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15 junho, 2026

A fábrica que cabe num container: Exército busca parceiros para produzir drones na linha de frente

Fábricas móveis de drones xCell da Firestorm Labs

 
*LRCA Defense Consulting - 15/06/2026

O Arsenal de Guerra do Rio apresentou no SSNTFT 2026 um conceito de unidade móvel de manufatura aditiva para drones bombardeiros e kamikazes. Agora busca parceiros para desenvolver o protótipo, com prazo de abertura de propostas em 25 de junho. O conceito, que chega simultaneamente a arsenais de países como EUA e Finlândia, muda a lógica da produção de sistemas não tripulados: em vez de fabricar em escala central e estocar, produz-se no campo, no momento certo, com o design certo.
Do estudo ao protótipo: a trajetória do AGR
O conceito não surgiu pronto no 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026). Ele tem uma trajetória documentada que começa pelo menos um ano antes. Em junho de 2025, durante a 41ª Reunião dos Diretores de Arsenais de Guerra (REDAG), realizada no Departamento de Ciência e Tecnologia em Brasília, o Sistema de Fabricação do Exército recebeu, de forma inédita, solicitação da Chefia de Material de Aviação do Exército (CMAvEx) para estudar a produção de aeronaves remotamente pilotadas por manufatura aditiva, ou seja, impressão 3D aplicada à fabricação de estruturas, componentes e peças de drones.
 
Onze meses depois, no SSNTFT realizado entre 25 e 27 de maio de 2026, militares do Arsenal de Guerra do Rio (AGR) apresentaram ao Alto Comando o resultado desses estudos: um projeto próprio de desenvolvimento de drones bombardeiros e kamikazes e, como elemento central, um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva. Tratava-se, em essência, da proposta de uma fábrica de drones desdobrável em campanha.
 
Agora, o projeto avança para a fase seguinte. Segundo informações do serviço de inteligência de mercado Brazil Defense Brief (BDB), o Exército Brasileiro está buscando ativamente parceiros para desenvolver o protótipo da unidade móvel de produção, com submissão de propostas aberta a partir de 15 de junho de 2026 e previsão de abertura em 25 de junho. O sistema proposto inclui espaço de trabalho conteinerizado, impressoras 3D e equipamentos associados, com o objetivo de viabilizar a produção avançada de drones diretamente em ambientes operacionais.
 
A lição ucraniana
O modelo de produção centralizada de drones, que dominou o pensamento logístico até 2022, mostrou sua fragilidade na Ucrânia. Fabricar em larga escala, transportar para a frente de combate, estocar e esperar o momento do emprego criou uma vulnerabilidade estrutural: o design do drone pode tornar-se obsoleto antes de chegar ao campo de batalha. Na guerra de drones, frequências, cargas úteis, métodos de guiamento e contramedidas eletrônicas podem mudar em semanas.
 
A resposta ucraniana foi empírica e brutal: unidades avançadas passaram a fabricar e reparar drones in loco, com impressoras 3D portáteis, componentes eletrônicos disponíveis comercialmente e arquivos de design atualizados remotamente. O ciclo de adaptação - detectar uma nova contramedida russa, redesenhar o drone, imprimir, testar e reempregar - passou a ser medido em dias, não em meses.
 
Tim De Zitter, analista da Defesa Belga especializado em sistemas C-UAS e munições vagantes, sintetizou a transformação conceitual em publicação do dia 15 de junho: a fábrica móvel não é apenas um meio de produção, mas parte integrante da cadeia de kill chain de defesa aérea. Segundo ele, "o campo de batalha não pergunta mais quem tem o drone melhor, mas sim quem consegue reconstruir o drone melhor amanhã". A lógica é a mesma para drones de ataque e para interceptadores: a capacidade de adaptar e produzir mais rápido que o adversário vale mais do que qualquer design específico.

Fábrica de drones em container (renderização de Tim De Zitter)
 
O conceito em números: o que já existe no mercado
O AGR não está sozinho nessa direção. Nos últimos meses, pelo menos três iniciativas paralelas e independentes chegaram ao mesmo conceito operacional, o que valida a ideia sem que nenhuma delas sirva como modelo direto para a solução brasileira.
 
