Resultado do terceiro trimestre combina despesas sob controle, expansão dos contratos de serviços e chegada das primeiras peças do Eve 100 certificável; patrimônio líquido negativo antecipa a discussão sobre nova captação antes da entrada em serviço, prevista para 2028
Os dados constam do relatório trimestral (Formulário 10-Q) entregue à Securities and Exchange Commission (SEC), dos Estados Unidos, do relatório de resultados e da apresentação feita a investidores em teleconferência pela manhã. Com sede em Melbourne, na Flórida, e operações em São José dos Campos (SP), a Eve tem ações negociadas na Bolsa de Nova York (EVEX) e recibos de ações (BDR) na B3 (EVEB31). A Embraer detém cerca de 72% do capital.
Prejuízo maior, operação mais enxuta
Por estar em fase pré-operacional, a Eve não tem receita, e seus resultados refletem sobretudo os custos de desenvolvimento. As despesas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) subiram para US$ 48,3 milhões, ante US$ 44,9 milhões um ano antes, impulsionadas pelo Master Services Agreement (MSA), contrato pelo qual engenheiros da Embraer trabalham no programa. Já as despesas gerais e administrativas caíram 15%, para US$ 6,0 milhões, apesar da valorização média de cerca de 4% do real frente ao dólar, que encarece os custos incorridos no País.
O aumento do prejuízo decorre mais do resultado financeiro do que da operação. O prejuízo operacional cresceu apenas 5%, enquanto a despesa de juros dobrou, para US$ 5,5 milhões, em razão do empréstimo sindicalizado de US$ 150 milhões contratado em janeiro com Banco do Brasil, Citibank, Itaú Unibanco e MUFG. Também pesou o menor ganho contábil com a reavaliação de warrants (US$ 1,0 milhão, contra US$ 6,4 milhões no terceiro trimestre de 2025). No acumulado de nove meses, o prejuízo ficou praticamente estável: US$ 161,1 milhões, ante US$ 160,3 milhões em 2025.
A comparação com o trimestre anterior também exige cuidado. O prejuízo de US$ 34,2 milhões registrado entre abril e junho foi favorecido por renegociações com fornecedores e pelo adiamento de pagamentos do MSA para o início do terceiro trimestre, o que ajuda a explicar o salto entre um período e outro.
Caixa assegurado até 2028
O consumo de caixa (fluxo de caixa livre) foi de US$ 55,1 milhões no trimestre, abaixo dos US$ 60,7 milhões de um ano antes, e chegou a US$ 173,1 milhões em nove meses. Em agosto, a Eve esperava fechar 2026 no meio da faixa projetada, perto de US$ 250 milhões. Agora, aponta para o piso, de US$ 225 milhões, o que implica um quarto trimestre em torno de US$ 52 milhões. A empresa atribui a melhora às economias internas e às sinergias com a Embraer, estimadas na teleconferência de agosto entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões até 2028, conforme publicou o LRCA.
A liquidez total, que inclui caixa, aplicações financeiras, linhas de crédito ainda não sacadas e recursos não reembolsáveis da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), somou US$ 470,4 milhões ao fim de setembro. Caixa, equivalentes e aplicações totalizaram US$ 356,0 milhões, montante ligeiramente superior à dívida bruta, de US$ 322,1 milhões, cuja taxa média ponderada é de 6,6% ao ano. A empresa não descumpriu nenhuma cláusula contratual (covenant) e ainda não sacou os R$ 500 milhões da linha do BNDES destinada à fábrica de Taubaté (SP). A direção reafirmou que os recursos bastam para financiar as operações e o programa até 2028.
Patrimônio negativo e nova captação no horizonte
O balanço trouxe, pela primeira vez, patrimônio líquido negativo, de US$ 34,5 milhões, efeito da combinação entre prejuízos acumulados (US$ 868,2 milhões) e o aumento do endividamento ao longo do ano. A situação é comum entre empresas pré-operacionais financiadas por dívida e não compromete a liquidez de curto prazo, mas tende a acelerar a discussão sobre uma nova emissão de ações. No 10-Q, a Eve informa que ainda não decidiu as fontes adicionais de recursos e que avalia alternativas como financiamentos de longo prazo, adiantamentos de clientes, dívida conversível e emissão de ações.
Em entrevista à Forbes Brasil, em outubro, o CEO Johann Bordais estimou que a empresa terá levantado cerca de US$ 1,2 bilhão até a certificação, na proporção de 60% de capital próprio e 40% de dívida, como registrou o LRCA. A folga de caixa até 2028 permite à companhia escolher o momento, que poderá coincidir com marcos técnicos capazes de valorizar a ação, como o primeiro voo do protótipo conforme.
