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06 julho, 2026

ALADA e Fundação Ezute assinam memorando de entendimentos na SpaceBR Show 2026

Acordo firmado em São Paulo aproxima a estatal responsável pela gestão espacial brasileira de uma das principais integradoras de tecnologia e defesa do país, com potencial de convergência em projetos ligados à soberania tecnológica nacional 


*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

A ALADA (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A.) e a Fundação Ezute assinaram, em 16 de junho de 2026, um memorando de entendimentos (MoU) durante a SpaceBR Show 2026, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo. O documento estabelece uma cooperação estratégica voltada ao desenvolvimento de soluções de alta tecnologia para o setor aeroespacial brasileiro, com foco declarado no fortalecimento da soberania tecnológica do país.

O acordo foi anunciado pela própria ALADA em suas redes sociais logo após a assinatura, no âmbito de um evento que reuniu mais de 150 empresas expositoras e cerca de dez mil participantes ligados aos setores de espaço, drones, geointeligência e mobilidade aérea avançada. Segundo a estatal, a parceria cria um ambiente de colaboração para o intercâmbio de conhecimentos, a identificação de oportunidades e o desenvolvimento conjunto de projetos capazes de contribuir para a inovação e a competitividade do ecossistema aeroespacial nacional.

Duas integradoras com trajetórias paralelas
A ALADA é uma empresa pública federal vinculada ao Ministério da Defesa por meio do Comando da Aeronáutica, responsável pela gestão e comercialização de serviços aeroespaciais estratégicos do país, incluindo operações de lançamento a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Sua atuação é frequentemente descrita como a de um elo dinâmico entre governo, indústria e academia.

A Fundação Ezute, por sua vez, nasceu em 1997 como Fundação Atech, criada para viabilizar o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam). Hoje é uma organização privada sem fins lucrativos dedicada a soluções de tecnologia e gestão para instituições públicas brasileiras, com histórico de atuação em programas estratégicos de defesa como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), o MANSUP (Míssil Antinavio de Superfície) e o PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), tendo inclusive participado de testes do submarino Riachuelo, o primeiro da classe com propulsão diesel elétrica construído no âmbito do programa.

Pontos de convergência entre as instituições
A leitura conjunta dos perfis institucionais da ALADA e da Fundação Ezute sugere ao menos quatro eixos de convergência possíveis para a cooperação anunciada.

O primeiro é o papel de integradoras que ambas reivindicam para si: enquanto a ALADA se posiciona como elo entre governo, indústria e academia no setor espacial, a Ezute já exerce função semelhante há quase três décadas nos ecossistemas de defesa, aeroespacial e aeronáutico, o que pode facilitar a linguagem comum entre as partes.

O segundo eixo é a experiência da Ezute em sistemas de monitoramento e vigilância de grande escala, como o Sisfron e o SisGAAz, competências que dialogam diretamente com demandas de rastreamento espacial, telemetria e segurança de operações de lançamento sob responsabilidade da ALADA em Alcântara.

O terceiro ponto é a bagagem da Ezute em sistemas críticos navais e de mísseis, casos do MANSUP e do PROSUB, que envolvem engenharia de sistemas complexos, integração de sensores e garantia da qualidade, capacidades transponíveis para cargas úteis, sistemas de bordo e infraestrutura terrestre de programas espaciais.

O quarto eixo é de natureza institucional: por ser uma fundação de apoio historicamente próxima de órgãos de defesa e ciência e tecnologia, a Ezute pode operar como ponte entre a ALADA e projetos de pesquisa acadêmica, algo alinhado ao discurso da estatal sobre integrar governo, indústria e academia em torno de objetivos estratégicos nacionais.

O que dizem as instituições
Em nota, o presidente da ALADA, Sergio Roberto de Almeida, afirmou que o Brasil vive um momento decisivo para sua agenda espacial e que a assinatura do memorando durante a SpaceBR Show representa a convergência de duas instituições comprometidas com a inovação de base nacional, com o objetivo de identificar e desenvolver soluções de alta complexidade para o avanço autônomo do país no espaço.

