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05 abril, 2026

Eve Air Mobility: do chão ao céu, a empresa brasileira que quer transformar o transporte urbano avança a passos largos

Com primeiro voo do protótipo, acordos firmes em dois continentes e liquidez garantida até 2028, a subsidiária da Embraer consolida posição de liderança global no mercado de aeronaves elétricas de decolagem vertical

 

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LRCA Defense Consulting - 05/04/2026

No dia 19 de dezembro de 2025, num aeródromo no interior paulista, um veículo elétrico ergueu-se do solo silenciosamente, mudando o rumo de uma empresa e, talvez, o do transporte urbano brasileiro. A Eve Air Mobility - uma subsidiária da Embraer dedicada ao desenvolvimento de soluções para mobilidade aérea urbana, incluindo eVTOL, gestão de tráfego aéreo urbano e serviços de manutenção - concluiu o primeiro voo de seu protótipo não tripulado em escala real na unidade de testes da Embraer em Gavião Peixoto, em São Paulo. O voo inaugural marcou o início da fase de testes em voo e confirmou a integração de sistemas essenciais da aeronave, como o conceito de fly-by-wire de quinta geração e os rotores dedicados exclusivamente ao voo vertical.

Para o CEO Johann Bordais, o momento foi mais que simbólico: foi a prova de que o projeto, gestado por anos, tinha sustentação real, no sentido mais literal da palavra. Ao divulgar os resultados do quarto trimestre de 2025, ele descreveu o feito como "o maior momento do ano" e afirmou que a porta para testes muito mais intensivos estava aberta.

Três meses depois, a cadência dos voos já responde à promessa. A Eve acumula 35 voos realizados e quase uma hora e meia de tempo de voo desde o voo inaugural de dezembro de 2025. Em 25 de março de 2026, a empresa foi além: realizou um voo de demonstração para autoridades do mais alto escalão; o evento contou com a presença do presidente da República, da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, do ministro de Portos e Aeroportos, do presidente da ANAC, e do presidente do BNDES.

O eVTOL e a tecnologia por trás do voo
O veículo da Eve não é um drone gigante nem um helicóptero elétrico. Trata-se de uma aeronave de nova categoria: durante o procedimento de voo inaugural, foram avaliadas a integração dos oito rotores dedicados à elevação vertical, o sistema de propulsão traseira e os controles fly-by-wire de quinta geração. O protótipo comportou-se exatamente conforme as simulações prévias, permitindo a coleta de dados essenciais para as próximas fases de desenvolvimento.

O plano de certificação está alinhado com as principais autoridades regulatórias do mundo. A ANAC atua como autoridade primária no processo, com participação prevista de outras entidades, como a FAA (Federal Aviation Administration), dos Estados Unidos, e a EASA (European Union Aviation Safety Agency), da Europa. A empresa pretende produzir seis protótipos certificáveis para conduzir a campanha de testes em voo com foco na certificação da aeronave, com expectativa de alcançar a certificação de tipo, realizar as primeiras entregas e iniciar a operação comercial em 2027.

Para 2026, a meta é ambiciosa: voos quase diários, expansão gradual do envelope operacional e a transição para o chamado wingborne flight, o voo de cruzeiro sustentado pelas asas. O processo de expansão do envelope deve permitir voos de até 30 nós (aproximadamente 56 km/h) nos próximos dias a partir de março de 2026, com velocidades crescentes nos meses seguintes.

Finanças: prejuízo calculado, caixa protegido
Desenvolver uma aeronave certificável nunca foi barato. O quarto trimestre de 2025 resultou em uma perda líquida de US$ 63,9 milhões, comparada a US$ 40,7 milhões no mesmo período do ano anterior, impulsionada por US$ 59,4 milhões em despesas de P&D. No acumulado do ano, a perda líquida chegou a US$ 224,3 milhões em 2025, com despesas de P&D totalizando US$ 194,7 milhões.

Os números assustam à primeira vista, mas revelam uma empresa que gasta com propósito. O consumo de caixa normalizado ficou em aproximadamente US$ 196,5 milhões, ligeiramente abaixo da faixa-alvo de US$ 200 a US$ 250 milhões. Ou seja: a empresa gastou menos do que havia prometido ao mercado, um sinal raro de disciplina financeira no setor de startups aeronáuticas.

