Aproximação com indústria local para manutenção de jatos
executivos pode abrir caminho para aquisição de cargueiro militar brasileiro
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| Imagem meramente ilustrativa: o futuro KC-390 da Força Aérea da República da Coreia sobre uma típica paisagem tailandesa |
*LRCA Defense Consulting - 04/02/2026
A Força Aérea Real da Tailândia (RTARF) enfrenta um desafio
significativo em suas capacidades de transporte estratégico e reabastecimento
aéreo, uma lacuna que a fabricante brasileira Embraer pretende preencher com
sua aeronave multimissão KC-390 Millennium. A movimentação da empresa ganha
força com o aprofundamento da parceria com a Thai Aviation Industries (TAI),
que pode servir de trampolim para negócios mais ambiciosos na região.
Frota atual evidencia limitações operacionais
Pesquisas sobre a atual configuração da aviação de transporte militar
tailandesa revelam uma frota modesta e envelhecida. A RTARF opera
principalmente com aeronaves C-130 Hercules de diversas variantes, adquiridas
ao longo de décadas, além de alguns Airbus C295 mais recentes.
No segmento de reabastecimento aéreo, a situação é ainda
mais crítica: a Tailândia não possui uma frota dedicada de aeronaves-tanque em
operação ativa. Esta ausência limita severamente a projeção de poder aéreo do
país e sua capacidade de realizar missões de longo alcance, especialmente
considerando as crescentes tensões geopolíticas no Mar da China Meridional e a
necessidade de patrulhamento de vastas áreas marítimas.
Os transportes C-130, embora confiáveis, datam de décadas
anteriores e demandam manutenção intensiva. A idade média da frota de
transporte estratégico já ultrapassa 30 anos em alguns casos, elevando custos
operacionais e reduzindo a disponibilidade das aeronaves.
KC-390: solução multimissão em momento oportuno
É neste contexto que o KC-390 Millennium surge como alternativa atrativa. A
aeronave brasileira oferece capacidades que a Tailândia atualmente não possui
em uma única plataforma: transporte tático e estratégico de carga, lançamento
de paraquedistas, evacuação médica e, crucialmente, reabastecimento aéreo.
Com capacidade para transportar até 26 toneladas de carga,
velocidade de cruzeiro superior aos tradicionais C-130 (870 km/h contra 540
km/h) e alcance de até 6.000 km com carga máxima, o KC-390 representaria um
salto qualitativo significativo para a RTARF. A aeronave é equipada com sonda
de reabastecimento em voo e pode transportar até 23.000 litros de combustível
para transferência a outras aeronaves.
Além disso, a capacidade de operar em pistas semi-preparadas
e realizar missões humanitárias, frequentes no Sudeste Asiático devido a
desastres naturais, adiciona versatilidade ao portfólio operacional tailandês.
Estratégia de aproximação gradual
A declaração de Carlos Naufel, Presidente e CEO de Serviços & Suporte
da Embraer, não deixa dúvidas sobre as intenções da empresa: "Vemos um
forte potencial para as avançadas capacidades multimissão da aeronave KC-390
Millennium apoiarem os requisitos estratégicos de defesa da Tailândia para o
longo prazo".
A estratégia brasileira é clara: estabelecer primeiro uma
base sólida de confiança através da parceria de manutenção dos jatos ERJ135 já
operados pelas forças armadas tailandesas, criando um "ecossistema
aeroespacial e de defesa sólido" antes de propor aquisições maiores.
O Marechal do Ar Piboon Vorravanpreecha, diretor-geral da
TAI, sinalizou receptividade ao mencionar estar "impressionado com o
crescente portfólio de aeronaves da Embraer" e manifestar interesse em
"explorar oportunidades mais amplas à medida que nosso relacionamento se
aprofunda."
Desafios e concorrência
Contudo, a Embraer enfrentará forte concorrência. A Lockheed Martin oferece
versões modernizadas do C-130J Super Hercules, aeronave com a qual a RTARF já
tem familiaridade operacional. A Airbus, por sua vez, já forneceu aeronaves
C295 à Tailândia e poderia propor uma expansão dessa frota ou oferecer o A400M
para necessidades estratégicas.
O fator financeiro também pesa. Embora o KC-390 seja
geralmente mais acessível que o A400M europeu, ainda representa investimento
significativo para um país em desenvolvimento. Cada unidade tem custo estimado
entre US$ 85 milhões e US$ 100 milhões, dependendo da configuração.
Questões geopolíticas adicionam outra camada de
complexidade. A Tailândia mantém relacionamento de defesa tanto com potências
ocidentais quanto com a China, precisando equilibrar cuidadosamente suas
aquisições militares para não desagradar nenhum parceiro estratégico.
Momento favorável para negociações
Apesar dos desafios, o momento pode ser propício para a Embraer. O KC-390
já demonstrou sucesso operacional com a Força Aérea Brasileira e foi adquirido
por Portugal, Hungria, Holanda, Áustria e Coreia do Sul, construindo
credenciais internacionais sólidas. Recentemente, a aeronave tem sido vista em
demonstrações e eventos aeronáuticos ao redor do mundo, ampliando sua
visibilidade.
Para a Tailândia, diversificar fornecedores militares e
estabelecer parceria com um país não-alinhado a blocos de poder tradicionais
poderia oferecer vantagens diplomáticas. Além disso, o apoio da TAI como centro
de manutenção local reduziria dependência logística e custos operacionais de
longo prazo.
A parceria em torno dos ERJ135 serve, portanto, como teste
crucial. Se a Embraer demonstrar capacidade de suporte eficiente e a TAI
consolidar expertise técnica, o caminho estará pavimentado para negociações
envolvendo plataformas mais complexas e estratégicas como o KC-390.
O desfecho dessa aproximação pode não apenas redefinir as
capacidades aéreas da Tailândia, mas também consolidar a Embraer como
fornecedora relevante de equipamentos de defesa no competitivo mercado do
Sudeste Asiático, uma região onde o Brasil historicamente teve presença
limitada no setor militar.