Ataques na Ucrânia e na Rússia mostram que a retaguarda virou alvo. No Brasil, há equipamentos antidrone, mas não há evidência pública de uma rede permanente de proteção das instalações estratégicas
*LRCA Defense Consulting - 01/11/2026 - 17h37
Em 1º de junho de 2025, drones escondidos no teto de contêineres levados por caminhões até as proximidades de bases aéreas russas, algumas a milhares de quilômetros da fronteira, atingiram 41 bombardeiros em cinco bases, segundo a Ucrânia. A Operação Teia de Aranha, planejada durante 18 meses, demonstrou que aeronaves estacionadas, longe da frente de combate, podem ser destruídas por equipamentos de custo muito inferior ao dos alvos.
Para o Brasil, a lição vai além da aquisição de novos sistemas antiaéreos. Não basta proteger o espaço aéreo em grandes áreas: é preciso garantir que bases militares, arsenais, centros de manutenção e fábricas indispensáveis ao esforço de defesa continuem funcionando diante de ameaças de baixa altitude.
O tema ganhou novo impulso em artigo publicado no LinkedIn no dia 27 último por Mark Kahanding, cofundador e CEO da Cobalt Academy e veterano de combate. Ao examinar as iniciativas norte-americanas de proteção de bases, o autor sustenta que a expansão dos arsenais de drones não se traduz automaticamente em segurança para as instalações que os sustentam. Kahanding declara escrever a título pessoal, com base em fontes públicas; sua empresa desenvolve um interceptor de drones, o Ladybug, que ele próprio descreve como protótipo. O argumento é particularmente pertinente ao nosso País, onde iniciativas antidrone já existem, mas sua distribuição e sua cobertura permanente não estão demonstradas por informações públicas.
Equipamentos existem; cobertura nacional não está demonstrada
Seria incorreto afirmar que as Forças Armadas brasileiras não dispõem de meios contra drones. Em 13 de maio de 2026, a Força Aérea Brasileira (FAB) informou que a Força Aérea Componente (FAC) da Operação Ágata Amazônia 2026, conduzida pelo Comando Conjunto Harpia, vinha empregando sistemas antidrone. Segundo o comandante da FAC, Brigadeiro do Ar Mateus Barros de Andrade, um desses equipamentos foi adquirido para proteger o material e as aeronaves empregadas em São Gabriel da Cachoeira (AM).
O Exército Brasileiro, por sua vez, recebeu dez sistemas DRONEBlocker, desenvolvidos pela IACIT, em entrega divulgada em 2025 e associada ao Subsistema de Apoio à Decisão do SISFRON. A mesma tecnologia foi empregada pela Força Terrestre na segurança da COP30, em Belém, em novembro de 2025. Para a conferência, a FAB também contratou, com dispensa de licitação, um sistema da D-Fend Solutions, por R$ 6,6 milhões. Houve ainda monitoramento antidrone durante o G20 e atividades de pesquisa e avaliação tecnológica.
Esses fatos comprovam capacidades específicas, em geral vinculadas a operações ou a grandes eventos, e não a existência de proteção contínua e integrada em todas as bases e instalações estratégicas.
Quanto às empresas da Base Industrial de Defesa (BID), a ausência de divulgação de sistemas de proteção não autoriza concluir que nenhuma delas disponha de medidas próprias. Por razões de segurança, parte das capacidades pode não ser pública. Ainda assim, não foi identificada documentação aberta que demonstre um programa nacional abrangente de proteção antidrone voltado ao parque industrial estratégico.
A retaguarda virou alvo
A guerra na Ucrânia mostrou também que fábricas de armamento integram a lista de alvos prioritários. Dias antes da Teia de Aranha, drones do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) atingiram a fábrica da MKB Raduga em Dubna, na região de Moscou, uma das principais unidades de produção do míssil de cruzeiro Kh-101. Do lado oposto, o Ministério da Defesa russo anunciou, em junho de 2026, ataque a uma fábrica da Fire Point, na região de Dnipropetrovsk, responsável por componentes de drones de longo alcance e de mísseis.
