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01 agosto, 2026

O Brasil é rico demais para continuar pobre em defesa



*Luiz Alberto Cureau Jr. - 01/08/2026

Os grandes conflitos sempre transformaram a economia mundial. Desta vez, porém, há uma diferença importante, além dos campos de batalha, a guerra está redefinindo cadeias industriais, prioridades orçamentárias e a geopolítica da produção militar. O que hoje parece uma resposta emergencial tende a se tornar permanente. 
 
A Europa compreendeu que sua segurança depende de uma Base Industrial de Defesa forte e capaz de sustentar conflitos prolongados, para não depender dos outros. Mesmo enfrentando desafios fiscais, continua ampliando investimentos, expandindo fábricas, financiando inovação e fortalecendo sua autonomia estratégica.
 
Independentemente do desfecho da guerra, dificilmente esse movimento será revertido. Quem investiu bilhões em tecnologia, capacidade produtiva e mão de obra especializada buscará novos mercados, consolidará sua liderança tecnológica e ampliará sua influência política e econômica.
 
Enquanto isso, o Brasil ainda discute se investir em defesa é gasto ou investimento.
 
Essa é uma visão perigosa para um país que reúne algumas das maiores riquezas estratégicas do planeta. Amazônia, Amazônia Azul, minerais críticos, água doce, produção de alimentos e uma matriz energética diversificada colocam o Brasil em posição de crescente relevância em um mundo cada vez mais competitivo por recursos.
 
A história demonstra que riquezas atraem interesses. E interesses sem capacidade de dissuasão transformam vulnerabilidades em oportunidades para terceiros.
 
O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira deixou de ser apenas uma agenda militar. Tornou-se uma agenda de desenvolvimento nacional. Uma indústria forte gera empregos qualificados, impulsiona inovação, desenvolve tecnologias de uso dual e reduz a dependência de fornecedores externos justamente quando eles priorizam suas próprias necessidades.
 
O risco de permanecer inerte é evidente. Europa, Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Turquia e Israel ampliam rapidamente seus complexos industriais de defesa. Quanto maior essa capacidade, maior será sua competitividade, sua influência diplomática e seu domínio tecnológico. Se o Brasil não acelerar seus investimentos, correrá o risco de tornar-se apenas consumidor de soluções produzidas por outros, perdendo autonomia sobre sua própria segurança.
 
As Forças Armadas têm papel central nesse processo. São elas que induzem inovação, estimulam a indústria nacional e garantem a continuidade de projetos estratégicos. Mas isso exige previsibilidade orçamentária, planejamento de longo prazo e uma política de Estado, coisa que não temos.
 
O mundo já iniciou uma nova corrida industrial. A questão não é se o Brasil pode investir mais em sua Base Industrial de Defesa.
 
A pergunta é outra, quando as grandes potências disputarem influência, mercados e recursos estratégicos, estaremos preparados para defender nossos interesses ou dependeremos da capacidade industrial daqueles que já decidiram acelerar?
 
 
*Luiz Alberto Cureau Jr. é General de Brigada R/1 (Veterano) do Exército Brasileiro, Doutor em Ciências Militares e Bacharel em Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército. Foi comandante do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, comandante do Centro de Capacitação Física do Exército, comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada e, atualmente, é consultor de Defesa e Clima na Segura.    

Mac Jee formaliza estrutura própria na Arábia Saudita e nomeia executivo saudita para dirigi-la

Vindo da SAMI, Khalaf Alabdullah assume a Mac Jee Arábia Saudita em movimento que sinaliza a passagem de fornecedor de engenharia a produtor instalado no Reino, sem confirmação regulatória até o momento 


*LRCA Defense Consulting - 01/08/2026

A Mac Jee anunciou, em julho de 2026, a nomeação de Khalaf Alabdullah como CEO da Mac Jee Arábia Saudita, com responsabilidade sobre as operações da companhia no Reino e na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA). O anúncio foi feito no perfil da empresa no LinkedIn e replicado em 25 de julho pelo portal StrongYes, publicação de recursos humanos sediada no Golfo. A informação não foi reproduzida, até o fechamento desta matéria, por veículos especializados em defesa no Brasil ou no exterior.

