Numa floresta na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, um grupo de tanques Leopard 2 de fabricação alemã permanece escondido sob redes de camuflagem, com as torres viradas para trás, na chamada posição de viagem. Alguns aguardam reparos; outros, cobertos de teia de aranha, ficam de prontidão para um combate que as ordens já não chegam a determinar. A cena, registrada pelo fotógrafo Brendan Hoffman e descrita em reportagem publicada pelo New York Times em 25 de agosto, resume o destino de uma das armas mais disputadas pela Ucrânia desde o início da guerra: os blindados ocidentais, hoje reduzidos a reboque de emergência e a alvo de debate estratégico dentro do próprio comando militar ucraniano.
A 33ª Brigada Mecanizada Separada, batizada em parte para operar esses veículos, hoje trava sua rotina longe deles. No posto de comando da unidade, telas mostram imagens ao vivo de drones bombardeiros, um drone terrestre avançando por uma trilha lamacenta e drones de vigilância sobre uma casa em chamas. Tanques, segundo a reportagem, não aparecem em nenhuma delas.
Da glória à floresta
A Ucrânia pediu tanques ocidentais quase imediatamente após a invasão russa em fevereiro de 2022, quando pareciam essenciais para romper as linhas inimigas. O pedido só foi atendido em janeiro de 2023, depois de meses de negociações e de pressão pública sobre Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Berlim cedeu os Leopard 2; Washington, os Abrams; e a Suécia, os Strv 122, versão reforçada do próprio Leopard 2A5.
A 33ª Brigada foi formada, em parte, para receber esses veículos, mas, quando os Leopard finalmente entraram em combate na primavera seguinte, os drones baratos já infligiam perdas pesadas e conseguiam atingir os pontos mais vulneráveis dos blindados. Um relatório do Congressional Research Service (CRS), órgão de pesquisa do Congresso americano, mostra que o problema já se manifestava meses antes, durante a contraofensiva ucraniana de 2023: as novas unidades treinadas pelo Ocidente enfrentaram dificuldade real para executar operações de armas combinadas e para romper os extensos campos minados russos. Em julho daquele ano, o então chefe do Estado-Maior Conjunto americano, general Mark Milley, chegou a admitir publicamente que expulsar militarmente as forças russas seria “muito, muito difícil” naquele ano.
Do lado russo, tropas passaram a cobrir seus próprios tanques com telas e gaiolas antidrone, solução inicialmente ridicularizada por parecer improvisada. Segundo um chefe de manutenção da 33ª, identificado apenas pelo codinome Energetyk, os russos foram motivo de piada no início, mas estavam no caminho certo; a Ucrânia acabou seguindo pelo mesmo caminho, somando blindagem reativa (painéis externos que detonam ao serem atingidos) às gaiolas de proteção. Ainda assim, os dois lados praticamente abandonaram o emprego de blindados pesados em operações ofensivas.
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| Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA |
A 33ª mantém exercícios de tiro real a cada duas semanas, aproximadamente, para não perder o preparo técnico das tripulações. Num desses treinos, entre campos de girassol, um tanque disparou contra alvos distantes enquanto soldados aguardavam à sombra, comendo sementes e dividindo um refrigerante.
No dia a dia, porém, os Leopard raramente saem da floresta onde ficam guardados. Um dos veículos, atingido por um drone na torre, aguarda reparo ao lado de outro cujo motor foi trocado depois que o tanque pegou fogo ao passar sobre uma mina. Segundo Energetyk, os danos mais recentes não vieram do combate, mas das chamadas evacuações: as vezes em que o tanque reboca equipamento avariado, funcionando, na prática, como um trator extraordinariamente caro. Mesmo essas saídas só ocorrem em dias de mau tempo, quando chuva, vento e baixa visibilidade reduzem o número de drones em operação.
Um piloto de drones ucraniano entrevistado pela agência Reuters em fevereiro resumiu essa nova realidade: “a velocidade humana não se compara à de um drone FPV”, disse Andriy Meskov, ferido meses antes por um drone que ricocheteou em seu capacete.
Motoristas e artilheiros da 33ª descrevem sentimentos contraditórios sobre a nova rotina. Um deles, identificado como Golden, prefere que os tanques permaneçam fora de combate depois de ter sobrevivido a um incêndio dentro de um veículo. Outro, o motorista Mechan, compara dirigir um Leopard a dirigir um carro de luxo alemão, mas hoje pratica, à noite, a pilotagem de drones terrestres; ele reconhece que a era dos tanques, tal como a conheceu, parece ter chegado ao fim. Já Korzhyk, recruta incorporado à brigada em 2025, nunca sequer tocou num tanque: seu trabalho diário é consertar drones terrestres numa oficina escura.
O episódio que dá à reportagem seu contorno mais político envolve o afastamento do general Oleksandr Syrskyi, até o mês passado o principal comandante das Forças Armadas ucranianas. Segundo o New York Times, a saída de Syrskyi decorreu de um embate interno sobre estratégia de guerra, tendo como pano de fundo justamente a pergunta sobre o que fazer com os blindados ocidentais. “Praticamente não estamos fazendo uso de veículos blindados”, disse Syrskyi recentemente, segundo a reportagem, acrescentando que a situação levanta a pergunta sobre como neutralizar essa vantagem dos drones e devolver alguma vida útil aos blindados.
