Grupo tcheco anuncia resultado histórico de CZK 2 bilhões e aprofunda relações operacionais com suas contrapartes sul-americanas
*LRCA Defense Consulting - 27/03/2026
O Colt CZ Group SE, um dos maiores fabricantes mundiais de armas de fogo e munições, encerrou o exercício de 2025 com resultados financeiros expressivos, consolidando sua trajetória de crescimento iniciada com uma série de aquisições estratégicas ao longo dos últimos anos. Os números, divulgados na última quarta-feira, reforçam também o peso crescente da presença brasileira em sua estrutura acionária e as perspectivas de uma parceria ainda mais profunda com a CBC - Companhia Brasileira de Cartuchos e com a Taurus Armas S.A.
Lucro quase dobra em um ano
O Colt CZ Group SE anunciou seus resultados financeiros consolidados
preliminares não auditados para o exercício encerrado em 31 de dezembro de
2025. O lucro líquido reportado cresceu 95,7%, alcançando CZK 2,044 bilhões,
comparado ao mesmo período do ano anterior. A receita total do Grupo chegou a
CZK 23,398 bilhões, alta de 4,6% em relação a 2024, dentro da orientação anual
divulgada de CZK 23 a 24,5 bilhões.
O CEO do Grupo, Radek Musil, atribuiu o desempenho sobretudo à expansão dinâmica do segmento de munições e à consolidação integral da Sellier & Bellot ao longo de todo o ano de 2025, após ter sido incorporada ao grupo a partir de maio de 2024. Segundo o executivo, o Grupo entrou em 2026 com uma sólida carteira de pedidos e foco claro na integração de ativos recém-adquiridos e na ampliação de capacidade produtiva.
O crescimento do lucro líquido, quase duplicado em um único exercício, é ainda mais notável quando se considera que o segmento de armas de fogo, historicamente o carro-chefe do grupo, enfrentou ventos contrários. O número de armas vendidas recuou 8,7% em relação a 2024, somando 578 mil unidades, impactado pela desaceleração do mercado comercial norte-americano, incluindo a paralisação de seis semanas do governo federal dos Estados Unidos no último trimestre, e pelas menores vendas de produtos da marca Colt.
O segmento que compensou essa queda foi o de munições. A divisão de munições, que reúne a Sellier & Bellot, a swissAA e parcela das operações da Colt CZ Defence Solutions, registrou receita de CZK 11,3 bilhões em 2025, avanço de 62,7% ante o ano anterior, impulsionado pelo desempenho robusto do segmento e pelo efeito da consolidação plena da Sellier & Bellot.
A origem de um novo bloco de poder na indústria de
armamento leve
Para compreender a dimensão estratégica dos resultados do Colt CZ Group, é preciso recuar alguns anos. Em fevereiro de 2021, o então CZG-Česká zbrojovka Group anunciou a aquisição de 100% da Colt Holding Company, controladora da Colt's Manufacturing Company e de sua subsidiária canadense, por US$ 220 milhões em dinheiro e ações recém-emitidas da CZG. A operação daria ao grupo combinado uma receita superior a US$ 500 milhões. A Colt, com mais de 175 anos de história e tradição secular no fornecimento a forças militares e policiais norte-americanas, passava a integrar um grupo tcheco com ambições globais.
Três anos depois, foi a vez de a iniciativa vir do Brasil, e a engenharia do negócio merece atenção especial. A CBC Global Ammunition, gigante mundial de munições e controladora da Taurus Armas S.A., era dona de um ativo valioso: a Sellier & Bellot, tradicional fabricante tcheca de munições fundada em 1825 e adquirida pelo grupo brasileiro em 2009. Em dezembro de 2023, foi anunciado o acordo pelo qual a CBC venderia a Sellier & Bellot ao Colt CZ Group, mas não simplesmente por dinheiro. O Colt CZ adquiriu 100% das ações da Sellier & Bellot por uma combinação de US$ 350 milhões em dinheiro e a emissão de 13.476.440 novas ações ordinárias do próprio Colt CZ. O preço total da aquisição somou US$ 703 milhões, excluindo a dívida líquida da Sellier & Bellot. Como resultado, a CBC Europe S.à r.l. passou a deter uma participação de 27,71% no capital do Colt CZ Group. A operação foi concluída em 16 de maio de 2024.
Com isso, a CBC tornou-se o segundo maior acionista do Grupo, atrás apenas do grupo controlador, e um representante seu assumiu assento no conselho de supervisão do grupo tcheco, marcando seu ingresso definitivo na produção de armamento leve no mundo. Em outras palavras: ao vender a Sellier & Bellot, a CBC não saiu do negócio, ela entrou em um negócio muito maior.
O que torna a equação ainda mais poderosa é o fato de que a CBC Global Ammunition, por meio de suas subsidiárias, é também a empresa controladora da Taurus Armas S.A., a maior vendedora de armas leves do mundo, com presença em mais de 100 países.