O ponto relevante do comunicado não está no nome do executivo, ainda pouco conhecido fora dos círculos industriais sauditas, mas na existência de uma entidade chamada Mac Jee Arábia Saudita. É a primeira vez que a companhia brasileira, sediada em São José dos Campos (SP), assume publicamente uma estrutura societária identificada no Reino, com liderança local e escopo regional definido, depois de anos operando por meio de escritório comercial e de contratos de engenharia executados dentro de instalações de clientes sauditas.

O que o comunicado diz e o que não diz
No texto divulgado, a Mac Jee afirma que a nomeação representa marco na estratégia de crescimento internacional e reforça o compromisso de longo prazo com o Reino. Declara ainda que pretende contribuir para o desenvolvimento da base industrial de defesa saudita por meio de transferência de conhecimento, desenvolvimento tecnológico, formação de talento local e produção local de soluções avançadas de defesa, em alinhamento com os objetivos estratégicos do país.

A leitura atenta mostra que a produção local aparece na frase de compromisso, ao lado de itens declaradamente prospectivos, e não em uma descrição de ativos existentes. O comunicado não afirma que a Mac Jee opere unidade fabril de sua propriedade no Reino. Trata-se de objetivo declarado, não de fato consumado, distinção que importa tanto para a análise industrial quanto para a leitura regulatória do movimento.

Quem é Khalaf Alabdullah
A Mac Jee descreve o executivo como um dos principais nomes do setor de defesa da região, com histórico em sistemas de mísseis, programas estratégicos e parcerias internacionais de defesa. Não há, contudo, registro público prévio do nome em programas sauditas de defesa, em bases de imprensa especializada ou em comunicados oficiais do Reino. Buscas em português, inglês e árabe não localizaram menções anteriores ao anúncio da empresa.

O único dado biográfico adicional disponível vem da reportagem do StrongYes, que informa, com base no perfil profissional do próprio executivo, que ele ocupava anteriormente a função de Director of Capabilities and Business Development na Saudi Arabian Military Industries (SAMI), a estatal de defesa vinculada ao Fundo de Investimento Público saudita. A informação é autodeclarada e não foi confirmada pela SAMI. Se correta, explicaria a ausência de rastro na imprensa, por tratar-se de posição de direção intermediária, sem exposição pública, e daria sentido à menção a sistemas de mísseis no comunicado da Mac Jee.

A fábrica saudita e a questão da titularidade
A presença industrial da Mac Jee na Arábia Saudita não é novidade. Desde dezembro de 2024, este portal registra que a empresa instalou no Reino uma planta de material energético com capacidade de 2 mil toneladas de TNT e 120 toneladas de RDX, ocupando cerca de 500 mil metros quadrados dentro das instalações da Saudi Chemical Company Limited (SCCL), a maior companhia de produção de energia civil e militar do país. Em maio de 2026, reportagem do mesmo portal detalhou que a companhia brasileira projetou e colocou em operação a estrutura, cujas capacidades declaradas abrangem TNT militar, RDX Tipo I e II, HMX e propelentes sólidos compósitos para propulsão de foguetes.

A titularidade, porém, é do cliente. A planta foi descrita como a primeira fábrica própria de explosivos militares da Arábia Saudita, erguida no parque industrial da SCCL. À Mac Jee coube o projeto, a transferência de tecnologia de processo e o comissionamento. Essa configuração é coerente com a nota de esclarecimento divulgada pela empresa em junho de 2023, após reportagem do jornal O Estado de S. Paulo sobre o contrato: naquele documento, a companhia sustentou que o objeto contratual se limitava à exportação de produtos básicos relativos à linha de produção de materiais energéticos de base e que o know-how e o segredo industrial permaneciam reservados ao Brasil. O contrato foi celebrado em 2018, com anuência das autoridades dos dois países.