Enquanto o alto comando debate uma resposta doutrinária, unidades como a 33ª não esperam a solução vir de cima. Segundo o comandante Morpheus, a exigência que ele mesmo impõe ao batalhão é a de que as tripulações aprendam algo novo constantemente; hoje, metade dos efetivos sob seu comando já se retreinou como operador de drones. Para ele, um eventual retorno dos tanques ao combate dependeria de um avanço tecnológico significativo.
Essa premissa de superioridade tecnológica esteve historicamente ligada a outra: a de que o emprego maciço de blindados dependia de superioridade aérea, entendida como a combinação entre liberdade em relação à aviação inimiga e a consequente liberdade de manobra no solo. Foi assim na Normandia em 1944, quando o domínio aliado dos céus permitiu que colunas blindadas avançassem sem temer a Luftwaffe, e foi assim, de forma explícita, na doutrina americana AirLand Battle, de 1982, que integrava deliberadamente o poder aéreo à manobra blindada em massa para compensar a superioridade numérica do Pacto de Varsóvia na Europa.
Com os drones, esse conceito parece ter se partido em duas camadas. Analistas ocidentais vêm chamando a faixa mais baixa do espaço aéreo, entre o solo e a altitude onde operam caças e bombardeiros tradicionais, de litoral aéreo (do inglês “air littoral”). A tese é que uma força pode conquistar a chamada superioridade nos céus (“blue skies”) contra a aviação inimiga e, ainda assim, ver seus blindados impedidos de avançar, porque a faixa mais baixa permanece saturada de drones baratos demais e numerosos demais para justificar o emprego de armamento ar-ar convencional contra eles. Um artigo publicado pela revista Foreign Policy chega a afirmar que essa dinâmica tornou “as antigas doutrinas ocidentais de superioridade aérea amplamente obsoletas”.
Nem todos os analistas aceitam o conceito como uma ruptura doutrinária. A revista Air and Space Forces Magazine, publicação ligada à força aérea americana, argumenta que a faixa baixa do espaço aéreo já era historicamente disputada por artilharia antiaérea e mísseis portáteis, e que rebatizá-la de litoral aéreo não cria um domínio novo, apenas dá nome chamativo a um problema antigo. Para essa corrente, “drones e mísseis de cruzeiro não redefiniram a superioridade aérea”; eles se tornariam necessários justamente porque nenhum dos lados da guerra da Ucrânia conseguiu, de fato, obter superioridade aérea plena no sentido clássico.
De um modo ou de outro, o efeito prático sobre os blindados ocidentais na Ucrânia é o mesmo: caças e bombardeiros podem voar livres em média e alta altitude sem que isso devolva aos tanques a liberdade de manobra que a doutrina do século 20 lhes prometia.
Questão de tripulação, não de conceito
A experiência ucraniana sugere que a resposta talvez não esteja no fim do tanque como conceito, mas no fim do tanque tripulado como se conhece hoje. É a aposta do próprio Morpheus, que se disse convencido de que os blindados ainda têm futuro, mas ressalvou que esse futuro provavelmente será não tripulado. O comandante de companhia identificado como Fin alimenta expectativa parecida: para ele, sistemas equipados com inteligência artificial poderiam um dia criar cúpulas de proteção ou interceptores de drones próprios, devolvendo aos blindados algum grau de sobrevivência.
Essa hipótese já ecoa, em outro contexto, na literatura militar ocidental. Um artigo publicado na edição de julho e agosto de 2025 do Military Review, revista profissional do Exército americano editada pela Army University Press, discute como sistemas de proteção ativa, inteligência artificial e veículos autônomos poderiam devolver a uma força tecnologicamente superior aquilo que o texto chama de overmatch, uma vantagem operacional decisiva sobre qualquer adversário. O artigo não trata do caso ucraniano especificamente, mas descreve um raciocínio semelhante: a sobrevivência de uma plataforma blindada pode depender menos da espessura de sua blindagem e mais da capacidade de detectar, decidir e reagir antes do adversário, com ou sem tripulação a bordo.
Essa mudança de eixo toca também numa premissa histórica da indústria de defesa ocidental: a de que a superioridade tecnológica de uma plataforma sofisticada e cara compensaria sua produção em pequena escala. Durante décadas, essa lógica orientou o desenvolvimento de tanques como o Leopard, o Abrams e o Strv 122, veículos concebidos para operar sob superioridade aérea e cobertura eletrônica plena da OTAN. A guerra da Ucrânia introduz uma variável nova a essa equação: talvez a vantagem tecnológica não esteja mais concentrada na plataforma, e sim migrando para a rede de sensores, drones e dados que a cerca.
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Esse debate não é só ucraniano ou americano. Programas de blindados, sensores, guerra eletrônica, defesa antidrone, munições inteligentes e sistemas autônomos ocupam também a agenda dos militares e da indústria de defesa brasileira, e a experiência ucraniana tende a pesar sobre as próximas escolhas doutrinárias das Forças Armadas no País, especialmente do Exército.
De volta à floresta na região de Kharkiv, Energetyk segue trocando motores de tanques que talvez nunca mais disparem em combate. Entre os pinheiros, o silêncio interrompido apenas pelo canto dos pássaros contrasta com o rugido que essas máquinas ainda prometem entregar, um dia, aos comandantes ucranianos.





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