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29 julho, 2026
Thales expande hub de radares no Brasil e abre espaço para novas parcerias e aquisições
Coreia do Sul avalia entrar no desenvolvimento de novo avião comercial da Embraer
Presidente sul-coreano defende parceria em programa de aeronaves de maior porte durante visita ao Brasil, mas Governo admite que negociações ainda estão em fase inicial
*LRCA Defense Consulting - 29/07/2026
O Governo da Coreia do Sul afirmou que estuda participar do desenvolvimento de uma nova geração de aviões comerciais da Embraer, buscando ampliar o papel que hoje exerce como fornecedora de peças para a fabricante brasileira. O interesse foi revelado nesta terça feira (28), durante um business roundtable realizado em São Paulo, no âmbito da visita de Estado do presidente Lee Jae Myung ao Brasil, segundo informou o jornal sul-coreano The Korea Herald.
Segundo o chefe da Política Presidencial da Coreia do Sul, Kim Yong-beom, as conversas com a Embraer têm avançado, mas permanecem em estágio muito preliminar: nem a forma da participação sul-coreana, nem os termos comerciais do eventual acordo foram definidos até o momento.
A proposta de cooperação partiu do próprio presidente Lee, que apontou o desenvolvimento conjunto de aeronaves comerciais de nova geração como um dos três eixos prioritários para aprofundar a relação econômica entre os dois países, ao lado da cooperação em minerais críticos e da crescente indústria coreana de cosméticos.
Ideia surgiu
durante inspeção a um C-390
O tema já havia
sido lançado por Lee no domingo (26), ao chegar a Brasília, quando inspecionou
um C-390, aeronave de transporte militar fabricada pela Embraer que a Força
Aérea sul-coreana deve começar a receber ainda neste ano, dentro de um contrato
que já prevê a produção de componentes por empresas coreanas. Na ocasião, o
presidente disse a autoridades brasileiras que os dois países deveriam, no
futuro, construir aeronaves civis juntos, se possível.
Um avião maior
que os jatos regionais atuais
De acordo com
Kim, a Embraer estaria avaliando ampliar seu portfólio para além dos jatos
regionais de 70 a 100 assentos, hoje núcleo de seu negócio comercial, entrando
no segmento de aeronaves de médio porte, com capacidade para 150 a 200
passageiros. É nesse programa, ainda em fase de concepção, que a Coreia do Sul
pretende buscar uma participação mais profunda do que a atual, hoje restrita
majoritariamente ao fornecimento de partes de fuselagem e asas.
A motivação:
ampliar a base industrial aeroespacial coreana
Kim explicou que
a eventual parceria serviria para ampliar a base industrial aeroespacial da
Coreia do Sul, hoje concentrada quase exclusivamente na fabricação de aeronaves
militares pela Korea Aerospace Industries (KAI). Segundo ele, a KAI não pode
permanecer restrita a esse campo, dependente apenas da demanda doméstica por
caças, e precisa expandir tanto na área militar quanto na aviação comercial. O
setor de aviação comercial, os motores aeronáuticos e a indústria espacial
estão conectados, disse Kim, acrescentando que a Coreia do Sul precisa
fortalecer significativamente suas capacidades aeroespaciais.
Empresas já se
movimentam
Durante a viagem,
executivos coreanos se anteciparam ao debate público: Cho Won Tae, presidente
do Hanjin Group, e Kim Jong Chool, presidente da KAI, mantiveram reuniões
individuais com o chairman da Embraer para tratar de uma possível participação
sul-coreana e da ampliação da parceria já existente entre as duas empresas. O
encontro em São Paulo também resultou na assinatura de sete memorandos de
entendimento entre companhias coreanas e brasileiras, entre eles um pelo qual a
KAI se compromete a reforçar sua parceria estratégica com a Embraer.
Kim Yong-beom mencionou ainda conversas em andamento entre a Korean Air e a Embraer, mas o Governo evitou detalhá-las, alegando tratar-se de um estágio ainda inicial das tratativas.
