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06 janeiro, 2026

Embraer supera meta de entregas em 2025 e registra melhor trimestre do ano

Fabricante brasileira entregou 244 aeronaves em 2025, ultrapassando em 18% o desempenho de 2024 


*LRCA Defense Consulting - 06/01/2026

A Embraer encerrou 2025 com resultados robustos, entregando 91 aeronaves no quarto trimestre e totalizando 244 jatos ao longo do ano, um crescimento de 18,4% em relação às 206 unidades entregues em 2024. Os números confirmam a recuperação da fabricante brasileira e o cumprimento das metas estabelecidas para o período.

Aviação executiva puxa crescimento
O segmento de Aviação Executiva foi o destaque do trimestre, com 53 entregas, um aumento de 29% em relação ao terceiro trimestre de 2025 (41 unidades) e de 20% comparado ao mesmo período de 2024 (44 jatos). O Phenom 300, líder de mercado pelo 13º ano consecutivo, foi responsável por 23 das entregas trimestrais.

No acumulado do ano, a divisão executiva entregou 155 aeronaves, atingindo o teto superior da projeção de 145 a 155 unidades e consolidando sua posição no mercado global de jatos executivos.

Aviação comercial atinge meta projetada
A Aviação Comercial registrou 32 entregas no quarto trimestre, superando os 20 jatos do terceiro trimestre e ligeiramente acima das 31 unidades do último trimestre de 2024. O E195-E2, maior modelo comercial da Embraer atualmente em produção, representou quase metade das entregas, com 15 unidades.

Ao longo de 2025, o segmento comercial entregou 78 aeronaves, dentro da faixa prevista de 77 a 85 jatos, demonstrando consistência na execução da estratégia da empresa.

Defesa e Segurança mantém ritmo
No setor de Defesa e Segurança, a Embraer entregou seis aeronaves no trimestre: duas unidades do KC-390 Millennium, avião de transporte militar multimissão, e quatro do A-29 Super Tucano. No ano, foram 11 aeronaves militares entregues, ante apenas três em 2024.

Destaques por modelo

Aviação Executiva

  • Phenom 300: 72 unidades em 2025 (vs. 65 em 2024)
  • Phenom 100: 14 unidades em 2025 (vs. 10 em 2024)
  • Light Jets: 86 unidades no total
  • Praetor 500: 39 entregas em 2025 (vs. 28 em 2024)
  • Praetor 600: 30 entregas em 2025 (vs. 27 em 2024)

Aviação Comercial

  • E175: 34 unidades em 2025 (vs. 26 em 2024)
  • E190-E2: 6 unidades em 2025 (vs. 8 em 2024)
  • E195-E2: 38 unidades em 2025 (vs. 39 em 2024)

Defesa e Segurança

  • KC-390 Millennium: 3 unidades em 2025 (vs. 3 em 2024)
  • A-29 Super Tucano: 8 unidades em 2025 (estreia nas entregas)

Perspectivas para 2026
Com a recuperação da demanda global por aeronaves e o fortalecimento de seu portfólio, especialmente nos jatos executivos e no E2, a Embraer se posiciona para dar continuidade ao crescimento em 2026. A empresa projeta entregar entre 222 e 240 aeronaves comerciais e executivas este ano, mantendo trajetória de expansão.

Os resultados reforçam a posição da Embraer como uma das principais fabricantes globais de aeronaves comerciais e executivas de pequeno e médio porte, competindo diretamente com gigantes como Bombardier e Gulfstream no mercado executivo, e mantendo protagonismo no nicho de jatos regionais.

Análise de Mercado
O desempenho da Embraer em 2025 reflete não apenas a execução eficiente de sua estratégia industrial, mas também a recuperação do setor de aviação após anos desafiadores. O crescimento de 267% nas entregas militares e o fortalecimento da linha executiva indicam diversificação bem-sucedida do portfólio.

A liderança do Phenom 300 pelo 13º ano consecutivo é particularmente notável em um mercado competitivo, demonstrando a aceitação consistente dos produtos brasileiros no segmento premium global.

