Negociação ainda inicial com a maior companhia aérea indiana pode ajudar a destravar a linha de montagem planejada com a Adani, mas enfrenta a concorrência da ATR e o histórico de anúncios que não viraram encomenda
*LRCA Defense Consulting - 04/11/2026 - 08h02
A IndiGo, maior companhia aérea da Índia, estaria negociando com a Embraer a compra de 100 jatos regionais, com opção para cerca de mais 50 unidades. A informação foi publicada nesta quarta-feira (4) pela agência Reuters, com base em três pessoas com conhecimento direto do assunto, que falaram sob condição de anonimato. Se a negociação for concluída, o pedido estaria entre os maiores já recebidos pela fabricante brasileira e marcaria sua entrada, em grande escala, no terceiro maior mercado doméstico de aviação do mundo.
As próprias fontes ressalvam que as conversas estão em estágio inicial e que não há garantia de acordo. O modelo de aeronave ainda não foi definido e a quantidade pode mudar. As entregas, segundo duas das fontes, começariam no mínimo em 2030. Procuradas pela agência, a IndiGo e a Embraer não se manifestaram de imediato. A preço de lista, um lote de 100 jatos valeria alguns bilhões de dólares, embora descontos expressivos sejam a regra em contratos desse porte.
Conversas que vêm de agosto
A aproximação entre as duas empresas não é novidade. Em agosto, a Bloomberg informou que a InterGlobe Aviation, controladora da IndiGo, avaliava dezenas de jatos da família E2 para substituir parte de seus turboélices e ampliar a capacidade em rotas domésticas. Em setembro, durante a premiação World Airline Awards, em Londres, o novo presidente-executivo da companhia, Willie Walsh, confirmou publicamente que a empresa discutia uma encomenda de aeronaves regionais com a Embraer e com a ATR. O dado inédito trazido agora pela Reuters é o tamanho do pacote em discussão.
O vazio entre o turboélice e o Airbus
A frota da IndiGo somava 442 aeronaves em setembro, quase todas da família Airbus A320neo e A321neo, além de 44 turboélices ATR 72. A meta é chegar a cerca de 600 aviões até 2030. Entre os ATR, com pouco menos de 80 assentos, e os Airbus de corredor único, com 180 lugares ou mais, há uma faixa que a companhia não cobre. É justamente nela que se encaixam os jatos da Embraer: o E175-E1 leva até 88 passageiros, o E190-E2 até 114 e o E195-E2 até 146.
Segundo a Reuters, uma encomenda permitiria à IndiGo abrir mais rotas para cidades regionais e substituir parte dos ATR, oferecendo mais assentos em linhas já existentes. A mudança se encaixa na estratégia de Walsh, ex-presidente da IAG (controladora da British Airways) e ex-diretor-geral da IATA, que assumiu o comando da companhia em agosto. O executivo pretende transformar Nova Délhi em um grande centro de conexões internacionais, alimentado por voos vindos de cidades de segundo e terceiro escalão, sem abrir mão do modelo de baixo custo nas rotas curtas. Para os voos de longa distância, a IndiGo tem 60 Airbus A350-900 encomendados, com a primeira entrega prevista para o segundo trimestre de 2028.
A conta dos 200 pedidos
O interesse da IndiGo tem peso que vai além da venda em si. Em fevereiro, em Nova Délhi, a Embraer e a Adani Defence & Aerospace trocaram um memorando de entendimento ampliado para estudar a instalação, na Índia, de uma linha de montagem final do E175, vinculada ao programa indiano de aeronaves de transporte regional (RTA). A cerimônia teve a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro do Comércio indiano, Piyush Goyal. O acordo não é vinculante.
Em março, o presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse à Reuters que o projeto dependia de encomendas de pelo menos 200 aeronaves e que os primeiros jatos montados na Índia poderiam ser entregues a partir de 2028, desde que os pedidos fossem assegurados até o fim de 2026. Um lote de 100 jatos da IndiGo cobriria metade dessa exigência, a menos de dois meses do prazo indicado pelo executivo.
Há, porém, um ponto ainda em aberto. A linha planejada com a Adani é do E175-E1, de geração anterior, enquanto as primeiras notícias sobre a IndiGo falavam em jatos E2. Como o modelo não foi definido, não está claro se uma eventual encomenda da companhia seria contabilizada para viabilizar a montagem local.
Hoje, a única companhia aérea indiana que opera jatos da Embraer é a pequena Star Air, com oito E175 arrendados. A empresa também avalia uma compra direta de até 20 jatos E2, negócio estimado em cerca de US$ 1 bilhão a preço de lista. A Embraer projeta demanda de pelo menos 500 aeronaves na faixa de 80 a 146 assentos no mercado indiano.
Concorrência dentro de casa
A Embraer não está sozinha. A ATR, controlada pela Airbus e pela italiana Leonardo, já fornece turboélices à IndiGo e participa da mesma disputa. Uma escolha pela ATR manteria a companhia no segmento de turboélices, ao lado de seu fornecedor tradicional. A opção pela Embraer, por outro lado, representaria a primeira diversificação de fabricante na frota de uma empresa historicamente fiel ao ecossistema Airbus.
Cautela com o precedente de 2024
O mercado já viveu essa expectativa. Em maio de 2024, notícias de que a InterGlobe negociava ao menos 100 jatos com a Embraer fizeram as ações da fabricante subir 7,65% em um dia e mais 5,64% no pregão seguinte. Já naquela época a controladora da IndiGo conversava também com a Airbus e a ATR, e o pedido não se concretizou. A diferença, agora, é a confirmação pública das negociações por Walsh e o detalhamento de números por três fontes independentes.
Da aviação civil à Defesa
A Embraer vem ampliando a presença na Índia há pelo menos dois anos. Em 2025, criou uma subsidiária e inaugurou escritório em Nova Délhi, em cerimônia com o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Defesa, José Múcio. Cerca de 50 aeronaves da empresa, de 11 modelos diferentes, já operam no país, atendendo à Força Aérea Indiana, a órgãos de governo, a operadores executivos e à Star Air. Entre elas estão os ERJ-145 de alerta aéreo antecipado da série Netra.
No campo militar, a fabricante concorre com o C-390 Millennium na licitação da Força Aérea Indiana para 60 aviões de transporte médio, tendo o grupo Mahindra como parceiro local. A Adani fica com a frente comercial. Uma grande encomenda civil tenderia a fortalecer a base industrial e a cadeia de fornecedores da Embraer na Índia, fator relevante numa concorrência em que o conteúdo local, conforme a política Make in India, pesa na avaliação.
Carteira em alta
A negociação chega num momento favorável para a Embraer. A empresa recebeu 72 encomendas firmes de jatos E2 nos nove primeiros meses de 2026, e o programa ultrapassou 500 pedidos firmes. A carteira da aviação comercial chegou a US$ 15,1 bilhões no segundo trimestre. Entre os pedidos recentes estão o da Finnair, de até 46 E195-E2, e o do Abra Group, de 20 unidades firmes. Na terça-feira (3), as ações da fabricante subiram mais de 4% na B3, a R$ 104,04, impulsionadas pelo contrato da Grécia para o KC-390.
Um pacote de 100 jatos firmes e 50 opções colocaria a IndiGo ao lado dos maiores clientes da família E-Jets. A decisão, porém, ainda depende de Walsh e de sua avaliação sobre que tipo de avião deve ligar as cidades menores da Índia ao novo centro de conexões em Nova Délhi. Até lá, o negócio segue no condicional.




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