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12 agosto, 2026

Voadeiro/Volitan: o ecranoplano amazônico que também mira usos militares e de segurança pública

Startup manauara AeroRiver testa em breve o barco voador que corta o trajeto Manaus-Parintins de dez para três horas, com ambições que vão da saúde à fronteira


*LRCA Defense Consulting - 12/08/2026

Um veículo batizado de Voadeiro, também conhecido pelo nome de projeto Volitan, promete reduzir de 10 para 3 horas o trajeto fluvial entre Manaus e Parintins, no Amazonas. Desenvolvido pela startup manauara AeroRiver, o equipamento é um ecranoplano: uma classe de veículo que combina características de barco e de aeronave, voando poucos metros acima da água por meio do chamado efeito solo, ou ground effect, em inglês. Os primeiros testes tripulados nos rios da região devem começar entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, segundo a própria empresa.

Origem: de um desafio universitário a uma startup incubada no ITA 
A ideia nasceu da amizade entre os engenheiros Lucas Guimarães e Felipe Bortolete, que se conheceram na equipe de Aerodesign da Escola Superior de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (EST/UEA). Após um mestrado em Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a dupla foi convidada pelo engenheiro eletricista Túlio Duarte, amigo de longa data de Guimarães, a desenvolver uma solução para o problema logístico da região amazônica. Em outubro de 2020, durante a pandemia, os três fundaram a AeroRiver.

A empresa avaliou primeiro um conceito de carro voador, descartado pela baixa autonomia diante das distâncias amazônicas, até chegar ao modelo de efeito solo, inspirado nos antigos ecranoplanos soviéticos. O apoio do programa Inova Amazônia, do Sebrae, foi decisivo para transformar o projeto técnico em plano de negócios, segundo relato de Felipe Bortolete, em fevereiro de 2023. A startup já foi premiada no Prêmio Finep de Inovação e teve destaque no Web Summit Lisboa.

Como funciona: sustentação pelo colchão de ar 
Diferentemente dos aviões convencionais, que voam pela baixa pressão gerada sobre as asas, os ecranoplanos usam o efeito solo: uma sobrepressão sob asas de formato específico que cria um colchão de ar e sustenta o veículo em voo rasante, entre 2 e 5 metros acima da superfície da água. O termo deriva da palavra russa que designa o fenômeno, ecranniy effect. O Voadeiro é oficialmente regulamentado como embarcação, com casco de lancha na parte inferior para decolagem e pouso na água, e estrutura superior semelhante à de uma pequena aeronave, com cabine fechada, asas e duas hélices. A motorização é híbrida: motor a combustão auxiliado por motores elétricos na decolagem, com consumo estimado entre 7 e 8 quilômetros por litro, próximo ao de um automóvel.

Com envergadura de 18 metros na versão de maior porte, o veículo alcança velocidade de cruzeiro de até 150 km/h, transportando até 10 passageiros ou 1 tonelada de carga.

Os números da mobilidade civil 
O caso de uso mais avançado da AeroRiver é o transporte fluvial de passageiros e cargas. No trajeto entre Manaus e Parintins, a empresa estima 3 horas de viagem contra 10 horas de lancha convencional e 1h10 de avião, com emissão média de 36 kg de CO2 por passageiro, contra 42 kg da lancha e quase 60 kg do avião. O custo estimado da viagem também seria menor: R$ 25,57 por passageiro no Voadeiro, contra R$ 28,57 na lancha e R$ 40,98 no avião.

Em trechos mais longos, o ganho relativo cresce. No trajeto entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira, de 852 km por via fluvial, uma lancha leva 24 horas; o Volitan levaria cerca de 6 horas, segundo estimativa do cofundador Felipe Bortolete.

Um diferencial de custo estrutural é a dispensa de aeroportos: por decolar e pousar diretamente nos rios, o veículo pode operar a partir da infraestrutura portuária já existente na região, o que reduz o investimento necessário para viabilizar rotas em áreas remotas, mesmo durante períodos de seca severa que restringem a navegação convencional.

