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30 janeiro, 2026

Polônia assina contrato de €3,4 bilhões para sistema anti-drone e avalia Super Tucano como complemento aéreo

Varsóvia formaliza maior programa europeu de defesa contra UAVs e estuda integrar aeronave brasileira em arquitetura multicamada 

 
 
*LRCA Defense Consulting - 30/01/2026

A Polônia deu um passo decisivo para consolidar-se como referência europeia em defesa contra drones ao assinar, nesta sexta-feira (30), o contrato para desenvolvimento do sistema SAN, descrito pelo primeiro-ministro Donald Tusk como uma capacidade "sem paralelo" no continente. O acordo, estimado em 15 bilhões de zlotys (aproximadamente €3,4 bilhões), foi formalizado em Kobyłka, nos arredores de Varsóvia, na presença de Tusk e do ministro da Defesa Władysław Kosiniak-Kamysz.
 
O programa SAN ficará a cargo de um consórcio liderado pelo grupo estatal de defesa PGZ, em parceria com a empresa privada polonesa APS e a norueguesa Kongsberg. O prazo de execução é de dois anos, período no qual serão construídas 18 baterias antidrone e mais de 700 veículos especializados.
 
O Sistema SAN: defesa terrestre integrada
O SAN representa uma abordagem multicamadas para neutralizar ameaças de veículos aéreos não tripulados (UAVs), combinando sensores avançados, comando e controle dedicado e uma gama diversificada de "efetores", termo militar para sistemas de neutralização.
 
A arquitetura do sistema integra:
 
Camada de sensores: radares ativos, sensores passivos e sistemas optrônicos trabalham em conjunto para detectar, rastrear e identificar drones em diferentes condições climáticas e de visibilidade.
 
Efetores cinéticos: canhões automáticos de 35mm, 30mm e 12,7mm com munição programável, mísseis de curto alcance e drones interceptadores (contra-drones) compõem o arsenal de resposta física.
 
Efetores não cinéticos: sistemas de guerra eletrônica e jamming permitem neutralizar drones por meio de interferência em suas comunicações e navegação, oferecendo opções de resposta graduada.
 
Comando e controle: uma rede integrada de C2 permite coordenação em tempo real entre as baterias, otimizando a alocação de recursos e a resposta a ameaças múltiplas.
 
Um "andar" na defesa aérea em camadas
Autoridades polonesas enfatizam que o SAN não é uma solução isolada, mas um componente essencial de uma arquitetura de defesa aérea estratificada. O sistema complementa:
 
Wisła (Patriot): focado em ameaças de média e alta altitude, incluindo aeronaves tripuladas e mísseis balísticos.
 
Narew (CAMM): cobertura de média altitude contra aeronaves e drones maiores.
 
Pilica/Pilica+: defesa de curtíssimo alcance contra ameaças de baixa altitude.
 
O SAN preenche especificamente a lacuna crítica entre esses sistemas, oferecendo resposta eficiente contra drones comerciais modificados, UAVs táticos e enxames de drones, ameaças que têm se multiplicado nos campos de batalha modernos, especialmente após a invasão russa da Ucrânia.
 
"O objetivo é enfrentar drones baratos e em massa com soluções de baixo custo e alta cadência de tiro", explicou Kosiniak-Kamysz, destacando a ineficiência de utilizar mísseis caros ou caças supersônicos para interceptar alvos de baixo valor unitário.
 
A dimensão aérea: entra o Embraer A-29 Super Tucano
Enquanto o SAN representa a solução terrestre, a Polônia avalia paralelamente adicionar uma camada aérea à sua defesa anti-drone, e é aqui que entra o brasileiro Embraer A-29 Super Tucano.
 
Em meados de janeiro de 2026, uma delegação militar polonesa liderada pelo Major-General Ireneusz Nowak visitou as instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Durante a visita, pilotos poloneses realizaram voos de familiarização com o A-29, avaliando especificamente suas capacidades contra drones do tipo Shahed, os mesmos UAVs de ataque que a Rússia tem empregado massivamente contra a Ucrânia.
 
