*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/09/2026
O Brasil vive um paradoxo que define a próxima década de sua
defesa ao abrigar a empresa líder no desenvolvimento de drones na América
Latina, a Xmobots
e, simultaneamente, manter uma dependência crítica da importação de uma parcela
dos insumos e componentes essenciais à fabricação e operação desses sistemas.
O país demonstrou capacidade comprovada no desenvolvimento e
na integração de plataformas complexas, mas ainda não domina em escala
industrial a manufatura dos componentes de maior valor agregado, tais como
sensores de alta precisão, unidades de propulsão avançada, aviônica e
arquiteturas de software. Essa assimetria ultrapassou a barreira do
desequilíbrio econômico para se tornar uma vulnerabilidade estratégica.
Contudo, o cenário atual sinaliza uma mudança que decorre
não apenas da maturação tecnológica, mas da convergência institucional
construída em torno do setor. Em um curto espaço de tempo, o Estado brasileiro
estruturou instrumentos importantes: a Nova Indústria Brasil (NIB) estabeleceu
a meta de 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa
até 2033; o Ministério da Defesa reuniu as três Forças para discutir projetos
conjuntos de sistemas não tripulados; a ABIMDE - Associação
Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança instituiu
o Comitê de Veículos Não Tripulados e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP)
viabilizou um edital de R$ 300 milhões voltado à Base Industrial de Defesa
(BID).
A disputa nacional em curso ultrapassa a mera montagem de
vetores aéreos, pois trata-se de uma corrida pelo domínio tecnológico de
componentes críticos cujo direcionamento (compartilhado entre o Estado, a
indústria nacional e parceiros internacionais) está sendo determinado
atualmente.
A sensibilidade intrínseca desse ecossistema e o valor
estratégico de seus ativos evidenciam-se de forma concreta no caso da Akaer
. Em 2026, o Grupo EDGE,
conglomerado de tecnologia avançada e defesa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes,
concluiu a aquisição do controle acionário da Akaer, empresa sediada em São
José dos Campos (SP) que acumula décadas de experiência em engenharia e atuação
em programas relevantes, como os caças Gripen, a aeronave Super Tucano e o
cargueiro KC-390. A concretização do negócio assinala a terceira aquisição
promovida pelo grupo árabe na indústria de defesa brasileira nos últimos anos.
No que tange especificamente ao domínio dos sistemas não tripulados, a
transação emite um sinal claro ao mercado internacional, visto que o movimento
pode ser entendido como um reforço à capacidade técnica global do Grupo Edge no
segmento de aeronaves remotamente pilotadas, reiterando a relevância dos polos
tecnológicos brasileiros no cenário geopolítico global.
A soberania tecnológica, sob essa perspectiva, não constitui
apenas uma aspiração econômica ou comercial, mas torna-se indispensável para a
segurança e sobrevivência do Estado. A dependência externa de componentes
críticos em sistemas militares transfere a terceiros, ainda que de forma
implícita, frações vitais da capacidade de defesa e dissuasão de uma nação,
expondo o país a vulnerabilidades operacionais, geopolíticas e tecnológicas.
Sob a ótica operacional, embargos internacionais, rupturas
em cadeias logísticas globais ou atrasos em licenças podem paralisar frotas e
sistemas em situações de crise. No âmbito geopolítico, a autonomia de
formulação da política externa fica comprometida quando o poder militar repousa
sobre fornecedores sujeitos a pressões diplomáticas externas. No campo
tecnológico, a ausência de domínio integral do ciclo de desenvolvimento submete
o país a ciclos externos de modernização, cenário preocupante em sistemas autônomos
cujo valor reside predominantemente em camadas de software que evoluem em
ciclos contínuos extremamente curtos.
A importância dessa premissa foi reconhecida pelo governo
federal no Decreto nº 12.725 de 2025, que destacou como diretriz que uma base
industrial e tecnológica sólida constitui fator de autonomia estratégica e
redução da dependência externa, sintetizando uma verdadeira doutrina de Estado.
