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11 fevereiro, 2026

Marinha e Taurus firmam parceria estratégica para desenvolvimento de armamento nacional

Acordo, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN),  conta com apoio do BNDES e visa desenvolver novos sistemas de armamento e drones destinados às tropas anfíbias



*LRCA Defense Consulting - 11/02/2026
A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), celebrou na terça-feira (10/2) um Protocolo de Intenções com a Taurus Armas S.A., maior fabricante de armas leves do mundo, para o desenvolvimento de novos sistemas de armas leves e coletivas nos calibres 5,56, 7,62 e .50, além do inédito drone armado, destinados às tropas anfíbias, ampliando assim a capacidade tecnológica nacional. A cerimônia, realizada na histórica Fortaleza de São José, no Centro do Rio de Janeiro, contou com o apoio institucional do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Desenvolvimento tecnológico e autonomia estratégica
A parceria nasce com a missão de traduzir as necessidades operacionais reais dos Fuzileiros Navais em soluções tecnológicas efetivas. O foco principal está no desenvolvimento de estudos para novos sistemas de armas leves e coletivas, além de drones armados, projetados especificamente para os diversos ambientes onde a Marinha opera, desde operações anfíbias em zonas costeiras até missões em rios e regiões de mata.
De acordo com o Comandante-Geral do CFN, Almirante de Esquadra Carlos Chagas Vianna Braga, a iniciativa representa uma conquista coletiva. "O armamento empregado pelo Fuzileiro Naval deve ser sempre o mais confiável. Disso depende a segurança dele, de todas as pessoas que estão à sua volta e daqueles que ele está protegendo. Assim, a busca por armamento desenvolvido especificamente para atender plenamente aos nossos requisitos operacionais representa uma excelente oportunidade", destacou o comandante.
O protocolo estabelece que o CFN será responsável por identificar as necessidades específicas da tropa e orientar o desenvolvimento dos equipamentos, garantindo que estejam alinhados aos objetivos da Força Naval. Além disso, conduzirá a avaliação prática dos produtos em ambiente operacional, visando homologar os novos materiais e assegurar que suportem as exigências das missões reais.
Taurus amplia atuação no segmento militar
A Taurus Armas, fundada há 86 anos e com sede em São Leopoldo (RS), vem investindo fortemente no segmento militar, que representa cerca de 39% do mercado mundial de armas leves. A empresa, que possui unidades produtivas no Brasil, Estados Unidos e Índia, apresentou recentemente sua linha militar em eventos internacionais, incluindo a DSEI 2025 no Reino Unido e a World Defense Show 2026 na Arábia Saudita.
Entre os destaques do portfólio militar da Taurus estão os fuzis T4 (calibres 5,56mm e .300 Blackout) e T10 (7,62mm), plataformas versáteis e modulares projetadas para missões que exigem alta confiabilidade. A empresa também lançou a pistola TX9, desenvolvida sob protocolo militar com sistema modular que permite adaptação a diferentes perfis de emprego, e a submetralhadora RPC, ambas em calibre 9×19mm.
Segundo o CEO Global e Diretor Presidente da Taurus, Salesio Nuhs, a parceria com o CFN marca um passo decisivo. "Essa colaboração com os Fuzileiros Navais para nós é extremamente importante. Estamos dando um passo decisivo dentro da Taurus, indo em direção ao mercado de armamento militar, que são as Minimi e calibre 5.56 mm, a 7.62 mm, e a .50. Isso é uma tecnologia que nós estamos desenvolvendo. O Brasil, a nossa Base Industrial de Defesa, tem que ampliar os seus horizontes, tem que ampliar a sua área de atuação", afirmou.
A Taurus atuará como o braço industrial e tecnológico da aliança, mobilizando sua equipe técnica especializada para propor soluções inovadoras que atendam aos requisitos definidos pelo CFN. A fabricante também dará suporte direto à execução dos testes, disponibilizando suas instalações laboratoriais para garantir a qualidade e eficiência dos produtos.
BNDES e a Nova Indústria Brasil
Durante a cerimônia, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, formalizou o apoio da instituição por meio de documento oficial. O banco destacou que a parceria está em plena sintonia com as missões da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada em janeiro de 2024 que mobiliza R$ 3,4 trilhões em investimentos públicos e privados até 2033.