Cautela diante de
um mercado concentrado
O próprio Kim
reconheceu que as empresas avançam com cautela: o mercado global de aeronaves é
dominado por poucos fabricantes, entre eles Airbus e Boeing, e uma eventual
parceria com a Embraer poderia afetar as relações da Coreia do Sul com esses
concorrentes. Ainda assim, o Governo sul-coreano avalia que a Embraer, uma das
três maiores fabricantes de aeronaves comerciais do mundo e importante player
em aviação executiva e defesa, oferece uma oportunidade concreta de expansão na
aviação civil global, caso as condições se mostrem favoráveis.
Uma base de
cooperação que já existe
A eventual
expansão para o campo comercial se apoiaria em uma cooperação industrial já
consolidada entre os dois países. Em 2023, a Coreia do Sul foi selecionada pela
Administração do Programa de Aquisição de Defesa (DAPA) como cliente do C-390
Millennium, no programa Large Transport Aircraft II (LTA II), e
componentes do cargueiro, como partes de fuselagem e asas, já são produzidos
por fornecedores locais como ASTG, EMK e Kencoa Aerospace. Em outubro de 2025,
a Embraer e a DAPA assinaram ainda um memorando de entendimento para aprofundar
a cooperação tecnológica e abrir caminho à participação de empresas coreanas
nas cadeias globais de suprimentos da fabricante brasileira.
Próximos passos
Segundo Kim, o Governo sul-coreano pretende usar
os resultados das conversas da Korean Air e da KAI com a Embraer para desenhar
uma estratégia de participação mais ampla, envolvendo outras empresas e órgãos
oficiais, sob coordenação da Presidência e da Korea AeroSpace Administration.
Após o retorno da comitiva a Seul, disse Kim, o tema será discutido
internamente de forma mais aprofundada, como base para dar sequência às
tratativas com a Embraer.
27 julho, 2026
Delivery no front de combate: drone entrega frango frito da KFC a soldados ucranianos e expõe nova fronteira logística
Bombardeiro Heavy Shot usado pelo 3º Regimento de Operações Especiais da Ucrânia populariza cena inédita e reacende o debate sobre o potencial civil da logística aérea não tripulada testada em combate
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| Imagem real trabalhada com IA |
*LRCA Defense Consulting - 27/07/2026
Um vídeo publicado nos últimos dias mostra soldados do 3º Regimento Separado de Propósito Especial da Ucrânia, unidade conhecida como “Príncipe Sviatoslav, o Bravo”, recebendo em posição de combate uma entrega de comida da rede KFC, embalada em uma sacola da Glovo.
KFC é a sigla de Kentucky Fried Chicken, a rede americana de fast-food fundada por Harland Sanders, especializada em frango frito. É uma das maiores redes de fast-food do mundo, com presença em mais de 140 países, incluindo a Ucrânia, onde segue operando mesmo em meio à guerra.
O transporte, porém, não foi feito por um entregador comum: coube a um drone Heavy Shot, normalmente empregado em missões noturnas de ataque. A cena circulou amplamente em redes sociais e chamou a atenção inclusive de analistas militares como Rob Lee, pesquisador sênior do Foreign Policy Research Institute, tornando-se um ponto de partida para discutir o papel crescente de drones pesados como plataforma logística, e não apenas de combate.
Do bombardeiro ao
entregador
O Heavy Shot é um
drone bombardeiro pesado desenvolvido pela empresa ucraniana Gurzuf Defence. Em
sua configuração usual, a plataforma carrega entre 20 kg e 30 kg de granadas de
morteiro ou outras munições, a distâncias de até 20 km, e vem sendo adotado
pelas Forças Armadas da Ucrânia, pelas Forças de Operações Especiais, pelo
Serviço de Segurança (SBU), pela inteligência de defesa (HUR) e pela Guarda de
Fronteira. No episódio em questão, o mesmo tipo de plataforma que normalmente
lança explosivos foi reprogramado, na prática, para uma missão totalmente
distinta: entregar uma refeição quente a uma posição avançada, num gesto que
mistura humor de guerra, moral de tropa e demonstração de capacidade técnica.