De escritório comercial a subsidiária
O material institucional da Mac Jee descrevia, até recentemente, unidades fabris em São José dos Campos e Paraibuna, ambas no interior paulista, além de escritórios em São Paulo, na França e no Oriente Médio. O comunicado de fevereiro de 2024, distribuído às vésperas do World Defense Show, mencionava que a empresa se preparava para expandir a capacidade produtiva fora do Brasil, sem detalhar onde ou quando. Na edição de fevereiro de 2026 do mesmo evento, em Riade, a companhia voltou com planos declarados de localização de produção no Reino e de expansão para sistemas de mísseis, este último em cooperação com a Força Aérea Brasileira.

A criação de uma subsidiária nomeada, com CEO saudita, é salto de natureza diferente. Escritório comercial representa presença de vendas. Contrato de engenharia representa prestação de serviço. Subsidiária com direção local representa intenção de permanência, de contratação no mercado local e de habilitação junto às autoridades do país anfitrião. É o passo que antecede, tipicamente, a instalação de capacidade produtiva própria.

O marcador regulatório que ainda falta
A confirmação definitiva da hipótese industrial viria de um documento específico: a licença de fabricação militar emitida pela Autoridade Geral de Indústrias Militares (GAMI), órgão que regula, licencia e fiscaliza o setor de defesa saudita e que responde pela meta da Visão 2030 de nacionalizar mais de 50% do gasto militar do Reino. Nenhuma empresa fabrica material de defesa em território saudita sem essa autorização.

Não foi localizado registro de licença da GAMI em nome da Mac Jee. A autoridade não publica lista consolidada de licenciados, o que impede afirmar categoricamente que a licença não exista, mas também impede tratá-la como obtida. Empresas estrangeiras que alcançam esse estágio costumam anunciá-lo, como fez a norte-americana 3D Systems em 29 de julho de 2026, ao divulgar que sua joint venture NAMI, formada com a Dussur e a Saudi Energy, recebeu licença de manufatura militar da GAMI. O silêncio da Mac Jee sobre o ponto é, em si, indicativo.

O movimento no quadro maior
A nomeação ocorre em fase de adensamento internacional da Mac Jee. Em 29 de maio de 2026, a empresa assinou memorando de entendimento com o Grupo MBDA, maior fabricante europeu de mísseis, após visita técnica de representantes do grupo europeu às suas instalações no mês anterior. A companhia mantém contrato internacional de cerca de US$ 60 milhões para fornecimento de munições de tecnologia avançada, firmado em julho de 2025, e integra o programa hipersônico PROPHIPER 14-X da Força Aérea Brasileira, para o qual desenvolve o foguete acelerador RATO-14X. A CEO do grupo é Alessandra Stefani; o Conselho de Administração é presidido pelo fundador Simon Jeannot, que deixou a gestão executiva em 2020 para concentrar-se na expansão global.

A relação com o Reino, iniciada com o contrato de 2018 e formalizada institucionalmente durante o World Defense Show de 2022, quando Jeannot foi recebido pelo ministro Khalid Al Falih e por Ahmad A. Al-Ohali, então à frente da GAMI, transformou o perfil da empresa. Fontes ligadas ao projeto relataram à imprensa que a companhia mudou de patamar no mercado após o contrato saudita.

O que permanece em aberto
Três pontos exigem confirmação antes de qualquer afirmação categórica. O primeiro é o histórico profissional de Khalaf Alabdullah, sustentado por ora apenas em fonte autodeclarada. O segundo é a natureza jurídica exata da Mac Jee Arábia Saudita, se subsidiária integral, joint venture com sócio local ou representação registrada, informação que o comunicado não esclarece e que determina o alcance real do movimento. O terceiro é a existência de licença da GAMI, sem a qual a produção local citada no anúncio permanece no campo da intenção.