"Definitivamente testaremos o Super Tucano e o examinaremos mais de perto", confirmou o General Nowak, sinalizando interesse concreto na plataforma brasileira.
 
 
Por que o Super Tucano?
A aeronave de ataque leve turboélice apresenta características ideais para missões de caça a drones:
 
Custo operacional: voar um A-29 custa uma fração do que representa operar um caça a jato — crucial para missões de patrulha contínua sobre áreas extensas.
 
Velocidade compatível: enquanto caças supersônicos têm dificuldade em voar lentamente o suficiente para engajar drones subsônicos (como o Shahed, que voa a aproximadamente 185 km/h), o Super Tucano opera confortavelmente nessa faixa de velocidade.
 
Sensores embarcados: o A-29 pode ser equipado com pods de sensores eletrônicos e optrônicos que permitem detectar e rastrear drones a distâncias seguras.
 
Armamento flexível: a aeronave pode empregar desde metralhadoras e canhões até foguetes e mísseis guiados, oferecendo opções para diferentes cenários de engajamento.
 
Autonomia: com capacidade de voar por horas em missões de patrulha, o Super Tucano pode manter presença aérea persistente sobre áreas vulneráveis.
 
A Embraer formalizou recentemente a expansão oficial do portfólio de missões do A-29 para incluir explicitamente operações contra-drone (C-UAS), aproveitando sistemas e capacidades já existentes na plataforma, o que facilita sua integração em arquiteturas de defesa como a que a Polônia está desenvolvendo.
 
Arquitetura integrada: terrestre + aérea
A visão estratégica polonesa aponta para uma defesa anti-drone verdadeiramente abrangente, onde SAN e Super Tucano desempenhariam papéis complementares:
 
Defesa territorial (SAN): proteção de pontos críticos — bases militares, infraestrutura energética, centros urbanos — com resposta rápida e automatizada contra drones que penetrem o espaço aéreo protegido.
 
Caça aérea (A-29): interceptação de drones em profundidade, antes que atinjam áreas protegidas, atuando como "hunters" que patrulham rotas conhecidas de aproximação ou respondem a alertas de detecção precoce.
 
Integração C2: ambos os sistemas operariam sob comando e controle unificado, compartilhando dados de sensores e coordenando respostas, por exemplo, o SAN poderia direcionar o A-29 para interceptar alvos além de seu alcance, enquanto a aeronave poderia fornecer reconhecimento aéreo para as baterias terrestres.
 
Contexto estratégico
O investimento polonês em defesa anti-drone não é acidental. Como nação fronteiriça da OTAN no flanco oriental, a Polônia tem registrado múltiplas violações de seu espaço aéreo por drones, alguns confirmadamente russos, outros de origem incerta.
 
Um incidente em setembro de 2025, descrito por Tusk como "nosso pesadelo", evidenciou "quão inadequados" são sistemas convencionais de defesa aérea para lidar com pequenos drones. A tentativa de abater UAVs com caças supersônicos ou mísseis antiaéreos de alto custo provou-se tanto economicamente insustentável quanto operacionalmente ineficaz.
 
O conflito na Ucrânia tem demonstrado diariamente como drones baratos podem saturar defesas sofisticadas, causar danos desproporcionais ao seu custo e drenar arsenais de interceptadores caros. A resposta polonesa (sistemas terrestres dedicados combinados com plataformas aéreas de baixo custo) reflete lições aprendidas desse conflito.
 
Investimento tota  e cronograma
O ministro Kosiniak-Kamysz revelou que o programa SAN faz parte de um investimento total polonês em defesa aérea que alcança aproximadamente 250 bilhões de zlotys (cerca de 57 bilhões de euros), incluindo os programas Wisła, Narew e outros sistemas. 
 