 

Cronograma: construção dividida entre Manaus e São José dos Campos 
O primeiro protótipo tripulado do Voadeiro está em fase avançada de construção, com parte da estrutura produzida em Manaus e parte em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e montagem final na capital amazonense. Segundo o cofundador Túlio Duarte, o objetivo é ter o primeiro veículo tripulado pronto até o fim de 2026, com testes nos rios da Amazônia previstos para o período entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. A primeira versão comercial, com capacidade para 2 a 4 pessoas, deve custar entre R$ 1 milhão e R$ 1,3 milhão; uma versão maior, para 10 passageiros, está estimada em R$ 3 milhões.

O olhar para uso militar e de segurança pública
Embora o modelo de negócio da AeroRiver seja hoje voltado ao transporte civil de passageiros, cargas, turistas e produtores locais, a empresa já sinaliza publicamente outras frentes de aplicação. Segundo reportagem do portal Startupi, de agosto de 2026, a companhia também mira o uso do Voadeiro por equipes médicas e por forças de segurança pública em áreas de difícil acesso, funções que se somam ao transporte convencional de passageiros e cargas.

A vocação para esse tipo de emprego não é uma peculiaridade do projeto brasileiro. Internacionalmente, o mesmo princípio físico do efeito solo é hoje objeto de investimento militar direto em pelo menos três potências. A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos Estados Unidos, a Darpa, desenvolve com a empresa Aurora Flight Sciences o programa Liberty Lifter, um ecranoplano de transporte militar com capacidade de carga comparável à do C-17 Globemaster, com voo demonstrativo previsto para o fim de 2027 ou o início de 2028. Já a empresa REGENT desenvolve o Squire, ecranoplano não tripulado e elétrico pensado para missões de transporte, reconhecimento e evacuação, com baixo perfil de detecção por operar em baixa altitude. A China, por sua vez, já expôs publicamente um ecranoplano de grande porte com propulsão a jato, segundo compilações internacionais especializadas em veículos de efeito solo.

A própria União Soviética, matriz histórica da tecnologia, chegou a empregar operacionalmente o ecranoplano da classe Lun como navio de guerra na Frota do Cáspio entre 1987 e o fim dos anos 1990, além de desenvolver o projeto Spasatel, retomado pela Rússia em 2018 para operações de busca e salvamento no Ártico e no Pacífico, com capacidade projetada para transportar até 550 militares a bases remotas.

No caso brasileiro, o encaixe operacional é evidente, ainda que não confirmado por nenhuma força de segurança. O Comando Militar da Amazônia responde por mais de 9 mil quilômetros de fronteira, e operações de garantia da lei e da ordem, como a Ágata e a Catrimani, dependem hoje de deslocamento fluvial e aéreo caro e lento entre pelotões especiais de fronteira que, em alguns casos, ficam a mais de 360 quilômetros da sede do batalhão responsável. Um veículo capaz de cobrir esse tipo de distância a 150 km/h, operando diretamente sobre o rio e sem exigir pista de pouso, endereça diretamente esse gargalo logístico, hoje um dos principais entraves à presença contínua do Estado na fronteira amazônica.

Ressalvas
Até o fechamento desta matéria, não há declaração de interesse formal por parte do Exército Brasileiro, da Marinha, da Força Aérea Brasileira ou de forças estaduais de segurança pública pelo Voadeiro/Volitan. A menção a usos em segurança pública e em apoio a equipes médicas é, por ora, uma aspiração comercial da própria AeroRiver, não um programa em andamento. 
 
O veículo segue em fase de testes tripulados iniciais, sem certificação operacional, e seu modelo de negócio atual é integralmente civil. Eventual aplicação militar ou de segurança pública dependeria de adaptações estruturais, como blindagem, autonomia ampliada e integração a sistemas de comunicação e sensoriamento, que não constam de nenhum material técnico divulgado publicamente pela empresa até o momento. O Voadeiro seria, assim, o primeiro veículo de efeito solo produzido no País, com potencial ainda em aberto para ir além da mobilidade civil na Amazônia.