O aspecto mais tranquilizador para investidores é a posição de liquidez. O caixa, equivalentes de caixa e investimentos financeiros totalizaram US$ 392,5 milhões, com liquidez total alcançando US$ 541,4 milhões. Bordais afirmou que essa posição garante as operações até 2028, quando a empresa prevê que as entregas estarão em alta velocidade. Parte desse colchão financeiro vem do BNDES: a Eve já utilizou US$ 118,2 milhões do total disponibilizado pelo banco de fomento, restando US$ 148,9 milhões ainda disponíveis.

Mercado global: pedidos firmes em dois continentes
Enquanto os engenheiros testavam o protótipo no interior de São Paulo, a equipe comercial trabalhava no outro lado do planeta. A Eve iniciou a conversão de cartas de intenção em pedidos firmes e passou a coletar pagamentos de pré-entrega, chegando a um total de 100 aeronaves sob acordos vinculantes.

Dois contratos firmes anunciados no fim de 2025 e início de 2026 simbolizam o alcance geográfico da empresa. A Revo, operadora de mobilidade aérea urbana em São Paulo, comprometeu-se com até 50 eVTOLs, incluindo suporte TechCare, com planos de transição de sua frota para um modelo totalmente elétrico na capital paulista. Do outro lado do globo, a AirX, empresa japonesa de mobilidade aérea sediada em Tóquio, assinou um pedido vinculante de até 50 aeronaves, com entrega inicial das duas primeiras prevista para 2029, voltadas a rotas turísticas e de última milha em cidades como Tóquio e Osaka.

O portfólio total de intenções de compra é expressivo: a Eve mantém o maior portfólio global do setor, com quase 2.700 compromissos de eVTOL, muitos provenientes de operadores de helicópteros em busca de evolução de frota no longo prazo.

 

O ecossistema além da aeronave
A Eve não quer ser apenas uma fabricante de aeronaves. A estratégia da empresa passa por três pilares: o eVTOL em si, o Eve TechCare (plataforma de manutenção e suporte operacional) e o Eve Vector (solução proprietária de gestão de tráfego aéreo urbano). Essa abordagem integrada diferencia a empresa de concorrentes que apostam apenas no hardware.

A Eve se beneficia dos 56 anos de experiência da Embraer em projetar, certificar, fabricar e entregar aeronaves de última geração, além da presença global da companhia em serviços e suporte pós-venda. Não é um detalhe menor: no setor de eVTOLs, onde dezenas de startups sem experiência aeronáutica competem, a herança da Embraer representa um diferencial regulatório e industrial difícil de replicar.

A fábrica para produção em série já está em desenvolvimento. A produção ocorre em Taubaté, com capacidade projetada para até 480 unidades anuais.

Perspectivas: 2026 como ano decisivo
O ano de 2026 terá um papel central na história da Eve. Com voos quase diários planejados, a empresa precisa demonstrar que o protótipo é capaz de evoluir de um hover flight controlado para um voo de cruzeiro estável, etapa fundamental para convencer reguladores de que a aeronave é segura para operar em ambientes urbanos densamente populados.

"Estamos avançando com disciplina e consistência em nossa campanha de testes, reduzindo riscos e consolidando as bases para futuros voos para a certificação", afirmou Bordais após o voo de demonstração em março.

O cenário competitivo é desafiador: empresas como Joby Aviation e Archer, nos Estados Unidos, também correm para a certificação da FAA. Mas a Eve ocupa uma posição singular: é a única empresa do setor apoiada por um fabricante de aeronaves certificadas com mais de meio século de experiência, em um país com regulador alinhado ao processo, acesso a financiamento público e uma base industrial consolidada.

Se o cronograma se sustentar, 2027 será o ano em que os primeiros eVTOLs da Eve sairão da fábrica de Taubaté com certificação em mãos, e os céus das cidades brasileiras, japonesas e americanas começarão a ganhar uma nova camada de mobilidade. Por ora, em Gavião Peixoto, os motores continuam girando e os dados continuam sendo coletados, voo após voo, rumo a esse futuro.

04 abril, 2026

"Não deixamos ninguém para trás": o ethos militar que fortalece exércitos em combate

Uma reportagem sobre o princípio que transforma soldados em irmãos...


