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20 maio, 2026

O Brasil arma suas máquinas: drones terrestres e aéreos avançam na Base Industrial de Defesa

Em menos de dois anos, o Brasil passou de observador a protagonista na corrida global pelos sistemas autônomos de combate. Robôs EOD nacionais já integram o Exército, drones armados avançam em bancadas de engenharia e fabricantes consolidados como a Taurus anunciam portfólios que vão do calibre .22 ao .50, agora também podendo ser embarcados em veículos não tripulados terrestres e aéreos.
 
Primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos (EOD — Explosive Ordnance Disposal) inteiramente produzido no país pela Ambipar Robotics (imagem original renderizada com IA)

 
*LRCA Defense Consulting - 20/05/2026
Em meados de maio de 2026, o Exército Brasileiro recebeu o primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos (EOD — Explosive Ordnance Disposal) inteiramente produzido no país. O sistema foi fabricado pela Ambipar Robotics, de Jacareí (SP), e foi entregue ao 6º Batalhão de Engenharia de Combate, onde será usado no processo de certificação de tropas brasileiras para missões de paz da ONU, no âmbito do United Nations Peacekeeping Capability Readiness System (UNPCRS).
A diretora executiva da empresa, Fernanda Morelli Macedo, celebrou a entrega nas redes sociais como "o primeiro robô militar nacional desenvolvido no Brasil", ressaltando que a conquista demonstra que o país possui capacidade técnica e profissionais qualificados para desenvolver tecnologias estratégicas de alto valor. A plataforma é descrita como multi-operacional e foi desenvolvida com apoio da empresa Detronics.
A chegada do robô EOD nacional é especialmente relevante porque, até então, o Exército Brasileiro operava equipamentos importados nessa função, como os modelos alemães tEODor e Telemax, que por anos foram mantidos de forma artesanal, inclusive com peças reproduzidas pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) da FAB. O novo sistema da Ambipar Robotics representa, portanto, um salto de soberania tecnológica.
A Taurus avança para os UGVs armados
Enquanto a Ambipar Robotics consolida sua presença no segmento EOD, a Taurus Armas revelou, em live com analistas e investidores realizada em 18 de maio de 2026, que está desenvolvendo, em paralelo ao seu portfólio de armas convencionais, um conjunto de veículos não tripulados, tanto aéreos quanto terrestres (UGV), destinados a receber as armas de médio e pesado calibre que a empresa pretende produzir quando a tecnologia estiver disponível.
O anúncio foi feito pelo CEO global Salesio Nuhs durante a apresentação dos resultados do primeiro trimestre de 2026. Nuhs não revelou o parceiro tecnológico para o desenvolvimento dos UGVs, mas analistas do setor apontam que a Ambipar Robotics, já fornecedora de plataformas robóticas ao Exército, seria uma parceira natural, embora nenhuma das empresas tenha confirmado tal acordo.
O drone aéreo armado da Taurus já existe em forma concreta: o TAS (Tactical Air Soldier), um quadricóptero equipado com armamento tático nos calibres 5,56 mm, 7,62 mm e 9 mm, foi apresentado inicialmente na LAAD Defence & Security 2025, no Rio de Janeiro, e reapresentado no World Defense Show 2026, em Riade, na Arábia Saudita. Segundo a empresa, o TAS foi desenvolvido com um fabricante brasileiro de drones do agronegócio e conta com câmera 4K estabilizada em três eixos, sistema de controle de fogo integrado, sensores de distância, ponteiro laser e identificação de alvos com inteligência artificial embarcada.
A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), já assinou com a Taurus um Protocolo de Intenções para o desenvolvimento de novos sistemas de armas, incluindo o drone armado, destinado às tropas anfíbias. A cerimônia contou com o apoio institucional do BNDES, alinhada à Missão 6 da Nova Indústria Brasil (NIB), que prevê R$ 112,9 bilhões em investimentos em defesa até 2026.
Para completar o portfólio de armas coletivas que alimentará esses sistemas autônomos, a Taurus negocia a aquisição da fabricante turca Mertsav Savunma, especializada em metralhadoras nos calibres 5,56 mm, 7,62 mm e .50 BMG, além de fuzis, pistolas e lança-granadas. O CEO afirmou, na mesma live de maio de 2026, que a due diligence está "bastante avançada" e que a decisão deve ser tomada "com certeza absoluta" até o final do ano. A estratégia é trazer a tecnologia para São Leopoldo (RS) a fim de atender às Forças Armadas brasileiras. "A Taurus será a única empresa fabricante de armas do mundo que vai ter um portfólio do calibre .22 ao calibre .50", disse Nuhs.
TAS (Tactical Air Soldier), da Taurus Armas
XMobots: do reconhecimento ao combate reutilizável
A XMobots, de São Carlos (SP), apontada como a sexta maior empresa de drones civis do mundo, avança em duas frentes distintas no segmento de defesa. A primeira é a versão armada do Nauru 1000C, drone de 150 kg já utilizado pelo Exército Brasileiro em missões de inteligência e reconhecimento de fronteiras. Em parceria com a MBDA, maior grupo de mísseis da Europa, a empresa integra ao Nauru 1000C dois mísseis Enforcer Air, projetados para atingir veículos com blindagem leve a até 8 km de distância. Esse seria o primeiro sistema de arma aéreo não tripulado genuinamente brasileiro.
A segunda frente é o Nauru 100D, lançado em abril de 2025 sob a marca XMobots Defense. Trata-se de um sistema tático de vigilância de 9 kg, montável em menos de três minutos a partir de duas mochilas, com decolagem e pouso vertical elétrico (eVTOL) e até seis horas de autonomia. Na LAAD Security Milipol Brazil 2026, realizada em São Paulo em abril de 2026, a empresa revelou o conceito UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle) do aparelho: uma versão armada capaz de atacar a 60 metros de altura com bombas de alto explosivo (HE) ou cargas antitanque (HEAT), corrigir a trajetória em tempo real e retornar à base para ser rearmado e operar novamente, diferenciando-se das chamadas munições vagantes (loitering munitions), que são descartadas no impacto.
Além do UCAV, a XMobots apresentou o conceito Swarm (enxame): até 30 aeronaves lançadas simultaneamente a partir de um contêiner de 20 pés, três para reconhecimento e 27 para ataque coordenado, com alcance previsto entre 120 km e 340 km. A empresa afirma ter capacidade produtiva de 360 unidades por mês e ter iniciado a fabricação de um lote-teste de 20 sistemas. Em janeiro de 2026, a XMobots também firmou acordo de cooperação técnica com a Marinha do Brasil e a Petrobras para adaptar drones da família Nauru a operações embarcadas em navios, com investimento de R$ 40 milhões.
Drones Nauru 1000C, da XMobots, armado com mísseis Enforcer Air produzidos pela MBDA (acima) e Nauru 100D armado com granada de alto explosivo (HE) (abaixo)