Com vistas a materializar essas diretrizes, a Nova Indústria
Brasil (NIB), lançada em 2024, elegeu sua Missão 6 para ancorar o
fortalecimento das tecnologias soberanas de defesa, segurança pública e
construção naval. A política pública estabeleceu como horizonte mandatário
alcançar 75% de autonomia na produção de tecnologias críticas para a defesa
nacional até 2033, alocando os sistemas autônomos e remotamente controlados na
lista de nichos prioritários ao lado do setor nuclear, de sensoriamento avançado,
sistemas de comunicação segura e propulsão. Os desdobramentos operacionais
dessa política ganharam tração com a abertura, pelo Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação (MCTI) em conjunto com a Finep, do edital Mais Inovação
Brasil (Rodada 2) Base Industrial de Defesa, disponibilizando R$ 300 milhões em
recursos focados em projetos empresariais com risco tecnológico. O instrumento
segue aceitando submissões até 30 de setembro de 2026 por parte de Empresas
Estratégicas de Defesa (EED), representando o primeiro teste crítico dos
objetivos traçados para a década.
O diagnóstico industrial que fundamenta essas iniciativas
expõe a profundidade dos gargalos tecnológicos do país. Enquanto as principais
potências globais mobilizam centenas de bilhões para resguardar a soberania em
semicondutores, o Brasil ainda busca estruturar sua inserção nessa cadeia
primária. No segmento de sistemas não tripulados, as lacunas de manufatura e
propriedade intelectual concentram-se em cinco pilares: sensores e optrônicos,
compreendendo radares, sensores multiespectrais, imageadores térmicos e
sistemas LIDAR; propulsão aerotécnica, abrangendo motores a combustão leves,
motores elétricos de alta densidade energética e baterias; aviônica embarcada e
sistemas de navegação inercial resistentes à perda de sinal de satélite (GNSS);
links de dados com criptografia e resiliência a contramedidas de guerra
eletrônica; e, por fim, arquiteturas de software de controle, processamento
computacional, fusão multissensorial e algoritmos de inteligência artificial.
A dinâmica do setor demonstra que o valor agregado migrou
definitivamente das estruturas de hardware para a inteligência embarcada e os
sensores; produzir apenas a fuselagem sem dominar os subsistemas eletrônicos
equivale a fabricar o hardware sem dominar o software.
Apesar dos desafios remanescentes na cadeia de suprimentos,
a Base Industrial de Defesa brasileira consolidou um ecossistema produtivo
maduro, dotado de governança empresarial, homologações operacionais e contratos
de fornecimento executados diretamente com as Forças Armadas. A radiografia dos
principais agentes industriais do país permite identificar as competências já
internalizadas e os elos que ainda precisam de aprofundamento tecnológico.
No segmento de plataformas aéreas e sensoriamento integrado,
a Xmobots destaca-se
como a maior empresa do setor na América Latina. Seu portfólio de engenharia
inclui o Nauru 500C ISR, primeiro sistema aéreo remotamente pilotado com
decolagem e pouso vertical (VTOL) que obteve autorização de projeto e
certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para operações além do
alcance visual (BVLOS), com alcance de enlace de até 60 km e quatro horas de
autonomia operacional. O vetor foi mobilizado pelo Exército Brasileiro em
operações de repressão ao garimpo ilegal na Amazônia e integrado pela Marinha
do Brasil em missões de busca e salvamento no litoral. A companhia desenvolveu
igualmente o Nauru 1000C ISTAR, plataforma tática de vigilância e inteligência
de desenvolvimento nacional incorporada à Força Terrestre para monitoramento de
fronteiras, bem como o Nauru 100D, lançado em 2025 para estruturar a divisão de
defesa da Xmobots, apresentada na LAAD 2025.
Complementando o segmento de longo alcance, a Stella Tecnologia
firmou-se como expoente nacional na fabricação de sistemas de grande porte. A
companhia desenvolveu o Atobá, um VANT estratégico de grande porte, que
realizou seu primeiro voo em 2020 após cinco anos de engenharia, oferecendo até
28 horas de autonomia e enlace de dados seguro em raio de 250 km, inserindo o
país no restrito grupo de nações detentoras dessa capacidade ao lado de
potências consolidadas. O avanço do programa resultou na apresentação, na LAAD
2024, do Atobá XR, plataforma com o triplo da capacidade de volume do modelo
anterior, projetada para transporte de cargas e emprego de munições vagantes (loitering
munitions). Em 2025, a empresa estabeleceu parceria estratégica com a Thales para integrar
aviônica avançada, radares de vigilância e enlaces de comando franceses às
plataformas nacionais.