*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026

"Como ex-piloto de helicóptero de combate que voou por dois anos em território hostil em zonas de combate, posso dizer que é muito reconfortante saber que, se você fosse abatido... tínhamos uma fé inabalável de que o exército dos EUA pararia tudo e que a nova missão em toda a área de responsabilidade seria seu resgate. Sou incrivelmente grata pela coragem do CSAR. Eles vão conseguir o segundo piloto."
— Amber S., ex-piloto de helicóptero de combate (LinkedIn) 

O presente e o passado se encontram sobre o Irã
Nas últimas horas, o mundo acompanha em tempo real uma operação de busca e resgate de combate (CSAR) em território inimigo profundo. Um F-15E da Força Aérea dos EUA foi abatido sobre o sudoeste do Irã, e equipes de resgate foram imediatamente mobilizadas. Pelo menos um helicóptero envolvido na operação foi atingido por fogo iraniano, mas conseguiu pousar com segurança. O presidente Trump está sendo informado pessoalmente sobre a perda do caça e sobre o andamento das buscas. Fontes ocidentais confirmaram que um dos tripulantes foi resgatado com sucesso.

O testemunho da ex-piloto de helicóptero de combate Amber S., citado na abertura desta reportagem, ganha assim um contexto dramático e atual: equipes CSAR especializadas são mantidas em alerta constante e acionadas rapidamente quando uma aeronave é perdida. "Esses pessoal do CSAR come, respira e dorme essa missão", disse o especialista Buckley. "Nenhum homem para trás. Nenhuma mulher para trás. Vamos buscá-los."

Uma promessa não escrita, mas gravada na alma
Embora amplamente conhecida e repetida nas Forças Armadas dos EUA, a expressão "leave no man behind" ("não deixe ninguém para trás") não está registrada em nenhuma doutrina militar oficial. É uma cultura das forças armadas e, por isso mesmo, carrega um peso ainda maior.

Esse ethos está gravado inclusive nos juramentos individuais: o juramento do Aviador diz "jamais deixarei um aviador para trás"; o juramento do Soldado afirma "jamais deixarei um camarada caído". As equipes CSAR desempenham papel central nesse compromisso, especialmente no resgate de pilotos abatidos em território inimigo. Se um piloto não for resgatado em menos de uma hora, sua chance de sobrevivência cai para cerca de 50% e despenca rapidamente.

Segundo pesquisa publicada no Journal of Military Ethics, a frase cria um compromisso individual profundo entre os combatentes que, por sua vez, fortalece o espírito de luta e o moral da unidade, ao mesmo tempo em que garante às famílias que seus parentes não serão abandonados, vivos ou mortos.

O impacto no moral: por que isso muda tudo
O impacto devastador no moral de uma unidade cujos soldados se sentem abandonados é bem documentado: a dúvida se instala, a confiança se corrói, e a própria base da camaradagem desmorona.

O inverso também é verdadeiro e tem consequências táticas concretas. As Forças Armadas britânicas, durante a Primeira Guerra Mundial, perceberam o valor estratégico do resgate para o moral: pilotos se mostravam muito mais dispostos a voar em situações perigosas quando sabiam que seriam resgatados se fossem abatidos.

Isso não é apenas sentimento. Isaac Ben-Israel, chefe de estudos de segurança da Universidade de Tel Aviv, articula a dimensão prática: "Pessoas que sabem que não serão abandonadas lutam melhor."

Casos históricos que definiram o princípio

- Capitão Roger Locher, Vietnã, 1972: o capitão Roger Locher foi abatido sobre território norte-vietnamita e conseguiu evitar a captura por 23 dias em território inimigo. O general John Vogt ordenou que todas as unidades sob seu comando paralisassem as operações, incluindo grandes campanhas de bombardeio sobre Hanói, e se concentrassem no esforço de resgate. Aproximadamente 150 aeronaves americanas foram redirecionadas para localizar e resgatar um único piloto. Locher foi recuperado com sucesso.

- A Batalha de Mogadíscio, Somália, 1993: a queda de um helicóptero durante a Batalha de Mogadíscio e os esforços subsequentes de recuperação resultaram na morte de 18 soldados americanos e 73 feridos. As consequências foram enormes, levaram a uma mudança de política pelo governo Clinton e à retirada das forças dos EUA da Somália. O preço pago para honrar o princípio pode ser alto, mas o abandono cobra um preço ainda maior.