11 agosto, 2026

Taurus tem lucro de R$ 97,4 milhões no 2T26 e reduz dívida líquida em 25,5% no semestre

Reembolso de tarifas dos Estados Unidos, recuperação da margem bruta e carteira de pedidos superior a R$ 600 milhões sustentam resultados da fabricante gaúcha


*LRCA Defense Consulting - 11/08/2026

A Taurus Armas S.A. encerrou o segundo trimestre de 2026 (2T26) com lucro líquido de R$ 97,4 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 36,6 milhões registrado no trimestre anterior. O resultado, divulgado nesta terça-feira, 11 de agosto, pela companhia sediada em São Leopoldo (RS), consolida uma recuperação puxada pela alta da margem bruta, pelo reembolso de tarifas de importação pagas nos Estados Unidos e pela redução do endividamento.

Recuperação da rentabilidade
A receita operacional líquida do trimestre somou R$ 360,9 milhões, alta de 1,7% ante o 1T26. O lucro bruto avançou 23,5%, para R$ 123,6 milhões, com margem bruta de 34,2%, seis pontos percentuais acima do trimestre anterior. Segundo a companhia, o indicador superou o de concorrentes norte-americanos como Ruger (21,3%) e Smith & Wesson (29,8%, no trimestre encerrado em 30 de abril). O Ebitda somou R$ 124,8 milhões, com margem de 34,6%, impulsionado pelo reconhecimento de R$ 91,1 milhões referentes à restituição de tarifas de importação pagas nos Estados Unidos, processo iniciado em maio.

Endividamento em queda
Com o ingresso desses recursos, a dívida líquida da Taurus recuou para R$ 426,1 milhões ao final de junho, redução de 25,5% em relação a dezembro de 2025 e de 21,3% frente ao 1T26. A relação dívida líquida/Ebitda, que havia chegado a 6,85 vezes em março, caiu para 2,76 vezes, patamar mais próximo da média histórica da companhia. O custo médio da dívida era de 7,21% ao ano ao final do trimestre.

 

Produção e portfólio
A produção somou 246 mil armas no trimestre, alta de 56,7% em relação ao 1T26, com a retomada da montagem de revólveres no Brasil e crescimento de 26,8% na unidade dos Estados Unidos. No período, a companhia lançou 21 novos produtos, entre fuzis da plataforma T4, carabinas RPC, o rifle de ferrolho Expedition, revólveres e pistolas. A linha TX22, fabricada nos Estados Unidos, segue com demanda superior à capacidade de produção.

Carteira de pedidos supera R$ 600 milhões
As carteiras de pedidos da Taurus nos Estados Unidos, no Brasil e em outros mercados somavam, em conjunto, mais de R$ 600 milhões na data do relatório. No mercado brasileiro, a maior parte dos pedidos, cerca de R$ 84 milhões, foi gerada durante a Shot Fair Brasil 2026, evento no qual a companhia foi patrocinadora master e comercializou mais de 32 mil armas. No exterior, a empresa fechou contratos como o fornecimento de 10,4 mil fuzis para um país da Ásia e de 30 mil armas para o continente africano, com entregas até 2027. Na Índia, a joint venture JD Taurus mantém pipeline de mais de 130 mil armas, com valor potencial de US$ 54 milhões.

Novo patamar tarifário nos Estados Unidos
Após o fechamento do trimestre, no final de julho, entrou em vigor uma tarifa cumulativa de 37,5% sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, patamar inferior aos 50% enfrentados anteriormente. A companhia afirma já vir se preparando para o cenário e destaca manter fábrica e linhas de montagem próprias nos Estados Unidos, o que permite ajustar parte da produção ao mercado local.

Para o CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, os números do trimestre confirmam a trajetória de recuperação da companhia. “Mesmo com tarifa de 10% e estoques que ainda incorporavam tarifa de 50% nos Estados Unidos, a margem bruta avançou 6,0 pontos percentuais no 2T26. Encerramos o trimestre mais rentáveis, menos alavancados e com maior visibilidade comercial, reforçando que estamos avançando na direção certa”, afirmou o executivo.