A Missão 6 da NIB, voltada para a defesa nacional, conta com R$ 112,9 bilhões em investimentos até 2026, sendo R$ 79,8 bilhões de recursos públicos e R$ 33,1 bilhões do setor privado. As metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) preveem alcançar 55% de domínio das tecnologias críticas para a defesa até 2026, e 75% até 2033. Atualmente, o Brasil domina 42,7% dessas tecnologias.
"Um dos esforços grandes que o BNDES precisa fazer é o resgate da Indústria Nacional de Defesa. Hoje estamos trabalhando com a tropa de pronto emprego, representada pelos Fuzileiros Navais, a única 100% profissional. Nós precisamos que essa tropa se debruce sobre a produção junto com a Taurus, que possui tecnologia secular desenvolvida. Eu vejo isso como uma semente promissora, inclusive para equipamentos mais pesados e mais sofisticados", afirmou Mercadante.
O BNDES já investiu R$ 205 bilhões nas seis missões da NIB desde janeiro de 2023, sendo R$ 23,9 bilhões destinados especificamente para a defesa. A instituição se colocou à disposição para discutir futuras ações conjuntas e analisar o apoio financeiro a projetos que assegurem avanços tecnológicos e maior conteúdo local na Base Industrial de Defesa.
Fomento à indústria nacional
A iniciativa busca contribuir diretamente para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID), priorizando o uso de produtos de alta qualidade fabricados no Brasil. O objetivo é fomentar o desenvolvimento conjunto de tecnologias ainda inexistentes no mercado nacional, reduzindo a dependência de importações e aumentando a autonomia estratégica do país.
O protocolo, que possui vigência de dois anos, prevê a realização de reuniões técnicas periódicas para avaliar o andamento dos estudos. As atividades serão conduzidas em regime de cooperação mútua, sem transferência de recursos financeiros entre os participantes nesta fase inicial.
Caso os estudos apontem soluções viáveis, poderão ser propostos futuramente novos instrumentos jurídicos para a aquisição das tecnologias desenvolvidas. A parceria também pode abrir caminho para futuras exportações, uma vez que equipamentos certificados por forças brasileiras ganham maior credibilidade no mercado internacional de defesa.
Contexto e desafios
A parceria surge em um momento de modernização das capacidades do Corpo de Fuzileiros Navais, que busca ampliar sua prontidão com equipamentos de alta robustez adaptados às demandas de uma força anfíbia. Conforme admitido pelo comandante-geral do CFN em 2025, a tropa enfrenta desafios relacionados à obsolescência de equipamentos, com a desativação de obuseiros de 155 milímetros e envelhecimento de mísseis antiaéreos e carros de combate.
O programa de investimento PROADSUMUS, voltado para a modernização do CFN, tem avançado com dificuldades, concentrando-se principalmente em aquisições relacionadas à mobilidade, que também possibilitam atuação em ações humanitárias.
Os Fuzileiros Navais, conhecidos como a tropa de elite da Marinha, são uma força de pronto emprego de caráter expedicionário, composta exclusivamente por militares voluntários selecionados e treinados para combate em terra, mar e ar. Com 217 anos de história, o CFN atua desde operações anfíbias até missões de paz das Nações Unidas, sendo considerado a infantaria naval mais antiga da América Latina.
Perspectivas
A aproximação institucional entre Marinha e Taurus fortalece a Base Industrial de Defesa ao criar condições para que processos de demonstração, testes de campo e homologação nacional elevem o nível de autonomia tecnológica do país. A parceria também se alinha à Estratégia Nacional de Defesa, que desde 2008 destaca a importância de desenvolver capacidades nacionais nos setores espacial, cibernético e nuclear.
Com a Taurus investindo fortemente em pesquisa e desenvolvimento (a empresa já recebeu 38 prêmios internacionais por inovação e qualidade) e o BNDES mobilizando recursos significativos para a indústria de defesa, a expectativa é que novos produtos sejam desenvolvidos nos próximos dois anos, contribuindo para reduzir a dependência de armamentos importados e posicionar o Brasil como exportador de tecnologia militar.
A iniciativa representa não apenas um avanço tecnológico, mas também um passo importante na construção de uma indústria de defesa robusta, capaz de atender às necessidades das Forças Armadas brasileiras e competir no mercado internacional.