Procurada, a Mac Jee não havia respondido até o fechamento desta reportagem.

31 julho, 2026

Documentos revelam termos da compra dos dois KC-390 da Colômbia, em meio a crise na transição de governo

Proposta financeira da Embraer supera US$ 366 milhões, com entregas previstas até 2030, enquanto o Ministério da Defesa colombiano alerta para a necessidade de fechar o negócio antes da posse do novo governo

 
*LRCA Defense Consulting - 31/07/2026 (atualizado em 01/08)

A rádio colombiana Caracol Radio divulgou nesta sexta-feira, 31 de julho de 2026, documentos que comprovam que a Força Aeroespacial Colombiana (FAC) avança na compra de duas aeronaves KC-390 Millennium, fabricadas pela Embraer. Segundo a reportagem, assinada pelo jornalista José David Rodríguez, a proposta financeira apresentada pela Embraer SA totaliza US$ 366.430.371 e inclui as aeronaves, treinamento, suporte logístico, equipamentos especializados e demais recursos necessários para sua operação. Na documentação, o modelo é identificado como "KC-390, aeronave básica", enquanto a finalidade do processo é descrita como a aquisição de aeronaves de transporte tático militar pesado, treinamento, equipamentos associados e suporte logístico.
A reportagem da Caracol Radio confirma e detalha uma informação já antecipada em 14 de julho pelo portal espanhol Infodefensa, segundo o qual o presidente Gustavo Petro teria determinado o encerramento do processo de aquisição das duas aeronaves. Àquela altura, a FAC ainda comparava o KC-390 com o C-130J Super Hercules, da Lockheed Martin, e o A400M Atlas, da Airbus. Antes disso, em 30 de março de 2026, o próprio Infodefensa já havia noticiado uma primeira ordem presidencial para iniciar o processo de compra, atribuída ao interesse de Petro em reforçar uma aliança de defesa aérea com o Brasil, a partir de conversas e compromissos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Confirmação no SECOP II
A existência do processo foi confirmada de forma independente na consulta pública do SECOP II (Sistema Electrónico para la Contratación Pública), a plataforma oficial de contratos do Estado colombiano. O registro identifica a FAC como entidade contratante e apresenta o seguinte resumo do processo:

País

Colômbia

Entidade estatal

Força Aeroespacial Colombiana (FAC)

Referência do processo

232-00-A-COFAC-CODAF-2026

Descrição

Aquisição de aeronaves de transporte tático militar pesado

Fase atual (na consulta)

Apresentação da oferta

Data de publicação

29 de julho de 2026, 21h (UTC-5)

Prazo para apresentação de propostas

31 de julho de 2026, 8h (UTC-5)

Quantia

COP 1.566.000.000.000

A quantia registrada no SECOP II, de COP 1.566.000.000.000, corresponde a aproximadamente US$ 366 milhões pela taxa de câmbio do período, valor que coincide com os US$ 366.430.371 informados pela Caracol Radio com base na proposta financeira da Embraer, o que confirma de forma independente os números revelados pela emissora. Chama a atenção também a janela de tempo do processo: a oferta foi publicada em 29 de julho às 21h e o prazo para apresentação de propostas se encerrou em 31 de julho às 8h, um intervalo de menos de 36 horas, o que reforça o caráter apressado da tramitação nas últimas semanas do governo Petro.