Parte de uma
família, não um caso isolado
O Heavy Shot
integra uma família maior de quadricópteros e hexacópteros pesados que soldados
russos apelidaram de “Baba Yaga”, em referência à bruxa do folclore
eslavo, entre eles o Vampire, fabricado pela SkyFall, e o Kazhan, da Reactive
Drone. O próprio Vampire, com cerca de 30 km de alcance e câmeras térmicas, já
vinha sendo usado não só em ataques mas também na entrega de alimentos e
suprimentos médicos à linha de frente. Casos anteriores incluem até o
transporte de uma bicicleta elétrica para resgatar um soldado cercado, e
reportagens já haviam registrado brigadas de elite ucranianas em que entre 50%
e 80% do reabastecimento das posições mais avançadas passou a depender de robôs
terrestres e multirrotores pesados, e não mais de veículos tripulados.
A explicação para essa mudança é operacional, não estética: analistas como Rob Lee observam que alguns regimentos de assalto e batalhões de operações especiais passaram a empregar drones bombardeiros pesados em apoio direto a pequenas equipes de infantaria, sustentando-as com comida, água, munição e material médico. Com zonas de exclusão de até 20 km monitoradas por drones de ambos os lados, o reabastecimento por caminhão ou viatura tornou-se praticamente inviável em setores críticos como Kostiantynivka e Pokrovsk, obrigando tropas a caminhar longas distâncias carregando tudo de que precisam quando o suprimento aéreo não chega a tempo.
O contraste que
viralizou
Parte do impacto
do vídeo está na leitura simbólica que ele provocou nas redes: usuários
compararam o episódio a relatos anteriores de soldados russos que se rendiam
recebendo comida da rede McDonald's oferecida por forças ucranianas, e alguns
comentários chegaram a evocar, com humor, o paralelo histórico das barcaças de
sorvete usadas pelos Estados Unidos para elevar o moral de tropas no Pacífico
durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma interpretação simbólica
difundida por usuários e comentaristas nas redes, não de um dado operacional
verificável, mas que ajuda a explicar por que a cena ganhou tração fora do
círculo de especialistas em defesa.
Uma vitrine
involuntária: o potencial comercial da tecnologia
Para além do
episódio pontual, o caso funciona como vitrine involuntária de uma tecnologia
com apelo comercial crescente. O mercado global de entregas por drone já é
avaliado em cerca de US$ 5 bilhões em 2026, com projeções de alcançar entre US$
17 bilhões e US$ 21 bilhões até meados da década seguinte, impulsionado
principalmente por comércio eletrônico, farmácias e logística de curta
distância, segundo levantamentos da Fortune Business Insights e da Future
Market Insights. Operadoras civis como Zipline e Wing já entregam pedidos em
janelas de 10 a 30 minutos, mas operam, em geral, em ambientes controlados, sem
interferência eletrônica deliberada.
A diferença do caso ucraniano é justamente essa: plataformas como o Heavy Shot e o Vampire foram validadas em condições extremas de guerra eletrônica, GPS degradado e defesa antiaérea ativa, algo que dificilmente qualquer operação civil de delivery é chamada a enfrentar. Esse amadurecimento técnico forçado pela necessidade militar tende a alimentar, no médio prazo, tecnologias de navegação resiliente e comunicação redundante que podem migrar para aplicações civis de última milha, incluindo entregas médicas em áreas remotas e reabastecimento humanitário em zonas de difícil acesso.
O raciocínio não é exclusivo da Ucrânia. No Brasil, o mesmo tipo de lógica dual-use já orienta discussões dentro do Exército Brasileiro sobre quadricópteros de grande porte originalmente desenvolvidos para agricultura e logística civil, hoje avaliados também para reabastecimento de posições avançadas, um caminho que o País começa a percorrer de forma planejada, à luz do que a Ucrânia aprendeu de forma empírica ao longo de mais de três anos de conflito.
