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07 setembro, 2026

Avibras pode assumir montagem dos 36 obuseiros ATMOS do Exército

Proposta apresentada pela Elbit prevê participação da empresa de Jacareí na montagem dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, abrindo uma nova frente de negócios para a fabricante do sistema ASTROS 

Imagem meramente ilustrativa


*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A Avibras Aeroco poderá assumir em Jacareí (SP) a montagem dos 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 2000 de 155 mm que o Exército Brasileiro pretende adquirir da israelense Elbit Systems. A proposta que incorpora a empresa brasileira ao arranjo industrial foi apresentada ao Comando Logístico do Exército (COLOG) no fim de agosto e agora deverá passar por análise jurídica antes de qualquer contratação.

A informação foi revelada pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada nesta segunda-feira (7). Segundo a apuração, a solução prevê que os dois exemplares destinados ao lote de amostra e as 34 viaturas de série sejam montados em Jacareí pela Avibras, enquanto a produção de munições ficará associada à IMBEL. O valor estimado da aquisição é de aproximadamente R$ 800 milhões.

Uma licitação que espera há dois anos 
A proposta representa uma tentativa de destravar uma aquisição que permanece sem contrato desde 2024, embora o ATMOS tenha sido formalmente classificado em primeiro lugar na concorrência internacional conduzida pelo Exército. O resultado oficial, publicado em abril daquele ano, colocou o sistema da Elbit à frente do Zuzana 2, da Excalibur International, do CAESAR, da KNDS France, e do SH15, da Norinco. A Elbit foi então convocada para a assinatura do contrato inicial do lote de amostra.

O processo, entretanto, não avançou para a contratação definitiva. A escolha do equipamento israelense passou a sofrer forte pressão política em razão da guerra em Gaza e da deterioração das relações entre o governo brasileiro e o governo de Israel. Paralelamente, a KNDS questionou o resultado da concorrência. Os recursos apresentados pela empresa francesa não alteraram a classificação final, e o Tribunal de Contas da União também não acolheu a tentativa de suspender o processo.

A Avibras entra na equação 
A nova solução procura preservar a escolha técnica realizada pelo Exército sem modificar as condições essenciais da proposta vencedora. Segundo a reportagem de Godoy, a proposta apresentada pela Elbit e pela AEL Sistemas já previa a participação de uma empresa brasileira na montagem dos obuseiros, embora não identificasse previamente qual empresa seria. Esse desenho permitiria, segundo a avaliação feita pelo Exército, incorporar a Avibras ao arranjo industrial sem alterar as condições fundamentais da oferta vencedora.

A aproximação entre Elbit/AEL e Avibras, portanto, não surgiu com a reportagem desta segunda-feira. O LRCA Defense Consulting já havia informado, em julho, que as empresas negociavam uma solução para a nacionalização da montagem do ATMOS em Jacareí. O portal também havia acompanhado o interesse da Elbit em ampliar sua presença industrial no Brasil.

Uma escolha com lógica industrial 

A escolha da Avibras apresenta uma lógica industrial particularmente forte. O ATMOS é um obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas, projetado para operar em diferentes configurações de chassis. A Elbit informa que o sistema pode ser integrado a caminhões 6x6 ou 8x8 escolhidos pelo cliente e que possui automação de pontaria, navegação e carregamento. A configuração brasileira foi associada à família Tatra T-815 6x6, uma plataforma com a qual a Avibras possui experiência acumulada no programa ASTROS.

Embora o obuseiro e o sistema de artilharia de foguetes sejam plataformas distintas, a experiência da empresa com integração de sistemas militares, fabricação de veículos e trabalho sobre chassis Tatra constitui uma base relevante para absorver a montagem do novo equipamento.

A parceria já vinha sendo construída 
A própria história da concorrência reforça essa conexão. A proposta do Zuzana 2, segunda colocada no processo, havia previsto uma parceria com a Avibras para a montagem nacional. A participação da empresa brasileira na produção de um obuseiro 155 mm sobre rodas, portanto, já fazia parte das alternativas industriais consideradas durante a competição, antes mesmo da escolha do ATMOS.

A aproximação entre a Avibras e a Elbit ganhou novo impulso em 2026, quando a empresa brasileira retomou suas atividades industriais em Jacareí. Em julho, o LRCA registrou as tratativas entre AEL Sistemas, Elbit Systems e Avibras Aeroco para viabilizar a montagem local do ATMOS.

O peso estratégico da munição 155 mm 
Para além das viaturas, a munição constitui um componente estratégico da negociação. A proposta vencedora do ATMOS contempla participação industrial brasileira na produção de munições de artilharia. A IMBEL aparece como protagonista desse eixo, o que amplia o alcance industrial do programa para além da fabricação das próprias viaturas.

A possibilidade de desenvolver no País competências relacionadas ao calibre 155 mm pode ser tão relevante, no longo prazo, quanto a montagem dos 36 obuseiros. Trata-se de uma capacidade que interessa diretamente à autonomia logística da artilharia e à formação de uma cadeia nacional de fornecedores.

KNDS volta a procurar a Avibras 

A movimentação da KNDS acrescenta outra dimensão ao cenário. Segundo Godoy, a empresa francesa voltou a procurar a Avibras e teria apresentado uma possibilidade de parceria envolvendo o CAESAR e transferência de tecnologia para munições dos calibres 105 mm, 120 mm e 155 mm.

A aproximação recupera uma relação industrial anterior entre as duas empresas, que chegaram a trabalhar juntas no conceito do sistema Tupã, derivado do CAESAR. A iniciativa francesa mostra que a Avibras voltou a ser percebida como um ativo industrial relevante e que a empresa brasileira pode se tornar novamente uma parceira disputada por grandes grupos internacionais de defesa.

Ainda não há contrato 
É importante, contudo, separar o que está definido do que ainda depende de decisão. O Exército já definiu o ATMOS como vencedor da concorrência, mas a participação da Avibras ainda está vinculada à análise da proposta apresentada ao COLOG. Segundo a apuração do Estadão, a expectativa no Estado-Maior do Exército é que o primeiro contrato, relativo aos protótipos, seja assinado ainda em 2026. Depois dos testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), seria negociado o contrato para as demais 34 viaturas.

