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| Nauru 1000C armado com míssil MBDA Enforcer Air |
A XMobots, fabricante brasileira de veículos aéreos não tripulados sediada em São Carlos, interior de São Paulo, informou ter destinado mais de R$ 220 milhões, desde 2022, ao desenvolvimento de soluções para Defesa e Segurança. O valor, revelado pela própria empresa, soma-se a outros R$ 11 milhões aplicados entre 2010 e 2022 em projetos de pesquisa apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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| Reinaldo Junior - Diretor de Defesa da XMobots |
Fundada em 2007 por Giovani Amianti, então estudante de mestrado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), a empresa nasceu incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia da própria universidade (Cietec-USP). Quase duas décadas depois, tornou-se a única fabricante brasileira de drones próprios fornecidos simultaneamente ao Exército Brasileiro, à Marinha do Brasil, à Receita Federal e ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), além de ocupar, segundo o ranking da consultoria alemã Drone Industry Insights, a sexta posição entre as maiores empresas de drones do mundo.
Uma cadeia produtiva verticalizada dentro de casa
Com sede em São Carlos, polo aeronáutico e universitário do interior paulista, a XMobots conta atualmente com quadro de funcionários que já superou 500 colaboradores, mais da metade deles engenheiros de diferentes especialidades. Essa estrutura sustenta o principal diferencial da empresa: a verticalização de toda a cadeia tecnológica e produtiva, da engenharia aeronáutica ao software embarcado, passando por aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.
Segundo a empresa, essa integração reduz peso, potência e custo dos sistemas, em abordagem que a companhia compara à lógica adotada pela Apple na integração entre software e hardware. A capacidade instalada de produção já ultrapassa duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas da linha Nauru e o sensor XSIS 222A.
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| Linha de produção do Nauru 1000C |
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| Nauru 1000C do Exército Brasileiro |
O portfólio militar da XMobots está reunido na Família Nauru, conjunto de plataformas de diferentes portes e capacidades voltadas a missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos, a chamada ISTAR.
O menor da linha, o Nauru 100D, pesa 9 kg, emprega tecnologia eVTOL (decolagem e pouso vertical elétrico) e alcança até seis horas de autonomia em campanha, com alcance de 30 quilômetros. Sua evolução armada, o Nauru 100D UCAV, foi apresentada ao Alto Comando do Exército em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, e voltou a ser exibida em abril, na LAAD Security Milipol Brazil, com direito a demonstração conjunta das versões ISR e UCAV que atingiu o alvo com precisão de 1,4 metro.
O Nauru 500C ISR, de 25 kg e autonomia de quatro horas, foi o primeiro VTOL autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a operar além da linha de visada visual (BVLOS) no país, incluindo autorização inédita para voos noturnos obtida em 2024. Está hoje em uso pelo Censipam, pela Marinha do Brasil e pela Polícia Militar de Santa Catarina, além de empresas do setor de celulose.
Já o Nauru 1000C ISTAR, com 181 kg e autonomia de dez horas, é o modelo mais robusto em operação, entregue ao 1º Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté, no interior paulista, em dezembro de 2022. Passou por avaliação técnica e operacional do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), concluída em julho de 2024, e por experimentação doutrinária encerrada em dezembro do mesmo ano, tendo ainda participado das operações Perseu (novembro de 2024) e IVR (março de 2025), esta última conjunta entre Exército, Marinha e Força Aérea.
Ao longo de sua trajetória, a Família Nauru acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações, distribuídas entre mais de 1.500 voos do Nauru 100D, aproximadamente 2.600 do Nauru 500C e cerca de 800 do Nauru 1000C.
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| Nauru 100D na versão bombardeiro (acima) e em voo noturno (abaixo) |
Por trás das plataformas está uma arquitetura tecnológica própria, desenvolvida progressivamente pela empresa. Ela inclui os softwares de comando e controle XCockpit e XSIS Manager; o sistema de gerenciamento automático de bordo AMS XG, de sétima geração, que aplica redundâncias e aciona paraquedas em caso de falha; a navegação por filtro de Kalman estendido (EKF); o controle robusto TECS (Total Energy Control System); e o enlace de rádio definido por software com salto de frequência (FHSS), que blinda as comunicações contra tentativas de bloqueio deliberado, o jamming.