10 fevereiro, 2026

O país que esqueceu de quem o defende e o socorre quando o Estado falha

 


*Luiz Alberto Cureau Jr. - 10/02/2026

Em países como os Estados Unidos, a carreira militar continua cercada de respeito explícito. Civis cumprimentam soldados com um simples e poderoso “thank you for your service”. Não é folclore, é cultura. A farda representa sacrifício, compromisso nacional e continuidade histórica. Famílias se orgulham de ter militares entre seus membros, e muitos filhos seguem essa trajetória como herança moral transmitida entre gerações.

No Brasil, esse elo simbólico foi se rompendo silenciosamente, não se sabe se de forma natural ou deliberadamente construída ao longo do tempo. Os números mostram queda consistente nas inscrições para as academias militares e aumento da evasão, inclusive entre oficiais experientes. Isso não ocorre por acaso. É reflexo de um esvaziamento cívico mais amplo, que começa muito antes da porta dos quartéis.

Durante décadas, o civismo era cultivado desde cedo. Colégios ensinavam o valor dos símbolos nacionais. Bandas marciais, simples e acessíveis, despertavam disciplina, pertencimento e orgulho. Desfiles cívicos mobilizavam cidades inteiras. Cantar o Hino Nacional era um gesto natural. Esses elementos não formavam militares, formavam cidadãos conscientes do Estado, da Nação e de suas responsabilidades coletivas.

Hoje, esse repertório praticamente desapareceu. O mundo mudou, é verdade. A hiperconectividade ampliou opções e comparações imediatas. Disciplina, hierarquia e sacrifício passaram a competir com promessas de conforto, autonomia e retorno financeiro rápido. Mas isso não explica tudo.

Nos Estados Unidos, o mesmo mundo digital existe. A diferença está na mensagem transmitida. Lá, defesa não é gasto, é pilar da nação, sustentado por instituições fortes. O militar é visto como alguém disposto a assumir encargos que a maioria não assume. Aqui, muitas vezes, ele se torna invisível ou hostilizado. Em certos ambientes, vestir a farda pode até ser arriscado, em outros, simplesmente menosprezado.

Internamente, o problema se agrava com a perda da convivência militar intensa. Celulares, redes sociais e a redução de espaços de socialização enfraquecem o espírito de corpo, cimento invisível da carreira das armas. As academias não perderam sua essência, foi a sociedade que deixou de reforçá-la.

A busca por uma vida mais confortável não é falta de patriotismo. É consequência de um país que não reconhece nem recompensa, material e simbolicamente, quem escolhe servir. Também não é ausência de ameaças. A história mostra que as nações só percebem o valor da defesa quando já é tarde.

Reverter esse quadro exige mais do que ajustes salariais. Exige educação básica, reinternalizar o civismo, recuperar símbolos, rituais e referências. Como sempre lembra meu pai: “é preciso manter a liturgia do cargo”. Defesa exige pessoas vocacionadas, bem preparadas, bem remuneradas e tratadas como ativos que sintam orgulho de envergar suas fardas. 

Prestígio não se decreta. Ele se constrói. 

 

*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Bda Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor em meio ambiente e projetos de crédito de carbono no Instituto Climático VBH em Brasília.   

