Da crise da Avibras ao surgimento de novos players, o
país acumula projetos de mísseis de longo alcance que podem redefinir sua
postura estratégica
*LRCA Defense Consulting - 17/04/2026
Numa base aérea brasileira cujo nome não foi divulgado, um
motor a jato de fabricação nacional quebrou o recorde de distância em voo. O
feito, anunciado discretamente pela Turbomachine, empresa de São José dos
Campos, passou longe dos noticiários gerais. Mas para quem acompanha a
indústria de defesa brasileira, o significado era claro: o coração propulsor
dos mísseis de cruzeiro do Brasil havia acabado de provar que funcionava.
Era apenas mais um capítulo de uma história que avança em
silêncio há décadas e que, em 2026, entrou em fase de aceleração sem
precedentes.
O Brasil está construindo, simultaneamente e em diferentes
estágios de maturidade, um arsenal de mísseis de longo alcance que abrange
desde um míssil de cruzeiro a 90% de conclusão até projetos hipersônicos
capazes de voar a Mach 6. No centro dessa transformação estão três empresas que
o público em geral mal conhece: Avibras, SIATT e Mac Jee. E surgindo na periferia
desse ecossistema, duas outras: Plasma Hub e, como fornecedora transversal de
propulsão, a própria Turbomachine.
A Avibras e o "Matador": vinte e cinco anos
esperando o último disparo
A história começa em 1999, com uma Avibras em plena atividade e a primeira concepção de um míssil de cruzeiro nacional. O desenvolvimento oficial teve início em setembro de 2001, mas os anos seguintes foram de reformulações profundas: as asas retráteis foram removidas, materiais compostos incorporados, o projeto inteiramente refeito. Em 2012, o Exército Brasileiro assinou o contrato de encomenda e investiu US$ 100 milhões na fase de desenvolvimento. O míssil ganhou o apelido de "Matador".
Hoje, em 2026, o Matador ainda não entrou em serviço. Mas está mais perto do que nunca: 90% do desenvolvimento está concluído, aguardando apenas a campanha de tiros de certificação, etapa que requer a Avibras em plena operação.
Tecnicamente, o AV-TM 300 é um projétil de engenharia aeronáutica sofisticada. Voa a cerca de mil km/h em perfil rasante, mantendo altitude de aproximadamente 800 metros e acompanhando o relevo do terreno para dificultar a detecção por sistemas antiaéreos. Seu alcance declarado é de 300 km, com precisão de até 30 metros. O motor de cruzeiro é uma variante do turbojato TJ-1000, desenvolvido pela Turbomachine e produzido pela Avibras sob acordo de licença de fabricação. Há duas versões de ogiva: uma auto-explosiva de até 200 kg e uma múltipla com 66 submunições.
O alcance declarado de 300 km, porém, não é o limite técnico... é o limite político. O Brasil é signatário do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), que restringe a exportação de projéteis com alcance superior a essa distância. Para uso interno, o gerente do Programa Astros 2020 declarou a jornalistas que o AV-TM 300 tem "muito mais que 300 km de alcance; quantos forem necessários à defesa do Brasil".


O segredo que escapou num vídeo
O desdobramento mais revelador da história do Matador foi a versão aerolançável, o MICLA-BR - Míssil de Cruzeiro de Longo Alcance. Em março de 2019, o jornalista Roberto Caiafa recebeu uma dica: um caça F-5EM Tiger II da Base Aérea de Canoas havia sido fotografado carregando, no cabide central, um artefato alaranjado de grandes proporções. A Força Aérea silenciou. Meses depois, foi o próprio Ministério da Defesa que entregou o segredo: no vídeo comemorativo dos 100 dias do governo Bolsonaro, aos cinco minutos e cinco segundos, lá estava a imagem do teste.