Uma tendência já
em curso
O episódio do KFC
entregue por drone não inaugura, portanto, uma tendência: ele a ilustra de
forma inédita e viral. A transformação da logística de linha de frente, de
caminhões e viaturas para drones aéreos e robôs terrestres, já vinha sendo
registrada como uma das mudanças mais significativas na arte da guerra desde a
mecanização das forças armadas. O que a cena com o Heavy Shot acrescenta é a
evidência de que essa mesma tecnologia, testada sob fogo, carrega também um
potencial comercial que companhias de delivery e logística ao redor do mundo
devem observar com atenção.
26 julho, 2026
KC-390 sobrevoa Belgrado em nova etapa da disputa por transportes militares na Sérvia
A visita não é um evento isolado. Em fevereiro de 2026, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Sérvia, general Milan Mojsilović, confirmou, em entrevista ao jornal Politika, que o país avalia propostas para reequipar sua frota com novos caças multimissão, aviões de treinamento inicial e aeronaves de transporte. A demonstração do KC-390 em Batajnica é lida pela imprensa especializada sérvia como um movimento comercial direto da Embraer junto ao Ministério da Defesa e ao Comando da Força Aérea, na tentativa de se posicionar como candidata a essa futura aquisição.
Vídeo com o KC-390 inicia aos 1:29
O KC-390 não é o único avião estrangeiro apresentado recentemente em Batajnica. Em julho de 2025, a Embraer já havia levado ao mesmo aeródromo seu Super Tucano, de treinamento avançado e ataque leve; em fevereiro de 2026, foi a vez do concorrente americano Beechcraft AT-6B Wolverine, da Textron. Em março de 2026, a fabricante tcheca Aero Vodochody apresentou seu L-39NG, comercializado sob o nome Skyfox. No segmento de transporte pesado, a europeia Airbus já havia levado seu A400M à Conferência SEAS 2024, em Belgrado, destacando a capacidade de transportar viaturas blindadas Lazar 3 e BOV M-16 Miloš, além de helicópteros H145M, com autonomia suficiente para operar diretamente a partir da capital sérvia.
O C/KC-390 Millennium nasceu de estudos da Embraer entre 2005 e 2007 e ganhou impulso em 2009, com um contrato de US$ 1,5 bilhão firmado com a Força Aérea Brasileira para a construção de dois protótipos. O primeiro exemplar voou em 3 de fevereiro de 2015, e a entrega em série ao Brasil começou em setembro de 2019. Portugal foi o primeiro cliente de exportação, com pedido de cinco aeronaves em 2019, depois ampliado; seguiram-se Hungria, República Tcheca, Áustria, Países Baixos, Coreia do Sul, Suécia e, em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos, com contrato para dez aeronaves e opção para mais dez. O cliente mais recente é a Grécia, cuja comissão parlamentar aprovou em junho de 2026 a compra de três unidades adicionais, via opções do contrato português, em negócio avaliado em cerca de 600 milhões de euros.
Hyperlift revela detalhes do motor RISCRAM e do projeto de um drone de combate hipersônico
Empresa paulista testa peças do motor supersônico em bancada e conta à LRCA como um projeto de foguete reutilizável virou a base de um UCAV militar
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| Rendererização por IA do UCAV RISCRAM |
*LRCA Defense Consulting - 26/07/2026
A Hyperlift Aerospace & Defense, empresa brasileira sediada em São Paulo, com laboratório de pesquisa e desenvolvimento em Belo Horizonte, está desenvolvendo um motor de propulsão chamado RISCRAM (Rocket Ignited Supersonic Combustion Ram Jet), capaz, segundo a empresa, de operar da velocidade zero até regimes hipersônicos. A tecnologia nasceu como um projeto de foguete reutilizável, mas hoje serve de base para um conceito de drone de combate supersônico, o UCAV (sigla em inglês para veículo aéreo de combate não tripulado) RISCRAM. Em entrevista concedida à LRCA Defense Consulting, o engenheiro aeroespacial Marco Gabaldo, CEO da empresa, detalhou a origem do projeto, o estágio atual dos testes e os principais desafios para transformar o conceito em um demonstrador voador.
