Segundo o Estadão, o Ministro José Múcio obteve aval de Lula para acordo que tornaria o obuseiro israelense montado no Brasil; AEL Sistemas negocia com a Avibras Aeroco e o sistema PULS, da Elbit, entra no pacote; comandante do Exército visitou as 18 unidades fabris de Jacareí em 1º de julho; inauguração oficial do complexo foi adiada a pedido da Presidência
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| ATMOS 2000 |
*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026
A AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, está negociando com a Avibras Aeroco um acordo que pode finalmente destravar a licitação bilionária por meio da qual o Exército Brasileiro pretende adquirir 36 viaturas blindadas de combate obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR). A informação é da coluna do jornalista Marcelo Godoy, publicada nesta segunda-feira (7) pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Segundo a coluna, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, obteve do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o sinal verde para o acordo, que tornaria o ATMOS 2000 "100% nacional", expressão que traduz o enquadramento político da solução, não uma realidade industrial estrita, já que o obuseiro em si é produto israelense. A ideia é que a Avibras Aeroco, que retomou as operações em seu complexo de Jacareí (SP) após aporte de R$ 300 milhões de um grupo de investidores que inclui os irmãos Joesley e Wesley Batista, seja responsável pela montagem e integração local do sistema.
Licitação vencida, contrato suspenso
O ATMOS 2000, montado sobre
chassi Tatra T-815 6×6, venceu em abril de 2024 a licitação internacional
RFP/RFT COLOG nº 01/2023, superando o Zuzana 2 (Excalibur International,
Tchéquia), o CAESAR (KNDS, França) e o SH-15 (Norinco, China). O valor estimado
do contrato é de cerca de US$ 210 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão ou 180 milhões de euros, dependendo da cotação). A escolha foi considerada
tecnicamente superior em desempenho, alcance, precisão e proposta de
transferência de tecnologia.
O contrato, no entanto, foi suspenso ainda em 2024. O PT e aliados entendiam que a compra poderia contribuir indiretamente para o esforço de guerra israelense na Faixa de Gaza. Apesar do aval técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), que em dezembro de 2024 rejeitou a medida cautelar da KNDS contra o resultado, e do visto político que o próprio Lula havia dado à compra original, as negociações permaneceram paralisadas. Como escreveu Godoy, parte do governo parecia seguir o ensinamento de Hans Morgenthau: as Forças Armadas são instrumento da política externa, não o seu senhor.
A Avibras como chave política e industrial
A solução desenhada pelo
ministério serve a dois objetivos simultâneos. O primeiro é político: associar
uma empresa brasileira de grande porte ao projeto reduz o peso simbólico da
compra israelense e oferece ao governo uma narrativa de fortalecimento da indústria
nacional. O segundo é industrial: a Avibras Aeroco, dona do maior complexo
fabril de defesa da América Latina, com 2,7 milhões de metros quadrados e 18
unidades fabris encravadas na Serra do Mar, perto da Rodovia dos Tamoios, já
opera o chassi Tatra, o mesmo utilizado no ASTROS II e previsto para o ATMOS.
Em 1º de julho, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, acompanhado do comandante do Sudeste, general Ricardo Piai Carmona, e dos generais Everton Pacheco da Silva (Escritório de Projetos do Exército), Erb Lyra Leal (Departamento de Ciência e Tecnologia), Marcelo Lorenzi Zucco (2ª Divisão de Exército) e Evandro Luís Amorim Rocha (Aviação do Exército), visitou todas as unidades fabris do complexo de Jacareí. Embora o tema do ATMOS não tenha sido tratado diretamente na visita, a coluna do Estadão informa que a alternativa de nacionalização da montagem já é objeto de "conversas iniciais" entre a Força Terrestre, a Avibras Aeroco e a Elbit/AEL. Entre os generais, a solução é vista positivamente como vetor de desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID).
A empresa hoje conta com 500 funcionários, cerca de um terço do efetivo de quando operava a pleno vapor, e deve entregar os primeiros dois lotes de munições ao Exército ainda em 2026. A Avibras Aeroco trata o tema do ATMOS com cautela, tanto por razões empresariais quanto políticas, já que está em fase inicial de retomada.