A confirmação oficial veio em 24 de setembro de 2019, quando o Major-Brigadeiro Sérgio Roberto de Almeida, chefe da Sexta Subchefia do EMAER, apresentou ao Congresso Nacional os 18 projetos estratégicos da FAB. O MICLA-BR foi descrito como "o sexto projeto estratégico da Força Aérea, um projeto de grande porte que equaliza o Brasil militarmente com outros países que possuam esta capacidade". Segundo o slide exibido, trata-se de um míssil de cruzeiro com 300 km de alcance, com propulsão por motor a reação, para lançamento por plataformas aéreas e de superfície, equipado com navegação inercial/GPS e redundância por correlação de imagem. Dependendo da missão, o MICLA-BR pode carregar sensor infravermelho, radar de acompanhamento do terreno ou radar de abertura sintética (SAR).
Em novembro de 2020, FAB e Avibras formalizaram a parceria com um Memorando de Entendimento, no qual o então Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, definiu o projeto como "um dos mais importantes" dos programas estratégicos da Força. A destinação era clara: armar os caças F-39 Gripen que a FAB começava a receber.
A versão aerolançável tem diferenças técnicas importantes em relação ao AV-TM 300 terrestre. Como o lançamento ocorre a partir de uma aeronave já em velocidade e altitude, o booster de propulsão sólida, necessário para ejetar o míssil do lançador terrestre, torna-se dispensável. Isso simplifica o projeto e potencialmente amplia o alcance efetivo. Com o F-39 Gripen armado com o MICLA-BR e apoiado pelo reabastecimento em voo do KC-390, a FAB teria condições de atingir qualquer alvo estratégico no continente sul-americano ou na costa atlântica africana, uma capacidade de dissuasão sem precedentes na história das Forças Armadas brasileiras.
O programa, porém, também foi vítima da crise da Avibras. Com a empresa em recuperação judicial e a produção paralisada por três anos, o desenvolvimento perdeu tração.
A virada veio neste mês de abril de 2026. Joesley Batista, controlador da J&F, a holding que comanda a gigante JBS, assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito para financiar a reestruturação. Com o acordo trabalhista homologado, a previsão é de que a fábrica retome as operações em maio, chegando a 200 funcionários, 500 em junho e mais de mil à medida que novos contratos forem fechados. A prioridade imediata é concluir a campanha de tiros do Matador, desbloqueando também o caminho para a versão aérea.
Além do MTC-300 e do MICLA-BR, o Exército quer ainda o S+100, um míssil balístico tático que aproveitará o conhecimento acumulado no foguete SS-80 do sistema ASTROS, com compatibilidade garantida com os lançadores existentes. Enquanto o míssil de cruzeiro voa rasante e subsônico, o balístico segue trajetória parabólica de alta altitude, atingindo velocidades muito maiores na fase terminal, o que dificulta a interceptação. A combinação dos dois sistemas dentro da plataforma ASTROS, rebatizada de "Fogos", daria ao Brasil uma capacidade de dissuasão em múltiplas camadas sem paralelo na América do Sul.
O "Matador" e o MICLA-BR aguardam seu último disparo. Ambos dependem de que as luzes da fábrica em São José dos Campos finalmente voltem a se acender e, desta vez, para não mais se apagarem.
A SIATT e o "easter egg": o segredo que escapou numa foto
Se a Avibras é a veterana em crise, a SIATT é a ascendente
em expansão acelerada. Fundada há dez anos, a empresa de São José dos Campos
foi adquirida em 50% pelo Grupo EDGE, conglomerado de defesa de Abu Dhabi que
já investiu cerca de R$ 3 bilhões no Brasil. Em setembro de 2025 inaugurou
nova sede com 6.000 m², consolidando laboratórios, engenharia e produção num
único campus.
Em março de 2026, uma publicação aparentemente rotineira no
LinkedIn da SIATT (foto abaixo) gerou ondas no setor. O jornalista e analista Angelo
Nicolaci, ao examinar a imagem compartilhada pela empresa, identificou um
míssil que não constava em nenhum catálogo oficial (na foto a seguir, à esquerda, em cima). Fontes próximas ao
desenvolvimento confirmaram ao jornalista: trata-se de um novo sistema em versões com alcance
estimado entre 500 km e 1.000 km, categoria equivalente ao Tomahawk americano.
A empresa já teria realizado uma prova de conceito com voo de teste de aproximadamente
120 km.
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| Imagem divulgada pela SIATT |
A revelação tem dimensão estratégica que vai além do Brasil.