O Exército quer mais: consulta por drones armados SARP 3
O Estado-Maior do Exército (EME) abriu, em março de 2025, consulta pública para a aquisição de até três Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas categoria 3 (SARP 3). Os requisitos publicados no edital são exigentes: peso máximo de decolagem de 700 kg, alcance mínimo de 300 km, altitude máxima de 18.000 pés e autonomia de pelo menos 48 horas. Em termos de armamento, o Exército espera que as aeronaves sejam capazes de transportar ao menos quatro foguetes de 70 mm ou dois mísseis guiados por laser com alcance mínimo de 4 km, além de bombas ou granadas não guiadas. O edital previa consulta aberta até 4 de agosto de 2025.
Atualmente, todas as aeronaves remotamente pilotadas no arsenal das Forças Armadas brasileiras são de monitoramento; nenhuma porta armamento. A consulta pública do EME sinaliza que essa realidade deve mudar em horizonte próximo.
A guerra na Ucrânia como laboratório: drones armados com espingardas
O conflito na Ucrânia continua acelerando a inovação tática em sistemas não tripulados. Pilotos ucranianos passaram a equipar seus VANTs com armas de fogo para abater quadricópteros FPV (first person view) russos, criando uma nova forma de combate aéreo em que os pilotos, sentados a quilômetros de distância, duelam indiretamente nos céus por meio de suas máquinas. Analistas de defesa observam que esse desenvolvimento não é uma excentricidade, mas o próximo passo lógico após meses de testes com armas completas embarcadas em drones de baixa altitude realizados por ambos os lados. O fenômeno reforça a percepção de que qualquer sistema não tripulado moderno precisa, já no projeto, incorporar capacidade de ataque ou de resposta a ameaças aéreas.
Base Industrial de Defesa: avanço real, desafios estruturais
Os desenvolvimentos recentes indicam que a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira saiu de uma posição praticamente inativa nesse segmento para articular, em menos de dois anos, múltiplas iniciativas simultâneas: o primeiro robô EOD nacional (Ambipar Robotics), o primeiro drone armado com potencial de emprego em forças especiais e fuzileiros navais (Taurus/TAS), os primeiros testes de mísseis em drone brasileiro (XMobots/MBDA) e os primeiros conceitos de enxame e UCAV reutilizável (XMobots/Nauru 100D).
Analistas do setor, porém, alertam que as iniciativas ainda carecem de uma estratégia nacional integrada. O documento Defesa BR 2027–2057, referenciado em publicações especializadas, propõe a criação de um Comando de Drones e Robôs de Combate (CDRC) centralizado no Ministério da Defesa, com centros regionais vinculados às três Forças. A proposta permanece no plano conceitual, mas ganha relevância à medida que os projetos industriais avançam e que as informações das guerras atuais convergem para essa necessidade.
A Nova Indústria Brasil (NIB), com sua Missão 6 voltada à defesa nacional, representa o principal vetor de financiamento público. Os R$ 112,9 bilhões previstos até 2026 e a meta de 55% de domínio das tecnologias críticas de defesa são sinais de que o governo federal reconhece a urgência estratégica do tema. O desafio agora é transformar protótipos e memorandos de intenção em sistemas certificados, produzidos em escala e integrados à doutrina das Forças Armadas.