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| Sistema PULS |
O PULS e a artilharia de precisão integrada
O pacote negociado vai além do
obuseiro. Segundo a coluna do Estadão, a AEL Sistemas pode oferecer à Avibras
Aeroco também o sistema de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis Precise
& Universal Launching System (PULS), desenvolvido pela Elbit. O PULS é
uma plataforma de alta precisão e flexibilidade, capaz de disparar diferentes
tipos de munições: foguetes não guiados, foguetes guiados e mísseis balísticos
de teatro (TBMs - projéteis de curto e médio alcance projetados para atingir alvos dentro de um "teatro de operações" militar específico) a partir de uma mesma unidade de lançamento.
Tanto o ATMOS quanto o PULS podem ser montados sobre o chassi Tatra, o mesmo utilizado pela Avibras no ASTROS II. Segundo oficiais do Exército ouvidos pela coluna, essa compatibilidade abre caminho para uma evolução natural do ASTROS, com ganho expressivo de capacidade de fogo de precisão a longa distância. A integração simplificaria também a cadeia logística da Força Terrestre, que já opera e mantém o chassi tcheco.
É por meio do ASTROS que a Avibras Aeroco planeja lançar o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de até 450 km e previsto para teste em novembro de 2026, e o futuro Míssil Tático Balístico (S+100), de natureza hipersônica. A eventual incorporação do PULS ao mesmo sistema de lançamento criaria uma plataforma de fogo de precisão que abrangeria desde foguetes não guiados até mísseis de teatro.
O contexto que pressiona por uma decisão
A urgência em torno do programa
vai além do impasse político com Israel. O Exército Brasileiro opera hoje
obuseiros com projetos de cerca de 70 anos. O general Tomás Paiva tem reiterado
publicamente a necessidade de modernização da artilharia divisionária diante do
novo cenário geopolítico, citando os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio
como demonstração da centralidade do fogo de precisão, dos drones e dos mísseis
no campo de batalha moderno. Na sexta-feira (4), o general reafirmou à coluna
do Estadão com síntese direta: "Nós queremos drones."
No SSNTFT 2026, realizado em Brasília em 27 de maio, o mesmo general havia rompido com décadas de discurso oficial ao afirmar: "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça." Dias antes, o ministro Múcio, em encontro reservado com representantes da BID, havia sido ainda mais contundente: "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa."
É nesse ambiente que a solução Elbit/AEL/Avibras ganha tração. A perspectiva de um acordo de paz no Oriente Médio, somada à nacionalização da montagem, oferece ao governo Lula uma saída que preserva a escolha técnica do Exército sem o custo político de um contrato direto com empresa israelense em plena guerra. Para a BID brasileira, representa a possibilidade de que o maior programa de artilharia do Exército em décadas ancore capacidade produtiva real em território nacional.
Próximos passos... e um adiamento que fala por si
As conversas entre Exército,
Avibras Aeroco e Elbit/AEL estão em estágio inicial. Não há anúncio oficial de
contrato assinado. O desfecho depende da conclusão das negociações entre as
empresas, da formalização do aval presidencial em instrumento contratual e,
possivelmente, da evolução do quadro diplomático no Oriente Médio.
Nesse contexto, um detalhe da agenda chama atenção. A inauguração oficial do complexo de Jacareí, originalmente marcada para 2 de julho de 2026, foi adiada com poucos dias de antecedência a pedido formal da Presidência da República, para permitir a participação de autoridades do governo federal.
A justificativa oficial é protocolar. Mas a coincidência com o momento em que o sinal verde presidencial para o acordo ATMOS/Avibras acaba de ser dado, segundo a coluna do Estadão, abre uma leitura alternativa, além de uma possível injeção de novos recursos e da mera capitalização política do evento: o governo pode preferir que a cerimônia ocorra já num estágio mais avançado ou formalizado das negociações, transformando a inauguração num marco político de peso, não apenas para a Avibras Aeroco, mas para o próprio governo Lula, que teria, enfim, uma narrativa de solução para um impasse que se arrasta há mais de dois anos.



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