Protótipo a poucos voos da transição completa
No campo técnico, o protótipo de engenharia em escala real, pilotado remotamente a partir de uma estação instalada em caminhão, acumula 73 voos, 3 horas e 6 minutos no ar e 170 pontos de ensaio validados, o equivalente a 91% da campanha prevista. Na teleconferência de agosto, eram 66 voos e 150 pontos. Os ensaios ocorrem na unidade da Embraer em Gavião Peixoto (SP).
Depois de 59 voos na fase de voo pairado (hover), concluída em maio, a aeronave retomou os ensaios em julho, já com a hélice propulsora traseira (pusher) acionada em voo, e iniciou a transição parcial em agosto. Foram 14 voos nessa etapa, com velocidade crescente até 45 nós, marca alcançada em 17 de outubro, quando o eVTOL atingiu 81,5 km/h. Na teleconferência desta quinta-feira, segundo a revista AIN, Bordais afirmou que o protótipo está a cerca de oito voos da transição completa.
Nessa fase, prevista para antes do fim do ano, a aeronave decolará na vertical com os oito rotores de sustentação, acelerará com o pusher e, a cerca de 80 nós, conforme a temperatura e a densidade do ar, passará a ser sustentada pelas asas. Os rotores serão então desligados e suas hélices, rebatidas para reduzir o arrasto, com envelope de voo previsto até 100 nós. A etapa é considerada uma das mais críticas em projetos de configuração lift + cruise. A campanha será encerrada com falhas programadas, como desligamento de motores, para validar os procedimentos de emergência do fly-by-wire e dos pilotos.
A empresa informou ainda que o protótipo demonstrou a função de pouso automático (Autoland) e o modo simplificado do fly-by-wire, camada redundante acionada quando o modo normal está indisponível. O ruído ficou dentro do esperado, e o desempenho da propulsão e da bateria superou as projeções.
Peças do Eve 100 certificável começam a chegar
Em paralelo, a Eve concluiu a maior parte das revisões críticas de projeto (Critical Design Review, CDR), etapa que libera os desenhos finais para que os fornecedores iniciem a fabricação. As demais deverão ser encerradas até o fim de 2026. As primeiras peças do primeiro de seis protótipos conformes, que terão todos os sistemas e redundâncias da versão comercial e serão usados para acumular horas de certificação, já chegaram a um hangar da Embraer em São José dos Campos.
A cadeia de fornecimento é internacional, com participação brasileira. A RALLC, de São José dos Campos, produziu moldes da fuselagem e o nariz destinado à qualificação da primeira peça. A Sonaca entregou revestimentos da caixa da asa e das pontas de asa, e a coreana KAI (Korea Aerospace Industries) fabricou o ferramental do pylon, estrutura que sustenta os rotores. Os motores dos rotores de sustentação são da Nidec Aerospace, joint venture entre a japonesa Nidec (51%) e a Embraer (49%), e o oitavo deles passa pela última bateria de testes. A bateria é desenvolvida pela BAE Systems, e os ensaios demonstraram a contenção da fuga térmica (thermal runaway), reação que pode levar ao superaquecimento e à falha das células.
Ao todo, as bancadas de teste somam cerca de 16.500 horas, incluindo dois Iron Birds, plataformas que integram em solo os sistemas reais da aeronave. O primeiro voo de um protótipo conforme, já tripulado, continua previsto para o segundo semestre de 2027. Com 15,2 m de envergadura e cabine de 3,3 m, para quatro passageiros e um piloto, o Eve 100 foi dimensionado para operar na maior parte dos helipontos existentes.
Certificação mantida para 2028
A ANAC, autoridade certificadora primária do programa, publicou a base de certificação do eVTOL em novembro de 2024, e a Eve já alinhou com a agência a maior parte dos meios de conformidade, os ensaios, análises e simulações exigidos para o certificado de tipo. Em julho, a ANAC publicou a proposta de critérios de certificação de ruído do Eve 100 e realizou consulta ao setor sobre critérios atualizados de aeronavegabilidade.
Como o protocolo permite obter créditos de certificação em ensaios de solo, a campanha começará antes dos primeiros voos dos protótipos conformes. A validação pela FAA, dos Estados Unidos, deverá ocorrer simultaneamente à certificação brasileira, em 2028. A EASA, da União Europeia, aceitou o pedido de validação em abril; os ensaios deverão começar em meados de 2028, em processo estimado em 18 meses. A Eve prevê iniciar a comercialização do eVTOL e dos serviços de suporte em 2028. Em entrevista à Axios, em outubro, Bordais situou a certificação em dezembro daquele ano.
