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27 março, 2026

A aliança que poucos viram: CBC, Taurus e Colt CZ redefinem o mapa da indústria mundial de armas leves

Grupo tcheco anuncia resultado histórico de CZK 2 bilhões e aprofunda relações operacionais com suas contrapartes sul-americanas 


*LRCA Defense Consulting - 27/03/2026

O Colt CZ Group SE, um dos maiores fabricantes mundiais de armas de fogo e munições, encerrou o exercício de 2025 com resultados financeiros expressivos, consolidando sua trajetória de crescimento iniciada com uma série de aquisições estratégicas ao longo dos últimos anos. Os números, divulgados na última quarta-feira, reforçam também o peso crescente da presença brasileira em sua estrutura acionária e as perspectivas de uma parceria ainda mais profunda com a CBC - Companhia Brasileira de Cartuchos e com a Taurus Armas S.A.

Lucro quase dobra em um ano
O Colt CZ Group SE anunciou seus resultados financeiros consolidados preliminares não auditados para o exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025. O lucro líquido reportado cresceu 95,7%, alcançando CZK 2,044 bilhões, comparado ao mesmo período do ano anterior. A receita total do Grupo chegou a CZK 23,398 bilhões, alta de 4,6% em relação a 2024, dentro da orientação anual divulgada de CZK 23 a 24,5 bilhões.

O CEO do Grupo, Radek Musil, atribuiu o desempenho sobretudo à expansão dinâmica do segmento de munições e à consolidação integral da Sellier & Bellot ao longo de todo o ano de 2025, após ter sido incorporada ao grupo a partir de maio de 2024. Segundo o executivo, o Grupo entrou em 2026 com uma sólida carteira de pedidos e foco claro na integração de ativos recém-adquiridos e na ampliação de capacidade produtiva.

O crescimento do lucro líquido, quase duplicado em um único exercício, é ainda mais notável quando se considera que o segmento de armas de fogo, historicamente o carro-chefe do grupo, enfrentou ventos contrários. O número de armas vendidas recuou 8,7% em relação a 2024, somando 578 mil unidades, impactado pela desaceleração do mercado comercial norte-americano, incluindo a paralisação de seis semanas do governo federal dos Estados Unidos no último trimestre, e pelas menores vendas de produtos da marca Colt.

O segmento que compensou essa queda foi o de munições. A divisão de munições, que reúne a Sellier & Bellot, a swissAA e parcela das operações da Colt CZ Defence Solutions, registrou receita de CZK 11,3 bilhões em 2025, avanço de 62,7% ante o ano anterior, impulsionado pelo desempenho robusto do segmento e pelo efeito da consolidação plena da Sellier & Bellot.

A origem de um novo bloco de poder na indústria de armamento leve
Para compreender a dimensão estratégica dos resultados do Colt CZ Group, é preciso recuar alguns anos. Em fevereiro de 2021, o então CZG-Česká zbrojovka Group anunciou a aquisição de 100% da Colt Holding Company, controladora da Colt's Manufacturing Company e de sua subsidiária canadense, por US$ 220 milhões em dinheiro e ações recém-emitidas da CZG. A operação daria ao grupo combinado uma receita superior a US$ 500 milhões. A Colt, com mais de 175 anos de história e tradição secular no fornecimento a forças militares e policiais norte-americanas, passava a integrar um grupo tcheco com ambições globais.

Três anos depois, foi a vez de a iniciativa vir do Brasil, e a engenharia do negócio merece atenção especial. A CBC Global Ammunition, gigante mundial de munições e controladora da Taurus Armas S.A., era dona de um ativo valioso: a Sellier & Bellot, tradicional fabricante tcheca de munições fundada em 1825 e adquirida pelo grupo brasileiro em 2009. Em dezembro de 2023, foi anunciado o acordo pelo qual a CBC venderia a Sellier & Bellot ao Colt CZ Group, mas não simplesmente por dinheiro. O Colt CZ adquiriu 100% das ações da Sellier & Bellot por uma combinação de US$ 350 milhões em dinheiro e a emissão de 13.476.440 novas ações ordinárias do próprio Colt CZ. O preço total da aquisição somou US$ 703 milhões, excluindo a dívida líquida da Sellier & Bellot. Como resultado, a CBC Europe S.à r.l. passou a deter uma participação de 27,71% no capital do Colt CZ Group. A operação foi concluída em 16 de maio de 2024.