O SAN especificamente deve entrar em operação inicial dentro de dois anos, embora a capacidade plena das 18 baterias provavelmente seja alcançada de forma gradual.
 
Quanto ao Super Tucano, não há ainda decisão formal de aquisição. A visita de janeiro representa a fase de avaliação técnica, que deve ser seguida por análises operacionais e negociações contratuais, caso a Polônia decida prosseguir. Fontes do setor de defesa estimam que uma eventual aquisição envolveria entre 12 e 24 aeronaves, suficientes para manter cobertura aérea sobre as áreas mais sensíveis do território polonês.
 
 
Implicações para a OTAN
O desenvolvimento polonês é observado com atenção por outros membros da Aliança Atlântica. Países bálticos, Romênia e mesmo nações da Europa Ocidental enfrentam desafios semelhantes de drones, seja por violações do espaço aéreo, seja por preparação para cenários de conflito.
 
Um sistema SAN bem-sucedido poderia tornar-se referência para outros aliados, potencialmente com vendas de exportação pela indústria polonesa. Da mesma forma, a validação operacional do Super Tucano em missões C-UAS na Europa poderia abrir mercado significativo para a Embraer em um continente que até recentemente não considerava aeronaves turboélice para funções de combate.
 
Mudança de paradigma na defesa aérea
A Polônia está construindo uma das mais abrangentes capacidades anti-drone da Europa, combinando inovação tecnológica, lições dos conflitos modernos e pragmatismo estratégico. O sistema SAN representa a fundação terrestre dessa capacidade, enquanto o possível Super Tucano adicionaria mobilidade e alcance aéreo.
 
Mais que sistemas isolados, SAN e A-29 exemplificam uma mudança de paradigma na defesa aérea: reconhecer que ameaças assimétricas de baixo custo exigem respostas igualmente criativas, onde efetividade e sustentabilidade econômica pesam tanto quanto sofisticação tecnológica.
 
Para o Brasil e a Embraer, o interesse polonês valida o reposicionamento estratégico do Super Tucano como plataforma C-UAS, potencialmente abrindo mercados em uma Europa que desperta para novas ameaças e busca soluções além dos caças supersônicos convencionais. 

29 janeiro, 2026

Exército Brasileiro reafirma compromisso com Avibras em visita do Diretor de Fabricação

General Tales Villela, Diretor de Fabricação do EB, fala em relevância estratégica da empresa e confirma evolução da recuperação, enquanto Avibras reativa negociações internacionais


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LRCA Defense Consulting - 29/01/2026

Em um movimento que sinaliza forte apoio institucional à recuperação da Avibras Indústria Aeroespacial, o Exército Brasileiro realizou nesta terça-feira (28) uma visita oficial à empresa paralisada há mais de três anos. A comitiva foi liderada pelo General de Divisão Tales Eduardo Areco Villela, Diretor de Fabricação, órgão responsável pela interface entre o desenvolvimento e o uso de materiais de emprego militar na Força Terrestre.

A visita ocorre em momento crítico: na mesma semana, representantes da Avibras, incluindo o ex-presidente Sami Youssef Hassuani, estiveram na Indonésia para reuniões com o Exército local, principal cliente internacional da empresa. Os dois eventos, separados por milhares de quilômetros, mas unidos em propósito, revelam uma estratégia coordenada de reativação da fabricante brasileira de sistemas de defesa.

Relevância estratégica para a soberania nacional
Em postagem publicada em seu perfil no LinkedIn, o General Villela não economizou elogios à capacidade instalada da Avibras. A empresa apresenta potencial instalado, com infraestrutura produtiva, capacidades tecnológicas e ativos industriais, que lhe confere relevância estratégica na Base Industrial de Defesa, declarou o general.

Ainda segundo Villela, a Avibras possui potencial contribuição significativa para a soberania nacional, para o fortalecimento das capacidades operacionais da Força Terrestre e para a autonomia tecnológica do Brasil no setor de Defesa. As palavras são especialmente significativas vindas do oficial responsável por toda a cadeia de fabricação e modernização de equipamentos militares terrestres.