Valores e cronograma de entrega
De acordo com os documentos obtidos pela Caracol Radio, cada aeronave está avaliada em mais de US$ 159 milhões, totalizando US$ 319.915.860 pelas duas unidades. Os US$ 46,5 milhões restantes da proposta cobrem equipamentos adicionais, treinamento, suporte logístico e outros elementos necessários à operação. Os documentos estipulam ainda um pagamento adiantado de US$ 182.872.498, a ser desembolsado entre 2027 e 2028, conforme o cronograma financeiro do contrato, com os pagamentos restantes condicionados à fabricação e entrega das aeronaves e de seus equipamentos associados. Os preços foram descritos como fixos e imutáveis durante toda a execução do contrato.
Segundo o cronograma obtido pela emissora, a primeira aeronave deverá ser entregue antes de 30 de outubro de 2029, e a segunda, antes de 30 de novembro de 2030. O contrato prevê ainda o treinamento inicial de pilotos e pessoal técnico da FAC, suporte logístico por 24 meses, equipamentos de apoio em solo e o transporte da primeira aeronave das instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no Brasil, até a Base Aérea de CATAM, em Bogotá.
Reabastecimento em voo e uso humanitário
Um dos pontos centrais da oferta é que a primeira aeronave será configurada para realizar reabastecimento em voo, por meio da instalação de sistemas sob as asas, um tanque auxiliar, câmeras e outros equipamentos que permitirão o fornecimento de combustível a outras aeronaves durante operações, entre elas os caças Gripen E/F que a Colômbia também adquiriu da sueca Saab. A mesma unidade incorporará um pacote de sistemas de contramedidas para aumentar sua proteção. As duas aeronaves serão equipadas com comunicações via satélite, rádios militares seguros e sistemas de navegação avançados.
O KC-390 também poderá ser empregado em missões humanitárias e de evacuação aeromédica. A oferta inclui 74 macas, com sistema de empilhamento, o que permitirá adaptar a aeronave para o transporte simultâneo de dezenas de pacientes em emergências ou desastres, uma capacidade relevante para um País marcado pela Cordilheira dos Andes, por extensas áreas amazônicas e por regiões com infraestrutura aeroportuária limitada.
O impasse dos sistemas israelenses
A negociação segue esbarrando em uma questão política sensível para o governo Petro. Segundo o Infodefensa, determinadas configurações do KC-390 incorporam sistemas desenvolvidos pela indústria israelense, entre eles o sistema de missão da aeronave, criado pela Elbit Systems por meio de sua subsidiária brasileira AEL Sistemas, responsável por elementos críticos da cabine, incluindo os sistemas de visualização e o Head-Up Display (HUD). A configuração também pode integrar suítes de autoproteção e guerra eletrônica de origem israelense, entre elas sistemas Dircm (Directional Infrared Countermeasures), dispensadores de contramedidas (CMDS) e pods de guerra eletrônica ativa (AECM), o que colide com restrições que o próprio Petro impôs à aquisição de equipamentos de origem israelense.
Uma compra fechada às pressas na transição de governo
O avanço do negócio ocorre em um momento politicamente delicado. A Colômbia atravessa o processo de empalme (transição institucional) entre o governo de Gustavo Petro e o do presidente eleito, Abelardo De la Espriella, ainda não empossado. O comitê de transição designado pelo mandatário eleito suspendeu sua participação no processo em 7 de julho de 2026, após atritos com a equipe de Petro, o que levou vários ministérios, entre eles o da Defesa, a manter as reuniões previstas e a deixar prontos os relatórios de gestão diante de cadeiras vazias reservadas aos delegados do novo governo.
Segundo relatos reproduzidos em fóruns especializados em defesa colombianos, um informe de empalme do Ministério da Defesa, sob o comando do ministro Pedro Sánchez, alertaria para a necessidade de concluir o processo de compra dos KC-390 ainda durante a atual gestão, o que tem gerado debate sobre a conveniência de fechar um contrato dessa magnitude sem mecanismo de financiamento plenamente assegurado antes da posse do governo entrante. Não há, até o momento, confirmação oficial de assinatura do contrato.
Peça de um rearmamento mais amplo
A eventual chegada do KC-390 se soma a uma renovação mais ampla da aviação militar colombiana, que também inclui a aquisição de 17 caças Gripen E/F, da Saab, em substituição aos veteranos Kfir, de origem israelense. Caso o contrato seja formalizado, a Colômbia se tornará mais um operador do C-390 Millennium, que já opera ou foi selecionado por Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Coreia do Sul, Suécia, Eslováquia, Emirados Árabes Unidos, Lituânia e Uzbequistão, além do Brasil. 
O mesmo movimento de renovação de frotas de transporte tático alcança outros países da região, caso do Chile, cujo presidente José Antonio Kast já sinalizou publicamente interesse pela aeronave, e de Marrocos, cuja negociação avançada prevê a compra de cinco unidades em um contrato estimado em mais de US$ 600 milhões.