O Grupo EDGE, que no Dubai Airshow 2025 lançou 42 novos produtos em um único
dia, não possui em seu portfólio nenhum míssil com alcance próximo ao do
Tomahawk. Seu sistema mais avançado, o WSM-1, alcança apenas 290 km. Um míssil
com DNA brasileiro e alcance entre 500 e 1.000 km preencheria uma lacuna
crítica para um conglomerado que hoje vende para mais de 50 países.
No portfólio confirmado, a SIATT já opera sistemas
relevantes: o MANSUP, míssil antinavio desenvolvido com a Marinha do
Brasil, com alcance de 70 km; o MANSUP-ER, versão estendida com alcance de 200 km; e o sistema
anticarro MAX 1.2, contratado pelo Exército e pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Em
fevereiro de 2026, a Marinha assinou protocolo de intenções para o
desenvolvimento do MARSUP, versão aérea do MANSUP, para lançamento por
helicópteros e aviões. Na FIDAE 2026, em abril, a SIATT exibiu em tamanho real
o MANSUP e o MAX 1.2 para audiência internacional.
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| Concepções artísticas dos mísseis |
Mac Jee: a empresa que quer fazer tudo
Menos conhecida do que Avibras e SIATT, a Mac Jee se
posicionou nos últimos anos como o player mais ambicioso da nova geração.
Reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa
e sediada no mesmo polo tecnológico de São José dos Campos, a empresa opera com
a menor exposição pública e o portfólio mais diversificado.
Em novembro de 2025, a Mac Jee anunciou a aquisição da
propriedade intelectual exclusiva dos mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, sistemas desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a
FAB. O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, projetado
para neutralizar radares e sistemas de defesa aérea inimigos em operações SEAD (do inglês Suppression of Enemy Air Defenses - Supressão de Defesas Aéreas Inimigas).
O MAA-1B é um míssil ar-ar de curto alcance com guiamento infravermelho
avançado (IIF) e capacidade off-boresight (capacidade de mísseis rastrearem e engajarem alvos localizados fora do eixo central da aeronave).
Os folhetos técnicos revelam dados
precisos: o ARM (evolução do MAR-1) tem alcance de 70 km, peso de 272 kg e
ogiva de 90 kg; o SRAAM (evolução do MAA-1B) tem alcance de 25 km e guiamento
IIR dual-band de 5ª geração.
Mas são os projetos não catalogados que mais chamam a
atenção. A Mac Jee também está desenvolvendo um míssil de cruzeiro com
motor microjato, asas retráteis e lançamento terrestre, concorrendo
diretamente com o MTC-300 num segmento em que a Avibras tem décadas de
vantagem. E um SRBM (Short-Range Tactical Ballistic Missile):
alcance de 300 km, peso de 2.200 kg, comprimento de 6 metros, ogiva de 250 kg,
navegação GNSS/INS e precisão de até 10 metros. Lançado de silos ou plataformas
móveis, com tempo de voo de apenas 5 minutos ao alvo máximo. O artigo da
Infodefensa foi categórico: o SRBM coloca o Brasil como o primeiro país da
América Latina a desenvolver um míssil balístico com capacidades comparáveis ao
MGM-140 ATACMS norte-americano.
No front hipersônico, a Mac Jee é parceira estratégica do
IEAv (Instituto de Estudos Avançados da FAB) no Projeto 14-X, o mais
ambicioso da defesa brasileira. Em dezembro de 2025, os dois firmaram acordo de
36 meses envolvendo cerca de 40 engenheiros para desenvolver o sistema de
propulsão hipersônica. Em 2021, o protótipo já havia atingido Mach 6 e 160 km
de altitude durante a Operação Cruzeiro, no Centro de Alcântara. O investimento
total já passou de R$ 117 milhões. O primeiro voo efetivo está previsto para
2027; a aplicação operacional, para 2030.
A Plasma Hub e o motor do futuro
Entre as novatas do setor, a Plasma Hub se destaca por um
projeto que nenhuma outra empresa brasileira assumiu explicitamente: um míssil
de cruzeiro com alcance superior a 1.000 km, arma estratégica, não
tática.