O paradoxo da Defesa brasileira - capacidade industrial sem demanda interna

 


*Mauro Beirão - 06/01/2026

A intensificação das tensões geopolíticas em diferentes regiões do mundo tem reconfigurado de forma significativa as agendas de segurança e defesa de diversos países. O sistema internacional atravessa um período de crescente fragmentação estratégica, marcado pela multiplicação de conflitos regionais, pela competição entre grandes potências e pela securitização acelerada de tecnologias emergentes, com impactos diretos sobre a estabilidade regional e a autonomia decisória dos Estados.

Na América do Sul, a prisão de Nicolás Maduro e o consequente agravamento da crise política e institucional na Venezuela alteraram de forma relevante o equilíbrio estratégico regional. A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, somada à incerteza quanto à governabilidade, ao controle das forças de segurança e à dinâmica interna do país vizinho, introduz novos vetores de instabilidade no entorno estratégico do Brasil, que até então se caracterizava por baixos níveis de conflito interestatal.

Esse novo cenário amplia a complexidade dos desafios relacionados à vigilância de fronteiras, ao controle de fluxos migratórios, ao combate a ilícitos transnacionais e à preservação da soberania nacional, exigindo maior capacidade de antecipação, dissuasão e resposta por parte do Estado brasileiro.

Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume papel ainda mais central como instrumento de autonomia estratégica, política industrial de alto valor agregado e inserção internacional qualificada. Sua relevância deve ser compreendida para além da dimensão estritamente militar, abrangendo a geração de capacidades tecnológicas críticas, a resiliência do Estado frente a cenários de instabilidade regional e a consolidação do Brasil como ator responsável e previsível no campo da segurança e da defesa.

A Base Industrial de Defesa brasileira como ativo estratégico de estado

Sob a perspectiva adotada por organismos multilaterais e centros de análise estratégica, a indústria de defesa constitui um dos pilares da capacidade estatal em contextos de incerteza geopolítica. No caso brasileiro, a BID é composta por um ecossistema industrial diversificado, que abrange os domínios aeroespacial, naval, terrestre, espacial, cibernético, comunicações e eletroeletrônico, fomentando empresas de alta tecnologia, plenamente estabelecidas e integradas ao setor produtivo do país independentemente da origem de seu capital.

O critério relevante para avaliação estratégica não reside no país de origem das empresas, mas na capacidade de investimentos, na transferência de tecnologias, na geração de valor local, na retenção de competências tecnológicas, na formação de capital humano altamente qualificado e na aderência dessas capacidades às prioridades de defesa e segurança nacionais.

Expansão das exportações e inserção internacional

Nos últimos anos, a Base Industrial de Defesa brasileira apresentou um crescimento expressivo de suas exportações, refletindo ganhos de competitividade, maturidade tecnológica e reconhecimento internacional de seus produtos e sistemas. O aumento significativo das vendas externas demonstra a capacidade da BID de atender a padrões internacionais rigorosos, operar em cadeias globais de valor e competir em mercados altamente regulados.

Do ponto de vista das relações internacionais, esse desempenho projeta o Brasil como um fornecedor relevante de produtos e sistemas de defesa, ampliando sua presença diplomática, fortalecendo parcerias estratégicas e contribuindo para sua política externa por meio de instrumentos de cooperação industrial e tecnológica.

Entretanto, essa inserção internacional mais robusta contrasta com um desafio estrutural persistente no plano doméstico.

A assimetria entre capacidade industrial e a demanda interna

Apesar da evolução tecnológica e do desempenho exportador da BID, as Forças Armadas brasileiras enfrentam limitações significativas de absorção dessas capacidades, em razão de sucessivos cortes orçamentários e da elevada rigidez do orçamento de defesa, historicamente concentrado em despesas obrigatórias. Essa assimetria gera um paradoxo estratégico: o Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e produzir sistemas avançados, mas ainda carece de previsibilidade orçamentária e continuidade programática para incorporá-los de forma sistemática às suas próprias forças. Sob a ótica de políticas públicas, essa desconexão reduz o efeito multiplicador dos investimento em defesa enfraquece a indução tecnológica gerada por encomendas governamentais, limita o planejamento de longo prazo da indústria e amplia a dependência da BID em relação ao mercado externo, tornando-a mais vulnerável a ciclos internacionais e restrições geopolíticas.