Cascavel Nova Geração dispara pela primeira vez com computador balístico integrado

Exército Brasileiro avança em etapa decisiva do maior programa de modernização de blindados de reconhecimento nacional, com testes de tiro real no CAEx

 

*LRCA Defense Consulting - 10/02/2026

O Exército Brasileiro deu um passo concreto e simbólico na semana de 2 a 6 de fevereiro de 2026: pela primeira vez, a Viatura Blindada de Reconhecimento Cascavel Nova Geração (VBR Cascavel NG) executou tiros reais com o cálculo balístico realizado integralmente pelo computador de tiro integrado ao novo Sistema de Municiamento e Engajamento Modernizado (SMEM). A atividade, conduzida no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), em Guaratiba, no Rio de Janeiro, marca uma inflexão no desenvolvimento do sistema de armas e consolida o projeto como uma das mais ambiciosas iniciativas da Base Industrial de Defesa brasileira.

Os testes e o que foi verificado
A semana de avaliações reuniu militares de três diferentes órgãos do Exército: a Diretoria de Fabricação (DF), o Escritório de Projetos do Exército (EPEx) e o Centro de Instruções de Blindados (CI Bld), além de representantes do Consórcio Força Terrestre, formado pelas empresas Akaer (líder), Opto Space & Defense e Universal.

As atividades centraram-se em dois eixos técnicos. O primeiro foi a instrução sobre o processo de colimação da viatura, procedimento essencial para o alinhamento preciso do armamento principal com os sistemas ópticos e eletrônicos da torre modernizada. O segundo, de maior impacto operacional, foi a realização de testes de engenharia do computador balístico, com execução de disparos reais do canhão de 90 mm a distâncias predefinidas.

Trata-se da primeira validação em condições reais do sistema de tiro automatizado. Os militares do CI Bld não apenas acionaram os disparos: também exercitaram a motricidade necessária para operar a nova torre por meio de joystick e interfacearam com o computador de tiro, responsável por calcular automaticamente os parâmetros que afetam a trajetória dos projéteis, como velocidade inicial da munição, temperatura, vento e desgaste do cano.

Os resultados foram considerados positivos pela Diretoria de Fabricação. O comunicado oficial destacou "robustez dos sistemas optrônicos integrados à viatura" e "um estágio de maturidade relevante do processamento dos parâmetros que afetam a precisão do armamento principal". Os dados coletados servirão de base para o aprimoramento contínuo do sistema de tiro ainda em desenvolvimento.

 

Por que a inclusão dos usuários finais é estratégica
Um dos aspectos mais relevantes da semana de avaliações foi a natureza participativa da metodologia adotada. A presença do CI Bld, unidade responsável pela formação dos tripulantes de blindados do Exército, não foi meramente protocolar. Ao integrar o usuário final ao processo de desenvolvimento desde fases intermediárias do projeto, o Exército busca evitar o retrabalho que historicamente onera programas militares complexos.

A estratégia responde a uma lição clássica da engenharia de defesa: sistemas desenvolvidos sem retroalimentação contínua dos operadores tendem a acumular requisitos não atendidos, descobertos apenas na fase de entrega, quando as correções são mais caras e demoradas. As sessões de discussão técnica e operacional realizadas durante a semana, com trocas entre militares da DF, do CAEx e representantes do Consórcio, visam exatamente fechar esse ciclo de informação em tempo hábil.

Um blindado de 50 anos reescrito de dentro para fora
O EE-9 Cascavel foi desenvolvido pela extinta empresa brasileira Engesa na década de 1970 e entrou em serviço no Exército Brasileiro ao longo dos anos 1980. Projetado como veículo de reconhecimento sobre rodas, com configuração 6x6 e armado com canhão de 90 mm, tornou-se um dos blindados mais exportados da América do Sul, chegando a países como Iraque, Chipre, Paraguai e vários países africanos. O Brasil ainda mantém cerca de 409 unidades em carga, embora a maioria esteja em configuração original ou com modernizações parciais.