Assim, ainda não é correto afirmar que a Avibras tenha recebido ou assinado o contrato dos ATMOS. O que existe, neste momento, é uma proposta formal apresentada ao COLOG, apoiada por uma solução industrial que procura conciliar a decisão técnica do Exército, as restrições políticas envolvendo Israel e a necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa brasileira.

Mais que uma linha de montagem 
Para a Avibras Aeroco, a eventual contratação teria importância que ultrapassa o valor financeiro do programa. Um programa de 36 viaturas criaria uma linha de produção e integração de sistemas de artilharia, preservando competências de engenharia e ampliando a carteira de encomendas da companhia.

O verdadeiro alcance da oportunidade, porém, dependerá do conteúdo da transferência tecnológica. Quanto maior for a participação brasileira em engenharia, fabricação de componentes, integração, manutenção e desenvolvimento de munições, maior será o efeito estruturante do programa sobre a empresa e sobre a Base Industrial de Defesa.

O caso também ilustra uma característica cada vez mais importante dos grandes programas militares: o equipamento selecionado é apenas uma parte da decisão. A capacidade de gerar produção local, domínio tecnológico, cadeia de fornecedores, autonomia logística e condições para futuros desenvolvimentos pode determinar o verdadeiro valor estratégico de uma aquisição.

No caso do ATMOS, a entrada da Avibras pode transformar uma compra que estava travada por razões políticas e geopolíticas em um programa com impacto direto sobre a indústria brasileira de defesa. A próxima etapa, portanto, será acompanhar a análise do COLOG e verificar se a proposta se converterá, de fato, em contrato.

BRVANT desenvolve o Carvalho, novo drone de ataque e vigilância com lançamento em enxame

Projeto brasileiro, ainda sem protótipo funcional, deriva da experiência com a munição inteligente Hunter e prevê emprego a partir de um veículo terrestre inspirado no conceito do ASTROS 

 Drone Carvalho em imagem renderizada por IA baseada na original exposta

*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A BRVANT Soluções Tecnológicas está desenvolvendo o Carvalho, uma nova plataforma aérea não tripulada concebida para missões de vigilância e ataque. O projeto, apresentado publicamente em 2026, ainda está em fase de desenvolvimento e não possui protótipo funcional, mas já incorpora uma concepção operacional que combina lançamento terrestre, emprego em enxame e diferentes alternativas de propulsão.

As informações mais recentes sobre o sistema foram apresentadas pelo gestor de projetos da BRVANT, Nilton Calete, em entrevista realizada na Base Aérea de Brasília a Roberto Caiafa, jornalista especializado em Defesa (vídeo abaixo). Segundo ele, o Carvalho surgiu de um projeto embrionário relacionado à família Hunter e entrou agora em uma segunda fase de desenvolvimento. O nome é uma homenagem a um coronel Carvalho, apontado pela empresa como um dos idealizadores do programa ASTROS.

Propulsão por hélice ou por turbina e com características multimissão, mas ainda não operacional 
De acordo com Calete, o Carvalho foi concebido para desempenhar tanto funções de vigilância quanto de ataque a estruturas. A plataforma poderá ser configurada com propulsão por hélice ou por turbina, conforme os requisitos do emprego. A empresa também prevê um sistema auxiliar para o lançamento, independentemente da configuração de propulsão adotada.

Um dos aspectos mais relevantes do projeto é sua integração com um sistema terrestre de lançamento. A BRVANT pretende utilizar um caminhão de concepção semelhante à dos sistemas do programa ASTROS, com pelo menos quatro Carvalhos por veículo, permitindo o lançamento em enxame. A mesma arquitetura poderá ser empregada em missões de vigilância, ataque ou, conforme a entrevista, em outras funções definidas pelo usuário.

A concepção aproxima o Carvalho de uma nova tendência observada nos conflitos contemporâneos: a combinação de veículos aéreos não tripulados de baixo custo relativo, lançamento múltiplo e emprego coordenado para produzir efeitos sobre alvos a distância. A comparação visual com os drones de ataque Shahed-136 e Geran-2, feita por fontes especializadas e também associada ao projeto nas redes sociais, ajuda a situar sua proposta, mas não significa que o sistema brasileiro seja uma cópia daqueles modelos.

A BRVANT ainda não divulgou uma ficha técnica definitiva do Carvalho. Não há, portanto, dados oficiais consolidados sobre alcance, velocidade, autonomia, massa máxima de decolagem ou precisão. Também não se deve tratar como especificação fechada a possibilidade de uma cabeça de guerra de 30 kg. Na entrevista, Calete explicou que uma carga dessa ordem poderá ser instalada caso seja definida como requisito pelo cliente. 

A mesma entrevista esclareceu que o Carvalho ainda está longe da fase operacional. Questionado sobre a previsão para o primeiro protótipo, Calete afirmou que ele ainda não é funcional e informou que a empresa apresentou uma proposta para captação de recursos junto à Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). Assim, as características hoje apresentadas devem ser entendidas como parte de um projeto em evolução, sujeito a mudanças durante o desenvolvimento.


Experiência ligada à família Hunter
A experiência que sustenta o Carvalho está ligada à família Hunter, desenvolvida pela BRVANT como munição inteligente. O Hunter V1 utiliza motorização elétrica e possui uma asa que se abre após o lançamento por gravidade. Na entrevista, a empresa informou que a versão V1 utiliza uma cabeça de guerra de 580 gramas, enquanto a V2 pode empregar uma cabeça de guerra de 2 kg. A plataforma pode ser empregada contra alvos terrestres e também como interceptador.

Informações publicadas pela Janes acrescentam que a família Hunter recebeu financiamento da FINEP e possui recursos como sensores eletro-ópticos, piloto automático, telemetria criptografada, unidade de medição inercial e receptor GPS. A publicação também registra capacidades de navegação autônoma e voo em enxame. Esses dados ajudam a compreender a base tecnológica a partir da qual a BRVANT pretende avançar para uma plataforma de maior porte, embora não permitam concluir que todas essas capacidades já estejam incorporadas ao Carvalho.