Super Tucano no Togo: venda noticiada, mas Embraer mantém silêncio sobre o comprador

Publicação militar americana indica que o Togo adquiriu quatro aeronaves A-29 Super Tucano por US$ 82 milhões, mas a fabricante brasileira não confirmou a identidade do cliente. 


*LRCA Defense Consulting - 20/05/2026

O portal Africa Defense Forum, publicação militar mantida pelo Comando dos EUA para a África (AFRICOM), noticiou em 19 de maio de 2026 que o Togo deverá receber ainda este ano quatro aeronaves de ataque leve A-29 Super Tucano, fabricadas pela Embraer, em um contrato avaliado em US$ 82 milhões. Segundo a publicação, o pacote inclui treinamento de pilotos e assistência técnica de manutenção, e as aeronaves operarão principalmente a partir da Base Aérea de Niamtougou, no norte do país.

O site Military Africa, especializado em defesa continental, havia publicado informações semelhantes em abril, estimando o contrato em cerca de 70 milhões de euros. Já o portal brasileiro Air Data News, voltado ao setor aeroespacial, foi mais cauteloso: afirmou que "nem o fabricante brasileiro nem o governo togolês confirmaram oficialmente a compra", ressaltando que os relatos têm origem em veículos africanos de defesa.

O contexto que alimenta as especulações é um comunicado emitido pela própria Embraer em 31 de dezembro de 2024, no qual a empresa anunciou a venda de quatro aeronaves A-29 Super Tucano a um "cliente não revelado no continente africano". Na ocasião, a Embraer informou apenas que o comprador se tornaria o sexto operador do modelo na África, depois de Angola, Burkina Faso, Mali, Mauritânia e Nigéria. Nenhum nome foi divulgado.

Analistas de defesa que acompanham o mercado africano passaram então a apontar o Togo como o comprador mais provável, levando em conta o perfil operacional descrito pela Embraer, que menciona vigilância de fronteiras, reconhecimento e contrainsurgência, missões diretamente relacionadas ao desafio que o país enfrenta em sua região norte.

A ameaça que justifica a compra
O Togo convive há anos com a pressão do grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), filiado à Al-Qaeda, que atua nas fronteiras porosas com Burkina Faso. A prefeitura de Kpendjal, no extremo norte do país, é a mais vulnerável: pesquisador do instituto Konrad Adenauer apontou, em agosto de 2025, que a expansão do JNIM para o território togolês era cada vez mais evidente. Entre janeiro e julho do mesmo ano, mais de 60 pessoas, entre civis e militares, foram mortas em 15 incidentes de terrorismo registrados no país.