A AERO
CONCEPTS - Aeroespacial, Industrial e Defesa Ltda. é uma empresa
brasileira especializada no desenvolvimento de propulsão para sistemas aéreos
não tripulados, atuando em um dos elos mais críticos da cadeia: a fabricação
nacional de turbinas para drones e mísseis. A companhia desenvolve, em parceria
com a Força Aérea Brasileira, motores de propulsão para aeronaves não
tripuladas e firmou com a Stella Tecnologia, na FIDAE 2024, uma aliança
estratégica entre empresas de capital 100% nacional para o desenvolvimento de
sistemas de alta complexidade. Sua tecnologia de propulsão a jato equipa o
drone Albatroz, um dos exemplos mais concretos de autonomia tecnológica
nacional aplicada a sistemas aéreos não tripulados.
No âmbito dos aviônicos e da eletrônica embarcada de alta
confiabilidade, a AEL
Sistemas , sediada em Porto Alegre (RS), atua como elo de classe
mundial. Subsidiária da Elbit Systems, a empresa internalizou a engenharia de
computadores de missão, sistemas eletro-ópticos, comunicações seguras e enlaces
táticos empregados nos principais equipamentos das Forças Armadas brasileiras,
notadamente os displays de grande formato WAD, sistemas de mira montados no
capacete (HMD) e painéis HUD integrados aos caças F-39 Gripen, comprovando que
o mercado de defesa brasileiro possui capacidade para absorver e gerar
tecnologia de ponta quando respaldado por programas estáveis de longo prazo.
A fronteira do combate moderno e a proliferação de sistemas
de ataque de precisão encontram sinergia operacional na Modirum I Gespi,
empresa brasileiro-finlandesa sediada em São José dos Campos (SP), formada em
2024 após a aquisição da participação majoritária na tradicional Gespi pela
finlandesa Modirum Defence. A companhia atua no desenvolvimento de munições
vagantes e sistemas aéreos não tripulados de defesa, com soluções demonstradas
ao Comandante do Exército Brasileiro e apresentadas na DroneShow 2026,
consolidando sua posição na fronteira entre armamento guiado e autonomia
decisória.
Com atuação consolidada na Base Industrial de Defesa, a Mac Jee é uma
empresa brasileira dedicada ao desenvolvimento de mísseis, munições de precisão
e sistemas de ataque. A companhia apresentou internacionalmente sua munição
vagante Anshar, voltada a operações de ataque de precisão, e produz no Brasil o
kit DAGGER, sistema de orientação de munições aéreas. Em novembro de 2025,
adquiriu a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha,
originalmente desenvolvidos pela Mectron, contribuindo para a retomada da
capacidade nacional no segmento de mísseis. Com atuação crescente na integração
entre armamento e plataformas não tripuladas, a empresa consolida-se como elo
central da cadeia de sistemas de ataque do ecossistema brasileiro.
A EMBRAER, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo,
aprofundou sua presença no setor de sistemas não tripulados ao se tornar
acionista da XMobots em 2022 e firmar, em novembro de 2025, acordo com a
Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones aeronavais. Por meio da
Atech, empresa do grupo, apresentou no ARAMUSS 2025 soluções integradas em
sistemas não tripulados e antidrone, cobrindo também o lado defensivo da
equação. A entrada da Embraer no setor sinaliza que os sistemas autônomos deixaram
de ser nicho de startups para se tornar prioridade industrial estratégica no
Brasil.
Fechando o ciclo de sensoriamento estratégico e consciência
situacional, a IACIT, também de São José dos Campos (SP), concluiu a
implantação do Radar OTH 0100 Surface Wave, primeiro radar além do horizonte
(OTH) desenvolvido no Brasil e operado sob contrato pela Marinha para
fiscalização da Amazônia Azul. A empresa apresentou na LAAD 2025 suas soluções
Skywave e Surface Wave para monitoramento de alvos aéreos e marítimos a
centenas de milhas náuticas da costa e desenvolve, sob coordenação do
Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), arquiteturas computacionais
voltadas à gestão e monitoramento em tempo real do tráfego não tripulado e
veículos eVTOL no espaço aéreo nacional.
A coordenação institucional desse contingente fabril deu um
salto com a formalização, em 2025, do Comitê de Veículos Não Tripulados da ABIMDE,
congregando vinte e três empresas associadas: Adtech, AEL Sistemas, Aeroid,
Akaer, Avionics, Baiuca Sports, BR Vant, CERTI, Condor Tecnologias
Não Letais, CSD, DGS Boats, EMGEPRON, Energias, IDV, Mac Jee, Modirum
Gespi, Neger, Performa Defesa, Polícia Militar da Bahia, Redtech, Stella
Tecnologia, Taurus
Armas e XMobots. A entidade atua como interlocutora setorial perante os
poderes públicos na padronização de protocolos de interoperabilidade,
simplificação regulatória, requisitos de certificação militar e consolidação de
políticas de compras governamentais. O cenário comprova a existência de uma
capacidade fabril instalada ampla e funcional, restando o desafio de
transformar a capacidade de integrar em autonomia plena sobre os componentes de
maior sofisticação tecnológica.