Uma IA que pretende ser 100% brasileira
Outro ponto de interesse é o desenvolvimento de inteligência artificial. Na entrevista, Calete afirmou que a BRVANT está desenvolvendo no Brasil a inteligência artificial empregada em suas munições inteligentes. Segundo ele, o treinamento utiliza ativos militares e busca atender a requisitos de assertividade superiores a 90%. A empresa também prevê a possibilidade de manter o ser humano no circuito, permitindo controle manual quando necessário.

Essa informação, contudo, precisa ser tratada com precisão. A entrevista confirma o desenvolvimento nacional da inteligência artificial, mas não estabelece, de forma inequívoca, que toda a tecnologia descrita já esteja embarcada no Carvalho. A expressão “IA 100% brasileira”, utilizada pelo jornalista Roberto Caiafa ao apresentar o sistema nas redes sociais, é mais abrangente do que a formulação feita pelo representante da empresa na entrevista.

Passo que amplia significativamente o potencial operacional da tecnologia Hunter
O Carvalho representa, portanto, um passo de maior escala dentro da trajetória de sistemas não tripulados da BRVANT. A empresa já atua no desenvolvimento de VANTs e outros sistemas não tripulados e é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa. A evolução da família Hunter para um sistema maior, com possibilidade de propulsão a hélice ou turbina e lançamento múltiplo a partir de veículo terrestre, amplia significativamente o potencial operacional da tecnologia.

Mais do que a semelhança externa com o Shahed-136, o aspecto que merece atenção no Carvalho é a arquitetura do sistema. Se o projeto evoluir conforme a concepção apresentada pela BRVANT, o Brasil poderá dispor de uma plataforma capaz de ser lançada em grupos, receber diferentes configurações de missão e combinar autonomia, inteligência artificial e controle humano. Trata-se, entretanto, de uma capacidade ainda em desenvolvimento, cuja viabilidade dependerá das próximas etapas de financiamento, engenharia, construção e testes.

Por enquanto, o Carvalho deve ser visto como um projeto promissor da Base Industrial de Defesa brasileira, e não como um sistema de armas já pronto. O primeiro marco decisivo será a construção e o voo do protótipo funcional. A partir daí será possível avaliar, com dados concretos, se a proposta conseguirá transformar a experiência acumulada pela BRVANT com a família Hunter em uma plataforma de maior alcance, carga e relevância operacional.

05 setembro, 2026

PLOA 2027 coloca programas de mísseis 14-X e MICLA em duas frentes estratégicas da FAB

Proposta orçamentária reserva R$ 23,7 milhões para o desenvolvimento da propulsão hipersônica e para a aquisição de mísseis de longo alcance; documentos não indicam que os dois projetos sejam integrados 



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 revela um dado que passou relativamente despercebido no detalhamento dos recursos destinados à Defesa: a Força Aérea Brasileira (FAB) terá, caso a proposta seja aprovada, duas dotações específicas para projetos de elevada complexidade tecnológica. Uma delas reserva R$ 12.694.107 ao Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X, identificado no orçamento como PropHiper. A outra destina R$ 11 milhões à aquisição de mísseis de longo alcance no âmbito do Projeto MICLA.

Somadas, as duas dotações chegam a R$ 23.694.107. Os valores não são expressivos quando comparados aos grandes programas de reaparelhamento das Forças Armadas, mas chamam atenção pela especificidade das ações e pelo que representam em termos de soberania tecnológica. De um lado, o País mantém uma linha de desenvolvimento de propulsão hipersônica. De outro, preserva no orçamento uma iniciativa voltada à obtenção de mísseis de longo alcance.

O dado ganha ainda mais relevância porque aparece poucos dias depois da publicação, pelo LRCA Defense Consulting, de uma análise ampla do PLOA 2027, na qual foram identificados os principais projetos de Defesa contemplados na proposta. Naquela reportagem, o foco estava nos grandes volumes destinados a aeronaves, submarinos, fragatas, blindados, drones e sistemas de mísseis. A análise específica das ações da Aeronáutica permite agora identificar duas rubricas que merecem atenção especial. 

14-X recebe dotação específica para o PropHiper 
A ação 16CN do PLOA 2027 tem uma denominação inequívoca: “Desenvolvimento do Projeto de Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper)”. A dotação proposta é de R$ 12.694.107, com R$ 11.694.107 classificados como despesas correntes e R$ 1 milhão como investimento. O produto orçamentário é descrito como pesquisa ou projeto desenvolvida(o), com meta física de uma unidade.

A natureza da rubrica é importante. O PLOA não está propondo a compra de um sistema de armas denominado 14-X, nem sua incorporação operacional. O recurso está associado ao desenvolvimento tecnológico da propulsão hipersônica. Portanto, o valor não pode ser interpretado como o custo de uma futura arma hipersônica, mas como uma dotação para a continuidade de uma linha de pesquisa e desenvolvimento.

O 14-X é desenvolvido no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica da FAB e utiliza tecnologia de propulsão do tipo scramjet. Como esse tipo de motor necessita de velocidades muito elevadas para operar, o programa envolve um desafio adicional: levar o veículo às condições adequadas antes que sua própria propulsão hipersônica entre em funcionamento.

RATO-14X é o elo com a campanha de ensaios 
É nesse ponto que entra o RATO-14X, sistema de decolagem assistida por foguete desenvolvido para impulsionar o veículo hipersônico. Segundo informações divulgadas pela Agência Espacial Brasileira e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o projeto é desenvolvido pela FAB, por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em parceria com empresas e instituições de pesquisa.

A Mac Jee participa do desenvolvimento do RATO-14X e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) também firmou parceria com a empresa para atividades relacionadas a aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória. O sistema deverá levar o 14-X a mais de 30 quilômetros de altitude e a velocidades superiores a Mach 8, criando as condições necessárias para os ensaios do veículo hipersônico.

Em julho de 2026, o LRCA Defense Consulting informou que a Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X havia sido concluída e que o lançamento do 14-X estava previsto para o final de 2027, no Centro Espacial de Alcântara. Na mesma ocasião, foi destacado que o DCTA havia inaugurado o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5 e relacionada ao esforço tecnológico do PropHiper.