A empresa finlandesa Sensofusion lançou, em março de 2026, a Tactical Drone Factory: uma instalação completa de fabricação de drones comprimida num container padrão de 20 pés (ISO 668, compatível com STANAG), equipada com impressoras 3D industriais para estruturas em plástico de carbono, estação de montagem de eletrônicos e estoque de peças de reposição. Capacidade declarada: aproximadamente 50 drones interceptadores por dia, operados por uma equipe reduzida, desdobráveis em qualquer lugar do mundo. A troca de modelo de drone requer apenas o carregamento de um novo arquivo de design, com adaptação imediata a novas ameaças, sem necessidade de nova linha de produção.
 
Nos Estados Unidos, a startup Firestorm Labs desenvolveu o xCell, plataforma de manufatura em container capaz de imprimir sistemas de drones em menos de 24 horas. Em abril de 2026, a empresa captou US$ 82 milhões para expandir o conceito. O Exército americano já usou o xCell para imprimir peças de reposição de um veículo blindado Bradley diretamente no campo, substituindo componentes que, pelo processo convencional, levariam meses para ser adquiridos. O Rock Island Arsenal-Joint Manufacturing and Technology Center (RIA-JMTC), principal arsenal de fabricação do Exército dos EUA, desenvolve versão orgânica do mesmo conceito, com foco em produção descentralizada de drones em escala para as forças terrestres americanas.
 
Os três casos compartilham uma premissa: instalações fixas de fabricação são alvos. Uma fábrica dentro de um container pode ser movida, ocultada, replicada e reprogramada. A resiliência logística vira capacidade de combate.

Tactical Drone Factory, da Sensofusion

O que o AGR precisaria para operacionalizar o conceito
A manufatura aditiva aplicada a drones não é uma tecnologia experimental isolada no contexto brasileiro. O AGR já utiliza impressoras 3D para fabricação e manutenção de equipamentos de comunicações e de visão noturna. O Instituto Militar de Engenharia (IME) e o Instituto de Pesquisas e Ensaios em Voo (IPEV) têm capacidade instalada em manufatura aditiva. A empresa ARES Aeroespacial e Defesa, fornecedora do sistema de armas REMAX para os blindados Guarani, opera laboratório de manufatura aditiva integrado à sua linha de produção. Da mesma forma, a Taurus Armas emprega a impressão 3D para fabricar componentes de seus armamentos, assim como a Embraer o faz para algumas peças de seus aviões.
 
Para um container de fabricação de drones operacional em campanha, os desafios técnicos mais relevantes não estão na impressão das estruturas em si, mas na integração dos demais componentes:
 
- Eletrônicos e autopilotos: as impressoras 3D fabricam fuselagens e estruturas, mas os componentes eletrônicos (controladores de voo, receptores GPS, módulos de comunicação, baterias) precisam estar disponíveis em estoque no container ou ser adquiridos localmente. A dependência de componentes de origem asiática é o principal vetor de fragilidade logística.
 
- Materiais: filamentos de fibra de carbono, nylon reforçado e resinas de alta resistência são os materiais adequados para estruturas de drones sujeitas a vibrações e impactos. Não são consumíveis triviais, pois exigem controle de temperatura, umidade e prazo de validade.
 
- Software e arquivos de design: a vantagem competitiva do container não é a impressora, mas a capacidade de atualizar o design do drone remotamente. Isso exige infraestrutura segura de transmissão de arquivos, compatível com os requisitos de segurança da informação das Forças Armadas.
 
- Operadores: uma equipe reduzida precisa dominar tanto a operação das impressoras quanto a montagem eletrônica e os testes de voo. A curva de treinamento é um fator crítico para o tempo entre o pedido e o primeiro drone operacional.
 