Think tanks* internacionais frequentemente apontam que a demanda doméstica estável é elemento crítico para a sustentabilidade de uma indústria de defesa, não apenas como cliente, mas como indutor de inovação, padronização e soberania operacional. 

Implicações para autonomia estratégica e política externa

A persistência de baixos níveis de investimento em aquisição e modernização de meios compromete a credibilidade dissuasória do país e restringe a sua capacidade de atuação autônoma em cenários regionais e multilaterais. Além disso, limita a plena exploração dos benefícios estratégicos associados à BID, tais como:

- Domínio do ciclo de vida dos sistemas;

- Autonomia do suporte logístico e de manutenção;

- Capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça;

- Continuidade logística e operacional das Forças Armadas em cenários de crise;

- Redução de vulnerabilidades externas em sistemas sensíveis;

- Capacidade nacional de manutenção, modernização e integração de plataformas estratégicas;

- Flexibilidade diplomática, ao diminuir dependências críticas de fornecedores externos.

Para países com ambições de protagonismo regional, a literatura estratégica destaca a importância de alinhar política industrial de defesa, planejamento militar e política externa, evitando que capacidades industriais avancem de forma dissociada das necessidades operacionais do Estado.

Empresas brasileiras com capital internacional e inserção global

A presença de empresas brasileiras com capital internacional na BID deve ser analisada sob uma ótica pragmática e estratégica. Em um setor caracterizado por cadeias globais altamente reguladas e intensivas em tecnologia, a participação em programas internacionais amplia o acesso a mercados, padrões tecnológicos e processos industriais avançados.

A experiência internacional demonstra que países com BID robusta combinam capital nacional e internacional, desde que preservem o controle soberano sobre requisitos operacionais, propriedade intelectual sensível e ciclos de vida dos sistemas estratégicos.

Considerações finais

O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira ocorre em um momento de profunda transformação do ambiente internacional. O crescimento das exportações confirma a relevância e a competitividade da BID, mas também expõe uma fragilidade estrutural que é a limitada capacidade do Estado brasileiro de absorver, de forma contínua e previsível, as soluções que ele próprio ajuda a desenvolver.

Para organismos internacionais e centros de análise estratégica, a principal questão não é a existência de capacidades industriais, mas a coerência entre ambição estratégica, financiamento público e governança institucional.

Superar essa assimetria exige uma abordagem de política de Estado, que reconheça a BID, que é composta por empresas nacionais e empresas brasileiras com capital internacional, como um instrumento central da autonomia estratégica brasileira, capaz de contribuir simultaneamente para a segurança nacional, o desenvolvimento tecnológico e a inserção internacional do país.

* Think tanks são instituições dedicadas à produção de conhecimento aplicado, com foco em análise, pesquisa e formulação de propostas para orientar políticas públicas, estratégias governamentais, decisões empresariais e debates da sociedade.

*Mauro Beirão tem formação em Engenharia Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial, atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e tecnologia para a defesa nacional.

 

 

05 janeiro, 2026

O dilema da defesa aérea europeia: o sonho stealth do FMLA confronta a realidade operacional do Super Tucano

 Future Multirole Light Aircraft (FMLA): um projeto ambicioso, mas distante da realidade

Imagem conceitual meramente ilustrativa
 

*LRCA Defense Consulting - 05/01/2026

No cenário geopolítico atual, onde as ameaças se diversificam a uma velocidade sem precedentes, de drones hostis a conflitos assimétricos, a capacidade de resposta rápida e eficaz é crucial para a segurança de qualquer nação.

A Europa, com frotas aéreas envelhecidas e a necessidade premente de modernização, encontra-se num ponto de inflexão.

De um lado, a ambição de desenvolver o Future Multirole Light Aircraft (FMLA), um projeto futurista de uma aeronave turboélice com tecnologia stealth, mas com um horizonte de entrega distante (2035-2040) e desafios técnicos colossais.

De outro, a realidade pragmática que Portugal já abraçou: a chegada dos primeiros Embraer A-29N Super Tucano, uma aeronave comprovada em combate, adaptada aos padrões da OTAN e pronta para missões críticas hoje.

Esta matéria mergulha fundo nesse dilema, explorando os contrastes entre um ideal tecnológico ambicioso e a necessidade imediata de soluções testadas, eficientes e já disponíveis, um tema de vital importância para qualquer entusiasta da defesa que acompanha a evolução das capacidades militares e as estratégias de segurança do continente.

