*LRCA Defense Consulting - 21 de setembro de 2026
A Ucrânia voltou a colocar o A-29 Super
Tucano no centro de seus planos de defesa aérea. O ex-presidente e atual
deputado Petro Poroshenko afirmou que trabalha para viabilizar o fornecimento
de 24 aeronaves fabricadas pela Embraer, destinadas à proteção da
infraestrutura crítica contra os ataques russos com aeronaves não tripuladas e
mísseis de cruzeiro. A iniciativa retoma uma aproximação iniciada em 2019, mas
agora apresenta quantidade, missão e uma possível fórmula política: a
participação de um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que
mantém contratos de defesa com o Brasil.
A identidade desse país não foi divulgada.
As informações disponíveis, contudo, apontam principalmente para Portugal,
primeiro cliente do A-29N configurado segundo requisitos da OTAN, sede da OGMA
e principal plataforma industrial europeia da Embraer Defesa & Segurança.
Essa hipótese é consistente, mas ainda não foi confirmada pelos governos
envolvidos nem pela fabricante brasileira.
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| Poroshenko participa de reunião no estande da Embraer durante
a MSPO 2026, na Polônia. Foto: European Solidarity/assessoria de Petro
Poroshenko |
Do encontro na Polônia à apresentação ao governo ucraniano
Segundo a agência Interfax-Ukraine,
Poroshenko apresentou o projeto durante uma reunião da bancada do European
Solidarity com o ministro da Defesa da Ucrânia, Yevhen Khmara. Ele declarou
que, durante a exposição MSPO 2026, realizada na Polônia entre 8 e 11 de
setembro, manteve negociações com representantes da Embraer e foi definida uma
solução baseada em 24 Super Tucano.
Poroshenko afirmou que as aeronaves seriam
utilizadas contra os Geran russos, inclusive as versões com propulsão a jato, e
contra o míssil de cruzeiro de baixo custo S8000 Banderol. Também informou que
foram encaminhadas ao Ministério da Defesa propostas de empresas britânicas,
estonianas, lituanas e portuguesas para sistemas de armas superfície-ar e ar-ar
com alcance de até 30 quilômetros.
As fotografias do encontro foram divulgadas
pela assessoria do próprio político e pelo European Solidarity. Uma delas
mostra a reunião no estande da Embraer, com material de divulgação do C-390
Millennium ao fundo. Em outra, Poroshenko aparece segurando uma maquete do A-29
diante da identificação da fabricante brasileira. As imagens foram
posteriormente reproduzidas pela imprensa ucraniana e pelo portal Aeroin.
Apesar da linguagem adotada por Poroshenko,
ainda não há evidência pública de contrato de compra e venda, fonte de
financiamento, autorização brasileira de exportação ou cronograma industrial. O
que existe é uma iniciativa político-industrial apresentada ao Ministério da
Defesa ucraniano, acompanhada de entendimentos preliminares com a Embraer.

Petro Poroshenko com uma maquete do A-29 Super Tucano no
estande da Embraer na MSPO 2026. Foto: European Solidarity/assessoria de Petro
Poroshenko
Portugal surge como o intermediário mais provável
A referência a “um dos países da OTAN que
possui contratos relevantes com o Brasil” permite considerar diferentes
clientes europeus do C-390, como Hungria, Países Baixos, República Tcheca e
Suécia. Nenhum deles, porém, reúne tantos elementos quanto Portugal.
Em dezembro de 2024, o governo português
contratou 12 A-29N Super Tucano, tornando-se o cliente lançador da variante
adaptada aos requisitos da OTAN. Portugal também abriga a OGMA, empresa
controlada pela Embraer em parceria com o Estado português e apontada como
futura base de montagem, suporte e expansão comercial do A-29N no mercado
europeu.
Além disso, Poroshenko incluiu empresas
portuguesas entre as fornecedoras consultadas para o pacote de armamentos.
Portugal poderia atuar como Estado contratante, articulador político dentro da
OTAN, centro de treinamento e manutenção ou participante de um mecanismo
europeu de aquisição e posterior transferência à Ucrânia.
O número de 24 aeronaves também chama
atenção. Ele corresponde ao dobro da encomenda portuguesa de 12 A-29N e pode
indicar dois lotes, a ampliação do contrato existente ou uma nova operação
estruturada a partir da infraestrutura portuguesa. Por enquanto, essa relação
numérica constitui apenas uma hipótese.