O diretor-presidente da Fundação Ezute, Roberto Lorenzoni Neto, declarou que o memorando cria um canal institucional para que ambas as organizações explorem oportunidades conjuntas, com o propósito de avaliar como as competências das duas partes podem se somar para entregar soluções robustas a projetos de alta complexidade voltados ao desenvolvimento tecnológico e à soberania do país.

Um MoU, não um contrato
Cabe reforçar que o instrumento assinado é um memorando de entendimentos, e não um contrato ou uma parceria operacional já definida. Documentos desse tipo formalizam a intenção de cooperação e abrem canal institucional para negociações futuras, mas não obrigam, por si só, as partes a executar projetos, cronogramas ou aportes financeiros específicos. A materialização prática da cooperação entre ALADA e Ezute dependerá de etapas subsequentes de detalhamento, ainda não anunciadas publicamente.

Contexto: SpaceBR Show 2026
A SpaceBR Show 2026 ocorreu entre 16 e 18 de junho, em São Paulo, organizada pela MundoGEO em conjunto com a IEG Brasil, simultaneamente aos eventos MundoGEO Connect, DroneShow Robotics e Expo eVTOL. A feira reuniu representantes de agências governamentais, como a Agência Espacial Brasileira (AEB), a Força Aérea Brasileira e o Centro de Lançamento de Alcântara, além de empresas do setor espacial nacional e internacional, consolidando-se como o principal evento anual do setor espacial brasileiro e latino-americano.

Avibras S.A. e Avibras Aeroco: como a mesma marca virou duas empresas diferentes

Entenda o mecanismo jurídico que separou o passivo da antiga fabricante de mísseis da operação industrial que retomou a produção em Jacareí 

 

*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

Um edital de convocação de assembleia geral extraordinária da Avibras Indústria Aeroespacial S.A., em recuperação judicial, marcada para o dia 13 de julho, tem gerado dúvida entre leitores e fontes da indústria de defesa: essa é a mesma empresa que retomou a produção de mísseis e foguetes em Jacareí sob o nome de Avibras Aeroco? A resposta é não. São duas pessoas jurídicas distintas, com CNPJs diferentes, e a distância entre elas é o resultado de um mecanismo jurídico específico da recuperação judicial brasileira, usado para separar a operação industrial do passivo bilionário que quase levou a companhia à falência.

Duas empresas, dois CNPJs
A Avibras Indústria Aeroespacial S.A. (CNPJ 60.181.468/0001-51) é a sociedade anônima fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), responsável historicamente pelo sistema Astros e por mísseis e foguetes usados pelas Forças Armadas brasileiras. É essa mesma pessoa jurídica, ainda registrada como "em recuperação judicial", que convocou a assembleia do dia 13 de julho, com pauta genérica de eleição de diretoria.

Já a Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. (CNPJ 62.990.385/0001-39) é uma sociedade limitada distinta, fundada em 1º de outubro de 2025, sediada em Jacareí. É essa empresa nova, com registro ativo e atividade de fabricação de equipamento bélico pesado, que reiniciou a produção industrial em 4 de maio de 2026 e hoje negocia contratos com Exército e Força Aérea.

A origem: o colapso financeiro de 2022
A crise começou a se aprofundar a partir de 2020, com redução de encomendas governamentais, atrasos em contratos internacionais e endividamento crescente. Em 18 de março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial, alegando dívida de R$ 600 milhões; ao longo do processo, com o acúmulo de passivos trabalhistas, fiscais e com fornecedores, esse valor foi estimado por diferentes fontes entre R$ 800 milhões e R$ 1,5 bilhão. Cerca de 900 funcionários entraram em greve em setembro daquele ano, cobrando salários atrasados, e a paralisação se estendeu por mais de mil dias.

Entre 2024 e 2025, ao menos três grupos estrangeiros, o chinês Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries, manifestaram interesse em adquirir o controle da empresa, mas nenhuma dessas tratativas avançou.