MICLA aparece nominalmente no orçamento 
A segunda descoberta é igualmente relevante. A ação 16CQ do PLOA 2027 é denominada “Aquisição de Mísseis de Longo Alcance, Projeto MICLA” e recebe R$ 11 milhões. Aqui, a linguagem orçamentária é diferente da empregada no 14-X: não se trata de desenvolvimento de um projeto, mas de aquisição de armamento.

A proposta, entretanto, não informa quantos mísseis serão adquiridos, qual configuração será contemplada, quem será o fornecedor, qual será o cronograma de entrega ou qual parcela da dotação corresponde a eventual produção nacional. Também não é possível concluir, apenas a partir do PLOA, que os R$ 11 milhões resultarão em um lote operacional de MICLA-BR.

Ainda assim, a identificação nominal do Projeto MICLA é significativa. O projeto não é uma referência genérica a qualquer míssil de longo alcance. O orçamento vincula expressamente a ação 16CQ ao MICLA, mantendo a iniciativa dentro do planejamento da Aeronáutica para 2027.

Um projeto com história ligada à Avibras 
O MICLA-BR possui uma trajetória anterior à atual proposta orçamentária. O projeto foi desenvolvido pela FAB em parceria com a Avibras e está associado à busca brasileira por um míssil de cruzeiro de longo alcance. Em 2019, um F-5EM foi utilizado como plataforma de ensaios do sistema, em uma das evidências públicas mais importantes de que o projeto havia avançado para a fase de testes em voo.

O MICLA-BR foi descrito em fontes técnicas e documentos de planejamento como um míssil de cruzeiro destinado a lançamento a partir de plataformas aéreas, com alcance previsto na faixa de 300 quilômetros. O projeto também foi relacionado ao desenvolvimento de uma capacidade nacional de ataque de precisão de longo alcance e, historicamente, à futura integração com a família de caças Gripen.

A relação histórica com a Avibras torna a nova dotação especialmente interessante, mas exige cautela. O PLOA não identifica a empresa como destinatária dos R$ 11 milhões. Assim, não é possível afirmar que a previsão orçamentária represente uma nova encomenda à Avibras Aeroco ou mesmo que o eventual fornecimento será realizado pela empresa. O que o documento permite afirmar é que o Projeto MICLA continua nominalmente presente no planejamento orçamentário da FAB.

14-X e MICLA não são dois componentes do mesmo sistema 
A presença das duas ações no mesmo orçamento pode induzir a uma interpretação equivocada. Não há, no PLOA 2027, qualquer indicação de que o MICLA seja o sistema de lançamento do 14-X ou que os R$ 11 milhões destinados ao projeto de mísseis tenham relação direta com a campanha de ensaios hipersônicos.

O sistema associado ao lançamento experimental do 14-X é o RATO-14X. Seu objetivo é acelerar o veículo hipersônico até as condições de velocidade e altitude necessárias para o funcionamento do scramjet. O MICLA, por sua vez, é um projeto de míssil de cruzeiro de longo alcance, com finalidade militar distinta.

A relação entre os dois programas é, portanto, estratégica e não física. O 14-X representa a busca por domínio de tecnologias de propulsão e voo hipersônico. O MICLA representa a busca por uma capacidade nacional de ataque de precisão a longa distância. São iniciativas diferentes, mas ambas inseridas no esforço de ampliar o domínio tecnológico e as capacidades estratégicas da FAB. 

A grande pergunta agora é o que será comprado no âmbito do Projeto MICLA 
O aspecto mais intrigante da ação 16CQ é a palavra “aquisição”. Se o PLOA fosse destinado apenas a financiar pesquisa, desenvolvimento ou estudos, seria natural esperar uma formulação semelhante à utilizada na ação do PropHiper. A escolha do termo indica que a Aeronáutica pretende utilizar a dotação de 2027 para obter algum tipo de material relacionado ao Projeto MICLA.

O orçamento, porém, não permite saber se a aquisição será de protótipos, componentes, subsistemas, unidades para ensaios, itens destinados à integração com plataformas ou efetivamente mísseis completos. Essa informação será decisiva para avaliar o estágio real do programa e deverá ser buscada junto ao Comando da Aeronáutica, ao Ministério da Defesa e às empresas envolvidas.

Também será importante acompanhar a tramitação do PLOA no Congresso Nacional. A proposta ainda poderá sofrer alterações durante a discussão orçamentária e, depois de transformada em Lei Orçamentária Anual, a execução dependerá da programação financeira do Governo Federal.

Duas linhas de alta tecnologia no mesmo orçamento 
O dado mais relevante do PLOA 2027 não está apenas nos R$ 23,7 milhões somados. Está na decisão de manter, lado a lado, duas linhas tecnológicas que podem ter impacto significativo no futuro da Força Aérea.

No campo hipersônico, o Brasil procura dominar tecnologias de propulsão, materiais, aerodinâmica, controle e ensaios em velocidades superiores a Mach 5. No campo dos mísseis de longo alcance, busca preservar e transformar em capacidade militar um conhecimento acumulado ao longo de anos, incluindo a experiência do MICLA-BR e sua relação histórica com a indústria nacional.

O orçamento de 2027, portanto, não permite concluir que o Brasil esteja prestes a colocar em serviço uma arma hipersônica ou um novo míssil de cruzeiro. Permite, entretanto, afirmar algo mais preciso: a FAB reservou espaço orçamentário específico para continuar o desenvolvimento do 14-X e, simultaneamente, para adquirir material no âmbito do Projeto MICLA.

É uma combinação que merece acompanhamento. No caso do 14-X, porque 2027 pode ser o ano de uma campanha de ensaio em voo que representará um dos mais ambiciosos testes tecnológicos da história aeroespacial brasileira. No caso do MICLA, porque a palavra “aquisição” pode indicar uma mudança de estágio do programa, cuja natureza somente poderá ser esclarecida quando forem conhecidos os contratos, objetos de compra e fornecedores.

A partir desses dois movimentos, o PLOA 2027 passa a oferecer uma leitura adicional do esforço de modernização da FAB: além dos grandes programas já conhecidos, como Gripen e KC-390, existe uma agenda de tecnologias de alto risco e alto impacto potencial que continua recebendo recursos específicos.

Estudo na revista Science mostra que El Niño nunca foi tão forte em mil anos

Reconstrução publicada na revista Science aponta variabilidade do fenômeno 36,5% maior desde 1984 do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850; em Porto Alegre, prosseguem as obras e projetos, enquanto o Comando Militar do Sul já realizou o planejamento de suas próprias medidas preventivas


*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026

Passados quase dois meses da última reportagem da LRCA Defense Consulting, publicada em 11 de julho sob o título "À espera do novo El Niño: o Rio Grande do Sul entre a ciência, a prevenção e a capacidade de resposta", dois fatos novos justificam voltar ao tema. O primeiro é científico: um estudo publicado em 27 de agosto na revista Science reconstituiu mil anos de temperatura do Pacífico equatorial a partir de corais das Ilhas Galápagos e concluiu que os episódios de El Niño das últimas quatro décadas são os mais fortes de todo o período analisado, com indícios de que a intensificação tem origem humana. O segundo é local: um levantamento técnico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), de 1º de setembro, revela que o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, segue apenas parcialmente recuperado desde a catástrofe de 2024.

O que os corais de Galápagos revelam sobre os últimos mil anos
A pesquisa foi conduzida por Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da Universidade de Michigan, com colaboração de cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. A equipe coletou 13 amostras de esqueletos de coral, vivos e fósseis, nas Ilhas Galápagos, região situada no ponto de origem da formação do El Niño. Como os corais incorporam ano a ano, em seu esqueleto de carbonato de cálcio, elementos-traço da água do mar ao redor, a proporção de estrôncio e a razão isotópica do oxigênio-18 registradas em cada camada funcionam como um termômetro histórico do oceano.

O resultado, segundo os autores, é uma das reconstruções mais confiáveis já produzidas sobre a variabilidade do fenômeno: a oceanógrafa Kim Cobb, que não participou do estudo, classificou o trabalho, em entrevista à CNN, como próximo de um "padrão-ouro". Os dados mostram que a variabilidade do El Niño desde 1984 é 36,5% maior do que em todo o período entre os anos 1000 e 1850, e que os eventos das últimas quatro décadas superam em intensidade qualquer outro registrado no milênio estudado. Para Julia Cole, a coincidência entre esse salto e o aquecimento global de origem humana não parece casual: "Se alguém questionar essa conclusão, eu gostaria de saber qual seria a explicação alternativa", disse a pesquisadora à revista Science.

O estudo recupera, para efeito de comparação histórica, o custo de dois episódios recentes: o El Niño de 1982 e 1983, que provocou enchentes no Quênia e no Peru e seca na Indonésia e no Brasil, com perdas estimadas em até US$ 4 trilhões à economia global; e o de 1997 e 1998, que resultou em 23 mil mortes por doenças e desastres climáticos ao redor do mundo. Segundo os pesquisadores, o El Niño em curso já apresenta sinais de poder rivalizar com esses dois episódios em magnitude.

O prognóstico segue piorando desde julho
Os números oficiais também subiram desde a última reportagem da LRCA Defense Consulting. Em 29 de junho, o primeiro boletim conjunto de Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) já apontava probabilidade superior a 90% de o fenômeno persistir até pelo menos o início de 2027, com alta chance de um El Niño muito forte. Em 9 de julho, o Climate Prediction Center, da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), elevou de 63% para 81% a chance de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

Já em julho, a força do novo padrão climático se manifestou na prática: entre os dias 26 e 28, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para tempestades com granizo, rajadas de vento acima de 90 quilômetros por hora e acumulados de até 200 milímetros de chuva em 48 horas, colocando em monitoramento permanente os rios Uruguai, Jacuí e Ibirapuitã. Boletins mais recentes de previsão para setembro, mês em que o fenômeno segue se fortalecendo, indicam chuva frequente e risco de temporais em diversas regiões gaúchas, com o pico do El Niño projetado para a transição entre a primavera e o início do verão, podendo atingir, segundo alguns modelos, intensidade inédita.

Porto Alegre: a defesa contra cheias avança, mas segue incompleta
O dado mais sensível para o Rio Grande do Sul, porém, é local. Segundo o pesquisador Rodrigo Paiva, do IPH/UFRGS, ouvido em reportagem publicada em 1º de setembro, é difícil afirmar se uma nova cheia terá magnitude igual à de 2024, mas o novo El Niño exige a aceleração de medidas preventivas. Paiva reconhece avanços: investimentos em Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de pontes e estradas, estas projetadas com maior resiliência a eventos climáticos extremos. A principal vulnerabilidade, no entanto, persiste na capital gaúcha.

De acordo com o pesquisador, o sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, composto pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado em 2024 e ainda não está totalmente recuperado. Apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que os esforços de intervenção foram grandes, mas apenas parte das falhas foi corrigida, enquanto a maioria dos trabalhos necessários segue com obras em andamento ou ainda em fase de projeto.

E na Defesa? Nos EUA e no Brasil, boletins do El Niño tendem a ser tratados como indicador de ameaça militar
Se a vulnerabilidade civil de Porto Alegre segue exposta, o mesmo alerta vale, em outra dimensão, para as próprias Forças Armadas. Em 28 de julho, o jornal norte-americano Defense News publicou artigo de opinião de John Conger, ex-subsecretário adjunto principal de Defesa dos Estados Unidos para assuntos orçamentários, defendendo que comandos militares tratem boletins de El Niño como indicador de ameaça, testando com meses de antecedência suas próprias reservas de energia, combustível e água, suas rotas de acesso e seus sistemas de comunicação, além de reforçar a capacidade de socorrer a população civil.

A pergunta tem endereço direto no Rio Grande do Sul, sede do Comando Militar do Sul (CMS), a Grande Unidade do Exército Brasileiro com maior efetivo do País (cerca de 50 mil militares, um quarto de toda a Força, distribuídos por 160 organizações militares). O próprio núcleo histórico e administrativo do CMS, na Rua da Praia, em Porto Alegre, foi atingido pela enchente de 2024: o alagamento chegou a cortar a energia do Quartel-General Integrado e a tirar do ar, por um período, os sistemas lógicos então concentrados fisicamente no prédio, sob responsabilidade do Centro de Telemática de Área (CTA).

Questionado por esta reportagem sobre o que mudou desde então, o CMS informou que foi elaborado um plano de evacuação do Quartel-General que prevê a continuidade das operações administrativas e de comando no 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3º RCG), organização militar da Região Metropolitana de Porto Alegre. Quanto à infraestrutura de TI, o Comando confirmou que os servidores continuam fisicamente no mesmo local, mas que passou a existir a possibilidade de link com os servidores de outro Comando Militar de Área, dando redundância à estrutura e evitando que uma nova interrupção local volte a tirar os sistemas do ar. 

O CMS acrescentou que as demais organizações militares sob seu comando também reanalisaram e melhoraram os planos de contingência próprios para eventos climáticos severos, reforçando ainda as capacidades de apoio à população civil. Ou seja: assim como a defesa física de Porto Alegre contra cheias, a defesa da própria continuidade administrativa do Exército no Rio Grande do Sul já foi posta à prova em 2024 e, segundo o Comando, foi proativamente redesenhada desde então, permanecendo sob constante monitoramento.

O que muda com esses dois achados
Antes, o alerta sobre o El Niño no Rio Grande do Sul se apoiava em boletins de probabilidade e no precedente direto de 2024. Agora, um estudo publicado em revista científica de referência sugere que o próprio fenômeno está estruturalmente mais forte do que em qualquer momento dos últimos mil anos, e que essa mudança tende a ser permanente, não um pico isolado. 

Ao mesmo tempo, duas vulnerabilidades identificadas em 2024, a defesa física de Porto Alegre contra cheias e a continuidade administrativa do Comando Militar do Sul, aparecem em situações distintas: a primeira, ainda sob ameaça; a segunda, conforme o próprio CMS, já planejada e reforçada.


Fontes: revista Science; Julia Cole (Universidade de Michigan); CNN; Inmet; Inpe; ANA; Cemaden; SGB; Sedec; Noaa/Climate Prediction Center; Defesa Civil do Rio Grande do Sul; Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS; DMAE; LRCA Defense Consulting.

Analista turco defende compra do C-390 para substituir C-130 na força aérea da Turquia

Artigo do centro de estudos ODAP, de Istambul, aponta o cargueiro da Embraer como caminho para renovar a frota de transporte militar turca e aprofundar a cooperação industrial com o Brasil



*LRCA Defense Consulting - 05/09/2026 

Um artigo publicado nesta sexta-feira (4) pelo ODAP (Centro de Estudos do Oriente Médio, Eurásia e Ásia-Pacífico), think tank sediado em Istambul, defende que o C-390 Millennium, cargueiro militar fabricado pela Embraer, é a alternativa mais adequada para substituir a envelhecida frota de C-130 Hercules operada pela Força Aérea da Turquia. O texto é assinado por Umur Tugay Yücel, cientista político e especialista em política externa, e argumenta que a troca de plataforma envolve, além do aspecto técnico, dimensões estratégicas, econômicas e geopolíticas para Ancara.

Uma frota que envelhece 

Segundo o autor, o C-130 forma há décadas a espinha dorsal do transporte aéreo militar turco, cumprindo missões que vão da ajuda humanitária a operações transfronteiriças e atividades da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). No entanto, boa parte dos exemplares em serviço na Turquia foi produzida ainda nas décadas de 1960 e 1970, com base em um projeto que remonta aos anos 1950. Programas de modernização estenderam a vida útil da frota, mas, para Yücel, não bastam mais diante do envelhecimento estrutural, do aumento dos custos de manutenção e das exigências do ambiente de combate atual, como guerra eletrônica e sistemas digitais de missão.

O artigo também associa a dependência de plataformas americanas a riscos políticos, citando as restrições sofridas pela Turquia no programa do caça F-35 em razão da lei americana Caatsa (Countering America's Adversaries Through Sanctions Act, ou lei de combate aos adversários dos Estados Unidos por meio de sanções).

O C-390 como resposta às novas exigências 
Yücel descreve o C-390 como um projeto concebido do zero para as necessidades operacionais do século XXI, e não apenas como herdeiro dos cargueiros tradicionais. Entre os pontos destacados estão a velocidade de cruzeiro de Mach 0,8, obtida com motores turbofan; a capacidade de carga de aproximadamente 26 toneladas, com compatibilidade total com paletes padrão da Otan; e a arquitetura de aviônica baseada em comandos de voo eletrônicos, a chamada tecnologia fly-by-wire, que reduz a carga de trabalho do piloto e amplia a segurança de voo. O texto lembra ainda a versatilidade da aeronave, empregada como cargueiro, aeronave de reabastecimento em voo, plataforma de busca e salvamento e para evacuação médica, além de sua capacidade de transportar até 84 militares.

O artigo cita a adoção do C-390 por países da Otan como Portugal, Países Baixos, Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Suécia, além da Coreia do Sul e do Uzbequistão, este último membro da Organização dos Estados Turcos, como indicativo da maturidade tecnológica da aeronave e de sua compatibilidade com os padrões da aliança.

Um novo eixo de cooperação entre Turquia e Brasil 
Para o cientista político, o principal atrativo do C-390 para Ancara vai além da ficha técnica. O artigo sustenta que a compra da aeronave poderia evoluir para produção conjunta, compartilhamento de tecnologia e centros locais de manutenção, com a participação de empresas turcas como TAI, ASELSAN, HAVELSAN e TEI no ecossistema industrial do C-390. Segundo o autor, a infraestrutura aeroespacial turca oferece base suficiente para esse tipo de parceria, enquanto as políticas de controle de exportação do Brasil, mais flexíveis do que as dos Estados Unidos, tornariam a Embraer um parceiro estratégico para um país que busca autonomia em sua cadeia de suprimentos de defesa.

O texto conclui que a escolha do C-390 se somaria à política externa turca de diversificação de parceiros, reduzindo a dependência de Washington e de fornecedores europeus e projetando uma cooperação de defesa entre Turquia e Brasil em ambos os lados do Atlântico. 
 

Comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, 
em Portugal, para conhecer de perto o C-390


Negociações já em curso 

A publicação do ODAP chega em meio a negociações que já estão em andamento entre os dois países. Em abril de 2025, durante a Feira Internacional de Defesa e Segurança (LAAD), no Rio de Janeiro, a Turkish Aerospace e a Embraer assinaram um memorando de entendimento para explorar cooperação industrial, incluindo a produção de jatos comerciais E190 e E195-E2 na Turquia. Na mesma ocasião, o então ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro, afirmou à agência Reuters que a Embraer negociava a venda do C-390 também para Turquia, Polônia e Finlândia.

Mais recentemente, o comandante da Força Aérea da Turquia, general Ziya Cemal Kadıoğlu, visitou a Base Aérea de Beja, em Portugal, para conhecer de perto o C-390 que equipa a esquadra portuguesa, em um gesto interpretado pela imprensa especializada como sinal do interesse turco em suceder a frota de C-130. Segundo apurações da LRCA Defense Consulting, o Brasil segue como facilitador diplomático das negociações, que incluem, além da Turquia, países como Polônia, Grécia, Colômbia e Marrocos.

O artigo completo, em inglês, está disponível no site do ODAP.

04 setembro, 2026

EDGE conclui compra da Akaer e usa participação da SIATT para preservar selo de empresa estratégica de defesa

Com fatia minoritária da SIATT na aeroespacial de São José dos Campos, grupo dos Emirados Árabes Unidos fecha a terceira aquisição na base industrial de defesa brasileira desde 2023



*LRCA Defense Consulting - 04/09/2026 

O EDGE, conglomerado estatal de defesa e tecnologia dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta sexta-feira (4) a conclusão da compra da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos (SP). O anúncio confirma o fechamento do negócio cujo acordo de compra e venda de ações, o share purchase agreement, havia sido assinado em cerimônia realizada em julho, quando as partes revelaram a intenção de transferir 100% do capital da companhia brasileira ao grupo emiradense.

Segundo comunicado da EDGE, todas as condições precedentes usuais para o fechamento da operação foram cumpridas, o que torna a Akaer, na prática, uma subsidiária integral do grupo dos Emirados. “A conclusão desta aquisição marca um importante passo para a EDGE no Brasil. Aguardamos com expectativa a contribuição contínua da Akaer para o ecossistema de defesa do País e a força que seu talento de engenharia traz às capacidades da EDGE em todo o grupo”, disse Hamad Al Marar, diretor-presidente (CEO) da EDGE.

A novidade: SIATT entra no capital da Akaer 
O ponto que distingue esta etapa da operação em relação ao que havia sido anunciado em julho é a estrutura societária adotada para viabilizar o fechamento. A EDGE informou que, como parte da transação, uma participação minoritária no capital da Akaer será mantida pela SIATT, empresa brasileira de mísseis e sistemas de alta tecnologia da qual o próprio grupo emiradense já é sócio. Segundo a EDGE, esse desenho societário reflete a estrutura corporativa acertada para a aquisição, com o objetivo de preservar o enquadramento da Akaer como Empresa Estratégica de Defesa (EED), classificação concedida pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias consideradas essenciais à defesa nacional.

A fórmula chama a atenção porque, até então, o mecanismo discutido publicamente para a manutenção do status de EED da Akaer era a permanência de uma participação brasileira direta, nos moldes do que ocorre na própria SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm o controle votante da empresa. Ao colocar a SIATT, e não um sócio brasileiro independente, como titular da fatia minoritária da Akaer, a EDGE cria uma cadeia societária em que uma empresa já parcialmente sua passa a deter parte de outra companhia do mesmo grupo em solo brasileiro. O desenho definitivo da governança e o percentual exato reservado à SIATT não foram detalhados pelas empresas.

Quem é a Akaer
Fundada em 1992 e sediada em São José dos Campos, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia aeroespacial em programas civis e militares. A empresa participou do desenvolvimento do caça F‑39 Gripen, da Força Aérea Brasileira; do cargueiro multimissão KC‑390 Millennium, da Embraer; da revitalização estrutural das asas dos aviões de patrulha P‑3AM Orion; e venceu, em 2023, a licitação para modernizar o blindado EE‑9 Cascavel do Exército. A companhia também assina o Opto‑ThermoScan, sistema de medição de temperatura corporal, e foi selecionada recentemente pela alemã Deutsche Aircraft para fabricar a fuselagem dianteira do turboélice D328eco, tornando‑se a primeira fornecedora brasileira de nível 1 (Tier 1) da indústria aeroespacial global.

A companhia já trabalhava em parceria com a EDGE no desenvolvimento e na industrialização de sistemas não tripulados antes mesmo da aquisição, incluindo o programa de drone de grande porte JENIAH. Segundo o diretor financeiro (CFO) da EDGE, Rodrigo Torres, cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo emiradense no momento do anúncio, em julho.

Como a venda chegou a esse ponto 
A negociação avançou em meio a dificuldades financeiras enfrentadas pela Akaer, que acumulou dívidas e passou a ter problemas para honrar compromissos com funcionários e fornecedores. Em julho, Torres afirmou à CNN Brasil que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram a EDGE durante a feira LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da empresa, pedindo que se avaliasse uma parceria capaz de impedir a falência da companhia. O governo havia liberado, via Finep, R$ 41,3 milhões para a Akaer; parte da verba foi cancelada em 2025 em razão de um suposto desvio de recursos.

O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deve permanecer como consultor da EDGE por um período de um a dois anos, segundo apurado à época do anúncio. A estrutura acionária da companhia também facilitou a operação: a sueca Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua fatia integralmente recomprada pela então controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), o que dispensou a negociação com um sócio estrangeiro na operação com a EDGE.

Terceira aquisição do grupo emiradense na defesa brasileira 
A Akaer é a terceira compra da EDGE na base industrial de defesa (BID) brasileira desde setembro de 2023. As duas anteriores foram a SIATT, cujos sócios fundadores brasileiros mantêm 50,1% do capital e 60% do capital votante, e a Condor Tecnologias Não Letais, líder mundial em armamentos não letais, na qual a EDGE detém participação majoritária. Executivos do grupo já afirmaram publicamente que o investimento acumulado da EDGE no Brasil soma cerca de R$ 3 bilhões (em torno de US$ 590 milhões). O valor pago pela Akaer não foi divulgado pelas empresas.

Com Akaer, Condor e SIATT sob o mesmo guarda-chuva, o grupo passa a reunir, dentro do País, capacidades que vão do projeto conceitual de plataformas (com a Akaer) a mísseis guiados e sistemas de navegação (com a SIATT) e armamentos não letais (com a Condor). A Akaer também aparece, segundo dossiê do International Institute for Strategic Studies (IISS) sobre sistemas não tripulados no Oriente Médio, como parceira de projeto do motor do REACH-S, UAV da ADASI, subsidiária da EDGE, e do Samoom, drone da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Questionamentos sobre soberania 
A operação também gerou reação de entidades ligadas à ciência e à engenharia nacionais. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Clube de Engenharia e outras entidades levaram à Presidência da República um pedido de suspensão da operação e de auditoria, argumentando que a manutenção do enquadramento como EED para uma empresa de controle integralmente estrangeiro representa um nó jurídico ainda não resolvido. Até a conclusão do negócio, o governo não havia explicitado publicamente o critério que seria adotado para validar a preservação do status da Akaer.

Analistas da BID citam como precedente a aquisição da Atmos Sistemas pela sueca Saab, em 2020, quando decisões de engenharia e propriedade intelectual passaram, no médio prazo, a migrar para fora do raio de influência nacional, o que reforça o interesse em acompanhar como a EDGE conduzirá a governança e a transferência de tecnologia na Akaer.

O que observar daqui para frente 
Falta ainda esclarecer o percentual exato da participação da SIATT no capital da Akaer e o desenho final de governança que sustentará o enquadramento como EED perante o Ministério da Defesa. Também merece atenção o ritmo de novos anúncios prometidos pela EDGE para o Brasil, inclusive em cibersegurança e produção local, que podem indicar se o padrão agora observado, de uma empresa do próprio grupo servindo de veículo para cumprir exigências societárias brasileiras, se repetirá em outras companhias da base industrial de defesa nacional.

03 setembro, 2026

Japonesa ANA Holdings assina novo pedido de oito jatos E190-E2 à Embraer

Acordo eleva para 23 as encomendas firmes da companhia aérea japonesa pela família E2 e confirma decisão do conselho de administração tomada em julho


 
*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A Embraer e a ANA Holdings Inc. (ANA HD) assinaram, nesta sexta-feira (4), em Tóquio, o contrato para a compra de oito aeronaves E190-E2. O acordo formaliza a decisão anunciada em 29 de julho de 2026 pelo conselho de administração da holding japonesa de ampliar sua frota regional e eleva para 23 o total de encomendas firmes da ANA HD pela família E2 da fabricante brasileira. A companhia japonesa ainda mantém cinco opções de compra adicionais para o mesmo modelo.

O novo pedido se soma ao contrato original, firmado em fevereiro de 2025, por 15 unidades firmes do E190-E2, com opção para outras cinco. Segundo apuração da imprensa especializada, a operação atual está avaliada em cerca de 105 bilhões de ienes (em torno de US$ 642 milhões) e as entregas devem ocorrer entre os anos fiscais de 2029 e 2032; já a primeira aeronave E2 da ANA HD, oriunda do contrato original, tem entrega prevista para 2028.

"Este pedido adicional de E190-E2 acelera nossos esforços para construir uma rede de aviação regional sustentável no Japão", afirmou Koji Shibata, presidente e CEO da ANA Holdings. "Isso também reforça nossa confiança na tecnologia da Embraer para reduzir tanto o impacto ambiental quanto os custos operacionais. Estamos animados em aprofundar essa parceria, elevando a conectividade regional e proporcionando uma experiência superior aos passageiros em todo o Japão."

"Estamos honrados com a confiança contínua da ANA HD no pequeno narrowbody E2 da Embraer e aguardamos poder apoiar os planos de crescimento da companhia aérea no Japão", declarou Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Aviação Comercial. "Com sua economia excepcional e eficiência de combustível, o E2 vai apoiar a ampliação da conectividade em todo o Japão, além de oferecer mais conforto e espaço aos passageiros."

De acordo com veículos do setor, as oito novas aeronaves serão operadas pela IBEX Airlines, parceira regional da ANA, em um esquema de ACMI (aeronave, tripulação, manutenção e seguro fornecidos por terceiros), em substituição aos jatos CRJ700 atualmente empregados pela companhia. Pelo modelo, a ANA segue responsável pelo planejamento de rotas, pela programação e pela venda de passagens, enquanto a IBEX responde pela operação dos voos.

A escolha do E190-E2 pela ANA ocorreu depois do fim do programa SpaceJet, da Mitsubishi Aircraft, do qual a companhia japonesa era cliente lançadora. A fabricante japonesa tentou por anos certificar o jato regional até que a Mitsubishi Heavy Industries cancelasse o projeto em 2023, após sucessivos atrasos e bilhões de dólares em custos de desenvolvimento.

O E190-E2 integra a família E-Jets E2 da Embraer, reconhecida pela eficiência de combustível, pelas menores emissões, pelos níveis reduzidos de ruído e pela experiência superior de passageiros. Segundo a fabricante, a versatilidade da aeronave permite às companhias aéreas atender com eficiência tanto mercados já existentes quanto novas rotas, com ganhos operacionais e ambientais relevantes. Os E-Jets da Embraer operam no Japão desde 2009 e contam com suporte de pessoal da fabricante brasileira no País.

Estabelecida em 2013, a ANA Holdings é a maior holding de grupo aéreo do Japão, reunindo 72 empresas. O grupo inclui a companhia aérea de serviço completo All Nippon Airways (ANA) e a Peach Aviation Limited, principal companhia aérea de baixo custo do País. A ANA HD supervisiona um portfólio diversificado de negócios centrado no transporte aéreo, incluindo operações de passageiros e de carga, além de empresas de apoio ao setor de aviação. O grupo destaca ainda a classificação máxima de cinco estrelas da SKYTRAX conquistada pela ANA anualmente desde 2013, feito que faz da companhia a única aérea japonesa a manter a distinção por 13 anos consecutivos; também figura entre as empresas mais admiradas do mundo segundo a revista Fortune e integra o Dow Jones Best-in-Class World Index há nove anos consecutivos.

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