Com isso, a CBC tornou-se o segundo maior acionista do Grupo, atrás apenas do grupo controlador, e um representante seu assumiu assento no conselho de supervisão do grupo tcheco, marcando seu ingresso definitivo na produção de armamento leve no mundo. Em outras palavras: ao vender a Sellier & Bellot, a CBC não saiu do negócio, ela entrou em um negócio muito maior.

O que torna a equação ainda mais poderosa é o fato de que a CBC Global Ammunition, por meio de suas subsidiárias, é também a empresa controladora da Taurus Armas S.A., a maior vendedora de armas leves do mundo, com presença em mais de 100 países.

Altos dirigentes da CZ (Česká zbrojovka) visitaram a Taurus em maio de 2025

Visitas, sinergias e um novo modelo de negócios tomando forma
Desde que a CBC ingressou no capital do Colt CZ Group, as relações entre as três empresas - CBC, Colt CZ e Taurus - deixaram rapidamente o plano acionário e migraram para o operacional.

Após a aquisição, a alta direção da Taurus visitou as sedes da CZ, na República Tcheca, e da Colt CZ, nos Estados Unidos, enquanto a equipe da Colt CZ, por sua vez, esteve em visita à Taurus em São Leopoldo. Durante esses encontros, foram identificadas importantes sinergias entre as duas empresas, capazes de potencializar a produção da fabricante gaúcha.

A primeira sinergia concreta identificada aponta para um novo e promissor filão de negócios para a Taurus. Trata-se da produção de peças em MIM (metal injection molding) e de componentes usinados por processo robótico, a chamada linha Taurus 4.0, para uso em armas fabricadas pelo Grupo Colt CZ. A necessidade da empresa tcheca decorre do fato de não conseguir atender sua demanda com a capacidade produtiva atual, dado o crescimento acelerado dos últimos anos.

Somente duas fábricas de armas no mundo dominam a tecnologia MIM, e a Taurus é a única no Hemisfério Sul. Em uma arma, há cerca de 14 peças fabricadas por esse processo, e a empresa produz hoje mais de 110 mil dessas peças por dia. A unidade de São Leopoldo (RS) é responsável pela fabricação e distribuição de peças MIM para todas as unidades produtivas do grupo no Brasil, nos EUA, na Índia e, provavelmente, em breve na Turquia.

O aprofundamento das relações entre os grupos ficou ainda mais evidente em maio de 2025. No dia 15 daquele mês, a Taurus Armas S.A. recebeu a visita de altos dirigentes da CZ (Česká zbrojovka), com a participação dos executivos Jan Zajíc (CEO), Libor Láznička (COO), Ivan Barančík (Diretor de Desenvolvimento de Investimentos) e David Doležálek (Gerente Sênior CCO). A delegação foi recepcionada pelo CEO Global da Taurus, Salesio Nuhs, acompanhado de seus principais diretores. A visita, que incluiu a nova Taurus Shooting Academy, foi interpretada por analistas do setor como um sinal de que as negociações evoluíram para um nível mais aprofundado, possivelmente envolvendo o fornecimento de peças MIM para todas as unidades do grupo tcheco no mundo.

Na LAAD 2024, a Taurus expôs, pela primeira vez em uma feira do setor, algumas de suas peças com a tecnologia M.I.M.

O que está em jogo: uma nova ordem no mercado global de armamento leve
O panorama que emerge da confluência desses movimentos é inédito na história recente da indústria de defesa. A Taurus é a líder mundial em venda de revólveres e uma das maiores produtoras de pistolas do planeta, sendo também a marca mais importada no exigente mercado norte-americano. Já o Colt CZ Group carrega um dos nomes mais icônicos da história das armas: a marca Colt, com mais de 175 anos de tradição e presença consolidada no segmento de militares e policiais nos EUA e no mundo.

Uma associação entre as marcas Taurus e Colt significaria, no plano prático e simbólico, uma combinação de forças capaz de remodelar o cenário da produção e venda de armamento leve no mundo capitalista, em particular nos Estados Unidos, o maior mercado mundial para armas leves. Para a Taurus, que ainda enfrenta o desafio de se desvincular da imagem de fabricante de "armas de entrada", a associação com a Colt representaria uma virada de posicionamento de enorme valor estratégico.