A expectativa declarada por Poroshenko de
receber todas as aeronaves até o fim de 2026 parece especialmente ambiciosa.
Mesmo que existam células disponíveis, seria necessário integrar armamentos e
sensores, formar pilotos, preparar equipes de manutenção, estabelecer estoques
de peças e construir uma arquitetura de comando e controle. É possível que o
prazo se refira à assinatura do acordo ou ao início das entregas, e não à
disponibilidade operacional das 24 aeronaves.
O A-29 diante das diferentes gerações do Geran
A Embraer vem desenvolvendo uma
configuração do A-29 para missões contra aeronaves não tripuladas. A solução
combina as metralhadoras internas calibre .50, foguetes guiados a laser APKWS,
sensores eletro-ópticos, enlaces de dados e integração com radares e sistemas
terrestres de comando e controle. A fabricante também realiza uma prova de
conceito com um país não identificado, empregando A-29 e alvos reais para
aperfeiçoar o conceito operacional e a interface homem-máquina.
Na Ucrânia, entretanto, a expressão
“caçador de Shahed” já não descreve uma única ameaça. A família russa Geran
evoluiu de uma munição lenta, movida por motor a pistão, para vetores a jato
que se aproximam do desempenho de mísseis de cruzeiro.
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Modelo
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Propulsão
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Velocidade
aproximada
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Avaliação diante do
A-29
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Geran-2
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Motor
a pistão
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Cerca
de 180 km/h
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Alvo
adequado, com ampla margem de velocidade para detecção, acompanhamento e
ataque.
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Geran-3
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Turbojato
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Geralmente
abaixo de 400 km/h
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Interceptação
plausível, desde que apoiada por alerta e vetoração.
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Geran-4
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Turbojato
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300
a 400 km/h em cruzeiro e até 500 km/h
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Possível,
mas com margem reduzida e forte dependência da geometria da interceptação.
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Geran-5
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Turbojato
|
Até
aproximadamente 600 km/h
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Inadequado
para perseguição pela retaguarda; engajamento dependeria de posicionamento
antecipado e armas guiadas.
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A velocidade máxima do A-29 fica próxima de
590 km/h, valor obtido em condições ideais e que não pode ser mantido em
qualquer altitude ou configuração de armamentos. Contra o Geran-2, a aeronave
dispõe de vantagem confortável. Contra o Geran-3, ainda conserva margem útil.
Diante do Geran-4, capaz de atingir aproximadamente 500 km/h, o sucesso passa a
depender de alerta antecipado, altitude, posição e rota prevista do alvo.
O Geran-5, estimado em até 600 km/h,
encontra-se no limite ou além do desempenho do Super Tucano. O A-29 não
conseguiria alcançá-lo em uma perseguição pela retaguarda. Poderia, contudo,
realizar uma interceptação frontal ou transversal se fosse posicionado com
antecedência por uma rede de sensores e empregasse armamento guiado com alcance
suficiente.
Assim, o A-29 não deve ser apresentado como
solução universal. Seu emprego parece especialmente racional contra Geran-2,
outros vetores lentos e parte das ameaças a jato. Contra Geran-4 e Geran-5,
seria apenas um componente de uma defesa em camadas, ao lado de radares,
aeronaves de alerta, sistemas terrestres, guerra eletrônica e aeronaves não
tripuladas interceptoras.
A legislação brasileira não impõe uma proibição automática
A possível participação de um país da OTAN
também procura contornar a posição política brasileira diante da guerra. Desde
2022, o governo do País tem evitado autorizar fornecimentos militares que
possam ser interpretados como participação direta no conflito. Essa postura já
atingiu munições, helicópteros de origem russa desativados e a solicitação
ucraniana de até 450 viaturas blindadas Guarani, inclusive em versões de
evacuação médica.
Não existe, porém, uma norma pública
vigente que proíba automaticamente a venda de produtos de defesa a qualquer
país envolvido em conflito. O instrumento central é o Decreto nº 9.607, de 12
de dezembro de 2018, que instituiu a Política Nacional de Exportação e
Importação de Produtos de Defesa, a PNEI-PRODE.