Kolibri Beteiligung confirma aquisição de cinco Embraer E190 pela German Airways

Financiamento das aeronaves foi fechado dentro do limite previsto pelo bônus da holding alemã, mas companhia aérea ainda não divulgou comunicado próprio sobre a operação 



*LRCA Defense Consulting - 31/07/2026
A Kolibri Beteiligung GmbH, holding controladora da German Airways GmbH, anunciou nesta quinta-feira (30 de julho de 2026) que a subsidiária concluiu, conforme cronograma previsto, a aquisição e o financiamento de cinco aeronaves regionais Embraer E190. O comunicado foi publicado às 20h50 (horário local) no site da Deutsche Börse, na condição de divulgação de informação privilegiada exigida pelo artigo 17 do MAR (Market Abuse Regulation), o regulamento europeu de abuso de mercado.
A operação está diretamente ligada ao bônus corporativo garantido emitido pela Kolibri em 13 de fevereiro de 2026 (Nordic Bond, ISIN NO0013461384), negociado no mercado livre (Free Market) das bolsas de Dusseldorf, Frankfurt, Hamburgo, Hanôver, Stuttgart e na Tradegate BSX. Segundo a Kolibri, o financiamento das cinco aeronaves foi fechado com um parceiro especializado em financiamento de aeronaves, em condições de mercado, e permanece integralmente dentro do limite de endividamento financeiro permitido pelas cláusulas do bônus (permitted financial indebtedness). A empresa afirma que as cláusulas contratuais da dívida seguem sendo cumpridas sem alteração.
A German Airways, sediada em Colônia, é a operadora de aviação do grupo logístico Zeitfracht, que reúne as antigas LGW e WDL Aviation sob uma única marca. A frota da companhia opera exclusivamente com o modelo E190, configurado em classe única de 100 assentos, em contratos de wet lease (aluguel de aeronave com tripulação), charter e ACMI (Aircraft, Crew, Maintenance and Insurance) para companhias como KLM Cityhopper, easyJet, Finnair e LOT Polish Airlines.
Antes do anúncio de hoje, a frota da German Airways somava nove aeronaves E190, após a incorporação, em janeiro de 2026, de uma unidade adicional (registro D-ABKE), arrendada por três anos junto à britânica Executive Jet Support (EJS), para reforçar o serviço de alimentação (feeder) prestado à companhia de lazer Condor. A aquisição das cinco novas aeronaves, agora financiadas diretamente pela estrutura da Kolibri, indica um novo salto na expansão de frota, cujo objetivo declarado pela direção da companhia é ampliar a estabilidade operacional e sustentar novos contratos de capacidade regional na Europa.
Até a publicação desta matéria, a própria German Airways não havia emitido comunicado institucional sobre a operação; a página de imprensa da companhia (germanairways.com/en/press) seguia com sua última atualização datada de 30 de março de 2026, referente à nomeação de Axel Schefe como diretor de Tecnologia. A ausência de um release próprio da operadora, neste caso, não é incomum: quando a obrigação legal de divulgação recai sobre a holding financeira emissora da dívida, como ocorre aqui com a Kolibri, é ela quem assume o dever de comunicar o fato relevante aos detentores do bônus, ainda que a operação diga respeito à frota da subsidiária aérea.
A matéria foi apurada com base no comunicado oficial da Kolibri Beteiligung GmbH publicado na plataforma da Deutsche Börse, em registros históricos de comunicados da German Airways e em reportagens do setor aéreo europeu sobre a expansão recente da frota da companhia.