A reação russa ilustra a lógica da defesa de ponto aplicada à indústria. Em julho de 2026, a estatal Rostec apresentou o Pautina, sistema antidrone concebido especificamente para instalações industriais, que passava por testes-piloto em unidades do setor de energia.
Em 1º de junho de 2025, drones escondidos no teto de contêineres levados por caminhões até as proximidades de bases aéreas russas, algumas a milhares de quilômetros da fronteira, atingiram 41 bombardeiros em cinco bases, segundo a Ucrânia. A Operação Teia de Aranha, planejada durante 18 meses, demonstrou que aeronaves estacionadas, longe da frente de combate, podem ser destruídas por equipamentos de custo muito inferior ao dos alvos.
Para o Brasil, a lição vai além da aquisição de novos sistemas antiaéreos. Não basta proteger o espaço aéreo em grandes áreas: é preciso garantir que bases militares, arsenais, centros de manutenção e fábricas indispensáveis ao esforço de defesa continuem funcionando diante de ameaças de baixa altitude.
O tema ganhou novo impulso em artigo publicado no LinkedIn no dia 27 último por Mark Kahanding, cofundador e CEO da Cobalt Academy e veterano de combate. Ao examinar as iniciativas norte-americanas de proteção de bases, o autor sustenta que a expansão dos arsenais de drones não se traduz automaticamente em segurança para as instalações que os sustentam. Kahanding declara escrever a título pessoal, com base em fontes públicas; sua empresa desenvolve um interceptor de drones, o Ladybug, que ele próprio descreve como protótipo. O argumento é particularmente pertinente ao nosso País, onde iniciativas antidrone já existem, mas sua distribuição e sua cobertura permanente não estão demonstradas por informações públicas.
Equipamentos existem; cobertura nacional não está demonstrada
Seria incorreto afirmar que as Forças Armadas brasileiras não dispõem de meios contra drones. Em 13 de maio de 2026, a Força Aérea Brasileira (FAB) informou que a Força Aérea Componente (FAC) da Operação Ágata Amazônia 2026, conduzida pelo Comando Conjunto Harpia, vinha empregando sistemas antidrone. Segundo o comandante da FAC, Brigadeiro do Ar Mateus Barros de Andrade, um desses equipamentos foi adquirido para proteger o material e as aeronaves empregadas em São Gabriel da Cachoeira (AM).
O Exército Brasileiro, por sua vez, recebeu dez sistemas DRONEBlocker, desenvolvidos pela IACIT, em entrega divulgada em 2025 e associada ao Subsistema de Apoio à Decisão do SISFRON. A mesma tecnologia foi empregada pela Força Terrestre na segurança da COP30, em Belém, em novembro de 2025. Para a conferência, a FAB também contratou, com dispensa de licitação, um sistema da D-Fend Solutions, por R$ 6,6 milhões. Houve ainda monitoramento antidrone durante o G20 e atividades de pesquisa e avaliação tecnológica.
Esses fatos comprovam capacidades específicas, em geral vinculadas a operações ou a grandes eventos, e não a existência de proteção contínua e integrada em todas as bases e instalações estratégicas.
Quanto às empresas da Base Industrial de Defesa (BID), a ausência de divulgação de sistemas de proteção não autoriza concluir que nenhuma delas disponha de medidas próprias. Por razões de segurança, parte das capacidades pode não ser pública. Ainda assim, não foi identificada documentação aberta que demonstre um programa nacional abrangente de proteção antidrone voltado ao parque industrial estratégico.
A retaguarda virou alvo
A guerra na Ucrânia mostrou também que fábricas de armamento integram a lista de alvos prioritários. Dias antes da Teia de Aranha, drones do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) atingiram a fábrica da MKB Raduga em Dubna, na região de Moscou, uma das principais unidades de produção do míssil de cruzeiro Kh-101. Do lado oposto, o Ministério da Defesa russo anunciou, em junho de 2026, ataque a uma fábrica da Fire Point, na região de Dnipropetrovsk, responsável por componentes de drones de longo alcance e de mísseis.