- Matt Maupin, Iraque, 2004–2008: o especialista Matt Maupin foi capturado em 2004 perto do Aeroporto de Bagdá. Por anos, as unidades na área onde ele foi capturado continuaram investigando qualquer pista, por menor que fosse. Em março de 2008, seus restos mortais foram finalmente encontrados, numa operação batizada de Operation Trojan Honor (Operação Honra Troiana). Quatro anos de busca por um único soldado.

- Jessica Lynch, Iraque, 2003: durante a missão de resgate de Jessica Lynch, soldados do 75º Regimento de Rangers se recusaram a partir até que os restos mortais de todos os outros soldados mortos na emboscada fossem recuperados, mesmo tendo que cavar corpos em decomposição e transportá-los de volta aos helicópteros. "Isso deve dar uma ideia de quão seriamente o Exército dos EUA leva a crença de não abandonar um camarada caído."

Imagem meramente representativa

O caso israelense: quando a devoção encontra o dilema
Israel é talvez o exemplo mais extremo dessa devoção e de suas contradições.

Para Israel, a política é clara: "Sempre deixamos nenhum para trás. Soldados mortos também, mesmo valor", disse a porta-voz do Exército israelense Noa Meir à Newsweek. O país chegou a trocar mais de mil prisioneiros palestinos para resgatar o soldado Gilad Shalit, mantido em cativeiro por cinco anos.

Mas Israel também desenvolveu o lado mais sombrio dessa obsessão: a Diretriz Hannibal.

Criada em 1986 após uma série de sequestros de soldados israelenses no Líbano e as polêmicas trocas de prisioneiros que se seguiram, a diretriz autorizava o uso de força máxima para impedir a captura de soldados israelenses, mesmo que isso significasse colocar em risco a vida dos próprios cativos.

Segundo Asa Kasher, que escreveu o código de ética do Exército israelense, a doutrina equivalia à máxima: "Um soldado morto é melhor do que um soldado sequestrado."

A diretriz foi formalmente revogada em 2016, mas investigações do jornal Haaretz revelaram que a ordem foi invocada em 7 de outubro de 2023 em três instalações militares infiltradas pelo Hamas, potencialmente colocando em risco civis além dos militares.

O paradoxo israelense revela a tensão máxima do princípio: o mesmo amor feroz pelo combatente pode, nas circunstâncias erradas, voltar-se contra ele.

As equipes CSAR: a promessa em carne e osso
O resgate em combate é uma corrida contra o tempo e contra o inimigo. Assim que um piloto é dado como desaparecido, a coleta de inteligência começa em escala total: "Tudo, desde inteligência humana até imagens de satélite, drones e sinais eletrônicos, tudo é usado para localizar o piloto", explicou Scott Fales, ex-sargento-mor e paraquedista de resgate veterano da Batalha de Mogadíscio.

A operação CSAR nunca é simples. Requer caças para defesa aérea, aeronaves de supressão de defesas inimigas, helicópteros de resgate, aviões-tanque para reabastecimento em voo, drones de reconhecimento e muito mais, tudo coordenado enquanto o inimigo já está alerta e à procura dos tripulantes.

O lema oficial dos paraquedistas de resgate da Força Aérea americana diz tudo: "These Things We Do, That Others May Live" (Fazemos essas coisas para que outros vivam).

Por que isso importa, mesmo quando custa caro
Há críticos que argumentam que o princípio pode ser perigosamente caro. O comprometimento pode entrar em um ciclo vicioso: ao tentar resgatar um soldado, perdem-se outros e esses também "não podem ser abandonados".

Mas a maioria dos analistas militares e veteranos converge para uma conclusão: o custo de não honrar o princípio é ainda maior.

Quando uma nação percebe que suas Forças Armadas falharam em honrar esse compromisso, a confiança pública se estilhaça, enviando uma mensagem gélida que mina os valores pelos quais o exército existe para defender.

E há uma dimensão muito humana nisso. O testemunho da piloto Amber S. com o qual abrimos esta reportagem não é retórica: é a diferença entre um piloto que mergulha em território inimigo confiante em seus camaradas, e um que hesita. Entre uma tripulação que dá tudo de si e uma que guarda algo em reserva, por precaução.