Uma parceria estratégica entre as duas gigantes poderia abrir para a Taurus a cobiçada porta de entrada no mercado americano de Law Enforcement, no qual o Grupo Colt CZ, e a Colt em especial, já possui participação histórica de primeira linha.

Perspectivas para 2026
Do ponto de vista financeiro, o Colt CZ Group projeta acelerar ainda mais o ritmo de crescimento. Para 2026, o Grupo estima receitas entre CZK 30 e 33 bilhões, com EBITDA ajustado entre CZK 7,4 e 8,2 bilhões, já incluindo a contribuição do novo segmento de energéticos, representado pelas empresas Synthesia Nitrocellulose e Synthesia Power, que deverá responder por cerca de 16% das receitas totais e 32% do EBITDA ajustado.

O Grupo também anunciou a intenção de realizar uma listagem dupla na bolsa Euronext Amsterdam, em adição à sua atual listagem na Bolsa de Valores de Praga, além de um aumento de capital. A aprovação dos acionistas está prevista para 10 de abril de 2026.

Do lado brasileiro, os desdobramentos da parceria entre CBC, Taurus e Colt CZ Group seguem em gestação. O mercado aguarda com atenção o anúncio de contratos formais de fornecimento de peças, além de uma eventual parceria estratégica mais ampla, que analistas do setor de defesa descrevem como um movimento potencialmente disruptivo o suficiente para redefinir quem manda no maior mercado de armas do planeta.

Mac Jee e MSI Defense Solutions anunciam parceria para integrar foguetes de 70 mm em defesa aérea e contra‑drones

 

*LRCA Defense Consulting - 27/03/2026

A empresa brasileira de defesa Mac Jee anunciou a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) com a norte‑americana MSI Defense Solutions durante o AUSA Global Force Symposium & Exposition 2026, em Huntsville, Alabama. O acordo tem como objetivo integrar o sistema modular de foguetes de 70 mm ARMADILLO, desenvolvido pela MAC JEE, à plataforma EAGLS (Enhanced Air and Ground Launch System), da MSI, criando uma solução multicamada de fogo móvel, defesa aérea e combate a drones.

Dois sistemas que se complementam
O ARMADILLO é um sistema modular e patenteado de lançadores de foguetes de 70 mm, concebido como um lançador de múltiplos calibres e tamanhos, com foco em mobilidade e escalabilidade. A família já conta com versões como o Armadillo TA‑2, lançador retrátil montado em viaturas 4×4, com capacidade para dezenas de foguetes e módulos de recarga automática, empregados tanto em fogo indireto quanto em apoio direto às tropas. 

Por outro lado, o EAGLS é um sistema de defesa aérea e contra‑drones já em produção para o Exército dos Estados Unidos, baseado em foguetes de 70 mm guiados por laser. Integrado a um RWS e a sensores EO/IR e radar de hemisfério (como o RPS‑40, da Leonardo), o EAGLS permite engajar alvos aéreos de baixa altitude, especialmente UAS, em distâncias de até cerca de 10 km, com foco em proteção de bases, FOBs e infraestruturas críticas. 

De fogo de superfície a defesa aérea
O cerne da parceria está na compatibilidade física e balística entre os foguetes de 70 mm da Mac Jee e a arquitetura do EAGLS. Técnicamente, isso significa que o mesmo tipo de foguete usado para engajamento de alvos no solo pode, com munições e módulos adequados, ser empregado em missões de defesa aérea e contra‑drones, desde que o conjunto armas‑sensores‑C2 seja configurado para esse perfil. 

A integração proposta permite conceber uma bateria ou seção integrada onde:
- viaturas com ARMADILLO atuam em apoio de fogo, supressão de posições inimigas e engajamento de alvos de superfície; 
- unidades com EAGLS monitoram o espaço aéreo, detectam e neutralizam drones hostis, inclusive em massa, em tempo real; 
- um único padrão de munição (70 mm) reduz a complexidade logística e a diversidade de calibres no campo de batalha. 

Emprego tático e visão de mercado
Taticamente, a solução aponta para um ambiente de operações em que o UAS leve e de médio porte se torna um vetor central de reconhecimento, artilharia caserna (artilharia empregada em operações de menor intensidade) e ataques assimétricos. A combinação ARMADILLO + EAGLS permite que forças de terra, em cenários de COIN (contra‑insurgência), defesa de bases ou operações em áreas urbanas, tenham simultaneamente:
- fogo de artilharia leve altamente móvel para ajustar posições inimigas; 
- capacidade de defesa aérea de curto e médio alcance contra drones e aeronaves de pequeno porte. 