O plano alternativo e a saída de João Brasil
Em 26 de maio de 2025, a Assembleia Geral de Credores aprovou um plano alternativo de recuperação judicial, apresentado pela Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento e Direitos Creditórios, então principal credora da empresa. O plano previa a destituição do controlador histórico, João Brasil Carvalho Leite, e a nomeação de um interventor judicial para conduzir a transição. A homologação judicial, assinada pelo juiz Matheus Amstalden Valarini, da 2ª Vara Cível de Jacareí, saiu em 30 de junho de 2025.

A partir daí, as ações da companhia passaram por mais de uma mudança de mãos: primeiro do próprio João Brasil para a Brasil Crédito, em 25 de junho de 2025, no âmbito de uma penhora judicial; depois, em 25 de julho de 2025, da Brasil Crédito para a Vita Gestão e Investimentos Ltda., empresa do advogado Fábio Guimarães Leite, que assumiu como diretor provisório (interventor) e, na sequência, como acionista majoritário com 99% das ações. O edital de convocação da AGE de 13 de julho de 2026 já traz um outro nome como acionista majoritária, a Martinelli Gestora de Ativos e Participações Ltda.; a reportagem não localizou, até o fechamento desta matéria, comunicado público que detalhe a transferência de controle da Vita para a Martinelli, e esse ponto segue em apuração.

O mecanismo jurídico: o que é uma UPI
A separação entre a Avibras antiga e a Avibras Aeroco segue uma lógica prevista no artigo 60 da Lei nº 11.101, de 2005, a lei de recuperação judicial e falências. Esse dispositivo permite que uma empresa em recuperação venda parte ou a totalidade de seus ativos operacionais por meio de uma unidade produtiva isolada (UPI), um conjunto de bens, contratos e capacidade produtiva vendido a um novo proprietário livre de qualquer ônus da empresa de origem, inclusive dívidas trabalhistas, tributárias e regulatórias.

Na prática, a UPI funciona como uma cisão: o comprador recebe um CNPJ novo e "limpo", herda o parque industrial, os contratos e a propriedade intelectual, mas não herda o passivo bilionário que levou a antecessora à recuperação judicial. Esse passivo permanece na sociedade original, que continua existindo formalmente, sujeita ao processo judicial, até que os credores sejam pagos segundo o plano aprovado, ou até eventual encerramento da recuperação. É exatamente essa engenharia societária, hoje comum em processos de recuperação de empresas industriais de grande porte, que explica a coexistência das duas Avibras.

Nasce a Avibras Aeroco
Constituída em outubro de 2025 dentro do próprio processo de recuperação judicial, a Avibras Aeroco herdou os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da antiga companhia, entre eles o sistema de artilharia Astros, o míssil tático de cruzeiro MTC-300 e o míssil tático balístico em desenvolvimento. A retomada da produção, oficializada em 4 de maio de 2026, foi viabilizada por um aporte privado de R$ 300 milhões, reunido pelo Fundo Brasil Crédito junto a investidores, entre eles o empresário Joesley Batista, controlador do grupo J&F, que entrou como financiador em abril de 2026 com participação estruturada por meio de conversão de créditos.

À frente da nova empresa está Sami Youssef Hassuani, engenheiro com mais de quatro décadas de trajetória no setor de defesa e ex-presidente da própria Avibras, que já vinha assessorando o Fundo Brasil Crédito durante o processo de reestruturação. Em março de 2026, a Avibras Aeroco fechou acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região para o pagamento de cerca de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas, parcelados em até 48 meses, e para a reintegração de 271 trabalhadores.