O sonho europeu: o projeto FMLA e seus desafios monumentais

A União Europeia planeja investir €15 milhões em estudos iniciais para o FMLA, uma aeronave turboélice que promete furtividade. Contudo, o caminho para transformar essa promessa em realidade está repleto de obstáculos que parecem desafiar as leis da física e da engenharia aeronáutica.

O dilema da furtividade em aeronaves a hélice
A essência da tecnologia stealth reside na redução da assinatura de radar da aeronave. Para jatos, isso envolve geometria facetada, materiais absorventes de radar (RAM), ocultação de motores em dutos em "S" e redução de assinatura infravermelha. No entanto, o FMLA propõe a furtividade para um turboélice, uma configuração inerentemente conflituosa com esses princípios.

Especialistas são unânimes: hélices e lâminas de turbina geram "assinaturas de radar brilhantes e altamente detectáveis". O exemplo clássico é o bombardeiro russo Tu-95 Bear, cuja notoriedade no radar se deve às suas grandes hélices contrarrotativas. O movimento rotativo das pás cria modulações Doppler características, produzindo uma "impressão digital" inconfundível para radares modernos, conhecida como Jet Engine Modulation (JEM). Integrar hélices expostas com requisitos de stealth é, na prática, uma contradição técnica fundamental.

Custos proibitivos e complexidade
Desenvolver características stealth genuínas é um empreendimento de bilhões de euros. O F-117, por exemplo, custou cerca de US$ 6 bilhões em desenvolvimento nos anos 70-80. Para o FMLA, isso implicaria materiais compostos de carbono e RAM de última geração, testes extensivos em túneis de vento e câmaras anecóicas, um redesenho completo da fuselagem e sistemas eletrônicos resistentes à guerra eletrônica. Tudo isso para uma aeronave cujas hélices, inevitavelmente, continuarão sendo detectáveis. Mesmo aeronaves de ponta como o F-35, projetadas para como stealth desde o início, veem sua assinatura radar aumentar significativamente contra radares de baixa frequência.

O prazo impossível: 2035-2040
Talvez um dos pontos mais críticos do projeto FMLA seja seu cronograma. Com entregas previstas apenas entre 2035 e 2040, o projeto demandaria 10-15 anos de desenvolvimento após os estudos iniciais de €15 milhões (em 2026), seguidos por mais 5-10 anos para produção em série. Isso significa que países com frotas envelhecidas (30-40 anos) teriam que esperar até duas décadas por uma solução que as ameaças atuais exigem para aqui e agora.

 

A resposta imediata: o Embraer A-29N Super Tucano e a visão portuguesa

Em contraste direto com a ambição do FMLA, Portugal deu um passo decisivo em sua modernização de defesa. Em dezembro de 2024, o país assinou um contrato para a aquisição de 12 aeronaves A-29N Super Tucano da Embraer, com as cinco primeiras unidades já aterrissando em solo português em dezembro de 2025. Este movimento estratégico posiciona o Super Tucano como uma solução imediata e comprovada para os desafios de segurança europeus.

Histórico operacional comprovado
O A-29 Super Tucano não é uma promessa, mas uma realidade operacional com mais de 600.000 horas de voo globalmente, incluindo mais de 60.000 horas em combate. Sua versatilidade é demonstrada em 22 forças aéreas ao redor do mundo, operando em ambientes tão diversos quanto a selva colombiana (missão de combate contra as FARC), o cenário hostil do Afeganistão (26 aeronaves operadas), o combate ao Boko Haram na Nigéria, operações de segurança fronteiriça no Líbano e missões antinarcóticos no Brasil.

Capacidades multimissão versáteis
O Super Tucano oferece um portfólio completo, tornando-o um verdadeiro "canivete suíço" para forças aéreas:

● Apoio Aéreo Aproximado (CAS): longo tempo de permanência sobre o campo de batalha com munições de precisão.

● Reconhecimento Armado (ISR): sensores EO/IR que operam a 15.000 pés, compatíveis com óculos de visão noturna.

● Treinamento Avançado: prepara pilotos para transição a jatos de 4ª/5ª geração.