O que é o RISCRAM
Na prática, o RISCRAM é um motor de ciclo combinado: em vez de usar um único tipo de propulsão, ele
combina, em um mesmo corpo, características de turbojato, foguete e scramjet
(motor de combustão supersônica), alternando entre eles conforme a velocidade e
a altitude do voo. A vantagem dessa arquitetura é que ela permite decolar do
solo, acelerar até velocidades hipersônicas (acima de cinco vezes a velocidade
do som) e, no caso da versão original do projeto, ainda alcançar órbita baixa,
tudo com o mesmo veículo.
O conceito nasceu em 2014, como uma patente do próprio Gabaldo em parceria acadêmica com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pensada para um lançador espacial reutilizável de dois estágios, capaz de colocar até 500 kg em órbita baixa. A associação com a marca comercial Hyperlift e a exploração de uma aplicação militar vieram alguns anos depois.
Da encomenda estrangeira ao conceito de drone de
combate
Segundo Gabaldo,
a virada para uma aplicação militar ocorreu em 2023, a partir de uma demanda de
uma empresa do Catar, interessada em entrar no setor de defesa com um produto
disruptivo. Foi esse contato que levou a Hyperlift a pensar, primeiro, em um drone
supersônico e, na sequência, em um conceito mais ambicioso: um UCAV
hipersônico movido a motor RISCRAM. O CEO afirma que a relação comercial com o
cliente catariano não está mais ativa, em razão de mudanças internas no
ministério da defesa do país e na equipe de contatos com a qual a Hyperlift
dialogava.
A empresa mantém, internamente, um programa dedicado ao tema, mas boa parte dele é sigilosa, tanto pela versão militar simplificada do motor RISCRAM quanto pelo próprio projeto do drone. Segundo Gabaldo, as forças armadas brasileiras não demonstraram, até o momento, interesse formal pelo projeto.
Um conceito, não um produto fechado
Circulou
recentemente nas redes sociais um resumo com especificações do conceito de UCAV RISCRAM: 4 metros de comprimento, 2,4 metros de envergadura, 1.400 kg de massa
máxima de decolagem e um motor com cerca de 1.000 kgf de empuxo. Gabaldo
confirmou que esses números partiram da própria Hyperlift, mas fez questão de
relativizá-los: tratam-se de valores de um conceito inicial, que a empresa pode
reformular a qualquer momento, conforme a necessidade de um eventual cliente.
Ou seja, não há, por ora, um projeto de engenharia fechado, e sim um estudo
conceitual em evolução.
Onde a tecnologia está hoje
Sobre o estágio
real de maturidade, Gabaldo afirmou que já houve ensaios de queima em
diferentes velocidades e que a bancada de testes está em evolução constante,
incluindo câmeras e sistemas de medição mais precisos. Segundo ele, o programa
se encontra hoje entre os níveis 4 e 5 da escala de maturidade tecnológica (a
chamada TRL, de Technology Readiness Level), o que corresponde à
validação em bancada de componentes como a entrada de ar e a câmara de
combustão, ensaiados em um veículo de teste em escala reduzida, ainda distante
de um motor completo e de um demonstrador voador.
A bancada de testes fica em Belo Horizonte, no laboratório Alfalab. Os ensaios contam com o apoio de um patrocinador do setor de metalurgia e fundição de Minas Gerais que, segundo Gabaldo, ainda não autorizou a divulgação de seu nome associado ao projeto RISCRAM; por isso, a LRCA optou por não identificá-lo nesta reportagem.
