvolvimento a fundo perdido, e chega em momento em que o ecossistema nacional de plataformas não tripuladas já demonstrou capacidade de integração com payloads militares reais. A licitação do Exército Brasileiro para aquisição de munição vagante, que atraiu habilitação de 37 fabricantes, sendo 33 nacionais, é outro indicador da profundidade desse ecossistema.

Adis - drone bombardeiro quadricóptero pesado multimissão (Imagem: Martyn Tech)

A lição ucraniana para a BID
A diferença fundamental entre o ecossistema ucraniano e o brasileiro não é tecnológica, mas de velocidade e de volume. Na Ucrânia, a linha de frente define o produto em semanas: uma necessidade identificada numa trincheira se transforma em especificação, protótipo, teste e produção em série em ciclos que seriam considerados impossíveis em qualquer processo de aquisição convencional. Em 2024, o país produziu mais de 30.000 drones bombardeiros. O Brasil, mesmo com empresas competentes e demanda institucional crescente, ainda opera em ciclos de aquisição que se contam em anos.

O Adis, nesse sentido, não é um produto isolado. É o marcador mais recente de uma tendência que o seminário SSNTFT 2026 do Exército Brasileiro já havia sinalizado em escala nacional recentemente: o drone pesado multimissão deixou de ser nicho e virou classe de aeronave utilitária de campo de batalha. Quem souber comprimir o ciclo entre demanda operacional, desenvolvimento industrial e produção em escala terá, nessa tecnologia, uma vantagem assimétrica de difícil compensação. 

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