O que está em jogo para a BID
O chamamento de parceiros lançado pelo Exército Brasileiro abre uma janela de oportunidade concreta para empresas da Base Industrial de Defesa com capacidade em manufatura aditiva, sistemas embarcados e desenvolvimento de plataformas não tripuladas. O prazo é imediato (propostas a partir de 15 de junho, abertura prevista para 25 de junho) e o escopo é um protótipo funcional, não uma solução de produção em série.
 
Para empresas como SkyDrones (desenvolvimento de plataformas multirotoras sob demanda), XMobots (fabricação de RPAS de médio e grande porte, com fábrica de 6.000 m² em São Carlos) e eventuais parceiros do ecossistema de manufatura aditiva industrial, trata-se de uma oportunidade de posicionamento num programa que, se validado no protótipo, pode escalar para os Arsenais de Guerra do Rio de Janeiro e de São Paulo.
 
O contexto mais amplo reforça a urgência. A Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682, com R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis para ICTMDs, tem entre suas linhas temáticas explícitas os sistemas de guiamento e navegação para veículos não tripulados, inteligência artificial e robótica, exatamente as tecnologias que uma unidade de fabricação avançada de drones demanda. O prazo de submissão vai até 18 de setembro de 2026, o que cria uma janela de articulação entre o chamamento de parceiros do AGR e o financiamento disponível pela Finep.
 
A soma dos três elementos (a iniciativa institucional do AGR, o processo de seleção de parceiros da Diretoria de Fabricação e o financiamento da Finep) sugere que o Brasil está, pela primeira vez, articulando de forma coordenada os três vértices necessários para avançar nessa capacidade: demanda militar formalizada, parceria industrial e capital público para desenvolvimento.

Tactical Drone Factory, da Sensofusion, embarcada em uma viatura
 
O limite da validação operacional
Uma ressalva é necessária. O conceito de container de fabricação de drones, seja na versão brasileira, finlandesa ou americana, ainda não tem validação operacional plena em ambiente de combate real. Cinquenta drones por dia numa linha de produção controlada é uma métrica de capacidade industrial, não de eficácia em campo. A pressão logística, a guerra eletrônica, a escassez de peças, as condições climáticas e o desgaste dos operadores são variáveis que apenas o emprego real consegue avaliar.
 
A direção, porém, está correta, e isso é o que importa para o planejamento de longo prazo. O Exército Brasileiro, ao buscar parceiros para um protótipo de fábrica móvel de drones, está comprimindo o ciclo que na Ucrânia levou três anos de guerra para ser aprendido empiricamente. Aprender antes do conflito, com tempo e recursos para errar e corrigir, é exatamente o tipo de vantagem que um programa de defesa deve perseguir. 

Embraer e Arábia Saudita: uma parceria que continua em construção

Desde 2022, a Embraer acumulou com a Arábia Saudita um dos mais densos portfólios de acordos de cooperação já firmados com um único país fora da Europa e da América do Norte. Ao contrário do que muitos pensam, as negociações continuam...

Imagem meramente representativa feita com IA pela LRCA

*LRCA Defense Consulting - 15/06/2026

Memorandos de entendimento nos três eixos do negócio aeroespacial - defesa, aviação comercial civil e mobilidade aérea urbana - refletem o peso que o reino assumiu na estratégia global da fabricante brasileira, impulsionado pela iniciativa saudita Vision 2030. Mas o caminho entre intenções e contratos ainda não foi concluído, e pelo menos um dos eixos perdeu tração recente.

O ponto de partida: Vision 2030 e a janela de oportunidade
A Arábia Saudita decidiu, com a Vision 2030, substituir a dependência do petróleo por uma base industrial e de serviços capaz de gerar até 50% do PIB nacional por meios não ligados ao hidrocarboneto. O setor aeroespacial foi identificado como prioritário: novos operadores aéreos, expansão de rotas, localização de manutenção e montagem de aeronaves. Para a Embraer, isso significou a abertura de um mercado que historicamente havia resistido às aeronaves regionais menores.