Como o motor funciona, da decolagem ao pouso
De acordo com a
explicação fornecida pela Hyperlift, o voo de um veículo RISCRAM completo (na
concepção original, de lançador reutilizável) seguiria quatro fases. Na
decolagem e na aceleração inicial, um motor turbojato leva a aeronave a até
Mach 2 ou 3, enquanto um foguete auxiliar ajuda a ganhar a velocidade
necessária para a transição ao voo hipersônico. A partir de cerca de Mach 5, o
turbojato é desligado e a propulsão passa a ser feita pelo motor RISCRAM/scramjet,
que sustenta o voo em altitudes elevadas. Em seguida, à medida que o ar
rarefeito reduz a eficiência do scramjet, o motor foguete assume sozinho
a aceleração final até a órbita baixa, onde ocorreria a liberação da carga
útil. Na reentrada, a sequência se inverte: o veículo volta ao regime
hipersônico, depois transiciona de novo para o turbojato e realiza um pouso horizontal,
em uma lógica operacional que a empresa compara à do ônibus espacial americano,
embora com voo atmosférico autopropelido na fase final.
Vale reforçar que essa sequência completa de quatro fases descreve o conceito original do lançador espacial reutilizável. O drone de combate UCAV aproveitaria a mesma lógica de motor combinado, mas dispensaria as fases de inserção orbital e reentrada, por se tratar de uma aplicação atmosférica.
Do motor de foguete ao motor de guerra: o que
muda
Segundo a
Hyperlift, a versão civil do motor RISCRAM, pensada para o lançador espacial, é
uma plataforma de grande porte, totalmente reutilizável, projetada para
suportar dezenas ou centenas de ciclos operacionais, com foco em baixo custo
por lançamento e uso de combustíveis comerciais de alta eficiência. Já a versão
militar, destinada ao UCAV ou a um eventual míssil hipersônico, seria
uma plataforma mais compacta e leve, de projeto descartável ou parcialmente
sacrificável, pensada para uma única missão. Essa versão usaria combustíveis
militares de maior densidade energética e maior estabilidade para armazenamento
prolongado, priorizando aceleração, alcance e capacidade de sobrevivência em
ambiente hostil, em vez de reutilização.
O que falta para sair do papel
Questionado sobre
o principal obstáculo para avançar do conceito atual a um demonstrador voador,
Gabaldo foi direto: dinheiro. Segundo ele, as etapas iniciais, de modelagem
matemática e simulação computacional, já foram concluídas, e a fase de
protótipos laboratoriais, com ensaios estruturais e de combustão em bancada,
está em andamento. Já as etapas seguintes, que envolvem testes em túnel de
vento, a construção de um demonstrador voador e uma campanha de ensaios em voo,
dependem de captação de recursos, nacionais ou internacionais, que a empresa
afirma buscar atualmente.
A empresa por trás do projeto
Nota metodológica
Esta reportagem é
a primeira sobre o motor RISCRAM e o conceito de UCAV
hipersônico da Hyperlift. As informações aqui apresentadas têm como origem
principal entrevista concedida à LRCA Defense Consulting pelo CEO da empresa,
Marco Gabaldo, complementada por dados públicos do Catálogo da Indústria
Espacial Brasileira, mantido pela Agência Espacial Brasileira (AEB), e por
registros de patente internacional ligados ao projeto. Especificações técnicas
e cronogramas de desenvolvimento citados nesta matéria refletem o estágio
conceitual do projeto, segundo descrito pela própria empresa, e podem ser
alterados conforme sua evolução. Não houve, até o fechamento desta matéria,
verificação independente das informações fornecidas pela Hyperlift. O tema do
revestimento LEAR, também desenvolvido pela empresa, não é abordado nesta
matéria e poderá ser tratado posteriormente.
Abaixo, segue a versão da matéria em inglês técnico.
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*LRCA Defense Consulting – July 26, 2026
Hyperlift Aerospace & Defense, a Brazilian aerospace company headquartered in São Paulo with an R&D laboratory in Belo Horizonte, is developing the RISCRAM (Rocket Ignited Supersonic Combustion Ramjet), a combined-cycle propulsion system that, according to the company, is intended to operate from zero airspeed to sustained hypersonic flight. Originally conceived for a reusable launch vehicle, the technology has evolved into the basis of a conceptual hypersonic Unmanned Combat Aerial Vehicle (UCAV). In an exclusive interview with LRCA Defense Consulting, CEO and aerospace engineer Marco Gabaldo discussed the origins of the program, its current stage of development and the technical and financial challenges that remain before a full-scale flight demonstrator can be built.