A empresa aposta ainda em baterias de lítio-íon em estado semi-sólido com troca rápida em campo (quick-connect), estruturas em polímeros avançados, espumas de impacto e tubos de carbono, e em manufatura aditiva combinada à injeção plástica para produção em escala.
No campo dos sensores, o XSIS 222A, de aproximadamente 6 kg e arquitetura compacta de baixo peso, consumo e tamanho (SWaP), integra imageamento diurno e noturno, câmera térmica, telêmetro a laser, rastreamento automático de alvos e leitura de placas veiculares por inteligência artificial. Desenvolvido originalmente para o Nauru 1000C ISTAR, o sensor já é adaptado também a helicópteros tripulados, como o Airbus AS350.
A empresa destaca ainda um algoritmo próprio de lançamento de alta precisão, testado no Nauru 100D UCAV com erro circular provável inferior a 2 metros, que corrige em tempo real os efeitos do vento e da velocidade sobre a munição, dispensando ajustes manuais do operador e permitindo que a aeronave seja recuperada, rearmada e reempregada em novas missões.
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| Nauru 1000C ISTAR com sensor XSIS 222A |
Marinha, Petrobras e a corrida pela Amazônia Azul
A aproximação com a Marinha do Brasil se intensificou ao longo de 2026. Em fevereiro, o comandante Carlos Alexandre Tunala da Silva, oficial superior do Corpo de Fuzileiros Navais, visitou a sede da empresa em São Carlos para avaliar o emprego do Nauru 100D em missões de reconhecimento e vigilância em ambientes litorâneos, fluviais e expedicionários. Em abril, o drone foi testado pelos Fuzileiros Navais na Ilha da Marambaia, no litoral fluminense, em voos diurnos e noturnos. Em maio, autoridades de alto escalão da Marinha, incluindo o diretor geral do Material da Marinha, retornaram à empresa para tratar da integração de plataformas eVTOL a operações embarcadas em navios de superfície.
Em janeiro de 2026, a XMobots iniciou, em parceria com a Marinha e com a Petrobras, um programa orçado em R$ 50 milhões para adaptar a Família Nauru a operações navais e offshore, contemplando resistência à salinidade e à umidade, comunicação por satélite (SATCOM) e pouso e decolagem a partir de plataformas móveis. O interesse da Marinha se relaciona à vigilância da chamada Amazônia Azul, o território marítimo de cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados sobre o qual o Brasil reivindica direitos soberanos, hoje monitorado com apoio limitado de meios não tripulados nacionais.
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| Nauru 500C na Marinha do Brasil |
Capital, sócios e credenciamento como empresa de Defesa
A expansão da XMobots no setor de Defesa acompanhou mudanças relevantes em sua estrutura societária. Em setembro de 2022, a Embraer anunciou acordo para participação minoritária na companhia, por meio de fundo cujo único cotista era a própria fabricante aeroespacial, com opção de aportes adicionais no futuro. O negócio sucedeu uma rodada Série A de R$ 30 milhões captada em 2019, liderada pelo fundo Aerotec, com participação da Confrapar. Em janeiro de 2024, a gestora Spectra adquiriu fatia de 20% na XMobots, movimento que coincidiu com ampliação da participação da Embraer, sem que os valores das transações fossem divulgados.
No plano regulatório, a razão social XMobots Aeroespacial e Defesa Ltda. figura entre as empresas avaliadas pelo Ministério da Defesa para credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa (EED), categoria prevista na Lei 12.598/2012 que reconhece companhias consideradas essenciais à soberania tecnológica nacional. A companhia consolidou uma estrutura dedicada ao setor, a XMobots Defense, apresentada durante a LAAD Defence & Security de 2025 e hoje comandada por Reinaldo de Campos Gonçalves Junior, executivo com mais de dez anos de experiência no setor e passagens por empresas como Akaer, Becker Avionics e IACIT.