A aproximação formal começou em julho de 2022, quando a Embraer Defesa & Segurança firmou com a BAE Systems dois memorandos de entendimento, um dos quais voltado especificamente para promover o C-390 Millennium nos mercados do Oriente Médio, com foco inicial na Arábia Saudita. Era, então, uma estratégia de parceria com um integrador local para contornar as barreiras de acesso a um mercado dominado por fornecedores norte-americanos e europeus.

O pico de 2023: acordos em série e a visita de Lula
O ano de 2023 marcou a aceleração das negociações. Em julho, a maior delegação saudita já recebida no Brasil e liderada pelo ministro do Investimento, Khalid Al Falih, visitou o país e participou do Fórum de Investimentos Brasil/Arábia Saudita na Fiesp. O ministro mencionou em discurso uma parceria com a Embraer, sem que detalhes fossem divulgados posteriormente. Em agosto, durante visita da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, representantes sauditas confirmaram conversas em andamento com a fabricante.

O marco institucional veio em 29 de novembro de 2023, durante a visita do presidente Lula a Riad. Foram assinados três acordos simultâneos, nos três eixos do negócio:

O primeiro foi um memorando de entendimento entre a Embraer, o Ministério de Investimento saudita (MISA) e a Autoridade Geral da Aviação Civil (GACA), voltado para reforçar a cooperação em investimentos no setor aeronáutico e alinhar a presença brasileira às metas da Vision 2030, entre elas, atrair 150 milhões de visitantes ao reino até 2030.

O segundo foi o acordo com a Saudi Arabian Military Industries (SAMI), subsidiária integral do Fundo de Investimento Público (PIF) saudita e principal empresa de defesa do reino. O memorando estabeleceu como objetivos conjuntos a promoção do C-390 junto à Força Aérea Real Saudita (Royal Saudi Air Force, RSAF), o estabelecimento de um centro regional de MRO (manutenção, reparo e revisão) e a exploração de uma linha de montagem final do C-390 em território saudita, com integração local de sistemas de missão. A proposta incluía até 50% de conteúdo nacional, em linha com a política saudita de localização industrial.

O terceiro foi o memorando da Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer dedicada ao desenvolvimento de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOL), com a operadora aérea saudita Flynas. O acordo previu a exploração de operações de táxi aéreo elétrico em Riad e Jeddah, com perspectiva de início em 2026.

Imagem meramente representativa feita com IA pela LRCA

2024: visitas, demonstrações e novos acordos
O ritmo de aproximação continuou em 2024. Em fevereiro, durante o World Defense Show realizado em Riad, a Saudia Technic e a Embraer Serviços & Suporte assinaram um memorando de colaboração em manutenção e treinamento, com foco na família de jatos regionais E2 e na aviação executiva. No mesmo evento, o diretor de parcerias e alianças da SAMI, Emad Alrajih, conheceu pessoalmente o C-390 e expressou interesse na aeronave.

Em março de 2024, o vice-presidente da Embraer para Oriente Médio e Ásia-Pacífico, Caetano Spuldaro Neto, declarou no Brazil Saudi Arabia Conference, em Riad: "Queremos transformar a Arábia Saudita em um hub da Embraer na região." O executivo apontou que a eventual aquisição do C-390 pela RSAF poderia gerar uma economia de US$ 2 bilhões ao reino nos próximos 30 anos, em comparação com a manutenção da frota de C-130.

Em maio de 2024, durante o Future Aviation Forum em Riad, dois novos acordos foram formalizados. O Centro Nacional de Desenvolvimento Industrial saudita (NIDC), o Grupo AHQ e a Embraer assinaram um memorando para discutir uma estratégia conjunta de desenvolvimento do ecossistema aeroespacial local, com avaliação do E2 como aeronave preferida para um novo projeto de companhia aérea regional com sede em Dammam. No mesmo evento, a Eve e a Saudia Technic assinaram um memorando para explorar demanda de MRO para eVTOLs na região, incluindo a avaliação de infraestrutura para possível remontagem do veículo da Eve em território saudita.

Também em 2024, o Ministério da Indústria e Recursos Minerais da Arábia Saudita assinou com a Embraer um memorando voltado ao desenvolvimento dos setores de aviação no reino, na presença do ministro Bandar Al-Khorayef, que havia visitado as três instalações da Embraer no Brasil, e do vice-ministro para Assuntos Industriais, Khalil bin Salamah.