What is RISCRAM?
RISCRAM combines turbojet, rocket and scramjet operating modes within a single propulsion architecture, allowing the vehicle to transition between propulsion cycles as speed and altitude increase. The original concept envisioned a reusable two-stage launch vehicle capable of placing payloads of up to 500 kilograms into low Earth orbit. Today, the same propulsion philosophy underpins studies for future military applications, including a hypersonic UCAV.
From space access to defense
Gabaldo explained that interest from a Qatari customer in 2023 prompted Hyperlift to investigate military applications. Initial work focused on a supersonic unmanned aircraft before evolving into a more ambitious hypersonic combat platform. Although that commercial relationship has since ended, the company continues internal development of the concept. Much of the program remains confidential, and no formal Brazilian government requirement has yet been announced.
Technology readiness
According to Hyperlift, combustion tests have already been completed under different operating conditions, while the ground-test infrastructure continues to be upgraded with more advanced instrumentation. The company estimates that the program currently lies between Technology Readiness Levels (TRL) 4 and 5, representing laboratory validation of critical technologies such as the inlet and combustion chamber rather than an integrated flight-ready propulsion system.
Operational concept
In the reusable launch vehicle configuration, propulsion would begin with turbojet operation supported by a rocket booster during acceleration. At approximately Mach 5, propulsion transitions to scramjet mode for sustained hypersonic atmospheric flight. At higher altitudes, where air density becomes insufficient, rocket propulsion would complete orbital insertion. The military UCAV concept would retain the atmospheric combined-cycle architecture while eliminating the orbital insertion and re-entry phases.
Civilian and military configurations
The reusable civilian configuration prioritizes operational longevity, low launch costs and commercial propellants. By contrast, the military variant is envisioned as a lighter, more compact system optimized for a single mission, employing high-energy-density military propellants and emphasizing acceleration, operational range and survivability rather than reusability.
The next milestone
Gabaldo identified funding as the program's principal challenge. Numerical modelling and computational simulations have been completed, while laboratory validation is under way. Wind-tunnel campaigns, construction of an integrated flight demonstrator and an eventual flight-test program will depend on securing additional investment from domestic or international sources.
Editorial note
This English-language edition has been prepared in a style consistent with international aerospace and defense publications, preserving the technical meaning of the original interview while employing terminology commonly used throughout the global aerospace industry. Technical specifications reflect Hyperlift's current conceptual design baseline.
KC-390: o elogio do Min. da Defesa belga e a lacuna de transporte tático que a Embraer pode preencher
Ministro da Defesa visitou o KC-390 em Farnborough e definiu a aeronave como capaz de preencher "a lacuna que sentimos com muita frequência: capacidade robusta de transporte tático"
*LRCA Defense Consulting - 24/07/2026
O ministro da Defesa da Bélgica, Theo Francken, visitou o estande da Embraer durante o Farnborough International Airshow 2026 e conheceu de perto o KC-390 Millennium. Em publicação na rede social X, descreveu o encontro com a fabricante brasileira como "uma boa conversa" e definiu a aeronave como uma capaz de preencher "a lacuna que sentimos com muita frequência: capacidade robusta de transporte tático".
A fala, e a lista de operadores europeus que ele citou (Portugal, Países Baixos, Áustria, Suécia e República Tcheca), foram registradas por portais nacionais e internacionais como mais um encontro de vitrine do salão britânico. Um exame do quadro real da frota belga sugere que há mais substância na declaração do que aparenta.