“Nossa estratégia é construir uma capacidade de Defesa que não termine na entrega de uma aeronave. Dominamos a engenharia, a produção, a integração, o treinamento, a manutenção e a evolução tecnológica do sistema. Essa verticalização nos permite responder com mais agilidade às necessidades das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, manter dentro do País o conhecimento necessário para sustentar capacidades estratégicas”, afirma Reinaldo.
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| Conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de drones (Créditos: @Defence360) |
Cooperação internacional e o caminho até o UCAV nacional
A evolução das plataformas armadas contou também com cooperação tecnológica externa. Em 2022, a XMobots firmou acordo com a MBDA, uma das principais empresas globais do setor de mísseis, para integrar os mísseis Enforcer Air ao Nauru 1000C. A parceria permitiu à empresa brasileira acumular conhecimento posteriormente aproveitado no desenvolvimento das capacidades armadas do Nauru 100D.
Para a XMobots, projetar, integrar, testar e operar uma aeronave de combate reutilizável exige domínio de múltiplas áreas de engenharia e sistemas críticos, competência que a empresa associa ao objetivo de reduzir a dependência de sistemas armados importados e fortalecer a cadeia produtiva nacional.
Próximas fronteiras: enxames, plataformas armadas e o Nauru 3000D
Entre os projetos em desenvolvimento está o Nauru 1000C Armado, evolução da plataforma ISTAR para missões de ataque, avaliando arquitetura de ataque em mergulho (dive bomber) semelhante à do Nauru 100D, na qual o Nauru 1000C ISTAR identifica e acompanha o alvo enquanto uma segunda aeronave armada recebe os dados de posição, deslocamento e vento necessários ao cálculo da trajetória.
Outra frente é o Nauru 100D Swarm, arquitetura para coordenação de múltiplas aeronaves em uma mesma operação. Na configuração em desenvolvimento, três aeronaves cuidam do reconhecimento do ambiente e da aquisição de alvos, enquanto outras 27 atuam de forma coordenada a partir das informações obtidas durante a missão, combinando navegação, enlace de dados, processamento de informações e comando e controle compartilhados.
A empresa desenvolve ainda o Nauru 3000D, plataforma de maior porte, configuração VTOL, propulsão híbrida e até 14 horas de autonomia, projetada para módulos intercambiáveis de missões ISTAR, transporte de carga e transporte de tropas. Em cenário de referência estudado pela própria companhia, considerando o transporte equivalente a 28 soldados ao longo de 20 anos de operação, a solução distribuída com o Nauru 3000D apresentaria custo total cerca de 54% inferior ao de uma solução equivalente baseada em helicópteros, mantendo capacidade de transporte semelhante.
A companhia organiza essa evolução em um roteiro próprio, o programa FW1000, que classifica as plataformas em quatro categorias crescentes de porte e complexidade, da CAT0 (Nauru 100D) à CAT3 (Nauru 3000X), com certificação prevista para 2028.
Uma indústria em ascensão dentro da Base Industrial de Defesa
O avanço da XMobots ocorre em meio à expansão mais ampla da Base Industrial de Defesa brasileira em sistemas não tripulados, movimento que também inclui empresas como Taurus e Ambipar Robotics. Para analistas do setor, o desafio remanescente é a articulação dessas iniciativas dispersas em torno de uma estratégia nacional integrada para drones e robôs de combate, capaz de orientar prioridades de investimento e doutrina entre Exército, Marinha e Força Aérea.
Enquanto essa arquitetura institucional amadurece, a XMobots segue como a referência mais visível do setor: fornecedora estabelecida de duas três Forças Armadas brasileiras que hoje operam drones nacionais, parceira de programas industriais internacionais e protagonista dos primeiros testes brasileiros de drones armados reutilizáveis.




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