Pesquisar este portal

24 julho, 2026

Grécia: KYSEA aprova contratos do C-390 e do Escudo de Aquiles e fecha o maior pacote de defesa do país

Conselho de Segurança Nacional grego referendou em 23 de julho a compra dos três C-390 por EUR 597 milhões, inserida num programa de modernização de EUR 4,3 bilhões presidido pelo sistema antimíssil israelense; ministro Dendias confirma que entregas do cargueiro da Embraer começam em 2027


*
LRCA Defense Consulting - 25/07/2026

A Grécia deu nesta quinta-feira, 23 de julho, o último passo institucional que faltava para transformar intenção em contrato: o Conselho de Governo para Assuntos Externos e Defesa Nacional (KYSEA), reunido no Palácio Maximos sob a presidência do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis, aprovou os contratos de um pacote de aquisições de defesa avaliado em aproximadamente EUR 4,3 bilhões. O ministro da Defesa, Nikos Dendias, apresentou os programas e confirmou as decisões em entrevista coletiva ainda na tarde de quinta-feira.

Entre os itens aprovados estão os três Embraer C-390 Millennium — programa avaliado em EUR 597,5 milhões e que, desde a aprovação parlamentar de 10 de junho, aguardava o referendo do KYSEA para ter força contratual plena. A compra será executada por acordo governo a governo com Portugal, com a primeira aeronave prevista para 2027 e a última para 2030. Dendias confirmou que os aparelhos também terão capacidade de reabastecimento aéreo.

O Escudo de Aquiles: o centro de gravidade do pacote
A peça principal do programa aprovado pelo KYSEA é o sistema de defesa multicamadas batizado de Escudo de Aquiles, avaliado em até EUR 3,5 bilhões e construído em torno de tecnologia israelense. Rafael e Israel Aerospace Industries (IAI) fornecerão os componentes centrais: o sistema Spyder, o Barak MX e uma versão do David's Sling para defesa antibalística. Os três sistemas serão integrados por uma camada de comando e controle desenvolvida pela indústria de defesa grega, que participará do programa com EUR 700 milhões em contratos locais — ou seja, 25% do valor total.

"Estará pronto e totalmente operacional em 35 meses a partir de hoje", disse Dendias. O sistema substituirá e complementará as baterias Patriot americanas e os vetustos S-300 russos que hoje compõem o escudo aéreo grego, integrando-se à rede de sensores e armas que inclui as futuras fragatas FDI Belharra, os F-16 Viper modernizados e os até 40 caças F-35 previstos para aquisição nos próximos anos.

Os demais programas aprovados pelo KYSEA
Além do Escudo de Aquiles e dos três C-390, o KYSEA referendou em 23 de julho outros sete programas. A compra de dez veículos submarinos VICTA da britânica SubSea Craft, ao custo de EUR 145 milhões, equipará as Forças de Operações Especiais com plataformas de inserção capaz de operar tanto na superfície quanto submersa, com oito unidades a serem construídas nos estaleiros de Skaramangas e duas no Reino Unido. A aquisição de dez sistemas de drone V-BAT Classe II, da Shield AI, por EUR 71 milhões, provê a Força Aérea e o Exército com capacidade de reconhecimento e designação de alvos em vertical takeoff and landing. Um sistema adicional Heron 1 da IAI, por EUR 40 milhões, reforça a frota de VANTs de longa endurance da Força Aérea Helênica, que já opera um sistema do tipo. 

A modernização antisubmarina das quatro fragatas MEKO-200HN, com sonares de casco M660 da Elbit Systems (subsidiária canadense Geospectrum Technologies), custa EUR 24 milhões. A compra de mísseis anticarro Hellfire AGM-114R2 de guiamento a laser, por EUR 108 milhões via FMF americano, amplia a capacidade ofensiva dos helicópteros de ataque AH-64A+. Microsatélites de radar de abertura sintética (SAR) serão desenvolvidos em parceria com a Polônia, no âmbito do mecanismo europeu SAFE, por EUR 80 milhões. Por fim, EUR 75,6 milhões foram aprovados para binóculos de visão noturna com câmera térmica para a infantaria.

Uma cronologia que se acelerou
O programa C-390 para a Grécia percorreu em sete semanas um caminho que, em outros países, levou anos. Em 22 de maio, a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry (HAI) assinaram um Memorando de Entendimento para o desenvolvimento de capacidades de MRO (Manutenção, Reparo e Revisão) em solo grego, um passo incomum que precedeu a aprovação formal e sinalizou que a decisão política já estava tomada. Em 10 de junho, a Comissão Especial Permanente de Programas e Contratos de Armamentos do Parlamento heleno aprovou o programa com os detalhes financeiros completos: EUR 597.586.682, com custo unitário médio de EUR 157,9 milhões e suporte logístico de EUR 90 milhões separados. Em 23 de julho, o KYSEA aprovou os contratos, encerrando o ciclo de aprovações institucionais.