Serviços crescem mais que a carteira
A carteira de pré-pedidos encerrou o trimestre com cerca de 2,5 mil aeronaves, avaliadas em US$ 12,6 bilhões a preço de tabela, distribuídas entre 28 clientes de nove países. No segundo trimestre, eram cerca de 2,7 mil unidades e US$ 13,5 bilhões. A conversão da carta de intenções da FlyBIS, de até 40 para até 12 unidades, explica apenas parte da redução, e a empresa não detalhou o restante da variação. A carteira é composta majoritariamente por cartas de intenção não vinculantes.
Os compromissos vinculantes, por outro lado, avançaram para 112 aeronaves, equivalentes a cerca de US$ 560 milhões: até 50 para a Revo, de São Paulo, até 50 para a japonesa AirX e até 12 para a FlyBIS. Os valores indicam preço de tabela de aproximadamente US$ 5 milhões por aeronave.
O dado mais favorável está no Eve TechCare, a plataforma de manutenção, treinamento, materiais e serviços técnicos que a empresa pretende oferecer inclusive a aeronaves de outros fabricantes. Os contratos não vinculantes de serviços passaram de 12 para 13 clientes, que respondem por cerca de 1,1 mil eVTOLs (42% da carteira, ante 39% no trimestre anterior), com receita potencial estimada em US$ 1,5 bilhão nos primeiros anos de operação. O Eve Vector, sistema de gerenciamento de tráfego aéreo urbano, reúne cartas de intenção de 21 clientes. Também cresceu o peso dos operadores de helicópteros na carteira, de 29% para 33%, público familiarizado com o custo de aeronaves paradas e, portanto, sensível à proposta de suporte integrado.
Sul do País entra no mapa
Na véspera da divulgação dos resultados, a Eve e a FlyBIS, de Caxias do Sul (RS), assinaram acordo vinculante com duas encomendas firmes e direitos de compra para mais dez aeronaves, em negócio de até US$ 60 milhões a preço de tabela, como publicou o LRCA. As rotas em estudo incluem Navegantes, Balneário Camboriú e Florianópolis, no litoral catarinense, e destinos turísticos da Serra Gaúcha, como Gramado e Bento Gonçalves. Em julho, a FlyBIS havia firmado protocolo com a Prefeitura de Gramado para operar a partir de 2028, com vertiporto no complexo Sirena e voo estimado em 25 minutos até Porto Alegre. A empresa abriu nova rodada de captação para financiar a frota.
A preparação do ambiente regulatório também avança. Em 21 de setembro, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) reuniu, em Brasília, a Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), a ANAC, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e a Eve para discutir vertiportos, energia, segurança operacional, telecomunicações e integração ao espaço aéreo. Na ocasião, ANAC e Eve projetaram para 2028 as primeiras operações comerciais no País. Para a Eve, o Brasil reúne condições para estar entre os primeiros mercados a ganhar escala após a certificação, com dois operadores já comprometidos.
No exterior, a empresa firmou em agosto memorando de entendimento com a tailandesa RV Connex para desenvolver o arcabouço regulatório da mobilidade aérea avançada na Tailândia e anunciou parceria com o Departamento de Transportes da Flórida (FDOT) para ensaios no centro de pesquisa SunTrax Air.
Outros registros
O 10-Q registra o encerramento da ação derivativa movida por um acionista contra a Embraer Aircraft Holding e administradores da Eve, retirada voluntariamente em julho. Em outubro, a NYSE suspendeu a negociação dos warrants públicos da empresa (EVEXW) por preço anormalmente baixo e iniciou o processo de deslistagem desses títulos, que têm preço de exercício de US$ 11,50 e vencem em maio de 2027. A medida não afeta as ações ordinárias, que seguem negociadas sob o código EVEX.
Próximos marcos
A transição completa do protótipo, a conclusão das revisões críticas de projeto e o início da montagem dos protótipos conformes são os marcos previstos até o fim do ano. Em dezembro, a direção participará da UBS Global Industrials and Transportation Conference, em Palm Beach, e da conferência Industrials & Materials do Goldman Sachs, em Nova York. Se o cronograma for mantido, 2027 deverá ser o ano em que a Eve deixará de testar um demonstrador para voar, com piloto a bordo, a aeronave que pretende certificar e vender.





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