No plano da defesa, uma delegação do Ministério da Defesa saudita visitou o Brasil no final de 2023 e participou de demonstrações do Radar Saber M200 Vigilante junto à 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada do Exército Brasileiro e do Radar Sentir M20 no Comando Militar do Oeste, em Campo Grande (MS), ampliando o escopo da parceria potencial para além das aeronaves.

A reviravolta de março de 2026: o C-390 sai das prioridades
Em março de 2026, o CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, declarou à agência Reuters que a Arábia Saudita deixou de ser um "ponto quente" para a divisão de defesa da empresa. Os esforços na área militar passaram a se concentrar na Índia. onde a Embraer aguarda uma licitação para 60 aeronaves de transporte militar, e nos Estados Unidos.

A declaração reflete uma mudança de contexto. A RSAF já opera a versão mais recente do C-130, o C-130J Super Hercules da Lockheed Martin, que compete diretamente com o C-390. Gomes Neto sugeriu que a força aérea saudita pode estar buscando uma aeronave de transporte de maior porte, o que reduziria a janela para o jato brasileiro no curto prazo. O potencial pedido de 33 aeronaves, amplamente discutido entre 2023 e 2024, ficou sem desfecho.

A comparação com os Emirados Árabes Unidos evidencia o contraste: em maio de 2026, o Tawazun Council emiradense fechou um contrato para 10 aeronaves C-390, com opção de mais 10 unidades, o primeiro contrato firmado no Oriente Médio. A Arábia Saudita, que havia protagonizado as negociações na região, foi precedida pelo vizinho.

A reavaliação de junho de 2026: acordos ativos, tom mais otimista
Em 11 de junho de 2026, o jornal saudita Asharq Al-Awsat publicou cobertura de briefing concedido por executivos da Embraer em São Paulo, às margens da cúpula anual da Iata no Rio de Janeiro. A mensagem foi diferente da de março: os memorandos firmados com a Arábia Saudita em 2023 permanecem ativos e avançam em ritmo satisfatório, abrangendo os três eixos: aviação civil, defesa e mobilidade aérea urbana.

A publicação do Asharq Al-Awsat não anunciou contratos novos nem apontou datas para desdobramentos concretos. O tom é de reafirmação de intenção, em linha com o peso estratégico que a Arábia Saudita representa para a indústria global de aviação no contexto da Vision 2030.

eVTOL da Eve voando pela Flynas na Arábia Saudita (renderização)

Eve: o eixo mais avançado
Dos três segmentos, o da mobilidade aérea urbana é o que apresenta a trajetória mais consistente na Arábia Saudita. A Eve Air Mobility fechou acordos com duas das principais empresas do setor aéreo saudita e inseriu o reino numa estratégia regional que não tem paralelo nos eixos de defesa e aviação comercial.

O primeiro acordo foi o memorando de entendimento com a Flynas, firmado em 29 de novembro de 2023, durante a visita do presidente Lula a Riad. A Flynas  (maior companhia aérea de baixo custo do Oriente Médio, com 60 aeronaves, mais de 1.500 voos semanais e 70 destinos domésticos e internacionais) comprometeu-se a explorar operações de eVTOL em Riad e Jeddah, com perspectiva inicial de início em 2026. O acordo foi apresentado pelas partes como uma contribuição direta às metas de sustentabilidade da Vision 2030, incluindo a neutralização de emissões de gases de efeito estufa até 2060.

O segundo acordo, de natureza operacional e industrial, foi o memorando de entendimento assinado com a Saudia Technic em maio de 2024, durante o Future Aviation Forum em Riad. A Saudia Technic é a principal empresa de MRO do Oriente Médio e integra o grupo Saudi Arabian Airlines. O documento estabeleceu a cooperação em três frentes: treinamento de pessoal para manutenção de eVTOLs, avaliação de infraestrutura para operações na região e estudo da viabilidade de remontagem local da aeronave da Eve na Arábia Saudita, o que representaria uma etapa de industrialização relevante para o reino.