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| Altos dirigentes da CZ (Česká zbrojovka) visitaram a Taurus em maio de 2025 |
Visitas, sinergias e um novo modelo de negócios tomando
forma
Desde que a CBC ingressou no capital do Colt CZ Group, as relações entre as
três empresas - CBC, Colt CZ e Taurus - deixaram rapidamente o plano acionário
e migraram para o operacional.
Após a aquisição, a alta direção da Taurus visitou as sedes da CZ, na República Tcheca, e da Colt CZ, nos Estados Unidos, enquanto a equipe da Colt CZ, por sua vez, esteve em visita à Taurus em São Leopoldo. Durante esses encontros, foram identificadas importantes sinergias entre as duas empresas, capazes de potencializar a produção da fabricante gaúcha.
A primeira sinergia concreta identificada aponta para um novo e promissor filão de negócios para a Taurus. Trata-se da produção de peças em MIM (metal injection molding) e de componentes usinados por processo robótico, a chamada linha Taurus 4.0, para uso em armas fabricadas pelo Grupo Colt CZ. A necessidade da empresa tcheca decorre do fato de não conseguir atender sua demanda com a capacidade produtiva atual, dado o crescimento acelerado dos últimos anos.
Somente duas fábricas de armas no mundo dominam a tecnologia MIM, e a Taurus é a única no Hemisfério Sul. Em uma arma, há cerca de 14 peças fabricadas por esse processo, e a empresa produz hoje mais de 110 mil dessas peças por dia. A unidade de São Leopoldo (RS) é responsável pela fabricação e distribuição de peças MIM para todas as unidades produtivas do grupo no Brasil, nos EUA, na Índia e, provavelmente, em breve na Turquia.
O aprofundamento das relações entre os grupos ficou ainda mais evidente em maio de 2025. No dia 15 daquele mês, a Taurus Armas S.A. recebeu a visita de altos dirigentes da CZ (Česká zbrojovka), com a participação dos executivos Jan Zajíc (CEO), Libor Láznička (COO), Ivan Barančík (Diretor de Desenvolvimento de Investimentos) e David Doležálek (Gerente Sênior CCO). A delegação foi recepcionada pelo CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, acompanhado de seus principais diretores. A visita, que incluiu a nova Taurus Shooting Academy, foi interpretada por analistas do setor como um sinal de que as negociações evoluíram para um nível mais aprofundado, possivelmente envolvendo o fornecimento de peças MIM para todas as unidades do grupo tcheco no mundo.
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| Na LAAD 2024, a Taurus expôs, pela primeira vez em uma feira do setor, algumas de suas peças com a tecnologia M.I.M. |
O que está em jogo: uma nova ordem no mercado global de
armamento leve
O panorama que emerge da confluência desses movimentos é inédito na
história recente da indústria de defesa. A Taurus é a líder mundial em venda de
revólveres e uma das maiores produtoras de pistolas do planeta, sendo também a
marca mais importada no exigente mercado norte-americano. Já o Colt CZ Group
carrega um dos nomes mais icônicos da história das armas: a marca Colt, com
mais de 175 anos de tradição e presença consolidada no segmento de militares e
policiais nos EUA e no mundo.
Uma associação entre as marcas Taurus e Colt significaria, no plano prático e simbólico, uma combinação de forças capaz de remodelar o cenário da produção e venda de armamento leve no mundo capitalista, em particular nos Estados Unidos, o maior mercado mundial para armas leves. Para a Taurus, que ainda enfrenta o desafio de se desvincular da imagem de fabricante de "armas de entrada", a associação com a Colt representaria uma virada de posicionamento de enorme valor estratégico.
Uma parceria estratégica entre as duas gigantes poderia abrir para a Taurus a cobiçada porta de entrada no mercado americano de Law Enforcement, no qual o Grupo Colt CZ, e a Colt em especial, já possui participação histórica de primeira linha.
Perspectivas para 2026
Do ponto de vista financeiro, o Colt CZ Group projeta acelerar ainda mais o
ritmo de crescimento. Para 2026, o Grupo estima receitas entre CZK 30 e 33
bilhões, com EBITDA ajustado entre CZK 7,4 e 8,2 bilhões, já incluindo a
contribuição do novo segmento de energéticos, representado pelas empresas
Synthesia Nitrocellulose e Synthesia Power, que deverá responder por cerca de
16% das receitas totais e 32% do EBITDA ajustado.
O Grupo também anunciou a intenção de realizar uma listagem dupla na bolsa Euronext Amsterdam, em adição à sua atual listagem na Bolsa de Valores de Praga, além de um aumento de capital. A aprovação dos acionistas está prevista para 10 de abril de 2026.
Do lado brasileiro, os desdobramentos da parceria entre CBC, Taurus e Colt CZ Group seguem em gestação. O mercado aguarda com atenção o anúncio de contratos formais de fornecimento de peças, além de uma eventual parceria estratégica mais ampla, que analistas do setor de defesa descrevem como um movimento potencialmente disruptivo o suficiente para redefinir quem manda no maior mercado de armas do planeta.