10 agosto, 2026

Embraer registra recorde de receita no segundo trimestre e eleva projeções para 2026

Fabricante brasileira fatura US$ 2,2 bilhões no 2T26, alta de 23% ante o mesmo período de 2025, e amplia margem de EBIT ajustado esperada para o ano


*LRCA Defense Consulting - 10/08/2026

A Embraer, uma das líderes globais da indústria aeroespacial, divulgou nesta segunda-feira (10), em São Paulo (SP), os resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26). A receita consolidada somou US$ 2,235 bilhões no período, novo recorde histórico para o intervalo entre abril e junho e alta de 23% em relação ao mesmo trimestre de 2025 (2T25). O resultado foi puxado pelo desempenho positivo de todas as unidades de negócio da companhia.

No consolidado, o EBIT ajustado somou US$ 296,9 milhões no 2T26, com margem de 13,3%. O fluxo de caixa livre ajustado, sem considerar a Eve, subsidiária de aviação elétrica de decolagem vertical (eVTOL) da Embraer, totalizou US$ 401 milhões, resultado atribuído ao desempenho operacional mais forte, à entrada de recursos vinculados a adiantamentos de vendas e a um crédito tributário extraordinário.

O lucro líquido ajustado avançou para US$ 218,6 milhões, ante US$ 158 milhões no 2T25. Já o lucro líquido atribuído aos acionistas somou US$ 212,6 milhões, com lucro por ADS (American Depositary Share) de US$ 1,1880, comparado a US$ 78,6 milhões e US$ 0,4283, respectivamente, no mesmo trimestre do ano passado. Os investimentos da companhia totalizaram US$ 120,8 milhões no trimestre (US$ 97,5 milhões no 2T25); somados aos aportes na Eve, o montante atingiu US$ 151 milhões (US$ 145,9 milhões um ano antes).

Desempenho por unidade de negócio
A área de Defesa & Segurança foi novamente destaque no trimestre, com receita de US$ 304 milhões, alta de 38% na comparação anual. O avanço decorre do maior reconhecimento de receita do KC-390 Millennium, associado ao mix de clientes e ao estágio dos contratos. A margem bruta subiu de 19,5% para 20,6% na comparação anual, enquanto a margem de EBIT ajustado passou de 9,2% para 11,9%, favorecida pela alavancagem operacional.

A Aviação Executiva gerou receita de US$ 725 milhões, alta de 32% ante o 2T25, beneficiada por maior volume de entregas e por mix de produtos mais favorável. Em Serviços & Suporte, a receita alcançou US$ 565 milhões, crescimento de 24% na mesma base de comparação, refletindo o aumento de volume em todos os segmentos atendidos pela unidade. Já a Aviação Comercial registrou receita de US$ 625 milhões no trimestre, 8% acima do 2T25, impulsionada principalmente por maiores volumes.

Entregas e carteira de pedidos
A Embraer entregou 65 aeronaves no 2T26, o melhor desempenho da companhia para um segundo trimestre nos últimos 16 anos, com alta de 7% na comparação anual. No acumulado do primeiro semestre, foram 109 aeronaves entregues, cerca de 20% a mais que as 91 unidades do mesmo período de 2025, resultado sustentado pelo avanço das iniciativas de nivelamento de produção da companhia.

A carteira de pedidos (backlog) subiu a US$ 34,5 bilhões no 2T26, sétimo trimestre consecutivo de recorde no indicador. O valor representa alta de 16% na comparação com o 2T25. Segundo analistas de mercado, o principal catalisador da expansão da carteira no trimestre foi o contrato dos Emirados Árabes Unidos, de até 20 unidades do KC-390 Millennium, o maior pedido internacional de um único país para a aeronave e que marca a entrada do modelo no mercado do Oriente Médio.

Novas projeções para 2026
O crédito tributário extraordinário, a isenção de tarifas e a melhora nas perspectivas de negócios levaram a Embraer a elevar o guidance (projeção) para o ano. A companhia agora espera fechar 2026 com margem de EBIT ajustado entre 10% e 10,6%, ante a faixa anterior de 8,7% a 9,3%, e fluxo de caixa livre ajustado, sem considerar a Eve, igual ou superior a US$ 400 milhões, acima da meta anterior de US$ 200 milhões.