A Eve também chegou a explorar com a Saudia Technic a possibilidade de que a própria Saudia (braço de aviação do grupo, separado da Saudia Technic) participasse do processo de remontagem local do eVTOL para o mercado saudita, embora esse desdobramento específico permaneça em fase de avaliação.

Do lado do produto, o programa da Eve avançou significativamente em 2025 e 2026. Em dezembro de 2025, a empresa realizou o primeiro voo do protótipo em escala real, não tripulado, em Gavião Peixoto (SP), validando a arquitetura básica do veículo, incluindo o sistema fly-by-wire de quinta geração e os rotores de sustentação. Em março de 2026, o mesmo protótipo voou perante autoridades brasileiras, incluindo o presidente Lula, no âmbito da campanha de testes que prevê até 300 ensaios ao longo do ano. A fase seguinte, com voos de transição do modo vertical para o voo sustentado pelas asas, está prevista para o segundo semestre de 2026.

Em 12 de junho de 2026, executivos da Eve confirmaram que a certificação de tipo foi revisada de 2027 para 2028, refletindo a complexidade de certificar uma categoria inteiramente nova de aeronave junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com alinhamento paralelo com a FAA americana e a EASA europeia. O novo cronograma prevê a construção de seis protótipos em conformidade com os requisitos de certificação, a partir da fábrica da Eve em Taubaté (SP), com capacidade projetada para até 480 unidades por ano em regime de maturidade. O adiamento não é exceção no setor: vários fabricantes de eVTOL que previam entrada em serviço para meados da década já revisaram seus planos, diante das complexidades regulatórias da nova categoria.

A carteira da Eve soma atualmente cerca de 2.900 reservas de 30 clientes em 13 países, representando um potencial estimado de US$ 14,5 bilhões em receita. O CEO Francisco Gomes Neto projeta que o programa pode contribuir com US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão ao ano à receita do grupo Embraer em regime de cruzeiro. O consumo de caixa em 2026 deve ficar na faixa inferior da projeção da empresa, entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões, com liquidez de US$ 641 milhões que, segundo a empresa, garante operação até meados de 2028, janela que coincide com o prazo de certificação e que não oferece margem significativa para novos atrasos.

Para a Arábia Saudita, o interesse na Eve vai além do táxi aéreo urbano: a possibilidade de remontagem local do eVTOL em território saudita, ainda em avaliação, alinharia o programa à política de localização industrial da Vision 2030 e criaria um precedente de manufatura aeronáutica de nova geração no reino.

E2: a aviação comercial depende de uma nova companhia aérea
O futuro do E2 na Arábia Saudita está vinculado ao projeto de uma terceira companhia aérea nacional saudita, a ser sediada em Dammam, diferenciando-se da Saudia (Jeddah) e da Riyadh Air (Riad). O memorando entre NIDC, Grupo AHQ e Embraer, firmado em maio de 2024, avalia o E2 como candidato preferencial para a frota desse operador. Os detalhes do projeto permanecem indefinidos: modelo de negócios, estrutura acionária e frota ainda não foram anunciados.

O contexto regional para o E2 é desafiador. Historicamente, as companhias aéreas do Golfo evitaram jatos regionais. A exceção mais recente na região é a Salam Air (Omã), que encomendou seis E195-E2, com entregas a partir de 2025. O êxito eventual de um operador saudita com o E2 dependeria de uma aposta no segmento de rotas domésticas e conexões africanas sub-representadas nas operações atuais.

Arjan Meijer, CEO da Embraer Commercial Aviation, informou que o E2 detém 76% do mercado global na categoria de jatos regionais, com 24 clientes, 202 aeronaves entregues e cerca de 1,25 milhão de horas de voo acumuladas. A base regional do Oriente Médio permanece, por ora, marginal nessa contagem.