O que resta da antiga Avibras S.A.
A Avibras Indústria Aeroespacial S.A. segue existindo como pessoa jurídica, ainda classificada como "em recuperação judicial" nos registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP), respondendo pelo passivo represado do período anterior à venda da UPI. É essa estrutura residual, sob controle da Martinelli Gestora de Ativos e Participações Ltda., que convocou a assembleia geral extraordinária de 13 de julho de 2026, na sede da empresa em São José dos Campos, com pauta declarada de eleição de diretoria e outros assuntos de interesse da sociedade. O edital não detalha se a reunião tratará da conclusão formal da cisão de ativos ou de outras providências ligadas ao encerramento do processo de recuperação.

Há comunicação de dívidas entre as duas empresas?
Em tese, quase nenhuma. O mecanismo da UPI foi desenhado justamente para isso: o parágrafo único do artigo 60 da Lei nº 11.101/2005 estabelece que o objeto da alienação fica livre de qualquer ônus e que o comprador não sucede o devedor em nenhuma obrigação, o que abrange dívidas civis, tributárias, trabalhistas e regulatórias. Essa blindagem foi reforçada pela Lei nº 14.112, de 2020, e é hoje o principal atrativo desse tipo de operação para investidores dispostos a assumir ativos de empresas em crise.

A doutrina especializada e a jurisprudência, porém, reconhecem três brechas pelas quais um passivo da Avibras antiga poderia, em tese, voltar a incomodar a Avibras Aeroco. A primeira é a chamada sucessão de fato, ou teoria da aparência: se a separação entre as duas empresas não for mantida de forma rigorosa na prática, com contabilidade, quadro de pessoal, fluxo de caixa e comunicação institucional próprios, a Justiça, sobretudo a trabalhista, pode desconsiderar a blindagem legal e reconhecer que se trata, na prática, do mesmo grupo econômico. É apontado por especialistas em recuperação judicial como o ponto de maior sensibilidade desse tipo de operação.

A segunda exceção é o passivo ambiental, que tem natureza propter rem, ou seja, adere ao imóvel, e não ao antigo proprietário. Como a Avibras Aeroco opera na mesma planta industrial de Jacareí, historicamente dedicada à fabricação de explosivos e propelentes, essa é, em tese, uma das poucas categorias de passivo que não é automaticamente blindada pela alienação da UPI. Não há, até o momento, qualquer notícia pública que aponte um problema concreto de contaminação ou passivo ambiental na planta, mas trata-se de um risco que a legislação não afasta por completo.

A terceira diz respeito ao rito da venda: o Superior Tribunal de Justiça exige, como regra geral, leilão público para a alienação de UPI, e só admite venda direta em caráter excepcional, com justificativa explícita, votação destacada em assembleia de credores e homologação judicial clara sobre os efeitos da não sucessão. Esta editoria não teve acesso ao trecho do plano de recuperação ou à ata que descreva em detalhe como se deu esse rito no caso da Avibras; a robustez da blindagem jurídica depende diretamente do cumprimento desse procedimento, o que poderia ser confirmado junto ao processo nº 1002302-16.2022.8.26.0292, em curso na 2ª Vara Cível da Comarca de Jacareí.

Vale registrar ainda que, pelo menos até abril de 2026, a situação fiscal da Avibras antiga não estava plenamente equacionada: a participação de Joesley Batista no financiamento da retomada envolvia negociação em andamento com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional sobre uma dívida de cerca de R$ 200 milhões, valor que a própria União já havia usado, em 2025, para ameaçar pedir a convolação da recuperação judicial em falência. Uma eventual falência da Avibras Indústria Aeroespacial S.A. não atinge, pela lei, o CNPJ da Avibras Aeroco, mas tende a manter o nome Avibras associado a turbulência judicial por mais tempo, com repercussão política e de imagem para o setor de defesa como um todo.

O que fica em aberto
Além da comunicabilidade jurídica entre as duas empresas, duas questões seguem sem confirmação pública e merecem acompanhamento: a real pauta por trás da assembleia de 13 de julho, já que o edital usa linguagem genérica, e a cadeia exata de transferência de controle entre a Vita Gestão e Investimentos e a Martinelli Gestora, que aparece agora como acionista majoritária da S.A. remanescente. Para a indústria de defesa e para o público em geral, a distinção prática importa: contratos, garantias e responsabilidades futuras dizem respeito à Avibras Aeroco, a empresa hoje em operação em Jacareí; a Avibras Indústria Aeroespacial S.A. é, juridicamente, o capítulo anterior dessa história, ainda em curso nos tribunais.