Para a Mac Jee, a parceria reforça a estratégia de se posicionar como fornecedora de capacidades integradas, escaláveis e orientadas à missão, combinando tecnologia nacional própria com sistemas já testados em operações reais em teatros de conflito. A empresa já vem consolidando sua presença em projetos de mísseis (como o MAR‑1 e MAA‑1B Piranha) e em sistemas de foguetes de 70 mm, buscando ampliar a oferta de soluções end‑to‑end para clientes internacionais. 

Para a MSI Defense Solutions, a integração com o ARMADILLO abre a possibilidade de expandir o ecossistema de munições e lançadores compatíveis com o EAGLS, o que pode ser atraente para clientes que buscam flexibilidade tática e maior interoperabilidade logística. 

Visão para o futuro
Embora ainda formalizado como MoU, o acordo sinaliza um caminho claro: a construção de uma família de sistemas modulares que usem o mesmo “corpo” de foguetes de 70 mm, mas com módulos de guiagem, sensores e lançadores adaptados a diferentes perfis de missão. 

A Mac Jee destacou, em comunicado, que a parceria reforça seu compromisso com capacidades integradas, escaláveis e orientadas à missão, apoiadas por parcerias internacionais estratégicas. A expectativa, segundo fontes envolvidas, é que a integração técnica e tática entre ARMADILLO e EAGLS seja testada em demonstrações conjuntas nos próximos anos, com vistas a oferecer a clientes globais uma solução operacional única, altamente adaptável e compatível com operações de defesa aérea moderna.  

Com a conquista de quatro novos clientes na Índia, Taurus amplia presença no mercado militar do país

Contratos são para fornecer às polícias estaduais de Meghalaya, Chhattisgarh, Punjab e Kerala mais de 1.300 pistolas e submetralhadoras calibre 9 mm


*LRCA Defense Consulting - 27/03/2026

A Taurus, maior vendedora de armas leves do mundo, segue avançando de forma consistente na Índia. Por meio de sua joint venture com o grupo Jindal Defence Systems Private Limited, a companhia acaba de conquistar quatro novos contratos nas últimas duas semanas de março de 2026, junto a quatro clientes distintos pertencentes às polícias estaduais de Meghalaya, Chhattisgarh, Punjab e Kerala, envolvendo o fornecimento de pistolas e submetralhadoras calibre 9 mm.

Essas novas conquistas reforçam a trajetória de crescimento da marca no país e ampliam o portfólio de instituições que adotam soluções Taurus. Os resultados se somam a contratos já firmados anteriormente com forças renomadas, como a Border Security Force (BSF) e a Uttar Pradesh Police – Special Task Force (STF), consolidando o reconhecimento do mercado indiano quanto à qualidade, confiabilidade e desempenho dos produtos da companhia.

O avanço recente destaca não apenas a aceitação operacional das armas Taurus entre as forças de segurança indianas, mas também a eficácia da estratégia de cooperação industrial entre a empresa e seus parceiros locais. Essa atuação está plenamente alinhada às diretrizes do governo indiano voltadas ao fortalecimento da capacidade de defesa por meio de produção local, dentro do programa “Make in India”. 

“A Índia representa um mercado de enorme potencial nos segmentos militar, policial e civil. A Taurus enxerga o país como estratégico para seu desenvolvimento global, com perspectivas sólidas de expansão a médio e longo prazo”, afirma Salesio Nuhs, CEO Global da Taurus.

A  JD TAURUS é a primeira fábrica de armas instalada no estado de Haryana e representa um passo estratégico na expansão global da Taurus. A parceria foi firmada entre Grupo Jindal e Taurus está alinhada ao programa governamental “Make in India”, que visa fomentar a indústria local por meio de investimentos e transferência de tecnologia.

Unidade fabril da JD TAURUS 
Com esse novo ciclo de contratos, a Taurus reforça seu compromisso com o desenvolvimento de soluções de defesa de alto desempenho, ao mesmo tempo em que fortalece parcerias institucionais e consolida sua posição em mercados estratégicos.

A companhia segue expandindo sua presença global de maneira estruturada e sustentável, com destaque especial para o mercado indiano, hoje uma das prioridades em seu plano de crescimento internacional.
 