Repercussão no mercado
Casas de análise como BTG Pactual, XP Investimentos, Bradesco BBI, Santander e Safra mantêm recomendação de compra para os papéis da Embraer, negociados como EMBJ3 na B3 e como EMBJ na NYSE. Os bancos citam a expansão da carteira de pedidos, a melhora gradual da cadeia de suprimentos, a aceleração das entregas e a perspectiva de expansão de margens em todas as divisões da companhia como fatores que sustentam a avaliação positiva. O BTG Pactual estima que o lucro líquido da Embraer pode praticamente dobrar em 2026 na comparação com o ano anterior.

09 agosto, 2026

Nova tecnologia do IME pode reforçar a capacidade de contrabateria da artilharia brasileira

Tecnologia desenvolvida inicialmente para localizar atiradores de elite é agora aplicada a um desafio mais complexo: identificar e localizar disparos de morteiros, obuses e lançadores de mísseis e foguetes
 
Sensores acústicos do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME

 
*LRCA Defense Consulting - 09/08/2026

O Instituto Militar de Engenharia (IME) está desenvolvendo um sistema destinado a localizar alvos de artilharia a partir do som produzido pelos disparos. A iniciativa ganhou uma dimensão prática durante o exercício Coxilha, realizado pela 3ª Artilharia Divisionária (AD/3), no Centro de Instrução Barão de São Borja (CIBSB), em Saicã, no Rio Grande do Sul. Integrantes do Instituto participaram da atividade para registrar o som de disparos reais de obuseiros de diferentes calibres e características, construindo uma base de dados que será utilizada no desenvolvimento e na validação dos algoritmos do sistema.
A escolha do exercício para essa etapa do projeto é particularmente significativa. O Coxilha reúne organizações de artilharia de campanha subordinadas diretamente à AD/3 e à 3ª Divisão de Exército (3ª DE) e representa uma etapa de adestramento da tropa. Para os pesquisadores, o ambiente ofereceu aquilo que um laboratório dificilmente consegue reproduzir integralmente: a assinatura acústica de sistemas de armas reais, empregados em condições reais de campo.
De uma pesquisa sobre atiradores de elite para a artilharia
Segundo o próprio IME, o projeto surgiu da capacidade científica e tecnológica acumulada pelo Instituto no Projeto Caçador, voltado à localização de atiradores de elite por meio da detecção e do processamento de ondas sonoras. A experiência adquirida nesse trabalho está sendo agora aplicada a um problema muito mais complexo: localizar disparos de morteiros, obuses e lançadores de mísseis e foguetes.
A diferença de complexidade é relevante. No Projeto Caçador, o sistema precisava reconhecer e localizar a assinatura acústica de um disparo de arma de fogo. Na aplicação de artilharia, será necessário lidar com diferentes calibres, tipos de armamento, características de munição, distâncias, condições meteorológicas, relevo, ruídos ambientais e, potencialmente, múltiplos disparos em sequência ou simultâneos. O próprio IME destaca que a complexidade do novo sistema é significativamente maior.