30 julho, 2026

Conselho dos Emirados reforça parcerias na Farnborough 2026 e celebra a chegada do C-390

Delegação emiradense liderada pelo secretário-geral Nasser Humaid Al Nuaimi posou ao lado do cargueiro da Embraer durante a feira britânica, em referência ao contrato que tornou os Emirados o maior comprador internacional da aeronave 


*LRCA Defense Consulting - 30/07/2026

Uma delegação do Tawazun Council for Defence Enablement (Tawazun), conselho responsável por fomentar e regular o ecossistema industrial de defesa e segurança dos Emirados Árabes Unidos (EAU), concluiu em 23 de julho uma visita de trabalho ao Reino Unido, realizada à margem da Farnborough International Airshow 2026. Chefiada pelo secretário-geral da entidade, Dr. Nasser Humaid Al Nuaimi, a comitiva cumpriu uma agenda de reuniões e visitas técnicas voltada a ampliar a cooperação industrial e tecnológica do país e a construir parcerias de alto valor para o setor.

Reuniões em Londres
Segundo comunicado da agência de notícias oficial dos Emirados, a WAM, a programação incluiu conversas com o diretor nacional de armamentos do Reino Unido, com foco no fortalecimento da parceria bilateral de defesa e no alinhamento de prioridades industriais entre os dois países. Al Nuaimi também se reuniu com representantes de empresas e organizações internacionais do setor, entre elas a MBDA, a RTX, a BAE Systems, o UK Defence Solutions Centre e a Enterprise Gateway.

As discussões trataram de tecnologias avançadas de defesa, sistemas de defesa aérea e pesquisa e desenvolvimento, além de temas como transferência de conhecimento, capacitação de talentos nacionais e localização de tecnologias e cadeias de suprimentos consideradas prioritárias para o país.

Em nota, o diretor executivo de estratégia e assuntos executivos da Tawazun, Khalifa Ayada Al Hameli, afirmou que a participação na Farnborough International Airshow reflete a estratégia de longo prazo dos Emirados de construir parcerias internacionais baseadas na troca de conhecimento, na formação de talentos e na localização de tecnologias e cadeias de suprimentos, com o objetivo de reforçar a sustentabilidade da base industrial de defesa do país.

A foto ao lado do C-390
O registro que ilustra o comunicado da WAM mostra a delegação do Tawazun posando em frente a um C-390 Millennium da Embraer estacionado no pátio da feira britânica. Ao lado de membros da tripulação, a comitiva emiradense surge alinhada diante da aeronave, que exibe bandeiras de diferentes países junto à porta dianteira, um gesto simbólico que reforça a importância atribuída pelos Emirados à aquisição do cargueiro brasileiro para a defesa do país.

A imagem reforça, no plano simbólico, o vínculo já firmado no campo contratual entre o Tawazun e a Embraer em torno do C-390, hoje o maior programa de exportação da aeronave para um único país.

O contrato que tornou os EAU o maior cliente do C-390
A visita à Farnborough ocorre menos de três meses depois de o Tawazun assinar, em 4 de maio, o maior contrato internacional já firmado para o C-390 Millennium. O acordo, celebrado durante o evento Make it in the Emirates 2026, em Abu Dhabi, prevê a compra de dez aeronaves firmes e opção de mais dez unidades para a Força Aérea e Defesa Aérea dos Emirados, o que representa também a primeira venda do cargueiro no Oriente Médio.

O contrato foi assinado por Al Nuaimi e por Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança, na presença do vice-presidente e vice-primeiro-ministro dos Emirados, xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, e do presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto. O acordo prevê ainda o desenvolvimento de capacidades locais de manutenção, reparo e revisão (MRO) em parceria com uma empresa de defesa emiradense, em linha com a política de conteúdo local que orienta a atuação do Tawazun.