Uma frota
reduzida a uma única aeronave
A Força Aérea Belga operou o Lockheed C-130H Hercules entre 1971 e 2021,
quando o modelo foi retirado de serviço e substituído pelo Airbus A400M Atlas,
frota de oito unidades compartilhada com Luxemburgo desde 2020, no âmbito do
programa multinacional conduzido pela OCCAR. Desde a baixa do Hercules, a
Bélgica não opera nenhuma outra aeronave de asa fixa dedicada a transporte
tático. O A400M, maior e mais caro que o KC-390, foi concebido como plataforma
híbrida entre a capacidade tática e a estratégica, e sua operação exige pistas
mais longas e infraestrutura mais robusta, o que limita seu emprego em cenários
de pouso em pistas curtas ou não preparadas, missão típica do segmento em que o
cargueiro brasileiro compete.
O vazio não se resume, portanto, a uma lacuna pontual de capacidade: é a ausência completa de uma segunda opção abaixo do A400M. A própria Airbus já reconheceu publicamente que as duas aeronaves podem se complementar, a depender da demanda de cada país, leitura que reforça a hipótese de que Bruxelas avalia uma solução tática mais leve, e não uma substituição do A400M.
O precedente
esquecido
Há um capítulo pouco lembrado na relação entre a Bélgica e a Embraer.
Entre a década de 2000 e 2020, o transporte VIP do alto escalão do governo
belga foi realizado por jatos regionais ERJ-135 e ERJ-145, também fabricados
pela companhia brasileira, até serem substituídos pelo Dassault Falcon 7X, de
origem francesa. É a única aeronave tripulada não fabricada em país-membro da
OTAN que a Bélgica já operou em toda a sua história. O dado não configura,
isoladamente, qualquer indicação de preferência atual, mas mostra que o
relacionamento entre Bruxelas e a Embraer não começa em Farnborough 2026.
O pano de fundo
europeu
O interesse belga, ainda que informal, se insere em um movimento mais
amplo. Desde 2022, a Agência Europeia de Defesa (EDA) estuda um programa de
transporte tático médio (Future Medium Transport Capability, ou FMTC),
concebido como aeronave complementar e mais leve que o A400M para substituir
frotas envelhecidas de C-130 Hercules, C-27J Spartan e CASA C-295 ainda em
operação na Europa. O KC-390 é hoje o modelo mais associado a esse nicho no
continente.
A lista de operadores europeus citada por Francken cresce por meio de um padrão recorrente: aquisições conjuntas. Países Baixos e Áustria assinaram contrato compartilhado de nove aeronaves em Farnborough 2024, cinco para os holandeses e quatro para os austríacos, dentro do projeto "Replacement of Tactical Airlift Capacity". A Suécia aderiu ao mesmo acordo-guarda-chuva em 2025, garantindo entrega mais rápida e custo menor por operar como parte de um lote já em produção.
Em Farnborough 2026, a Embraer ainda anunciou pacotes de treinamento e simuladores para Suécia e Áustria, e a República Tcheca recebeu sua primeira aeronave, batizada "Karel Toman-Mareš" durante o salão. Esse modelo de adesão a um contrato-guarda-chuva já existente reduz o custo político e orçamentário de uma eventual entrada belga no programa, caso a sinalização de Francken avance.
Da cortesia ao
contrato: como ler o sinal
Declarações de ministros da Defesa em salões aeronáuticos nem sempre
evoluem para contratos, e o histórico recente do próprio programa KC-390
oferece parâmetro para essa leitura. No caso do Marrocos, o interesse percorreu
um caminho gradual e verificável: aparição em slide institucional da Embraer em
outubro de 2024, Memorando de Entendimento no mesmo mês, empréstimo de uma
aeronave para avaliação em 2025, até chegar a negociações reportadas em estágio
avançado. No caso belga, até o fechamento desta matéria, não há registro de
memorando, pedido formal de proposta (RFP) ou dotação orçamentária associada ao
KC-390. Há apenas a visita ao estande, a fala pública e o quadro estrutural de
frota que a sustenta.
Se a sinalização avançar, o caminho mais provável para a Bélgica não é um processo competitivo isolado, mas a adesão ao contrato-guarda-chuva já em vigor entre Países Baixos, Áustria e Suécia, replicando o modelo que tem sustentado a expansão do KC-390 na Europa desde 2023.