26 março, 2026

Ministério da Defesa brasileiro apresenta munição de artilharia ramjet de 127 mm

 

*TurDef - 25/03/206

O Ministério da Defesa brasileiro listou uma munição de artilharia de 127 mm com propulsão ramjet, capaz de atingir altas velocidades supersônicas, possivelmente para uso no sistema de lançamento múltiplo de foguetes Astros II, com alcance estendido.

A nova munição de artilharia ramjet de pequeno calibre do Brasil, do mesmo calibre dos foguetes de artilharia SS-30, com 127 mm, visa proporcionar maior alcance por meio de propulsão aeróbica em dois estágios.

A nova munição está sendo desenvolvida em conjunto pela empresa de engenharia brasileira Edge of Space (EOS).

Considerando o mesmo calibre dos foguetes não guiados SS-30 (similar aos foguetes Grad de 122 mm em função), é provável que a nova munição seja destinada ao uso no sistema de lançamento múltiplo de foguetes Astros II, que pode transportar até 32 foguetes de 127 mm.

A nova munição está equipada com um sistema de propulsão ramjet de combustível sólido idêntico em princípio de funcionamento ao utilizado no míssil Meteor BVRAAM, onde um estágio de impulso de foguete de curta duração é seguido pela ativação do ramjet de combustível sólido.

O tempo de combustão mais longo e potencialmente ajustável proporcionado pela propulsão aeróbica tem efeitos consideráveis ​​no alcance máximo, como demonstrado por alguns dos desenvolvimentos em outros tipos de munição balística. Os principais exemplos incluem projéteis de artilharia com propulsão ramjet e o míssil balístico de curto alcance PrSM Incremento 4, ambos capazes de atingir quase o dobro do alcance em comparação com seus equivalentes convencionais. 

25 março, 2026

O Brasil supersônico: como uma rede de empresas nacionais tornou possível o primeiro Gripen fabricado no país

De Gavião Peixoto a São Bernardo do Campo, de Porto Alegre a São José dos Campos: o F-39E Gripen apresentado hoje ao presidente brasileiro é produto de uma cadeia industrial brasileira que levou mais de uma década para ser construída, e que agora aponta para o mundo


*LRCA Defense Consulting - 25/03/2026

A cerimônia durou pouco mais de uma hora. O presidente brasileiro chegou ao complexo industrial da Embraer em Gavião Peixoto (SP) em meio a uma manhã ensolarada de outono, batizou com champanhe o casco cinza-metálico do F-39E Gripen de número FAB 4100 e, diante de autoridades brasileiras e suecas, confirmou com um gesto simbólico o que anos de engenharia já haviam tornado irreversível: o Brasil é, a partir de hoje, um país fabricante de caças supersônicos.

Mas o verdadeiro protagonista da cerimônia não cabia numa única empresa nem numa única cidade. O Gripen brasileiro é, na essência, um produto coletivo, resultado de um modelo de parceria industrial que distribui responsabilidades, conhecimento e empregos por diferentes regiões do país, envolvendo ao menos cinco grandes atores nacionais além da sueca Saab.

Entender o que está por trás daquele caça é entender uma das apostas mais ambiciosas já feitas pelo Brasil na construção de sua Base Industrial de Defesa.

O palco: Gavião Peixoto e a Embraer
A cidade de Gavião Peixoto, com pouco mais de 8 mil habitantes no interior paulista, abriga uma das instalações aeronáuticas mais sofisticadas do Hemisfério Sul. Foi ali que a Embraer instalou, a partir de 2023, a única linha de montagem final do Gripen existente fora da Suécia, e foi ali que o F-39E apresentado hoje ganhou sua forma definitiva.

A Embraer é responsável pela montagem final de 15 aeronaves previstas no contrato atual com a FAB, oito monoposto Gripen E e sete biposto Gripen F. O caça apresentado hoje é a primeira dessas 15 unidades, e outros 14 seguirão o mesmo modelo de produção. A aeronave passará ainda por testes funcionais e voos de ensaio antes de ser formalmente incorporada ao Primeiro Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), na Base Aérea de Anápolis (GO), onde já operam as dez unidades entregues anteriormente.

Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer, deixou claro que os planos vão além do contrato em vigor. "Estamos fortemente engajados no sucesso do programa em futuras exportações, incluindo oportunidades na Colômbia e em outros mercados", afirmou, sinalizando que a linha de Gavião Peixoto foi projetada para atender clientes além da FAB.