Para a base fabril brasileira, a centralidade da soberania
tecnológica dita as regras de perenidade dos negócios. O modelo tradicional de
contratação pública, formatado para compras esporádicas de sistemas acabados,
revela-se incompatível com o dinamismo de desenvolvimento dos sistemas
autônomos. Torna-se imperativo adotar modelos de compras públicas que financiem
programas contínuos de pesquisa e desenvolvimento e prototipagem evolutiva. A
dualidade tecnológica (dual-use) desponta como o vetor primordial de
sustentabilidade econômica, permitindo que plataformas desenvolvidas sob
requisitos de defesa sejam adaptadas à vigilância ambiental, fiscalização de
fronteiras, agronegócio de precisão e segurança pública, gerando a escala
fabril necessária para amortizar investimentos e posicionar os fabricantes no
mercado externo de exportação. Paralelamente, parcerias internacionais devem
ser pautadas por cláusulas de transferência de tecnologia (offset) que
internalizem software, ferramentais e conhecimentos proprietários nas empresas
brasileiras.
Para o comando estratégico das Forças Armadas e dos órgãos
de segurança pública, a soberania tecnológica manifesta-se em três pilares
operacionais inegociáveis. O primeiro refere-se à prontidão logística: a
dependência de fornecedores estrangeiros para reposição de aviônica ou chips
críticos compromete a disponibilidade operacional das frotas em momentos de
crise. O segundo pilar é a capacidade de modernização contínua, permitindo que
algoritmos de voo, módulos de guerra eletrônica e bibliotecas de alvos sejam
atualizados internamente pelas próprias Forças no ritmo das ameaças emergentes.
O terceiro pilar abarca a interoperabilidade e a doutrina conjunta: as
operações militares contemporâneas demandam que sistemas aéreos, terrestres,
navais e cibernéticos das três Forças comuniquem-se por enlaces de dados
padronizados e arquiteturas abertas de comando e controle, colocando o software
no centro do poder de combate.
Alcançar a meta de 75% de autonomia produtiva até 2033
demanda a execução estruturada de uma estratégia em diversas vertentes: a
priorização de investimentos orçamentários orientados ao fortalecimento da
cadeia produtiva; a modernização dos marcos de aquisição de defesa, espelhando
experiências ágeis internacionais de inovação e contratação por risco
tecnológico; a exigência de contrapartidas de transferência tecnológica efetiva
em todas as aquisições governamentais no exterior; a consolidação do Comitê de Não
Tripulados da ABIMDE como ambiente técnico permanente de diálogo com os
Estados-Maiores das Forças; e o aporte financeiro massivo na formação e
retenção de quadros de engenharia, desenvolvedores de sistemas e cientistas de
dados especializados em sistemas autônomos.
O Brasil alcança um alinhamento favorável, no qual a vontade
política (NIB 2033), a coordenação industrial (ABIMDE e Ministério da Defesa),
a demanda operativa (Marinha, Exército e Aeronáutica) e os instrumentos de
fomento (editais Finep) operam de forma harmônica. O parque industrial nacional
já ultrapassou a fase experimental e entrega resultados operacionais de alta
complexidade em múltiplos domínios de defesa. Contudo, a reunião fragmentada
dessas capacidades não estabelece, isoladamente, uma soberania sustentável. A
autonomia plena dependerá da migração definitiva da indústria brasileira da
condição de montadora de componentes estrangeiros para a de detentora das
tecnologias habilitadoras de sensores, propulsores e inteligência de software.
O posicionamento que o país ocupará em 2033 não será
resultado de eventos futuros, mas das decisões orçamentárias, industriais e
doutrinárias implementadas no presente. A liderança militar e tecnológica no
teatro operacional dos sistemas autônomos pertencerá às nações capazes de
controlar o ciclo tecnológico integral de seus meios de dissuasão. Com
infraestrutura fabril comprovada, marcos normativos fixados e capital humano de
excelência, o Brasil reúne as condições necessárias para consolidar sua autonomia
estratégica e liderar o desenvolvimento de sistemas não tripulados, cabendo aos
formuladores de políticas e aos líderes da indústria consumar a estratégia rumo
à independência tecnológica de fato.
*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos.