Empresa brasileira apresenta na LAAD o conceito UCAV
do Nauru 100D, capaz de atacar, retornar e ser rearmado, uma virada na
concepção de drones de combate nacionais
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| Na LAAD 2026, o drone Nauru 100D armado com granada de alto explosivo (HE) |
*LRCA Defense Consulting - 19/04/2026
Numa das maiores feiras de defesa e segurança da América Latina, a LAAD Security Milipol Brazil 2026, realizada entre os dias 14 e 16 de abril no Transamerica Expo Center, em São Paulo, a empresa brasileira XMobots chamou atenção do setor com a apresentação de um dos conceitos mais ousados de sua história: uma versão armada do Nauru 100D ISTAR configurada como UCAV - Unmanned Combat Aerial Vehicle (Veículo Aéreo Não Tripulado de Combate).
O diferencial do conceito da XMobots em relação ao que já existe no mercado nacional não está apenas na capacidade de ataque, mas na capacidade de “atraque”, um termo moderno que identifica a aptidão de uma aeronave não tripulada para executar missões com precisão, retornar à base, ser rearmada e operar novamente. Essa característica posiciona o Nauru 100D em uma categoria ainda pouco explorada por fabricantes sul-americanos.
O "aliado invisível" ganha garras
O Nauru 100D foi lançado em abril de 2025 sob a nova marca XMobots
Defense, criada para estruturar o braço militar da companhia de São Carlos
(SP). Em sua versão básica ISTAR, sigla para Intelligence, Surveillance,
Target Acquisition and Reconnaissance, o drone já impressiona: pesa
apenas 9 kg, pode ser montado em menos de três minutos, cabe em duas mochilas
táticas e oferece até 6 horas de autonomia operacional com o kit padrão de três
baterias.
Com tecnologia eVTOL (Electric Vertical Take-Off and Landing), decola e pousa verticalmente sem necessidade de pista ou catapulta. Opera dia e noite graças a sensores RGB e infravermelho termal, transmite imagens em tempo real, faz rastreamento inteligente de alvos com inteligência artificial embarcada e é fabricado com materiais antirreflexo que lhe conferem baixa assinatura térmica e sonora, tornando-o, nas palavras da própria empresa, praticamente indetectável.
A versão armada, agora revelada na LAAD, transforma essa plataforma silenciosa em um sistema de ataque de precisão. O conceito UCAV prevê:
- Emprego de cargas de alto explosivo (HE) e capacidade antitanque (HEAT);
- Correção de trajetória em tempo real durante o voo de ataque;
- Retorno à base para rearmamento e novas missões, o elemento mais inovador do conceito.
A capacidade de atraque e reuso distingue o Nauru 100D UCAV das chamadas loitering munitions (munições de cruzeiro com tempo de espera, ou munições vagantes), que são descartadas no impacto (kamikase). Aqui, a aeronave é um ativo reutilizável, o que reduz custos operacionais e aumenta a sustentabilidade tática de unidades em campo.
O enxame que pode mudar a equação tática
Além da versão UCAV, a XMobots apresentou o conceito Swarm, ou seja, operações coordenadas com múltiplos drones lançados simultaneamente. O sistema
prevê o disparo de dezenas de aeronaves a partir de um contêiner de 20 pés, com
uma divisão de tarefas entre unidades de reconhecimento e unidades de ataque
agindo em conjunto.
As especificações divulgadas indicam capacidade para lançamento simultâneo de até 30 aeronaves, três voltadas ao reconhecimento e 27 ao ataque coordenado. A lógica é a saturação de alvos: ao sobrecarregar sistemas de defesa com múltiplas ameaças simultâneas, o enxame aumenta dramaticamente a probabilidade de êxito da missão.
Com capacidade produtiva de 360 unidades por mês, mais de 4.000 por ano, a XMobots afirma já ter iniciado a fabricação de um lote-teste de 20 sistemas e recebido pedidos iniciais.
Ambas as versões, UCAV e o modelo Swarm (enxame), estão atualmente em fase de desenvolvimento e validação conceitual.
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| Imagem meramente ilustrativa |
Uma empresa, um ecossistema
A apresentação na LAAD não se resumiu ao Nauru 100D. A XMobots exibiu todo
o espectro de seu portfólio de defesa, revelando uma empresa que, em menos de
duas décadas, construiu um ecossistema industrial verticalizado, do hardware
ao software, dos sensores à inteligência artificial.
O Nauru 1000C ISTAR, modelo mais robusto da família, já está operando nas Forças Armadas brasileiras. Selecionado pelo Exército Brasileiro para missões de inteligência e reconhecimento de fronteiras, o drone de 150 kg oferece até 10 horas de autonomia, alcance de comunicação de 60 km e capacidade de carga útil de 18 kg. Opera a partir de abrigos móveis (shelters) ou contêineres.
Também apresentado no evento foi o sensor XSIS 222A, desenvolvido pela própria XMobots, o primeiro gimbal eletro-óptico voltado para defesa e segurança produzido inteiramente no Brasil. Compatível com o Nauru 1000C e integrável a helicópteros, o sensor combina câmera com zoom de até 30 vezes, infravermelho termal, apontador e telerômetro laser (instrumento de medição que utiliza um feixe de luz laser para determinar a distância entre o dispositivo e um objeto ou superfície específica), permitindo identificação de veículos e indivíduos mesmo em ambientes urbanos ou sob densa vegetação.
E encerrando a jornada tecnológica apresentada na feira, a empresa anunciou o programa XMobots Vision, voltado à mobilidade aérea autônoma, com aplicações que vão do transporte de passageiros em rotas regionais à logística tática militar, operando sem dependência de infraestrutura dedicada.

Sensor XSIS 222A montado no drone Nauru 1000C
Parcerias estratégicas e soberania tecnológica
O avanço da XMobots no segmento de combate não acontece no vácuo. A empresa
soma parcerias que alavancam tanto sua capacidade técnica quanto seu alcance
internacional.
Em setembro de 2022, a Embraer, terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, anunciou participação minoritária na XMobots. Em janeiro de 2024, um novo aporte foi realizado, reforçando o compromisso estratégico da gigante brasileira com o segmento de drones. A entrada da Embraer abre portas ao mercado internacional e traz expertise em sistemas aeronáuticos de alto desempenho, especialmente em eVTOL, área em que a Embraer atua por meio de sua subsidiária Eve Air Mobility.
Paralelamente, a XMobots firmou acordo com a MBDA, empresa europeia especializada em mísseis, para o desenvolvimento de uma versão armada do Nauru 1000C equipada com mísseis Enforcer, o que representaria o primeiro sistema de arma aéreo não tripulado genuinamente brasileiro.
Em janeiro de 2026, foi anunciada outra parceria de peso: a XMobots, a Marinha do Brasil e a Petrobras assinaram acordo de cooperação técnica no âmbito do projeto MMRE (Monitoramento Marítimo com Recursos Embarcados), com investimento de R$ 40 milhões. O objetivo é adaptar os drones da família Nauru para operações a partir de navios em movimento, monitoramento ambiental da Amazônia Azul e combate ao tráfico no mar territorial brasileiro.
"Essa parceria mostra o quanto o país quer garantir que as tecnologias aqui desenvolvidas tragam impactos positivos na eficácia da vigilância e segurança marítima", afirmou o CEO da XMobots, Giovani Amianti, por ocasião do anúncio.
Da lavoura ao campo de batalha
Fundada em 2007 em São Carlos (SP) com foco inicial no agronegócio e
geotecnologias, a XMobots percorreu um caminho improvável até se tornar uma
referência em drones militares. Hoje classificada como a maior empresa de
drones da América Latina e a 6ª maior do mundo segundo a plataforma
Drone Industry Insights, a companhia conta com mais de 700 colaboradores, dos
quais cerca de 60 engenheiros dedicados à pesquisa e desenvolvimento.
Seu modelo de negócio é verticalmente integrado: a empresa domina todo o ciclo de desenvolvimento, da aviônica ao software embarcado, com taxa de nacionalização próxima a 90% dos componentes. Foi a primeira empresa brasileira a ter equipamento certificado pela ANAC para operações BVLOS (Beyond Visual Line of Sight) acima de 400 pés.
Na LAAD, a diretora comercial e de marketing da XMobots, Thatiana Miloso, sintetizou a filosofia que move a empresa: "A Xmobots tem como foco desenvolver tecnologias que ampliem a capacidade de decisão em cenários críticos, com mais precisão, autonomia e segurança operacional."
O contexto que dá urgência ao tema
A apresentação do Nauru 100D UCAV acontece num momento em que os conflitos
contemporâneos, especialmente na Ucrânia e no Oriente Médio, reescrevem as
doutrinas militares globais sobre o uso de drones. O que antes era privilégio
de potências como Estados Unidos e Israel - aeronaves não tripuladas capazes de
atacar, sobreviver e retornar - começa a ser desenvolvido por países
emergentes.
O Brasil, com sua vasta fronteira terrestre e marítima, e sua crescente necessidade de vigilância soberana da Amazônia e da Amazônia Azul, tem razões estratégicas concretas para investir nessa capacidade. A XMobots, com o Nauru 100D UCAV, posiciona o país nessa corrida, ainda em fase de desenvolvimento, mas com uma base industrial e tecnológica que poucos países podem igualar.
O "aliado invisível" está prestes a ganhar dentes.