O decreto determina que as autoridades
considerem os objetivos da política externa do País, os compromissos
internacionais assumidos pelo Brasil, eventuais embargos do Conselho de
Segurança das Nações Unidas, o risco de emprego em genocídio, crimes contra a
humanidade ou crimes de guerra, a possibilidade de violações de direitos
humanos e do direito internacional dos conflitos armados, além do risco de
desvio.
A exportação dos produtos constantes da
Lista de Produtos de Defesa depende de anuência do Ministério da Defesa, ouvido
o Ministério das Relações Exteriores. A existência de uma guerra, isoladamente,
não produz veto automático. No caso ucraniano, não há embargo do Conselho de
Segurança da ONU, e Kyiv invoca o direito de legítima defesa reconhecido pelo
artigo 51 da Carta das Nações Unidas.
Uma eventual negativa brasileira seria,
portanto, uma decisão política e administrativa amparada pelo sistema de
controle de exportações, e não consequência inevitável de uma proibição legal
absoluta.
Portugal não eliminaria completamente a necessidade de anuência
brasileira
A contratação por Portugal ou a montagem
das aeronaves na OGMA reduziria a exposição política de uma venda direta entre
Brasil e Ucrânia. Ainda assim, a operação provavelmente dependeria de cláusulas
de usuário final, autorização para reexportação, licenças relativas a
componentes brasileiros e estrangeiros e anuência para o fornecimento
continuado de peças, suporte técnico, treinamento e atualizações.
A linha norte-americana do A-29, mantida
pela Embraer em parceria com a Sierra Nevada Corporation, constitui outra
alternativa teórica. Ela foi criada para atender clientes dos Estados Unidos e
operações pelo sistema Foreign Military
Sales. Entretanto, a aeronave continua sujeita a direitos industriais,
componentes e cadeias de suprimento que podem exigir entendimentos adicionais
com o Brasil.
Uma iniciativa mais avançada do que as anteriores
O interesse ucraniano pelo Super Tucano
remonta a 2019, quando uma delegação da Força Aérea visitou a Embraer e o então
comandante da força, general Serhiy Drozdov, avaliou a aeronave. No mesmo ano,
Volodymyr Zelensky manifestou ao então presidente Jair Bolsonaro interesse no
A-29 e no C-390. Entre 2019 e 2020, o Super Tucano foi examinado principalmente
como possível substituto dos treinadores L-39.
Em junho de 2023, o presidente da Embraer
Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior, declarou que já não existiam
conversações abertas com a Ucrânia, apesar do interesse demonstrado
anteriormente. O quadro agora mudou. O A-29 recebeu uma missão operacional
concreta contra ataques de longo alcance, a variante A-29N entrou no mercado
europeu e Portugal se tornou cliente e parceiro industrial do programa.
A proposta anunciada por Poroshenko
permanece distante de uma venda concluída. Faltam confirmação da Embraer,
manifestação do governo português, anuência brasileira, financiamento e um
cronograma compatível com a produção e a preparação operacional. Mesmo assim, a
combinação entre 24 aeronaves, a reunião na MSPO, a apresentação ao ministro da
Defesa e a busca de um patrocinador da OTAN coloca o projeto em estágio
político mais definido do que as tentativas anteriores.
O que está em jogo
Para a Ucrânia, o A-29 poderia liberar
caças mais caros para missões de maior complexidade e reduzir o consumo de
mísseis antiaéreos de alto valor contra alvos relativamente baratos. Para a
Embraer, uma operação bem-sucedida abriria a possibilidade de validar o Super
Tucano em uma das missões mais demandadas da guerra moderna e ampliar sua
presença dentro da OTAN.
O resultado dependerá, porém, de uma
definição realista da ameaça. O Super Tucano pode oferecer uma resposta
econômica e persistente contra Geran-2 e outros vetores lentos, além de
enfrentar parte dos modelos a jato quando inserido em uma rede integrada. Não
substitui caças, mísseis antiaéreos ou aeronaves não tripuladas interceptoras
diante dos Geran mais rápidos.
A iniciativa de Poroshenko deve ser
acompanhada justamente porque reúne três discussões que avançam
simultaneamente: a adaptação do A-29 para a missão antidrones, a transformação
de Portugal em polo europeu do programa e a possibilidade de a indústria brasileira
participar da defesa ucraniana por meio de uma arquitetura multinacional. Se
essas três linhas convergirem, o projeto poderá se tornar uma das operações
mais relevantes da Embraer Defesa & Segurança na Europa.