Em abril de 2025, o grupo utilizou pela primeira vez um drone suicida em um ataque na região de Savanes, ferindo seis soldados. O episódio ilustra a sofisticação crescente das operações insurgentes e reforça a urgência de capacidades aéreas mais robustas por parte das forças togolesas, que ainda dependiam do Socata TB-30 Epsilon, aeronave de treinamento adquirida na década de 1980 com capacidade de ataque limitada.

Analistas do site African Security Analysis descreveram a eventual aquisição do Super Tucano como "a modernização mais significativa da Força Aérea Togolesa em décadas", representando uma transição doutrinária de monitoramento passivo de fronteiras para uma postura ativa de contrainsurgência com capacidade de ataque de precisão. As aeronaves estão previstas para operar sobre o território de savanas e florestas do norte, onde unidades do JNIM têm explorado as limitações dos atuais sistemas de reconhecimento e ataque togoleses para conduzir operações de guerrilha.

Por que a Embraer não confirma
A prática de anunciar contratos sem revelar a identidade do comprador é recorrente na indústria de defesa, e a Embraer a adota sistematicamente. Em dezembro de 2024, além do contrato africano do Super Tucano, a empresa anunciou também a venda de duas aeronaves C-390 Millennium a um cliente igualmente não revelado. A análise dos possíveis motivos é semelhante nos dois casos.

O primeiro fator é de ordem estratégica para o país comprador. Governos que adquirem equipamentos militares em zonas de conflito ou tensão regional preferem, com frequência, que a compra só seja divulgada após a entrega das aeronaves, evitando que adversários adotem contramedidas ou que vizinhos acelerem suas próprias aquisições. No caso do Togo, a situação de segurança no norte e a proximidade com Burkina Faso, país que também opera o Super Tucano sob um governo militar de orientação antiocidental, torna esse cálculo especialmente delicado.

O segundo fator é comercial. Em negociações de defesa, contratos iniciais frequentemente abrem portas para encomendas subsequentes de peças, munições, treinamento e suporte logístico. Revelar prematuramente o nome do cliente pode comprometer negociações ainda em curso ou dar vantagem a concorrentes em futuras licitações no mesmo país ou na região.

O terceiro fator é diplomático. O Brasil mantém política de não interferência em conflitos de terceiros e busca preservar relações com todos os países do continente africano. A confirmação pública de um fornecimento de armas a um país envolvido em operações de contrainsurgência pode gerar constrangimentos políticos, especialmente se houver sensibilidade em relação ao uso das aeronaves ou às alianças do comprador.

Por fim, há obrigações contratuais: é prática comum que o próprio contrato proíba o fornecedor de divulgar detalhes da transação sem autorização expressa do cliente. Nesse caso, a Embraer simplesmente não teria liberdade jurídica para confirmar a venda mesmo que quisesse.

O Super Tucano na África e no mercado global
Com mais de 290 unidades encomendadas por quase duas dezenas de países, o A-29 Super Tucano acumula mais de 570.000 horas de voo, das quais 60.000 em combate. Na Nigéria, o maior operador africano, a Força Aérea atingiu 10.000 horas de voo em agosto de 2024, empregando os 12 aparelhos recebidos em 2021, em um contrato de US$ 500 milhões com os Estados Unidos, no combate ao Boko Haram e a outros grupos armados.

O modelo vive um momento de reaquecimento no mercado global. Em 2024, a Embraer fechou contratos com Paraguai, Uruguai e Portugal (na versão A-29N, adaptada aos padrões da Otan). Se o Togo for confirmado, o país se tornaria o sexto operador africano da aeronave, fortalecendo a presença do produto exatamente na região do mundo onde sua vocação de contrainsurgência tem sido mais exigida.

O Super Tucano tem capacidades que respondem diretamente às necessidades do Togo: blindagem da cabine, tanques de combustível autossalantes contra fogo terrestre, motor de 1.600 cavalos, carga útil de 1.550 quilogramas distribuída em cinco pontos de suspensão e sistemas de sensores optrônicos para identificação e rastreamento de alvos a longa distância. O conjunto permite operar a partir de bases avançadas com pistas precárias, como as que existem no norte togolês.