A espinha dorsal: a Saab Aeronáutica Montagens em São Bernardo do Campo
Para que um caça seja montado em Gavião Peixoto, ele precisa primeiro ter suas estruturas fabricadas. Essa responsabilidade recai sobre a Saab Aeronáutica Montagens (SAM), unidade instalada em São Bernardo do Campo (SP) desde 2018, a primeira fábrica de aeroestruturas da Saab fora da Suécia.

Em uma área de 5 mil m², a SAM opera com os mesmos ferramentais, softwares e tecnologias utilizados em Linköping, na Suécia, incluindo o processo de Model-Based Definition (MBD), que usa modelos 3D como fonte única de informação para fabricação e inspeção. Atualmente, a unidade produz cones de cauda, freios aerodinâmicos e fuselagens dianteira e traseira do Gripen E/F.

Em setembro de 2025, a SAM deu um passo significativo: inaugurou uma segunda linha de produção da fuselagem traseira, elevando sua capacidade anual de oito para 16 unidades. "A instalação da segunda linha de produção da fuselagem traseira é a prova da excelência alcançada no Brasil", declarou Peter Dölling, diretor-geral da Saab Brasil. A fuselagem traseira é considerada um dos componentes mais complexos do caça, pois abriga o motor. A planta também conta com um laboratório especializado na manutenção do radar AESA e dos sensores de guerra eletrônica do Gripen, capacidade que já foi ampliada para cobrir outros sistemas militares e civis.

A parceira estrutural: Akaer
A Akaer, empresa de engenharia aeroestrutura sediada em São José dos Campos (SP), é presença constante no programa Gripen desde antes da própria seleção da Saab. A empresa foi contratada para desenvolver segmentos da fuselagem do Gripen já em 2009 e, desde então, acumulou mais de 500 mil horas de trabalho dedicadas ao programa. A relação com a Saab é estreita o suficiente para que a empresa sueca detenha uma participação acionária na Akaer, atualmente em 28%.

A Akaer também detém 10% da própria SAM, compondo uma estrutura de governança compartilhada que funde os interesses brasileiros e suecos na produção das aeroestruturas. No programa Gripen, a empresa atua em engenharia de estruturas, desenvolvendo seções de fuselagem e asas, e representa um elo fundamental entre o projeto e a manufatura.

A inteligência embarcada: AEL Sistemas
Se a Embraer dá forma ao caça e a SAM fabrica seus ossos, é a AEL Sistemas, empresa gaúcha sediada em Porto Alegre, que equipa seus olhos e sua mente. A companhia é responsável por três dos sistemas aviônicos mais críticos do cockpit do F-39E: o Wide Area Display (WAD), o Head-Up Display (HUD) e o Capacete Targo com Helmet Mounted Display (HMD).

 

WAD — Wide Area Display

Tela panorâmica de alta resolução compatível com operação por manete (HOTAS) ou touchscreen. Funde dados de múltiplos sensores em uma única interface, ampliando a consciência situacional do piloto e simplificando a tomada de decisão em situações de combate.

 

 

HUD — Head-Up Display

Projeta informações de voo — navegação, pilotagem e pontaria — diretamente no campo de visão do piloto, sem que ele precise desviar os olhos para o painel de instrumentos. Aumenta a segurança e a consciência situacional, especialmente em manobras de alta performance.

 

 

HMD Targo — Helmet Mounted Display

Visor integrado ao capacete que permite apontar sensores e armamentos apenas movendo a cabeça, sem necessidade de alinhar a aeronave com o alvo. Suporta operações noturnas e amplia dramaticamente a capacidade de engajamento em combates de curto alcance.

Juntos, esses três sistemas foram desenvolvidos ao longo de mais de 500 mil horas de engenharia. Eles não equipam apenas o Gripen brasileiro: foram integrados também às aeronaves suecas da versão E, tornando a tecnologia desenvolvida em Porto Alegre presente nos céus europeus.

A AEL Sistemas também é responsável pelo Link-BR2, sistema tático de enlace de dados desenvolvido em parceria com a FAB com mais de 550 mil horas de engenharia dedicadas. Com criptografia avançada e operação em múltiplas faixas de frequência, o sistema suporta comunicação de voz e dados em ambientes de combate exigentes, e é exclusivo da versão brasileira do Gripen, representando uma capacidade soberana da FAB.