A velocidade do processo reflete a urgência operacional. Dos 15 C-130 Hercules no inventário da Força Aérea Helênica, apenas cinco estavam operacionais no início de 2026, segundo o portal Defence-Point.gr. A situação levou o governo Mitsotakis a optar pelo mecanismo governo a governo com Portugal para acelerar a contratação, dispensando um processo concorrencial autônomo que poderia levar mais dois anos.

A derrota da Lockheed Martin após cinco décadas
A escolha do C-390 encerrou um monopólio de cinco décadas da Lockheed Martin no mercado de aeronaves de transporte tático da Grécia. O C-130J Super Hercules foi avaliado, assim como o Airbus A400M, mas o Estado-Maior da Aeronáutica heleno concluiu que o C-390 apresenta custo total de ciclo de vida inferior e desempenho superior nas missões prioritárias para a HAF. O C-390 é mais veloz, carrega mais carga e opera com dois motores turbofan IAE V2500 amplamente distribuídos na aviação civil, o que facilita e barateia a manutenção. O portal Pronews.gr, em análise publicada antes da aprovação do KYSEA, citou diferença de até 35% no custo operacional em favor do cargueiro brasileiro.

Há ainda um fator estratégico raramente mencionado nas declarações oficiais, mas registrado pelo MiGFlug e outros portais especializados: a Grécia evita, por princípio, operar os mesmos sistemas que a Turquia, sua rival regional. Ancara emprega uma extensa frota de C-130 e Airbus A400M, o que tornaria a adoção de qualquer uma dessas aeronaves politicamente delicada em Atenas.

O 13º país de um programa em expansão acelerada
Com a aprovação do KYSEA, a Grécia se consolida como o 13º país a selecionar o C-390 Millennium. O programa acumula operadores entre membros da Otan (Brasil, Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Suécia, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul) e expandiu seu alcance geográfico em maio de 2026 com o pedido dos Emirados Árabes Unidos por 20 aeronaves (10 firmes e 10 opções), sua estreia no Oriente Médio. A frota brasileira, com 19 unidades em serviço e mais de 14.000 horas de voo acumuladas, apresenta taxa de disponibilidade superior a 99%.

Para a Embraer, o contrato grego é também um ativo de campanha comercial. A Eslováquia ainda negocia os termos finais para três aeronaves, e a Turquia  (cujo comandante da Força Aérea, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea nº 11 de Beja em maio de 2026) analisa o C-390 como opção para modernizar sua própria frota de C-130. Cada novo operador europeu amplia a rede de MRO, formação e cadeia de suprimentos que torna a plataforma mais atrativa para os seguintes.

O contexto: EUR 28 bilhões e uma nova doutrina
O pacote aprovado pelo KYSEA não é um evento isolado. É o maior salto de um programa de modernização das Forças Armadas gregas que prevê investimentos de EUR 28 bilhões até 2036, o mais ambicioso da história moderna do País. O programa inclui ainda até 40 caças F-35 adquiridos dos Estados Unidos, fragatas FDI Belharra encomendadas à França e corvetas Belh@rra da Itália. A Grécia destina perto de 3,5% do seu PIB à defesa, uma das proporções mais altas entre os membros da Otan, impulsionada pela disputa territorial persistente com a Turquia e pelo novo ambiente de segurança moldado pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.

A aprovação do Escudo de Aquiles e do C-390 no mesmo pacote revela uma doutrina em construção: a Grécia busca simultaneamente a capacidade de negar o espaço aéreo (com o escudo multicamadas israelense) e a capacidade de projetar força e executar missões logísticas e de evacuação além de seu território (com o C-390 em papel de transporte, tanqueiro e medevac). Os dois vetores, defesa e projeção, integram a mesma decisão política.

 

GRÉCIA: CRONOLOGIA E NÚMEROS DO C-390

MoU Embraer / HAI (MRO)

22 de maio de 2026

Aprovação parlamentar

10 de junho de 2026

Aprovação KYSEA (contratual)

23 de julho de 2026

Valor total do contrato

EUR 597.586.682 (incl. retenções de 6%)

Custo das 3 aeronaves

EUR 473.723.440 (média: EUR 157,9 M/unidade)

Suporte logístico inicial

EUR 90.037.580

Mecanismo contratual

Governo a governo com Portugal

Entregas previstas

2027 (1ª aeronave) a 2030 (última)

Capacidade de reabastecimento

Sim (sistema de cesta/basket, confirmado por Dendias)

Contexto orçamentário grego

EUR 28 bilhões em defesa até 2036

Posição no ranking de operadores

13º país a selecionar o C-390

 

Carteira de pedidos da Embraer soma US$ 34,5 bilhões e marca sétimo recorde trimestral consecutivo

Resultado do segundo trimestre de 2026 é puxado por novo pedido na aviação comercial, certificação tripla dos Praetor 500E e 600E e acordo inédito com os Emirados Árabes Unidos para o C-390 Millennium

  

*LRCA Defense Consulting - 24/07/2026

A Embraer registrou uma carteira de pedidos de US$ 34,5 bilhões no segundo trimestre de 2026 (2T26), novo recorde histórico da companhia pelo sétimo trimestre consecutivo. O valor representa alta de 7% em relação ao 1T26 e de 16% na comparação com o mesmo período do ano anterior (2T25). O avanço foi puxado pelas quatro unidades de negócio da fabricante brasileira: aviação comercial, aviação executiva, defesa e segurança, e serviços e suporte.