Salto de capacidade da Força Aérea Togolesa
A compra de quatro Super Tucanos pelo Togo, se confirmada, representará o mais relevante salto de capacidade da Força Aérea Togolesa em gerações e uma resposta concreta à deterioração da segurança em sua fronteira norte. A ausência de confirmação da Embraer não é incomum nesse setor: reflete uma combinação de sigilo contratual, cautela diplomática e estratégia comercial que a empresa aplica de forma consistente. A identidade do comprador africano anunciado em dezembro de 2024 permanece formalmente não divulgada pela fabricante, mas o conjunto de informações disponíveis aponta com crescente consistência para Lomé.

19 maio, 2026

O Gepard no Exército Brasileiro e seu potencial anti-drone: uma resposta adequada para a ameaça da década

 


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LRCA Defense Consulting - 19/05/2026

Visando adequar a proteção de seus meios blindados e dentro do escopo do Projeto Estratégico Defesa Antiaérea, o Exército Brasileiro adquiriu 37 Viaturas Blindadas de Combate Antiaérea (VBC AAe) Gepard 1A2 junto ao Exército Alemão. Os sistemas foram comprados em maio de 2013 por US$ 41 milhões. Trata-se, portanto, de uma aquisição de segunda mão altamente custo-efetiva: menos de US$ 1,1 milhão por viatura, incluindo processo de revitalização realizado pelo fabricante Krauss-Maffei Wegmann antes da entrega.

Antes da entrega ao Exército Brasileiro, as viaturas foram submetidas na Alemanha a um processo de revitalização que compreendeu a instalação de um sistema de extinção de incêndios, tradução das indicações para o português do Brasil e montagem de um novo sistema de cabeamentos para permitir a instalação de sistemas de comunicações fornecidos pelo Exército Brasileiro.

Distribuição e organização
Atualmente, as viaturas estão distribuídas entre a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada (Paraná), a 6ª Brigada de Infantaria Blindada (Rio Grande do Sul) e a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (Rio de Janeiro), sendo que o ensino de operação é conduzido somente pela EsACosAAe. A concentração no sul do país reflete a lógica original de proteção das brigadas blindadas, que são justamente as grandes unidades cujo combate exige cobertura antiaérea orgânica e com mobilidade equivalente à da tropa apoiada.

O Exército Brasileiro adquiriu aproximadamente 540.000 tiros para a viatura. Equipado com dois canhões antiaéreos de 35 milímetros, com elevada cadência de tiro e alcance de 5,5 quilômetros, o Gepard faz parte do Projeto Estratégico de Defesa Antiaérea.

O problema do radar frente a alvos pequenos
Um ponto crítico que separa o emprego brasileiro do ucraniano foi revelado com incomum franqueza pela própria instituição. Na Operação Punhos de Aço 2025, no mês de outubro, foi possível adestrar as guarnições de defesa antiaérea da 6ª Brigada de Infantaria Blindada. O principal desafio se relacionou à maneira pela qual o operador realiza a designação e a apreensão do alvo, tendo em vista as capacidades dos radares atualmente disponíveis nas viaturas do inventário e o material de confecção do alvo. A VBC Gepard 1A2 possui dois radares: um de busca, com alcance horizontal de 750 até 15.750 metros, alcance vertical de 3.000 metros, operando na banda "Echo"; e um de tiro, com alcance horizontal de 300 a 15.000 metros, também com alcance vertical de 3.000 metros, operando na banda "Juliet".

Esses radares foram projetados para aeronaves tripuladas e helicópteros de ataque, alvos com seção transversal de radar (RCS) muito maior que a de um drone comercial ou de um munição errante do tipo Shahed. Os chefes de peça e os atiradores não conseguiram utilizar o processo de designação óptica e foi necessário recorrer ao método tradicional de busca de alvo de forma manual, calcado na utilização do periscópio e na execução da mira empregando precessões à frente do aeromodelo, efetuando disparos cujas trajetórias são corrigidas pela observação em tempo real. Isso faz com que o engajamento e a neutralização da ameaça se tornem tarefas bastante difíceis, exigindo habilidade, familiaridade do operador com o equipamento e bastante treino. A efetividade se relaciona também ao grande volume de fogos disparados, com um consequente alto consumo de munição.

O próprio blog do Exército, no entanto, extrai a lição correta da experiência: o Gepard será o método prioritário a ser utilizado para a supressão de ameaças advindas da abrangente gama de modelos de drones hoje facilmente adquiridos no mercado e amplamente empregados em ações hostis de toda a natureza.