O projeto Cascavel NG não é uma simples atualização de componentes. Trata-se de uma reescrita quase completa dos sistemas embarcados, transformando o que era uma plataforma analógica e mecânica em um veículo digital e modular. Entre as principais intervenções estão: substituição do motor por unidade de maior potência e eficiência; instalação de câmbio automático de seis marchas; sistema adaptativo de suspensão e controle eletrônico de pressão dos pneus; torre automatizada com mecanismo de giro e elevação do canhão acionado por joystick; substituição das miras ópticas convencionais por um conjunto optrônico de última geração, com câmeras termais, visão noturna e plataforma giroestabilizada para o comandante; computador de tiro balístico automatizado; sistema de Comando e Controle (C2) integrado, compatível com outras viaturas do Exército; e instalação de ar-condicionado para a tripulação.

A viatura também foi projetada para receber um sistema lançador de mísseis anticarro (ATGM) na torre, com o míssil MAX 1.2 AC, desenvolvido pela empresa nacional SIATT, sendo avaliado como candidato natural para essa integração.

Cronograma e dimensão do programa
O contrato para a primeira fase do projeto foi assinado em julho de 2022, com o Consórcio Força Terrestre, liderado pela Akaer em parceria com a Opto Space & Defense e a Universal, vencendo a licitação conduzida pela Diretoria de Fabricação. Essa etapa prevê o desenvolvimento de dois protótipos e um lote piloto de sete viaturas.

O primeiro protótipo foi apresentado ao Estado-Maior do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em novembro de 2023. Em setembro de 2024, dois protótipos foram submetidos a testes no próprio CAEx, com provas de desempenho em terrenos acidentados, simulações de combate e travessias de cursos d'água. Ainda em setembro de 2025, um grupo de 30 militares recebeu capacitação especializada no Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP).

A conclusão da entrega do lote piloto de sete unidades está prevista para o primeiro semestre de 2026. O programa mais amplo contempla a modernização de 98 a 201 viaturas, com entregas escalonadas entre 2026 e 2037, a um custo contratado de R$ 1,2 bilhão. O critério de viabilidade para a extensão do programa estabelece que o custo unitário do Cascavel NG não deve ultrapassar 30% do valor de aquisição de uma Viatura de Blindada de Cavalaria Centauro II — o principal veículo 8x8 previsto para as unidades de cavalaria mecanizada.

Indústria nacional e soberania tecnológica
O projeto Cascavel NG é frequentemente citado pelos seus gestores como um vetor de fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira. A Akaer, empresa com mais de 33 anos de atuação e participação em programas como o caça Gripen E (Saab) e o cargueiro KC-390 (Embraer), posiciona o projeto como demonstração da capacidade nacional de entregar sistemas de defesa completos, digitais e autossustentáveis.

"O Cascavel NG é mais do que um projeto de modernização. Ele simboliza o avanço da engenharia de defesa nacional e a capacidade que o Brasil tem de desenvolver tecnologia de ponta", afirmou Cesar Silva, CEO da Akaer, em comunicado divulgado pela empresa.

Para o Exército Brasileiro, o programa tem valor estratégico duplo: no curto prazo, mantém operacionais viaturas cuja substituição integral seria financeiramente inviável; no longo prazo, desenvolve competências nacionais em sistemas optrônicos, computação de tiro e integração digital que poderão ser aplicadas em programas futuros.

Próximos passos
Com os dados de engenharia obtidos nos tiros de fevereiro, o Consórcio Força Terrestre deverá implementar ajustes no software do computador balístico e nos parâmetros de integração do SMEM. A sequência natural do programa prevê novos ciclos de testes, com ampliação das condições e distâncias avaliadas, antes da certificação final do sistema para entrega às unidades operacionais.

A entrega do lote piloto completo, com as sete viaturas, ao longo do primeiro semestre de 2026 marcará o início efetivo da fase de qualificação operacional do Cascavel NG junto às unidades de cavalaria do Exército. A partir daí, a decisão sobre a extensão do programa de modernização para as demais dezenas de viaturas dependerá tanto da avaliação técnica quanto da disponibilidade orçamentária da Força Terrestre nos próximos anos.