05 julho, 2026

Depois do EMADS, o que protegerá as baterias antiaéreas? A camada antidrone que o Brasil ainda não tem

Com a aquisição do sistema antiaéreo de média altura em andamento, o Exército Brasileiro precisa urgentemente de uma resposta cinética de curto alcance para proteger seus próprios lançadores, os ASTROS e instalações críticas. O Gepard modernizado pode ser a solução paliativa, e uma torre Skyranger 30 sobre o Guarani pode ser a definitiva.

 

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LRCA Defense Consulting - 05/07/2026

A decisão do Exército Brasileiro de adquirir o sistema antiaéreo de média altura EMADS, da MBDA/Leonardo, marca a entrada do país em uma capacidade de defesa aérea que simplesmente não existia antes. As futuras baterias do 12º Grupo de Artilharia Antiaérea, em Jundiaí, representarão um salto qualitativo sem precedentes na proteção do espaço aéreo brasileiro de baixa e média altitude.

Mas um sistema de médio alcance como o EMADS, por mais eficaz que seja contra aeronaves e mísseis de cruzeiro, carrega uma vulnerabilidade intrínseca: seus próprios lançadores, estacionados para o tiro, são alvos estáticos de alto valor. E um drone de ataque barato, voando rente ao solo, pode alcançá-los antes que qualquer míssil interceptador tenha tempo de reagir.

Com a experiência das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, a lição já foi aprendida pela Europa. A Bélgica formalizou em julho de 2026 a compra de 20 sistemas Skyranger 30, da Rheinmetall, como complemento direto aos 10 lançadores NASAMS adquiridos em conjunto com os Países Baixos, num pacote de 3,1 bilhões de euros. O conceito é preciso: o Skyranger protege as baterias NASAMS de drones de baixa altitude, e o NASAMS protege o espaço aéreo de médio alcance. Dois sistemas, duas camadas, um único ativo defensivo coerente.

O Brasil está prestes a ter a camada de médio alcance. Ainda não tem a camada de curto alcance para protegê-la.

O que o Brasil já tem: 37 canhões esperando um sensor
O Exército Brasileiro não está de mãos vazias. Desde 2013, opera 37 Viaturas Blindadas de Combate Antiaérea (VBC AAe) Gepard 1A2, adquiridas junto ao Exército Alemão por US$ 41 milhões, com cerca de 540.000 projéteis de 35 mm em estoque. As viaturas estão distribuídas entre a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, no Paraná, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada, no Rio Grande do Sul, e a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea, no Rio de Janeiro.

O Gepard tem dois canhões Oerlikon de 35 mm com cadência elevada e alcance de 5,5 km. Na Ucrânia, um único sistema desse tipo foi creditado com a destruição de mais de dez drones Shahed-136 e dois mísseis de cruzeiro. É o mesmo calibre que a Rheinmetall usa em seu sistema SKYNEX, hoje considerado o melhor produto cinético antidrone do mundo, embora haja relatos citando problemas com sua complexidade.

O problema brasileiro é o sensor, não o canhão. O Gepard 1A2 carrega dois radares orgânicos: um de busca em banda Echo e um de tiro em banda Juliet, ambos projetados para detectar aeronaves tripuladas com grande seção transversal de radar. Na Operação Punhos de Aço 2025, as guarnições da 6ª Brigada de Infantaria Blindada constataram que esses radares não conseguem adquirir drones de baixa seção radar. A solução foi recorrer ao método manual, usando o periscópio e corrigindo a trajetória dos projéteis em tempo real por observação direta, um processo eficaz, mas exigente e consumidor de munição.