Gravador de dados do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME
O campo de tiro como laboratório
A primeira etapa anunciada pelo Instituto é a obtenção de uma base de dados de sons de artilharia. Durante o Coxilha, uma equipe formada pelo Coronel Veterano PTTC Caetano, pelo SC Bomfim e pelos alunos do Curso de Formação Tenentes Chinelatto e Judá, da Seção de Ensino em Engenharia Elétrica, realizou a gravação dos disparos.
Os dados coletados terão três funções principais: permitir a detecção dos disparos, possibilitar sua classificação e fornecer informações para estimar a direção da origem do fogo. A etapa é fundamental porque um sistema baseado em processamento de sinais precisa ser treinado e validado com assinaturas acústicas representativas do ambiente em que será empregado.
A participação do IME também demonstra que o desenvolvimento já ultrapassou a esfera exclusivamente laboratorial. O sistema foi levado a um exercício de artilharia e apresentado às autoridades militares presentes, entre elas o comandante da 3ª DE, General de Divisão Marcus Alexandre Fernandes de Araujo, o comandante da AD/3, General de Brigada Alexsander Aquiles da Conceição, e outros oficiais-generais.
Uma demanda associada ao ASTROS-FOGOS
O IME informa que o projeto também surgiu dos desafios apresentados pelo Programa Estratégico ASTROS-FOGOS. A relação é importante porque o Exército reorganizou em 2026 sua arquitetura de programas estratégicos ligados aos fogos, reunindo sob o ASTROS-FOGOS diferentes capacidades de artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.
Em maio de 2026, esta Consultoria registrou a nova configuração do programa e destacou a integração entre iniciativas de fogos de longo alcance e a modernização da artilharia de campanha. A própria estrutura do ASTROS-FOGOS passa a funcionar como um guarda-chuva para capacidades distintas, mas complementares, relacionadas à produção e ao emprego de efeitos de fogo.
Nesse contexto, localizar rapidamente a origem de um disparo é parte essencial da capacidade de busca de alvos. Quanto menor o intervalo entre a detecção de um fogo inimigo e a determinação de sua posição, maior a possibilidade de responder antes que a unidade adversária se desloque ou execute novos disparos.

Gravador de dados do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som 
que está sendo desenvolvido pelo IME
A artilharia brasileira entra em uma nova fase digital
O desenvolvimento do sistema acústico ocorre paralelamente à digitalização da Artilharia de Campanha. Em junho de 2026, o Exército informou o início da implantação do Sistema Digitalizado da Artilharia de Campanha (SISDAC) no 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, Regimento Mallet. Segundo a Força, o sistema busca integrar sensores, comunicações, navegação e direção de tiro, reduzindo o tempo entre a identificação de um alvo e a execução do fogo.
O sistema acústico pode ser entendido como mais uma fonte de informação dentro dessa arquitetura. Em vez de produzir uma solução isolada, seu maior potencial está na possibilidade de fornecer dados para uma rede de busca de alvos que também utilize radares, SARP, observadores e outros sensores.
Uma capacidade passiva de localização
A localização acústica apresenta uma característica particularmente atraente no campo de batalha: é passiva. O sensor não precisa emitir energia eletromagnética para detectar o disparo, ficando assim "invisível" para os sensores inimigos. Ele simplesmente capta e processa o som produzido pela arma.
Essa característica pode complementar os radares de contrabateria. Enquanto o radar utiliza ondas eletromagnéticas para detectar e acompanhar projéteis, o sistema acústico trabalha com a assinatura sonora. Em uma arquitetura multissensor, os dois meios podem produzir informações diferentes sobre o mesmo evento e aumentar a robustez da busca de alvos.
Como o sistema pode localizar a origem do disparo
O princípio básico é a diferença de tempo com que o som chega aos diversos sensores de um arranjo. Como uma frente de onda sonora atinge primeiro os sensores mais próximos da direção de onde veio o disparo, a comparação entre os sinais permite estimar a direção de chegada, conhecida como DoA, Direction of Arrival.
A comparação das diferenças de tempo de chegada, ou TDoA, Time Difference of Arrival, pode então ser utilizada para calcular uma direção. Com informações de mais de um ponto de recepção, as direções podem ser cruzadas para estimar a posição da fonte. Outra possibilidade é combinar azimute e elevação com informações topográficas para obter uma provável coordenada de origem.
O IME possui experiência anterior com esse tipo de processamento. Pesquisas acadêmicas do Instituto trataram da localização acústica de disparos, da determinação da direção de tiro e da utilização de arranjos de microfones para processar sinais de armas de fogo. O projeto atual representa uma evolução dessa competência para um cenário de artilharia.
Uma capacidade já prevista pela doutrina
A localização pelo som não é uma capacidade estranha à doutrina do Exército Brasileiro. O Manual de Campanha EB70-MC-10.378, Bateria de Busca de Alvos, prevê o emprego de equipamentos acústicos para localizar armas inimigas de tiro indireto. O documento ressalta justamente o caráter passivo desse tipo de sensor.
O manual estabelece, como referência doutrinária, a detecção de morteiros de 120 mm ou maiores a até 12 quilômetros e de obuses de 105 mm ou maiores a até 16 quilômetros. Também prevê requisitos relativos à autonomia, ao posicionamento e ao tempo de entrada em operação. Esses números, entretanto, não devem ser confundidos com o desempenho do protótipo do IME, que ainda não teve seus resultados de alcance e precisão divulgados publicamente.