● Interdição Aérea: patrulha de fronteiras e combate a atividades ilegais.

● Coordenação JTAC: treinamento de controladores de ataque aéreo conjunto.

 Vigilância de Fronteiras: opera a partir de pistas não preparadas em ambientes austeros.

Custo-efetividade inigualável
Um dos maiores trunfos do Super Tucano é seu custo operacional: aproximadamente US$ 1.500 por hora de voo. Isso é cerca de 10 vezes menos do que caças de 4ª geração (F-15: ~US$ 15.000-20.000/hora; F-16: ~US$ 8.000-10.000/hora) e 20-30 vezes menos que caças de 5ª geração (F-35: ~US$ 35.000-40.000/hora). Essa economia permite patrulhas prolongadas sem drenar orçamentos de defesa, preserva caças avançados para missões de alta intensidade e garante maior número de horas de treinamento para pilotos.

Capacidade anti-drone: uma vantagem crítica
Em novembro de 2025, a Embraer validou oficialmente a expansão das capacidades do A-29 para missões contra-drone (counter-UAS). Esta é uma resposta direta e urgente às crescentes ameaças de drones hostis, como os Shahed e similares russos na Ucrânia. O Super Tucano emprega:

● Sensores e detecção: datalinks dedicados para coordenadas de alvos e sensores EO/IR para rastreamento e designação a laser.

● Armamento efetivo: foguetes guiados a laser APKWS (Advanced Precision Kill Weapon System), que oferecem precisão a 1/3 do custo de mísseis tradicionais, e metralhadoras calibre .50 nas asas para resposta imediata.

● Vantagem tática: sua velocidade de cruzeiro de 280 nós e estol a 80 nós permite igualar a velocidade de drones lentos, voar entre 3/4 até 8,5 horas e utilizar com precisão suas metralhadoras e foguetes guiados. Caças supersônicos, por sua vez, são rápidos demais para engajar drones lentos com segurança usando canhões, e o disparo de mísseis ar-ar embora efetivo, é proibitivamente caro.

Sede da OGMA em Alverca, Portugal

Portugal: um hub europeu de produção
A aquisição portuguesa vai além da simples compra. Embraer e o Estado Português assinaram uma Carta de Intenções (LOI) para estabelecer uma linha de montagem final do A-29N em Beja, Portugal. A OGMA (Oficinas Gerais de Material Aeronáutico), subsidiária da Embraer com 65% de participação, já está integrada no programa para montagem parcial, integração de sistemas NATO, manutenção e upgrades futuros, embora ainda não tenha sido definido se será ela a produzir os Super Tucanos em Beja ou se a Embraer estabelecerá uma unidade própria. Isso não só cria empregos e expertise técnica em Portugal, mas também fortalece a base industrial de defesa continental com uma solução verdadeiramente "europeia" no sentido industrial.

Variante A-29N: padrão OTAN
Portugal é o cliente de lançamento e primeiro operador europeu da variante A-29N, adaptada especificamente aos padrões da OTAN, incluindo:

● Sistema de comunicações SATCOM.

● Link 16 para interoperabilidade com forças da OTAN.

● Módulo DACAS (Data Acquisition and Control System).

● Suíte de autoproteção integrada.

 Sensores eletro-ópticos avançados e capacidade de operação monopiloto.

Essas características garantem total interoperabilidade, algo que o FMLA ainda teria que desenvolver e certificar.

Comparativo técnico: FMLA (proposto) vs. A-29 Super Tucano (realidade)

Para ilustrar a discrepância entre as duas abordagens, apresentamos uma tabela comparativa com os principais aspectos:

As vantagens estratégicas do Super Tucano para a Europa

1. Urgência operacional imediata: as ameaças atuais exigem respostas agora. O Super Tucano oferece essa resposta, com Portugal recebendo sua frota completa até 2028.

2. Custo-efetividade comprovada: economia de bilhões de euros, cadeia de suprimentos estabelecida e manutenção simplificada.

3. Solução verdadeiramente europeia: com a produção em Portugal, há criação de empregos, desenvolvimento de expertise técnica e fortalecimento da base industrial de defesa continental.

4. Interoperabilidade OTAN garantida: o A-29N foi projetado especificamente para padrões OTAN, com Link 16, SATCOM e compatibilidade com armamento padrão.