A reação russa ilustra a lógica da defesa de ponto aplicada à indústria. Em julho de 2026, a estatal Rostec apresentou o Pautina, sistema antidrone concebido especificamente para instalações industriais, que passava por testes-piloto em unidades do setor de energia.
A escala do problema também mudou. Em artigo publicado na Military Review, do Exército dos EUA, o coronel Vytis Andreika mostra que a Rússia incorporou à doutrina, às estruturas de força e à indústria o emprego de drones de ataque de longo alcance Shahed-136/Geran-2 contra infraestrutura, com produção doméstica em larga escala, e passou a usar sistemas leves de guerra eletrônica para proteger tropas, posições e instalações. Estimativas internacionais indicam que a fábrica de Alabuga, no Tartaristão, chegou a produzir cerca de 170 desses drones por dia em 2025. Para quem defende uma instalação fixa, a ameaça deixou de ser o ataque isolado e passou a ser o emprego em massa de um armamento produzido industrialmente.
Da defesa em camadas à defesa de ponto
A LRCA já examinou a necessidade de uma camada antidrone capaz de proteger baterias antiaéreas, lançadores e instalações críticas, inclusive no contexto da futura capacidade de média altura do Exército. O problema agora é mais amplo: cada instalação de elevado valor operacional ou industrial precisa ser analisada segundo o risco, a continuidade de suas atividades e as consequências de uma interrupção.
Uma arquitetura de defesa de ponto não se resume a um bloqueador eletrônico. Ela combina vigilância, identificação, comando e controle, meios de neutralização adequados ao ambiente e proteção passiva. Sensores podem localizar um drone sem que exista capacidade efetiva de impedi-lo de atingir o alvo. Além disso, interferências de radiofrequência, risco a terceiros e regras de emprego impõem limites às respostas disponíveis.
A distinção entre detectar e neutralizar apareceu em reportagem da LRCA sobre os ensaios do radar SENTIR M20, desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e produzido pela Embraer, por meio da Savis e da Bradar. No Centro de Avaliações do Exército (CAEx), o equipamento acompanhou um DJI Matrice 400 a até quatro quilômetros, resultado relevante para o sensoriamento, mas insuficiente, isoladamente, para caracterizar um sistema completo de defesa contra drones.
A LRCA já examinou a necessidade de uma camada antidrone capaz de proteger baterias antiaéreas, lançadores e instalações críticas, inclusive no contexto da futura capacidade de média altura do Exército. O problema agora é mais amplo: cada instalação de elevado valor operacional ou industrial precisa ser analisada segundo o risco, a continuidade de suas atividades e as consequências de uma interrupção.
Uma arquitetura de defesa de ponto não se resume a um bloqueador eletrônico. Ela combina vigilância, identificação, comando e controle, meios de neutralização adequados ao ambiente e proteção passiva. Sensores podem localizar um drone sem que exista capacidade efetiva de impedi-lo de atingir o alvo. Além disso, interferências de radiofrequência, risco a terceiros e regras de emprego impõem limites às respostas disponíveis.
A distinção entre detectar e neutralizar apareceu em reportagem da LRCA sobre os ensaios do radar SENTIR M20, desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e produzido pela Embraer, por meio da Savis e da Bradar. No Centro de Avaliações do Exército (CAEx), o equipamento acompanhou um DJI Matrice 400 a até quatro quilômetros, resultado relevante para o sensoriamento, mas insuficiente, isoladamente, para caracterizar um sistema completo de defesa contra drones.
A indústria também precisa sobreviver ao conflito
A proteção de uma base das Forças Armadas preserva a capacidade de empregar o poder militar. A proteção de fábricas, oficinas especializadas, centros de integração, estoques críticos e fornecedores preserva também a capacidade de recompor perdas e sustentar operações prolongadas. Essa segunda dimensão ganha importância diante de cadeias produtivas concentradas e de componentes cuja substituição pode exigir prazos elevados.