O que a Ucrânia já demonstrou
O emprego ucraniano é o argumento mais robusto em favor do aproveitamento do Gepard no papel anti-drone. De acordo com um adido de defesa ucraniano nos Estados Unidos, o Gepard foi usado com grande eficácia contra as munições errantes, possivelmente de fabricação iraniana ou russa, do tipo Shahed-136. Um único sistema é creditado com a destruição de mais de dez drones Shahed-136 e dois mísseis de cruzeiro. Um sistema como o Gepard é mais eficaz e, portanto, mais custo-efetivo do que sistemas de defesa aérea mais avançados e caros como o NASAMS ou mísseis IRIS-T.

Essa eficiência não é acidente. Como aponta Tim De Zitter em artigo no LinkedIn, o calibre de 35 mm ocupa o ponto de equilíbrio ideal para esse tipo de ameaça: letal o suficiente para destruir drones de forma confiável, econômico o suficiente para disparar em volume, e rápido o suficiente para criar uma densa barreira cinética antes que o alvo chegue ao seu objetivo.

A lacuna que precisa ser preenchida
O principal gargalo brasileiro não é o canhão, é o sensor. A integração do Gepard com radares modernos capazes de detectar alvos de baixa seção radar, como o Saber M60, já foi estudada conceitualmente. Uma possibilidade de operação dos Gepard para proteger um ponto estratégico envolve viaturas posicionadas com datalink a um centro de monitoramento e alarme, podendo ser um radar Saber M60. Sete Gepard assim dispostos podem cobrir uma área de 12 km². Esse conceito, desenvolvido ainda no período de chegada das viaturas, permanece válido e relativamente barato de implementar: o custo não está em comprar novos canhões, mas em integrar sensores adequados aos que já existem.

O Exército utiliza hoje equipamentos como os mísseis portáteis Igla-S e RBS-70, as viaturas blindadas de combate Gepard 1A2 e o radar Saber M60. A força já possui, portanto, os blocos básicos de um sistema anti-drone de curto alcance. O que falta é a integração efetiva entre eles para o engajamento de alvos de pequena seção radar, além de treinamento consistente no modo manual de tiro.

O contexto da modernização em curso
Atualmente, o Exército conta apenas com sistemas de baixa altitude, como o sueco RBS-70 NG e o Gepard. Esses equipamentos são eficazes contra ameaças em baixas altitudes, mas não impedem que aeronaves inimigas invadam o espaço aéreo e lancem mísseis de cruzeiro. A nova prioridade foi classificada como emergencial, o que permite a dispensa de processo licitatório.

A modernização ocorre em um contexto de transformações no cenário internacional, marcado por disputas geopolíticas entre grandes potências e o surgimento de novas tecnologias e ameaças que vêm redesenhando o ambiente global de segurança. O programa "Força 40" prevê avanços em doutrina, pessoal, capacidades e estratégia, incluindo sistemas avançados de defesa antiaérea, antimíssil e contra drones, integrados e de alta precisão.

Essa modernização, porém, envolve sistemas de médio e longo alcance, voltados a ameaças em altitude. O Gepard continuará sendo, por muitos anos, o único meio cinético autopropulsado de baixa altitude disponível ao Exército. A pergunta correta, portanto, não é quando ele será substituído, mas como aproveitá-lo melhor enquanto os novos sistemas não chegam.

O gato velho ainda caça
A análise de Tim De Zitter resume bem a situação: um bom projeto envelhece de forma diferente. O Gepard não se tornou obsoleto porque o tipo de ameaça para o qual ele é mais eficaz - o drone de médio porte voando em baixa altitude - simplesmente não existia em escala quando ele foi concebido. A guerra alcançou o seu terreno.

O Exército Brasileiro tem em mãos 37 viaturas com canhões de alto desempenho, munição em estoque e pessoal em processo de adestramento. O exercício Punhos de Aço 2025 mostrou honestamente onde estão os limites atuais, mas também mostrou que o método manual de tiro é treinável e que a instituição tem consciência da relevância do problema. 

A integração com radares aptos a detectar alvos de baixa RCS, a adoção de datalinks modernos e o treinamento intensivo no tiro contra aeromodelos são passos de custo relativamente baixo que podem transformar um sistema dos anos 1970 em uma resposta adequada para a ameaça da década de 2020, exatamente como a Ucrânia demonstrou ao mundo.

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