O próprio blog do Exército foi honesto no diagnóstico: esse método manual será o prioritário para engajamento de drones, enquanto os radares orgânicos da viatura não forem adequados. Essa é precisamente a lacuna que uma modernização estrutural do Gepard poderia fechar.

Modernizar o Gepard: o que é necessário e o que já está em andamento
A modernização do Gepard para o papel antidrone não exige a substituição do canhão. Exige quatro intervenções, que podem ser implementadas de forma incremental:

A primeira, e mais urgente, é a integração via datalink a radares externos capazes de detectar alvos de baixa seção radar. O computador digital já embarcado no 1A2 tem capacidade latente de receber designação de estações externas, o que significa que, ao receber a coordenada do alvo de um radar moderno como o Embraer Saber M200, a viatura pode estar apontada e pronta antes que o alvo entre em seu campo de visão. Sete Gepard assim dispostos em rede com um centro de monitoramento podem cobrir uma área de 12 km². Esse conceito foi estudado na época da chegada das viaturas e permanece válido.

A segunda intervenção é a substituição ou complementação do radar orgânico de tiro por um sensor em banda X, com capacidade de rastrear alvos de baixa seção radar. A Rheinmetall, fabricante tanto do Gepard quanto do sistema SKYNEX, propôs à Ucrânia exatamente esse pacote: novo módulo de rastreamento com radar melhorado e sistema de direção de tiro otimizado para a ameaça drone. O mesmo pacote é potencialmente disponível para o Brasil.

A terceira, e talvez a mais transformadora, é a certificação para uso da munição AHEAD de 35 mm. Diferentemente do projétil convencional HEI-T, o AHEAD detona a uma distância calculada do alvo, lançando uma nuvem de subprojéteis tungstênio na trajetória do drone. Isso exige uma interface eletrônica entre o cano e o computador balístico para medir a velocidade do projétil na saída e programar o tempo de detonação em cada rodada individualmente. Os Gepard ucranianos, que usam munição convencional, necessitam de mais projéteis para abater cada alvo do que um SKYNEX com AHEAD. Para o Brasil, que tem estoque limitado, a eficiência por projétil é um fator relevante.

A quarta é a automação do ciclo de engajamento, o diferencial central do SKYNEX. O Gepard modernizado com sensor externo e AHEAD ainda depende de um atirador para fechar o ciclo. A automação completa exigiria a substituição do módulo de direção de tiro por um processador moderno capaz de calcular soluções de tiro autônomas, o que representa a intervenção mais cara e mais próxima de uma modernização de meia vida. A KNDS, detentora do programa Gepard, já propôs esse pacote integrado à Ucrânia. Para o Brasil, seria o caminho mais rápido para chegar a um Gepard funcionalmente equivalente ao SKYNEX.

Em paralelo, há um desenvolvimento nacional relevante já em curso. A ARES Aeroespacial e Defesa firmou contrato com o Exército Brasileiro para atualização tecnológica das torres UT-30BR já instaladas nos Guarani, incluindo o desenvolvimento de um kit antidrone. Esse contrato aponta na direção correta, mas parte de um calibre diferente (30 mm contra 35 mm) e de uma plataforma diferente do Gepard.

A hipótese Guarani com torre Skyranger 30: mais do que especulação
A proposta de instalar a torre Skyranger 30 sobre o Guarani 6x6 é tecnicamente fundamentada. A torre pesa entre 1,8 e 2,5 toneladas com munição, dependendo da configuração, e foi projetada especificamente para ser instalada em veículos rodados 6x6 de maior porte. A própria Rheinmetall desenvolveu, para a Áustria, uma versão com uma tonelada a menos que o modelo padrão para adequação ao chassi do Pandur EVO 6x6, demonstrando que a empresa tem experiência e disposição para adaptar a torre a plataformas mais leves.

O Guarani, com peso operacional em torno de 20 toneladas e projeto modular que já acomoda torres com canhão de 30 mm como a UT-30BR, tem o anel de torre e a estrutura superior dimensionados para sistemas nessa faixa de peso. A instalação da versão mais leve do Skyranger 30 é, portanto, uma hipótese tecnicamente plausível que mereceria estudo formal de viabilidade.