Desempenho consolidado no trimestre
A Embraer entregou 65 aeronaves no 2T26, entre as quatro unidades de negócio, número 48% maior do que as 44 unidades entregues no 1T26 e 7% acima das 61 entregas registradas no 2T25. No primeiro semestre de 2026 (1S26), a companhia somou 109 entregas, cerca de 20% a mais do que as 91 aeronaves entregues no mesmo período de 2025. O volume representa aproximadamente 42% do ponto médio (248 aeronaves) da guidance anual da companhia para as unidades de aviação executiva e comercial combinadas, fixada entre 240 e 255 aeronaves para 2026, ritmo 8 pontos percentuais acima da média histórica de cinco anos para o período, de 34%. A empresa atribui o desempenho ao avanço de suas iniciativas de nivelamento da produção.

Aviação Comercial
Na aviação comercial, a carteira de pedidos somou US$ 15,1 bilhões no 2T26, alta de 15% ante o 2T25. O resultado foi impulsionado por um novo pedido firme da Azorra, de 15 aeronaves E195-E2, que elevou o programa E2 a mais de 500 encomendas firmes, com clientes em todos os continentes. Durante o Farnborough Airshow, a Embraer revelou que a Fuji Dream Airlines era uma das clientes até então não identificadas por trás de pedidos de E175 já incluídos na carteira, referentes a uma encomenda firme de duas aeronaves feita em 2025.

A unidade de negócio entregou 20 aeronaves no trimestre, uma a mais do que no 2T25, o equivalente a cerca de 24% do ponto médio (83 aeronaves) da guidance anual da divisão, fixada entre 80 e 85 aeronaves para 2026. Com isso, a aviação comercial encerrou o período com uma relação de book-to-bill de 1,8 vez nos últimos 12 meses.

Aviação Executiva
A carteira de pedidos da aviação executiva avançou para US$ 7,8 bilhões no 2T26, 5% acima do nível do 2T25. A perspectiva da unidade foi reforçada pela certificação tripla dos novos modelos Praetor 600E e Praetor 500E, obtida no trimestre junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), à Administração Federal de Aviação (FAA) dos Estados Unidos e à Agência Europeia para a Segurança da Aviação (Easa). Lançadas em fevereiro de 2026, as duas aeronaves têm lançamento comercial previsto ainda para este ano.

A divisão entregou 45 aeronaves no trimestre, alta de 18% sobre as 38 unidades do 2T25, sendo 24 no segmento de jatos pequenos e 21 no de médios. O volume representou cerca de 27% do ponto médio (165 aeronaves) da guidance anual da unidade, entre 160 e 170 aeronaves em 2026, 4 pontos percentuais acima da média histórica de cinco anos para o segundo trimestre, de 23%. A aviação executiva encerrou o período com relação de book-to-bill de 1,1 vez nos últimos 12 meses.

Defesa e Segurança
Em defesa e segurança, a carteira de pedidos atingiu US$ 6,1 bilhões no 2T26, alta de 42% ante o 2T25, impulsionada por um acordo inédito com a Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos para o C-390 Millennium. O contrato prevê 10 aeronaves firmes e 10 opções de compra, a maior encomenda internacional já feita por um único país para o C-390 e marco de entrada da aeronave no mercado do Oriente Médio. Não houve entregas na unidade durante o trimestre. Com isso, defesa e segurança encerrou o período com relação de book-to-bill de 2,6 vezes nos últimos 12 meses.

A Embraer soma atualmente 42 pedidos firmes do transporte militar KC-390 Millennium e 27 do avião de ataque leve A-29 Super Tucano. As escolhas do KC-390 pela Eslováquia (3 unidades) e pela Lituânia (3 unidades) ainda não constam da carteira, por não terem contrato em vigor ou por seguirem em discussão.

Serviços e Suporte
A carteira de serviços e suporte também atingiu patamar recorde no 2T26, de US$ 5,5 bilhões, 12% acima do 2T25. No período, a unidade fechou um contrato de suporte de longo prazo com a Jazz Aviation para adesão ao programa Embraer Collaborative Inventory Planning (ECIP), tornando a companhia canadense, operadora de uma frota de 25 jatos E175, a primeira cliente do programa no Canadá. A Embraer também assinou novo contrato de suporte para a frota de KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira (FAB), cobrindo tanto as aeronaves já em operação quanto as entregas futuras. A unidade encerrou o trimestre com relação de book-to-bill de 1,3 vez nos últimos 12 meses.

Postagem em destaque