Hoje, sobre o sul do Irã, essa promessa está sendo testada mais uma vez, em tempo real e sob fogo inimigo, com recompensas em dinheiro sendo oferecidas pelo governo iraniano para capturar os tripulantes americanos vivos. E mesmo assim, as equipes CSAR estão lá.

Porque é isso que fazem... Que outros possam viver!

Brasil aposta na SIATT para romper dependência estrangeira em mísseis e consolidar soberania naval

Seleção da empresa para revalidar o Penguin Mk2 marca virada estratégica: do reparo de armamento norueguês à produção de mísseis 100% nacionais 

Imagem meramente ilustrativa

*LRCA Defense Consulting - 04/04/2026

Em um movimento que vai muito além da manutenção rotineira de armamentos, a Marinha do Brasil escolheu a SIATT, empresa brasileira especializada em sistemas guiados, para conduzir a revalidação e extensão de vida útil do míssil ar-superfície Penguin Mk2 Mod 7, equipado nos helicópteros AH-11B Super Lynx da Força Naval. A decisão, materializada a partir de um Pedido de Informação (RFI) lançado pela Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM) em 11 de dezembro de 2025, inaugura um novo capítulo da indústria de defesa nacional: o Brasil começa a dominar tecnologias críticas que antes dependiam integralmente de fornecedores estrangeiros.

O RFI abriu uma janela de cerca de um mês, de 15 de dezembro de 2025 a 16 de janeiro de 2026, para que empresas manifestassem interesse em inspecionar, requalificar e ampliar a vida operacional dos mísseis noruegueses Penguin, fabricados originalmente pela Kongsberg Defence & Aerospace. A escolha da SIATT para o processo representa a aposta da Marinha na capacidade nacional de lidar com tecnologias estrangeiras sensíveis, transferindo para o país o conhecimento em guiagem infravermelha passiva e em extensão de vida de sistemas de armas complexos.

Uma empresa em ascensão acelerada
A SIATT não é uma novidade no ecossistema de defesa brasileiro, mas vive hoje seu momento de maior protagonismo. Fundada em 2015 e especializada no desenvolvimento e integração de sistemas de defesa e segurança, incluindo mísseis e armamentos, a empresa inaugurou em setembro de 2025 sua nova sede e unidade de produção em São José dos Campos, com 6.000 metros quadrados de instalações. A nova planta abriga laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de última geração, além de linhas de produção modernas, infraestrutura que coloca a SIATT em patamar comparável a congêneres de países com tradição armamentista consolidada.

A nova unidade gerará 200 empregos diretos e mais 600 oportunidades indiretas. Parte dessa expansão foi viabilizada por uma parceria estratégica com o conglomerado dos Emirados Árabes Unidos: o EDGE Group comprou 50% da SIATT em 2023. O investimento já soma R$ 3 bilhões e deve gerar cerca de 800 empregos diretos e indiretos, consolidando São José dos Campos como polo da indústria de defesa.

Na inauguração da nova sede, o CEO do EDGE Group, Hamad Al Marar, deixou clara a ambição do projeto: "Esta foi a nossa primeira aposta no Brasil, em 2023, e desde então avançamos de uma planta de pesquisa e desenvolvimento para uma instalação industrial robusta. Isso reflete o compromisso da SIATT em reforçar a autonomia tecnológica do Brasil e gerar valor de longo prazo para sua base de defesa."

Do Penguin ao MARSUP: a lógica do aprendizado acumulado
A escolha da SIATT para trabalhar no Penguin Mk2 insere-se em uma estratégia deliberada da Marinha: usar a manutenção de sistemas estrangeiros como trampolim para o desenvolvimento de capacidade nacional equivalente. O know-how absorvido no processo de requalificação do míssil norueguês alimenta diretamente o programa MARSUP, o futuro míssil ar-superfície antinavio 100% brasileiro.

A SIATT e a Marinha do Brasil assinaram, em 23 de fevereiro de 2026, um Protocolo de Intenções para estudos e intercâmbio de informações voltados ao desenvolvimento conjunto de dois grupos de mísseis ar-superfície antinavio denominados MARSUP. O documento foi assinado pelo Vice-Almirante Carlos Henrique Zampieri, Diretor da DSAM, e por Rogério Salvador, presidente da SIATT, na sede da Diretoria, no Rio de Janeiro.