5. Preservação de ativos de alta capacidade: ao empregar o Super Tucano para missões de baixa intensidade, caças de 4,5ª e 5ª geração podem ser preservados para ameaças de alta intensidade.

6. Flexibilidade multimissão: uma única aeronave para treinamento avançado, apoio aéreo aproximado, reconhecimento armado, vigilância de fronteiras, missões anti-drone e interdição aérea.

7. Capacidade anti-drone imediata: uma resposta eficaz e de baixo custo para a ameaça crescente dos drones.

 

A "Síndrome do Não-Inventado-Aqui" e os riscos do FMLA

A insistência europeia no FMLA pode ser interpretada como a clássica "Síndrome do Não-Inventado-Aqui" (Not Invented Here - NIH). Embora argumentos como "independência estratégica" e "desenvolvimento de tecnologia própria" sejam válidos em tese, a realidade é que gastar bilhões para reinventar uma solução já testada em combate pode ser um desperdício. A portuguesa OGMA já está finalizando a montagem de uma aeronave "europeia" no sentido industrial, gerando empregos e expertise, o que deverá ser potencializado com a nova planta industrial em Beja.

Os riscos do projeto FMLA são palpáveis:

● Risco técnico: a física das hélices versus stealth é um desafio quase insuperável.

● Risco de cronograma: programas militares europeus têm um histórico notório de atrasos e estouros de orçamento, como visto no A400M, NH90 e Eurofighter.

● Risco de obsolescência: em 2035-2040, as tecnologias e ameaças terão evoluído drasticamente, tornando o FMLA potencialmente obsoleto antes mesmo de se tornar operacional.

Recomendações para a Europa: pragmatismo acima da ambição

Diante deste cenário, o documento sugere caminhos claros para a Europa:

Opção 1: cancelar FMLA e adotar o Super Tucano

- Expandir a produção do A-29N em Portugal e estabelecer acordos entre países da OTAN europeus.

- Investir os €15 milhões (orçamento FMLA) em upgrades e customizações europeias para o Super Tucano.

- Benefícios: capacidade operacional em 2026-2028, economia de bilhões de euros, plataforma comprovada e risco técnico mínimo.

Opção 2: abordagem híbrida

- Adquirir aeronaves Super Tucano para as necessidade imediatas (2026-2030) e continuar a pesquisa do FMLA com expectativas realistas.

- Avaliar em 2030 se o FMLA ainda faz sentido.

Opção 3: redesenhar o FMLA realisticamente

- Abandonar os requisitos stealth, focar no custo-efetividade e acelerar o cronograma para 2030-2032.

- Colaborar com a Embraer para adaptar a tecnologia Super Tucano ao FMLA.

Uma escolha clara...

A Europa está diante de uma decisão fundamental, que vai muito além da técnica: optar entre o idealismo de um projeto futurista, caro e incerto, ou a eficiência pragmática de uma solução comprovada, disponível agora e já em operação. Enquanto burocratas e comitês planejam uma aeronave hipotética para um futuro distante, soldados enfrentam drones hostis hoje e frotas envelhecidas precisam de substituição imediata. Enquanto a Europa hesita, Portugal já está voando.

O contraste é evidente. O FMLA promete tecnologia questionável que talvez nunca se materialize a tempo das ameaças atuais. Já o Super Tucano acumula mais de 600 mil horas de voo, mais de 60 mil horas de combate, opera em 22 forças aéreas e conta agora com capacidade anti-drone. Não é promessa: é realidade operacional.

As palavras do ministro da Defesa português, Nuno Melo, sintetizam essa escolha com clareza: “O Super Tucano agora oferece a possibilidade de realizar missões anti-drone, demonstrando a flexibilidade da aeronave escolhida pela Força Aérea".

A decisão é estratégica. A Europa pode economizar bilhões de euros, obter capacidade operacional imediata e fortalecer uma base industrial de defesa real em Portugal. Ou pode perseguir um fantasma tecnológico que, quando, e se chegar, provavelmente já esteja ultrapassado por uma nova geração de ameaças.

A escolha inteligente é clara. A verdadeira questão é: a Europa terá a sabedoria de fazê-la?

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