A comitiva que acompanhou o General Villela incluiu o General de Brigada R1 Paixão, gerente do Programa Estratégico ASTROS, e o Coronel Alexandre Horstmann, além de engenheiros militares da CACTTAV (Comissão de Acompanhamento e Controle de Testes, Avaliação e Validação), Tenente-Coronel Eduardo Guerra e o Capitão Eduardo Henrique dos Santos. A presença do gerente do Programa ASTROS é particularmente relevante, dado que este é o principal contrato entre a Avibras e o Exército Brasileiro.

Programa ASTROS: coração do relacionamento
O Programa Estratégico ASTROS 2020 é um dos projetos mais ambiciosos do Exército Brasileiro nas últimas décadas. Iniciado em 2012 com previsão original de conclusão em 2023 (posteriormente estendida para 2031), o programa contempla o desenvolvimento e fornecimento de míssil tático de cruzeiro, foguete guiado e novas viaturas de combate.

Com investimentos que já superaram R$ 1 bilhão, o ASTROS 2020 visa dotar a Força Terrestre de capacidade de apoio de fogo de longo alcance (até 300 km com o míssil de cruzeiro) com elevada precisão e letalidade. O sistema é considerado estratégico para a chamada dissuasão extrarregional, a capacidade de desencorajar ameaças mesmo antes que se materializem.

Atualmente, o Exército Brasileiro opera 83 viaturas do sistema ASTROS, sendo 44 lançadoras múltiplas universais (LMU). A versão mais moderna, o ASTROS II Mk6, incorpora sistema de comando e controle digitalizado (C4I), com GPS, rádios criptografados e navegação digital, tecnologias que colocam o sistema brasileiro entre os mais avançados do mundo em sua categoria.

A paralisação da Avibras em setembro de 2022 interrompeu brutalmente a continuidade do programa. Entregas de novos equipamentos foram suspensas, o desenvolvimento do míssil tático de cruzeiro e do foguete guiado ficou congelado, e a manutenção dos sistemas já entregues passou a depender de estoques limitados de peças.

Evolução da recuperação: sinais concretos
O que torna a visita do General Villela particularmente significativa é sua afirmação categórica: “Na ocasião, foi possível acompanhar a evolução da recuperação da Avibras e a retomada gradual de suas atividades”. Esta é a primeira vez que uma autoridade militar de alto escalão reconhece publicamente progressos concretos no processo de reestruturação da empresa.

O objetivo declarado da visita foi tratar dos Projetos Estratégicos de Defesa desenvolvidos em parceria com a empresa, bem como do andamento do reinício de suas operações. A menção explícita ao reinício de operações sugere que há um cronograma estabelecido e que o Exército está ativamente acompanhando sua implementação.

Documentos da nova administração, liderada por Fábio Guimarães Leite desde agosto de 2025, já haviam indicado que a empresa estava em processo de reestruturação, com diligências, auditorias e manutenção das instalações industriais em andamento. A visita do Exército, no entanto, eleva significativamente o nível de credibilidade dessas informações. 

Missão Indonésia: preservando mercados críticos
Na mesma semana da visita do General Villela, representantes da Avibras estiveram na Indonésia para reuniões com o Centro de Armamento de Artilharia de Campanha do Exército Indonésio (Pussenarmed). A delegação incluiu Sami Youssef Hassuani, ex-presidente e atual assessor da empresa, e representantes da PT Poris Duta Sarana, empresa indonésia que atua como intermediária local.

A Indonésia é cliente estratégico da Avibras, operando 63 unidades do ASTROS II Mk6 adquiridas em contratos que somaram entre US$ 350 milhões e US$ 400 milhões. Com a empresa paralisada há mais de três anos, surgem questões críticas sobre manutenção, peças de reposição, treinamento de operadores e, crucialmente, novos contratos.