A vantagem estratégica de uma solução assim vai além da técnica. O Guarani é fabricado pela IDV em Sete Lagoas, Minas Gerais, com mais de 700 unidades entregues ao Exército e produção contínua prevista. Instalar uma torre Skyranger 30 sobre um chassi nacional significaria produção local do veículo, eventual transferência de tecnologia da torre e integração de conteúdo nacional em sensores e comunicações, alinhando-se diretamente à política de Nova Indústria Brasil e ao chamamento da Finep para desenvolvimento de sistemas não tripulados e defesa.

Há ainda um elemento de relacionamento industrial que torna essa hipótese menos especulativa do que parece. A Rheinmetall está no Brasil pela porta do programa de blindados sobre lagartas, com o Lynx equipado com torre Skyranger 35 como candidato ao programa da Nova Família de Blindados sobre lagartas. A empresa fez apresentações formais na Diretoria de Fabricação e na Chefia de Material do Exército. Mais relevante ainda: o sistema EMADS que o Brasil está adquirindo utiliza, no Exército Italiano, o radar X-TAR 3D da própria Rheinmetall. Isso significa que a empresa já é fornecedora indireta do programa de defesa antiaérea brasileiro, com relacionamento institucional estabelecido.

Pandur EVO Skyranger 30 das Forças Armadas Austríacas

A geometria do problema: o que precisa ser protegido
A questão da cobertura antidrone de curto alcance não se resume às futuras baterias EMADS. O Exército Brasileiro opera os ASTROS II MK6, lançadores de foguetes, de mísseis de cruzeito e, futuramente, do Missíl Tático Balístico (provavelmente na versão MK7). Um lançador ASTROS estacionado para tiro, coordenadas conhecidas, é um alvo de alto valor estratégico para qualquer adversário com capacidade de emprego de drones. A doutrina ucraniana demonstrou que sistemas de lançamento de foguetes são alvos prioritários para ataques por drones de baixo custo antes e imediatamente após o disparo.

O mesmo raciocínio se aplica a instalações críticas de infraestrutura nacional como hidrelétricas, refinarias, instalações portuárias, instalações de radar (vide Oriente Médio) e bases militares. Um sistema C-UAS de curto alcance, capaz de proteger uma área de 12 km², é exatamente o que a doutrina europeia emergente descreve como camada interna da defesa aérea em camadas: barata, móvel e pronta, para que os sistemas de prestígio como o EMADS e o NASAMS não precisem gastar mísseis de US$ 400.000 para abater drones muito mais baratos.

O cenário em perspectiva
O Exército Brasileiro tem em mãos uma janela de oportunidade que não estará aberta indefinidamente. O Gepard será o único meio cinético autopropulsado de curto alcance do inventário por muitos anos. Modernizá-lo com sensores adequados e munição AHEAD é a resposta imediata, possível de ser contratada rapidamente e com custo muito inferior à aquisição de um sistema novo. A Rheinmetall, com relacionamento estabelecido no Brasil e o pacote de modernização já desenvolvido para a Ucrânia, é o interlocutor natural.

No médio prazo, a decisão sobre uma VBC AAe nacional baseada no Guarani com torre Skyranger 30 é uma questão de doutrina, prioridade orçamentária e vontade política. Os elementos técnicos estão presentes: a plataforma é nacional, a torre existe, a compatibilidade de peso é plausível, e o fabricante já está no Brasil. O que falta é que o Exército formalize o estudo de viabilidade e inclua essa demanda no planejamento de longo prazo do Projeto Estratégico de Defesa Antiaérea.

O que não falta é urgência. A Bélgica decidiu comprar defesa antiaérea de curto alcance no mesmo ato em que comprou o NASAMS. O Brasil ainda não tomou essa decisão. E as baterias EMADS chegarão.

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