Isso não significa militarizar indistintamente todas as instalações industriais. Significa estabelecer critérios transparentes de prioridade estratégica, definir responsabilidades entre operadores privados e autoridades públicas e avaliar medidas proporcionais: vigilância, proteção física, redundância de processos, planos de contingência e, quando legalmente cabível, defesa ativa.
Contrato assinado não é instalação protegida
Nos Estados Unidos, a Força-Tarefa Interagências Conjunta 401 (JIATF-401) anunciou, em 29 de setembro, dez contratos de fornecimento e quantidade indefinidos para o Domestic Shield, iniciativa voltada à proteção contra drones de instalações e ativos militares priorizados segundo o risco, em território norte-americano. Os contratos somam teto de US$ 4,15 bilhões, com valores individuais entre US$ 150 milhões e US$ 500 milhões. Esses montantes, porém, representam capacidade de contratação, e não pedidos já realizados. As tecnologias abrangem sensoriamento, rastreamento e neutralização, com exigência de arquitetura aberta.
É justamente essa distância que Kahanding destaca. Para ele, contratos assinados não equivalem a instalações efetivamente protegidas, e pessoal treinado, manutenção e disponibilidade são tão importantes quanto a aquisição inicial. O autor lembra ainda que avistar um drone, compreender a situação e proteger a missão são conquistas diferentes, e que tomar a primeira como prova da última gera uma confiança que as evidências não sustentam.
Quem responde pela proteção
No Brasil, a discussão precisa incluir o marco regulatório. Em 11 de setembro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos encaminhou à ANAC diretrizes para a implantação de um sistema de detecção, monitoramento, mitigação e neutralização de drones no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), o primeiro do País a recebê-las. A concessionária ficará responsável pela aquisição, pela operação e pela primeira resposta, em articulação com ANAC, Polícia Federal, Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), Receita Federal e Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Os equipamentos deverão ser homologados pela Anatel, e o Decea definirá as áreas de proteção e os procedimentos de suspensão e retomada das operações aéreas.
O modelo civil interessa à defesa por dois motivos. Mostra que a neutralização exige coordenação de competências, para que uma medida de proteção não produza riscos adicionais à aviação e às comunicações. E oferece uma referência de divisão de responsabilidades entre operador privado e Estado, questão que também se colocará para as empresas da BID.
A BID brasileira dispõe de competências relevantes em radares, guerra eletrônica, sensores, integração de sistemas e plataformas não tripuladas. Transformar esse conjunto em proteção confiável requer requisitos operacionais comuns, testes realistas, interoperabilidade, formação de operadores e financiamento para todo o ciclo de vida. Não basta somar produtos nacionais e chamá-los de sistema.
Uma agenda que precisa ser examinada
O primeiro passo seria avaliar, em nível compatível com o sigilo militar e industrial, quais categorias de instalações necessitam de proteção prioritária, quais ameaças devem orientar os requisitos e como garantir a continuidade operacional mesmo após um ataque. Em seguida, seria possível estudar projetos-piloto, com participação da BID, avaliação independente e expansão gradual conforme os resultados.
A experiência recente demonstra que drones podem alterar a relação entre o custo do ataque e o custo da defesa. Mas uma solução barata, incapaz de operar continuamente ou de lidar com ameaças diversas, também pode produzir falsa sensação de segurança. O indicador decisivo não é o número de equipamentos comprados, mas a capacidade comprovada de manter pessoas, instalações e missões protegidas.
Para um país de dimensões continentais e recursos limitados, a defesa antiaérea em camadas e a defesa localizada de pontos estratégicos não são alternativas excludentes. São componentes complementares de uma mesma necessidade: preservar a capacidade de combater e, igualmente, a capacidade de continuar produzindo os meios necessários para fazê-lo.

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