A empresa, também sediada em São José dos Campos e
reconhecida como EED, foi formada por engenheiros com passagens pela Embraer e
pela Avibras. A solução que a distingue é a parceria com a Turbomachine para
uso do motor TJ-1000, o mesmo que a própria Avibras utiliza sob licença no
MTC-300. Com esse propulsor, a Plasma Hub projeta velocidade de cruzeiro de
aproximadamente 900 km/h e carga útil de 200 kg. O sistema de guiamento
terminal infravermelho promete precisão de 2 metros. O lançamento está previsto para ocorrer de caminhões ou silos fixos.
O analista Roberto Caiafa foi direto ao ponto: se o
fabricante declara "longo alcance" com o TJ-1000, o sistema
necessariamente ultrapassa os 1.000 km. E se ultrapassa os 300 km do MTCR, fica
evidente que o projeto foi concebido tendo o Estado Brasileiro como cliente
exclusivo, pois não pode ser exportado dentro das regras internacionais às
quais o Brasil aderiu.
A Plasma Hub integra ainda o consórcio do ML-BR
(Micro Lançador de Satélites Brasileiro), responsável pela montagem e
integração dos sistemas de bordo, demonstrando a sobreposição intrínseca entre
tecnologia espacial e missilística.
Turbomachine: o motor silencioso de tudo
Por trás de vários desses programas, há uma empresa que
raramente aparece nas manchetes: a Turbomachine. Fundada em 2007 a partir do
CTA/ITA pelo engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, ela nasceu de um desafio
da Petrobras para criar a primeira turbina a gás brasileira. Em 2009, a Avibras
bateu à sua porta para pedir o motor do Matador.
Hoje o TJ-1000 - turbojato de 5.000 N de empuxo, com mais de
600 partidas bem-sucedidas e mais de 100 horas de operação acumulada - é
classificado como Produto Estratégico de Defesa (PED) e integra ou está em
negociação com quase todos os programas de mísseis do país. Em novembro de
2024, a Turbomachine anunciou outro marco: seu turbofan de baixa razão de
bypass, o primeiro desenvolvido no hemisfério sul, alcançou 25 mil RPM com
estabilidade operacional.
A confirmação do interesse governamental no trabalho da
empresa veio no final de março de 2026, quando representantes do Ministério da Defesa,
do MCTI e da ABIN visitaram suas instalações durante a semana de apresentação
do PRONABENS (Programa Nacional de Integração Estado-Empresa na Área de Bens
Sensíveis). A presença simultânea dos três órgãos, incluindo o órgão de inteligência
nacional, não passou despercebida: indica que o TJ-1000 e seus derivados são
acompanhados ao nível de tecnologia sensível classificada.

Quadro estratégico: o que está em jogo
Somados, os projetos em curso desenham um Brasil
missilístico que não existia há uma década. Na camada de alcance médio (até 300
km), o MTC-300 da Avibras e o míssil de cruzeiro da Mac Jee competem pelo mesmo
espaço, com o primeiro em fase de conclusão e o segundo em desenvolvimento. Na
camada longa (300–1.000 km), o míssil ainda não confirmado da SIATT (se chegar
ao mercado) colocaria o Brasil numa categoria de pouquíssimos países. Na
camada estratégica (mais de 1.000 km), o projeto da Plasma Hub aponta para um
sistema sem precedentes na América do Sul. E na fronteira hipersônica (Mach
5+), o 14-X da Mac Jee com a FAB aguarda seu primeiro voo real em 2027.
O contexto não poderia ser mais favorável. A Lei
Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$
30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal. O orçamento do
Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. A indústria que quase perdeu sua
principal empresa agora dispõe (em princípio) de capital, legislação e demanda que não tinha.
A pergunta que fica é a do jornalista especializado Roberto Caiafa ao
contemplar a Plasma Hub, e que serve para todo o setor: as Forças Armadas
demonstrarão interesse pelos projetos? Investirão os recursos necessários para
transformar protótipos e conceitos em armas operacionais?
A Avibras esperou 25
anos pelo último disparo do Matador. O Brasil pode não ter esse tempo no mundo
que está se formando.