O foco dos estudos é avaliar a adaptação da tecnologia já consolidada no projeto do MANSUP para equipar aeronaves subordinadas ao Comando da Força Aeronaval da Marinha, com o objetivo de validar tecnicamente a evolução desta capacidade. Em outras palavras, o que voa sobre o oceano disparando mísseis a partir de fragatas poderá, em breve, ser lançado também por helicópteros navais, com tecnologia inteiramente concebida no Brasil.

Para o presidente da SIATT, o acordo com a Marinha tem dimensão histórica. "Este protocolo marca um avanço concreto na evolução de uma capacidade construída ao longo de anos pela indústria nacional. Ele demonstra a maturidade tecnológica alcançada pela SIATT e, sobretudo, o talento da nossa equipe, que tem sido protagonista na condução de projetos estratégicos e na entrega de soluções críticas para a Defesa do Brasil", declarou Rogério Salvador.

O MANSUP como espinha dorsal de uma família de mísseis
No centro da estratégia de autonomia da Marinha está o MANSUP  (Míssil Antinavio de Superfície), desenvolvido sob liderança da Força Naval com participação determinante da SIATT. O MANSUP é considerado um dos principais projetos estratégicos da Marinha e foi projetado para equipar navios da Força, incluindo as fragatas da Classe Tamandaré.

Em 2025, a Marinha e a SIATT assinaram um acordo de compartilhamento de propriedade intelectual para o desenvolvimento e a produção do míssil. O contrato define regras de uso, modificações, produção e exploração comercial dos mísseis no Brasil e no exterior, com pagamento de royalties à Marinha. Na prática, os sistemas poderão ser utilizados pelas Forças Armadas brasileiras e também exportados.

O alcance estratégico dessa família de mísseis vai além das fronteiras nacionais. A versão de longo alcance, o MANSUP-ER, já é vista como produto exportável de alto valor. "A ideia é ter essa produção local de mísseis, para podermos exportar para o mundo todo, principalmente para Ásia e África", disse o CFO do EDGE Group, Rodrigo Torres.

Amazônia Azul: dissuasão enquanto a indústria amadurece
A manutenção dos Super Lynx operacionais com o Penguin, enquanto o MARSUP ainda está em desenvolvimento, não é um detalhe logístico. É um elemento central da doutrina de negação do mar que a Marinha adota para proteger a chamada Amazônia Azul, a vasta área de jurisdição marítima brasileira com cerca de 4,5 milhões de quilômetros quadrados.

O lançamento aéreo de um míssil ar-superfície amplia o envelope de engajamento, viabiliza múltiplos vetores e maiores distâncias, reforçando a doutrina de negação do mar e elevando o poder dissuasório nacional. Integrado a meios navais e aeronavais, o sistema favorece operações combinadas, reduz janelas de reação e melhora a sobrevivência das plataformas.

A estratégia alinha-se à Política Nacional de Produção para Defesa e às diretrizes da Lei 14.133/2021, que prioriza aquisições locais e reduz a exposição do país a riscos de embargo tecnológico. Ao depender menos da Kongsberg e de outros fornecedores estrangeiros, o Brasil ganha não apenas em economia, mas em resiliência operacional.

Brasil na vanguarda regional
Analistas do setor veem na trajetória da SIATT os contornos de uma liderança regional em mísseis que o Brasil ainda não havia alcançado. O acordo com a SIATT, reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa, fortalece a Base Industrial de Defesa ao impulsionar inovação, empregos qualificados e consolidação de conhecimento tecnológico. A expansão de uma família de mísseis nacionais cria um ciclo virtuoso, no qual demandas operacionais da Marinha estimulam soluções locais e sustentáveis para defesa.

Da revalidação de um míssil norueguês dos anos 1970 à produção de armas inteiramente nacionais com potencial de exportação para dezenas de países, esse é o arco estratégico que a Marinha do Brasil e a SIATT estão percorrendo juntas. A cada contrato assinado, a cada lançamento bem-sucedido do MANSUP, o Brasil se aproxima de um lugar até recentemente reservado a poucas nações: o de país capaz não apenas de usar, mas de projetar, fabricar e vender mísseis de combate ao mundo.

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"Easter Egg" pode ter revelado o novo míssil de longo alcance da SIATT  

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