Singapura atrasa modernização e aposta em C-130H usados: uma janela de oportunidade para o C-390 da Embraer

Força Aérea de Singapura opta por aeronaves de segunda mão em vez de renovação completa da frota, colocando o cargueiro brasileiro como forte candidato a substituir o lendário Hercules 


*LRCA Defense Consulting - 10/02/2026

A decisão da República de Singapura de adquirir C-130H usados para substituir seus quatro C-130B mais antigos representa uma mudança estratégica significativa que pode abrir portas para o C-390 Millennium da Embraer, ao mesmo tempo em que sinaliza tempos difíceis para o C-130J Super Hercules da Lockheed Martin, segundo reportagem de Chen Chuanren para aAviation Week.

Desde 1977, a Força Aérea da República de Singapura (RSAF) opera nove aeronaves C-130 — quatro C-130B e cinco C-130H —, fazendo do Hercules uma das plataformas mais longevas do inventário militar do país. "O Hercules se recusa a morrer", observou certa vez um comandante sênior da RSAF, conforme relatado por Chuanren.

A substituição desse veterano cargueiro há muito tempo figura entre as principais prioridades de modernização observadas por especialistas. No entanto, em fevereiro, o comandante da RSAF, Major-General Kelvin Fan, delineou um caminho inesperado: em vez de comprometer-se com uma renovação completa da frota, o serviço aéreo adquirirá C-130H de segunda mão. As entregas já começaram, marcando a primeira vez desde os anos 1990 que a RSAF recorre a aeronaves usadas — uma mudança notável para uma força cujas plataformas de "terceira geração" foram quase exclusivamente adquiridas novas.

Uma estratégia que favorece novos competidores
Em vez de uma recapitalização direta e simples com o comprovado C-130J Super Hercules, a RSAF optou por uma abordagem faseada e de gestão de risco: aposentar primeiro os modelos B, estender a vida útil da frota H e adiar uma decisão sobre a substituição completa. Do ponto de vista orçamentário e de continuidade operacional, a lógica é clara. Mas a medida também sinaliza que o Super Hercules pode não ser mais o sucessor padrão, analisa o jornalista da Aviation Week.

Em entrevista por escrito à Aviation Week durante o Singapore Airshow, Fan afirmou que o C-130 "permanece a melhor plataforma" para atender às necessidades operacionais da RSAF pelos próximos 15 a 20 anos. Manter as opções em aberto parece ser central para a estratégia. Além do C-130J, a RSAF aparentemente está estudando o A400M da Airbus e, significativamente, o C-390 Millennium da Embraer — ambos oferecendo avanços significativos em capacidade de carga, velocidade e alcance que podem ser cruciais para as crescentes demandas operacionais de Singapura.

O C-390 ganha força na região
O C-390 Millennium da Embraer surge como um candidato particularmente atraente neste cenário. A aeronave brasileira está ganhando impulso considerável na Europa e, especialmente, na Ásia-Pacífico, onde a Coreia do Sul já se tornou operadora do modelo. Com velocidade de cruzeiro superior, maior capacidade de carga e custos operacionais mais baixos que o C-130J, o C-390 representa uma proposta de valor competitiva.

Mais importante ainda, Singapura já possui uma infraestrutura favorável ao C-390. Um memorando de entendimento existente entre a Embraer e a ST Engineering — gigante de defesa e aeroespacial de Singapura — para apoiar a manutenção local do cargueiro brasileiro reduz significativamente os riscos de adoção e garante suporte técnico robusto na região.

Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defense & Security, demonstrou entusiasmo com a decisão da RSAF sobre o Hercules, afirmando que isso dá tempo valioso à força aérea para avaliar adequadamente as plataformas futuras. Da Costa revelou à Aviation Week que a Embraer está trabalhando ativamente com a ST Engineering para conhecer melhor os requisitos específicos da RSAF — um indicativo claro de que o fabricante brasileiro está levando a sério a possibilidade de uma venda para Singapura.