A escolha de Hassuani para liderar a missão não foi casual. Engenheiro com vasta experiência na indústria de defesa, ele foi presidente da Avibras e conhece profundamente o mercado indonésio, tendo participado das negociações originais. Sua presença demonstra que a empresa está mobilizando seus melhores ativos humanos para preservar relações comerciais vitais.

A sincronização entre a missão Indonésia e a visita do Exército Brasileiro sugere coordenação estratégica. Ao demonstrar que tem o apoio das Forças Armadas brasileiras, a Avibras fortalece sua posição nas negociações internacionais. E ao manter clientes internacionais ativos, a empresa demonstra ao Exército que continua relevante no mercado global.

O papel do General Villela: arquiteto da modernização
Para entender a importância da visita, é crucial compreender quem é o General Tales Villela e o que representa a Diretoria de Fabricação no Exército Brasileiro. Como Diretor de Fabricação, Villela é responsável por planejar e coordenar todas as atividades relativas à produção, revitalização, modernização e nacionalização de sistemas e materiais de emprego militar.

A Diretoria de Fabricação é o elo entre o desenvolvimento de produtos de defesa e seu uso pela tropa, gerenciando contratos com a Base Industrial de Defesa e supervisionando os Arsenais de Guerra. Villela está à frente de projetos estratégicos como a modernização do blindado EE-9 Cascavel, o desenvolvimento do Guarani, negociações com a BAE Systems para produção licenciada do obuseiro L119 Light Gun, e, crucialmente, o Programa ASTROS 2020, além de outros projetos e programas importantes.

Em entrevistas anteriores, Villela enfatizou repetidamente a importância de uma Base Industrial de Defesa nacional forte e autônoma. Sua visão é de que empresas como a Avibras não são apenas fornecedoras, mas parceiras estratégicas no desenvolvimento de capacidades nacionais. A empresa fabrica não apenas o ASTROS, mas também domina tecnologias críticas de propulsão, integração de sistemas e fabricação de veículos blindados.

Sua declaração pública de apoio à Avibras, portanto, não é protocolar. É um posicionamento estratégico que reflete a visão do Alto Comando sobre a importância da empresa para a autonomia tecnológica brasileira no setor de defesa.

Declaração exclusiva do General Villela
Em declaração exclusiva a esta editoria, o General Tales Villela foi ainda mais enfático sobre o comprometimento institucional com a recuperação da empresa: 

“O EB, em especial EPEx/EME e DF, tem envidado todos os esforços para tornar a recuperação da empresa uma realidade. Temos tido reuniões sistemáticas há algum tempo. E, dessa última, assevero ter saído bastante satisfeito. Ainda há desafios, mas creio que com trabalho, dedicação, vontade política e força mental, superaremos. Prossigamos!”.

A menção ao Estado-Maior do Exército (EME) e ao Escritório de Projetos do Exército (EPEx) revela que o apoio à Avibras não é uma iniciativa isolada da Diretoria de Fabricação, mas uma política institucional coordenada pelos mais altos escalões da Força Terrestre. A referência a "reuniões sistemáticas há algum tempo" confirma que existe um processo estruturado de acompanhamento da recuperação, e não apenas visitas esporádicas.

A expressão "bastante satisfeito" usada pelo General é particularmente significativa. Em linguagem militar institucional, onde comedimento é a norma, tal manifestação de satisfação indica que a evolução da recuperação superou expectativas. O reconhecimento de que "ainda há desafios", seguido imediatamente pela afirmação de que serão superados com "trabalho, dedicação, vontade política e força mental", transmite confiança equilibrada com realismo, exatamente o tipo de posicionamento que mercados e credores valorizam. 

Contexto da crise: três anos de agonia
Para compreender a magnitude do apoio do Exército, é necessário relembrar a profundidade da crise da Avibras. A empresa entrou em sua terceira recuperação judicial em março de 2022, acumulando dívidas estimadas em R$ 1,5 bilhão, incluindo cerca de R$ 200 milhões com o governo federal.