Caso todas as opções sejam exercidas, a frota emiradense de C-390 poderá superar em número a do próprio Brasil, país de origem da aeronave. Para o Tawazun, a seleção do C-390 seguiu uma avaliação técnica e operacional que incluiu testes em condições ambientais equivalentes às do Golfo, e a aeronave é vista pela entidade como peça central para modernizar a capacidade de transporte aéreo militar do país nas próximas décadas.

29 julho, 2026

FNAC amplia para R$ 13,56 bilhões o crédito destinado às companhias aéreas

BNDES ficará responsável por avaliar a liberação dos recursos, que devem beneficiar GOL, LATAM, Azul e Abaeté, e podem impulsionar indiretamente a demanda por aeronaves da Embraer

 

*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026

O Comitê Gestor do Fundo Nacional de Aviação Civil (CG-FNAC) aprovou, em 22 de junho, a ampliação do acesso das companhias aéreas brasileiras a duas linhas de crédito que somam R$ 13,56 bilhões. O valor é mais de três vezes superior aos R$ 4 bilhões previstos originalmente para o fundo e representa, segundo o Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor), o maior pacote de crédito já estruturado com recursos do FNAC para o setor. 

Apesar da aprovação do comitê, a contratação ainda depende de análise técnica do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que avaliará risco de crédito, capacidade de pagamento e garantias de cada companhia antes de liberar os valores.

A primeira modalidade é uma linha emergencial de capital de giro, no valor de R$ 8 bilhões, criada pela Resolução CMN nº 5.297/2026. Gol, Latam Airlines Brasil e Azul poderão captar até R$ 2,5 bilhões cada uma, enquanto a Abaeté terá acesso a até R$ 80 milhões. As operações têm prazo de até 60 meses, juros de 4% ao ano e carência de até 12 meses para início do pagamento. Como contrapartida, as empresas que aderirem à linha ficam proibidas de distribuir dividendos a acionistas durante o período de vigência dos contratos.

A segunda modalidade, prevista na Resolução CMN nº 5.260/2025, disponibiliza R$ 5,56 bilhões para investimentos de longo prazo, com até R$ 1,8 bilhão para cada uma das três grandes companhias. Os recursos dessa linha, com juros entre 6,5% e 7,5% ao ano a depender do investimento, podem ser usados na aquisição de aeronaves, modernização de frota, manutenção, compra de combustível sustentável de aviação (SAF) e obras de infraestrutura aeroportuária. Como condição, as aéreas participantes precisam ampliar a oferta de voos para regiões consideradas estratégicas para a integração nacional, como a Amazônia Legal e o Nordeste.

A ampliação do pacote de crédito responde ao aumento dos custos operacionais do setor aéreo brasileiro, em especial com o querosene de aviação (QAV), item que passou a representar quase 45% das despesas das companhias em razão dos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo. Para o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, as linhas de crédito garantem condições para que as empresas sigam investindo em suas operações e fortalecendo a conectividade aérea em todas as regiões do País.

Benefício indireto à Embraer
O financiamento aprovado pelo CG-FNAC não se destina diretamente à Embraer; o benefício direto é das próprias companhias aéreas, e não da fabricante. Ainda assim, o efeito sobre a Embraer tende a ser positivo por via indireta: Gol, Latam e Azul, principais beneficiárias da linha de investimento de longo prazo, são clientes da fabricante brasileira e têm pedidos e negociações em curso para aeronaves da família E-Jets E2, o que faz da nova disponibilidade de crédito um fator que pode sustentar ou ampliar essa demanda. 

A ampliação do FNAC é distinta de outros movimentos recentes do BNDES em relação à Embraer, como o financiamento de R$ 279 milhões aprovado em abril para projetos de inovação da companhia, no âmbito do programa BNDES Mais Inovação, e as linhas Exim Pós-Embarque usadas para viabilizar a exportação de aeronaves a clientes internacionais.

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