 

A plataforma de missão: Atech
A Atech, empresa de tecnologia de defesa com sede em São Paulo, fecha o quinteto de grandes parceiros nacionais do programa. Sua contribuição está nas estações de planejamento de missão e nos simuladores de voo, sistemas que permitem ao piloto treinar em terra com fidelidade próxima ao ambiente real e planejar com precisão cada sortida antes de decolar.

Esses sistemas são invisíveis ao público mas fundamentais para a eficácia operacional do Gripen. É neles que a tripulação do 1º GDA em Anápolis planeja os voos de Alerta de Defesa Aérea que desde fevereiro deste ano protegem o espaço aéreo sobre o Distrito Federal.

 

O escopo do programa: dez anos de construção
O contrato firmado em outubro de 2014 entre o governo brasileiro e a Saab, então sob a gestão da presidente Dilma Rousseff, previa a aquisição de 36 aeronaves (28 Gripen E monoposto e 8 Gripen F biposto), estimadas em cerca de US$ 4 bilhões com financiamento em 25 anos. Mais do que um contrato de compra, ele estabeleceu 63 projetos de offset, compensações industriais que traduzem em empregos, capacitação e transferência de tecnologia o valor pago pelo Brasil.

O balanço, uma década depois, é expressivo: mais de 350 profissionais brasileiros treinados na Suécia; mais de 2.000 empregos diretos e 10.000 indiretos gerados; aproximadamente 70% dos créditos de compensação já reconhecidos. Ao todo, os contratos geraram uma teia de desenvolvimento industrial que vai da engenharia estrutural em São José dos Campos até os sistemas eletrônicos produzidos em Porto Alegre.

Segundo o Major-Brigadeiro do Ar Mauro Bellintani, presidente da COPAC (Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate), o F-X2 vai muito além da aquisição de caças. "A produção local de uma aeronave de combate de última geração coloca o Brasil em um patamar de destaque no cenário da aviação militar mundial, insere a indústria nacional em uma cadeia de valor extremamente sofisticada e gera empregos qualificados. É um passo fundamental para consolidar o Brasil como um polo de alta tecnologia no setor aeronáutico de defesa", afirmou.

O horizonte: exportação e liderança regional
Com a linha de produção consolidada e a cadeia de suprimentos estruturada, o Brasil começa a mirar além de suas fronteiras. A Colômbia assinou contrato com a Saab em 2024 para a aquisição de 17 aeronaves Gripen E/F, num negócio avaliado em 3,1 bilhões de euros, com entregas previstas entre 2026 e 2032. A Saab já sinalizou que a estrutura industrial estabelecida no Brasil, e especialmente a linha de Gavião Peixoto, tem papel relevante para atender pedidos futuros.

Micael Johansson, presidente e CEO da Saab, foi categórico na cerimônia de hoje: "A Saab permanece totalmente comprometida em ampliar e aprofundar sua presença no Brasil, fortalecendo o país industrialmente e tecnologicamente, além de consolidá-lo como um polo exportador para o mundo". Não se trata de retórica: a própria arquitetura do programa, com uma fábrica de aeroestruturas preparada para fornecer componentes a outras frotas mundiais de Gripen, sustenta a afirmação.

Para a AEL Sistemas, o cenário exportador já é realidade: os sistemas WAD, HUD e Targo produzidos em Porto Alegre equipam Gripens de outros países, fazendo com que a tecnologia desenvolvida no Rio Grande do Sul sobrevoe céus europeus e potencialmente latino-americanos nas próximas décadas.

 

DNA brasileiro na produção do Gripen

Embraer (Gavião Peixoto, SP)

Montagem final das 15 aeronaves produzidas no Brasil; única linha do Gripen fora da Suécia

 

Saab Brasil / SAM (São Bernardo do Campo, SP)

Fabricação de cones de cauda, freios aerodinâmicos, fuselagens dianteira e traseira; lab. de manutenção de radar e sensores

 

Akaer (São José dos Campos, SP)

Engenharia de estruturas; desenvolvimento de seções de fuselagem e asas; sócia da SAM (10%)

 

AEL Sistemas (Porto Alegre, RS)

WAD, HUD e HMD Targo (sistemas de cockpit); Link-BR2 (enlace de dados tático exclusivo da FAB)

 

Atech (São Paulo, SP)

Estações de planejamento de missão e simuladores de voo

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