Balanço: muitos acordos, mas os contratos ainda estão por vir
Entre 2022 e 2024, a Embraer firmou com atores sauditas pelo menos oito documentos formais de cooperação envolvendo entidades governamentais (MISA, GACA, Ministério da Indústria), empresas estatais (SAMI, NIDC) e operadoras privadas (Flynas, Saudia Technic, Grupo AHQ). Nenhum evoluiu ainda para contrato de aquisição.

O eixo da defesa esfriou em 2026, com o foco da Embraer Defesa & Segurança migrando para Índia e EUA. O eixo comercial civil aguarda a definição do projeto de companhia aérea em Dammam. O eixo da mobilidade urbana avança no ritmo do próprio programa de certificação da Eve, com 2028 como horizonte realista para operações.

A cobertura recente do Asharq Al-Awsat e a presença da Embraer na cúpula da Iata no Rio de Janeiro sinalizam que o mercado saudita permanece na agenda estratégica da empresa. A Arábia Saudita não saiu do mapa, mas a conversão das intenções em pedidos depende de variáveis que ainda não se alinharam: a decisão final sobre o substituto do C-130 saudita, o modelo de negócios da nova companhia aérea a ser criada e o calendário de certificação do eVTOL.

14 junho, 2026

Após demonstração no QGEx, Taurus recebe Comando Militar do Sul e Instituto Militar de Engenharia

Visitas institucionais em menos de duas semanas seguem o impacto do SSNTFT e ocorrem na janela em que o Exército prepara diretrizes de aquisição de drones

Comitiva do CMS na Taurus


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LRCA Defense Consulting - 14/06/2026

O 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT), realizado entre 25 e 27 de maio de 2026 no Quartel-General do Exército (QGEx), em Brasília, deixou rastros institucionais que se materializam em visitas. Na ocasião, a Taurus Armas realizou tiros reais com o Tactical Air Soldier (TAS) equipado com um fuzil T4 5,56 mm e, também, com um lançador de granadas Mertsav 40 mm embarcados.

A demonstração impressionou o Alto Comando e se firmou como a referência mais concreta de capacidade disponível na Base Industrial de Defesa (BID) nacional no segmento de drones armados. Ao encerrar o evento, o comandante do Exército, general de exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, anunciou que as diretrizes para aquisição de sistemas não tripulados seriam preparadas a partir de junho de 2026, com nova reunião do Alto Comando prevista para o mesmo período.

General de exército Luís Cláudio de Mattos Basto 
e Salesio Nuhs na Taurus

A janela se abriu e as visitas vieram. Em 4 de junho, uma comitiva do Comando Militar do Sul (CMS), liderada pelo general de exército Luís Cláudio de Mattos Basto, esteve na sede da Taurus em São Leopoldo (RS), sendo recebida pelo CEO Global, Salesio Nuhs, e pelos diretores da companhia. A pauta declarada incluiu a apresentação das capacidades industriais, tecnológicas e de inovação da empresa, "incluindo a divisão de veículos aéreos e terrestres não tripulados". 
 
Em 12 de junho, o general de divisão Juraci Ferreira Galdino, Comandante do Instituto Militar de Engenharia (IME), visitou a Taurus e foi recebido por Leonardo Sesti, diretor do Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia (CITE), com pauta idêntica quanto à divisão de sistemas não tripulados.

A sequência é reveladora. O CMS, um dos maiores comandos operacionais da Força Terrestre e diretamente responsável pela capacidade de combate de parcela significativa do Exército, chegou primeiro: movimento típico de quem avalia o que está disponível para emprego. 

General de divisão Juraci Ferreira Galdino, Comandante IME foi recebido por 
Leonardo Sesti, diretor do CITE

O IME, principal referência nacional em formação e desenvolvimento tecnológico de engenharia militar, veio depois: sinal de aprofundamento, não de prospecção inicial. A ordem sugere que o Exército já processou a demonstração do SSNTFT e está agora em fase de mapeamento tanto operacional quanto técnico-institucional. 

Falta saber se o IME formalizará algum protocolo de cooperação com a Taurus e, acima de tudo, o que emergirá da reunião do Alto Comando prevista para este mês com as diretrizes de aquisição.


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