Vantagens estratégicas do modelo brasileiro
Embora o C-390 seja um programa relativamente jovem com histórico operacional mais limitado que seus concorrentes, suas características técnicas podem ser exatamente o que Singapura precisa para enfrentar seus desafios futuros. A aeronave oferece:

  • Velocidade superior: o C-390 é significativamente mais rápido que o C-130J, crucial para missões que se estendem até o Oriente Médio.

  • Maior capacidade: com capacidade de carga superior, atende melhor à crescente mecanização do Exército de Singapura e ao transporte de sistemas pesados como lançadores Himars.

  • Tecnologia moderna: aviônica de última geração e sistemas digitais integrados.

  • Custos operacionais: menores custos por hora de voo em comparação com concorrentes.

O A400M da Airbus, embora também seja um competidor, ainda carrega o peso de seus problemas iniciais de confiabilidade e custos elevados. Zakir Hamid, chefe da Airbus Defense and Space para a Ásia-Pacífico, destaca que o A400M teria capacidade de reabastecer helicópteros e interoperar com plataformas vizinhas na Indonésia e Malásia, mas os desafios passados do programa podem pesar contra ele.

Demandas operacionais favorecem mudança de plataforma
O que torna o C-390 ainda mais atraente, segundo Chen Chuanren, é a rapidez com que o perfil operacional das Forças Armadas de Singapura está se expandindo. Os C-130 da RSAF não estão mais confinados ao transporte regional: missões humanitárias já alcançaram o Oriente Médio, enquanto a crescente mecanização do Exército aumentou a demanda pelo movimento rápido de sistemas pesados. A presença no exterior — particularmente na Austrália e Tailândia — também exige transporte aéreo frequente de helicópteros e veículos.

À medida que Singapura implanta capacitadores de longo alcance como o A330 MRTT, a lacuna entre alcance estratégico e transporte tático está se tornando mais aparente — uma lacuna que o C-390, com sua combinação de velocidade, alcance e capacidade, pode preencher de forma mais eficaz que o tradicional C-130.

A Lockheed Martin perde terreno
Enquanto a Embraer se movimenta proativamente, a fabricante norte-americana Lockheed Martin permanece otimista, mas talvez excessivamente confiante, sobre a venda do Super Hercules à RSAF. A empresa está comprometida em apoiar os modelos H durante toda a sua vida útil.

"Eles tinham uma opção e decidiram ficar com o que é conhecido e comprovado", disse Chris Cohn, diretor de mobilidade aérea internacional da Lockheed, à Aviation Week. "Do meu ponto de vista, é uma boa decisão com base no que eles tinham para escolher na época. E eu sei que estamos prontos para vender-lhes o J quando estiverem prontos."

No entanto, essa confiança pode ser equivocada. A decisão de Singapura de adiar a compra e manter opções em aberto sugere exatamente o oposto: que a RSAF não está convencida de que o Super Hercules — essencialmente uma evolução de um projeto dos anos 1950 — é a resposta para os desafios do século XXI.

Uma decisão estratégica que pode mudar o mercado
Nesse sentido, conclui Chuanren em sua análise, a medida provisória com o modelo H pode ser menos sobre estender a vida de um velho cavalo de batalha e mais sobre criar tempo para avaliar alternativas mais modernas. A RSAF está sinalizando claramente que não está convencida de que o Super Hercules é a resposta inevitável — e para a Lockheed Martin, essa hesitação por si só pode ser o sinal de alerta mais claro.

Para a Embraer, por outro lado, essa hesitação representa uma oportunidade de ouro. Uma venda para Singapura — uma das forças aéreas mais sofisticadas e respeitadas da Ásia — seria um divisor de águas para o C-390, validando a aeronave brasileira como alternativa legítima aos gigantes estabelecidos e potencialmente abrindo portas para outros mercados asiáticos.

A decisão de apostar nos C-130H legados pode ganhar tempo para Singapura, mas também adia uma questão mais difícil: se um cargueiro tático tradicional para a RSAF ainda será suficiente nos anos 2030 em diante. As evidências crescentes sugerem que a resposta é não — e que o C-390 Millennium pode ser exatamente a solução moderna que Singapura está buscando. 

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