Equipe e equipamentos do protótipo do Sistema de Localização de Alvos de Artilharia pelo Som
que está sendo desenvolvido pelo IME
O interesse cresce com a experiência dos conflitos atuais
A guerra contemporânea reforçou a importância da busca de alvos e da sobrevivência das unidades de artilharia. A experiência da guerra russo-ucraniana, analisada em estudos do próprio Exército, mostra o crescente emprego de sensores e a necessidade de modernizar as baterias de busca de alvos para detectar peças de artilharia cada vez mais próximas do limite anterior da área de defesa.
Nesse ambiente, a rapidez para localizar quem atirou pode ser decisiva. Artilharia e lançadores precisam combinar mobilidade, dispersão, camuflagem e rapidez para evitar a resposta inimiga. Um sensor acústico passivo, distribuído e integrado a outros meios pode contribuir justamente para reduzir o tempo entre o disparo inimigo e a produção de uma informação útil para o comando.
Um projeto que ainda precisa vencer etapas
A apresentação do sistema pelo IME não significa que já exista uma solução operacional pronta. A fase de coleta de dados realizada no Coxilha é uma etapa fundamental do desenvolvimento, mas ainda será necessário validar os algoritmos, medir a precisão, avaliar o comportamento em diferentes condições ambientais e determinar o alcance efetivo do sistema.
Também não estão disponíveis publicamente informações suficientes para afirmar a arquitetura definitiva do protótipo mostrado nas imagens, o número e o tipo exato dos sensores, a forma como a posição será calculada ou se o sistema já está integrado a uma rede de comando e controle.
Essas informações serão decisivas para determinar se o projeto permanecerá como demonstrador tecnológico ou avançará para uma capacidade operacional passível de ser incorporada às unidades de busca de alvos do Exército e, eventualmente, industrializada pela Base Industrial de Defesa.
Da assinatura do tiro à resposta de fogo
O que o IME apresentou no exercício Coxilha é, portanto, mais do que um equipamento experimental. É uma tentativa de transformar uma assinatura física simples, o som produzido por um disparo, em informação militar útil: qual arma disparou, que tipo de disparo foi realizado e, principalmente, de onde veio o fogo.
A tecnologia parte de uma competência científica construída ao longo de anos, encontra uma demanda diretamente relacionada ao ASTROS-FOGOS e passa agora por uma etapa decisiva, a construção de uma base de dados obtida no próprio campo de tiro. Se os próximos testes demonstrarem precisão e alcance compatíveis com as necessidades operacionais, o Brasil poderá acrescentar uma nova camada nacional à sua arquitetura de busca de alvos: um sensor acústico passivo, potencialmente de menor custo e capaz de complementar radares e outros meios.
O que falta saber
O próximo passo para avaliar a maturidade do projeto será conhecer os resultados colhidos no exercício Coxilha. Entre as informações mais relevantes estão o alcance efetivamente obtido, a precisão da localização, o tempo necessário para gerar uma posição, a capacidade de distinguir diferentes tipos de armas e a possibilidade de operação em ambientes com vento e condições meteorológicas adversas, relevo irregular e múltiplos disparos.
Também será importante saber se o Exército já definiu requisitos específicos para a transformação do protótipo em sistema operacional e se existe previsão de participação da Base Industrial de Defesa na etapa seguinte.

08 agosto, 2026

Letônia avalia incorporar o A-29 Super Tucano à defesa aérea

Comandante da Força Aérea letã revela contatos com fabricantes para empregar o turboélice brasileiro no combate a drones e alvos lentos


*LRCA Defense Consulting - 08/08/2026

O comandante da Força Aérea da Letônia, coronel Viesturs Masulis, revelou que a instituição avalia a possível aquisição do A-29 Super Tucano, turboélice de ataque leve fabricado pela brasileira Embraer, como parte do reforço da defesa aérea do país báltico. A informação foi divulgada nesta semana pelo portal Sargs.lv, em episódio do podcast Droši ir zināt ("É bom saber", em tradução livre), publicado em 7 de agosto de 2026.

Segundo o coronel Masulis, o contato com a indústria ocorreu em meados de julho, durante a conferência Global Air & Space Chiefs', realizada em Londres, na qual se reuniu com representantes da indústria militar para discutir alternativas de aeronaves leves de combate e treinamento. O A-29 Super Tucano é uma das plataformas também avaliadas por outros países-membros da OTAN.

O que é o A-29 Super Tucano
O A-29 Super Tucano é uma aeronave turboélice originalmente concebida para missões de ataque leve, reconhecimento e treinamento avançado de pilotos, sendo uma plataforma testada em combate e considerada intermediária entre helicópteros de ataque e caças a jato. Entre suas principais vantagens estão o custo reduzido de manutenção e de hora de voo em comparação com jatos de combate, a autonomia de patrulha superior a seis horas, a capacidade de pousar e decolar em pistas curtas e não preparadas, além da compatibilidade com munição guiada de precisão, mísseis ar-ar, metralhadoras embarcadas e sensores eletro-ópticos e infravermelhos.

Papel na defesa aérea da Letônia
Para o coronel Masulis, a aquisição do turboélice brasileiro é uma opção real, embora qualquer solução na área da aviação exija recursos financeiros expressivos. Segundo ele, os primeiros passos já foram dados: os fabricantes já foram contatados, e o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Nacionais da Letônia (NBS) determinou a busca pelas soluções mais eficientes.

"Ao passar o bastão ao próximo comandante da Força Aérea, coronel Edmunds Svenčs, certamente o incentivarei a focar nessas aeronaves, não como aviões clássicos, mas como defesa aérea baseada no ar, especialmente na luta contra alvos lentos e drones", afirmou Masulis, segundo o Sargs.lv.

O governo letão já destinou mais de um bilhão de euros ao fortalecimento da defesa aérea do país, e uma das possíveis componentes desse sistema seria justamente uma solução baseada em aeronaves. De acordo com o comandante, assim que os fabricantes apresentarem estimativas concretas de custos e prazos de fornecimento, será elaborada uma análise detalhada e um plano de ação.

Indústria local e comparação regional
Questionado sobre o potencial da indústria letã para produzir localmente uma aeronave semelhante, Masulis reconheceu que os fabricantes nacionais têm grande potencial, mas destacou que a aviação militar exige décadas de experiência acumulada. Ele citou o caso do Tarragon, aeronave leve produzida pela empresa letã Pelegrin, entregue à Força Aérea em 2022 para treinamento de pilotos, como um exemplo bem-sucedido, mas insuficiente para suprir uma necessidade de aviação de combate mais robusta. "Nossos fabricantes locais ainda precisam crescer. Se olharmos para uma aviação de combate mais séria, hoje é preciso dar preferência a soluções comprovadas e reconhecidas internacionalmente", concluiu o comandante, de acordo com o Sargs.lv.

O caso letão se soma a um movimento mais amplo dentro da OTAN em torno do A-29 Super Tucano. Portugal foi o primeiro país da aliança a operar a variante A-29N, configurada segundo os padrões da OTAN, com entregas iniciadas em dezembro de 2025 e integração dos primeiros aviões à Esquadra 101 "Roncos", da Base Aérea de Beja, no início de 2026. A versão A-29N incorpora datalink tático, cockpit compatível com visão noturna e capacidade declarada para missões de luta antidrone em cenários de baixa ameaça.

O processo de avaliação de novas capacidades pela Força Aérea letã está em estágio inicial, e seus próximos desdobramentos dependerão da análise detalhada a ser conduzida pela nova gestão e da disponibilidade orçamentária para a aquisição.

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