Aproximadamente 900 trabalhadores estão em greve desde setembro de 2022, com 28 meses de salários atrasados. A fábrica em Jacareí (SP) está paralisada, com instalações e equipamentos em risco de obsolescência. Múltiplas tentativas de venda falharam: a australiana DefendTex em 2024, a chinesa Norinco, e conversas mais recentes com a saudita Black Storm Military Industries permanecem inconclusivas.

Em agosto de 2025, houve uma mudança de controle: Fábio Guimarães Leite, através da Vita Gestão e Investimentos, tornou-se acionista majoritário com 99% das ações. Um plano alternativo de recuperação judicial foi aprovado pelos credores em maio de 2025, mas sua homologação ainda enfrenta recursos do Banco Fibra e da União.

Em março de 2025, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional chegou a pedir a conversão da recuperação judicial em falência, devido ao não cumprimento de parcelas de refinanciamento de dívidas tributárias. A situação permanece tecnicamente crítica.

No entanto, no dia 28 último, a Avibras informou ao Sindicato dos Metalúrgicos de SJC que pretende retomar atividades da fábrica em 16 de março, desde que seja fechado o acordo de pagamento das dívidas trabalhistas e resolvida a pendência da recuperação judicial no TJ-SP.


Sinais de viabilidade: o que mudou?
A visita do General Villela e suas declarações públicas sugerem que algo fundamental mudou na percepção do Exército sobre a viabilidade da recuperação da Avibras. Vários fatores podem estar contribuindo para essa mudança de perspectiva:

1. Nova liderança comprometida: Fábio Guimarães Leite assumiu não apenas como administrador judicial, mas como acionista majoritário com capital próprio comprometido. Diferentemente de tentativas anteriores de venda para grupos estrangeiros, há agora um brasileiro com interesse financeiro direto no sucesso da empresa.

2. Preservação de ativos: apesar da paralisação, a infraestrutura produtiva foi mantida. O reconhecimento do General Villela sobre infraestrutura produtiva, capacidades tecnológicas e ativos industriais sugere que os danos da paralisação podem ter sido menos graves do que se temia.

3. Manutenção de capacidades técnicas: a empresa ainda detém conhecimento técnico crítico. A participação de Sami Youssef Hassuani nas negociações indonésias demonstra que há continuidade de expertise, mesmo após a crise.

4. Necessidade estratégica: o Exército tem contratos em andamento e necessidades operacionais urgentes. A manutenção dos sistemas ASTROS existentes, o desenvolvimento do míssil tático de cruzeiro e do foguete guiado não podem esperar indefinidamente. A retomada da Avibras pode ser mais viável e rápida do que desenvolver alternativas.

5. Interesse geopolítico: em um contexto global de rearmamento e tensões geopolíticas crescentes, a autonomia tecnológica em sistemas de defesa tornou-se ainda mais crítica. A falência da Avibras forçaria o Brasil a depender de fornecedores estrangeiros para capacidades estratégicas.

Possíveis novos contratos?
A declaração do General Villela de que a Diretoria de Fabricação reitera seu compromisso com o fortalecimento da BID, de modo a viabilizar o desenvolvimento e a manutenção de capacidades tecnológicas estratégicas pode sinalizar apoio a novos contratos.

O Programa ASTROS 2020, com previsão de conclusão em 2031, ainda tem entregas pendentes. Além disso, o Exército vem modernizando diversos outros sistemas (obuseiros, blindados, sistemas antiaéreos), muitos dos quais poderiam, em tese, ser fabricados ou modernizados pela Avibras uma vez que a empresa retome operações.

Novos contratos não apenas trariam recursos financeiros para a recuperação judicial, mas também demonstrariam confiança institucional na viabilidade da empresa, um fator crucial para atrair investidores, renegociar dívidas e convencer trabalhadores a retornar.

No entanto, qualquer novo contrato dependeria de várias condições: regularização mínima da situação trabalhista, demonstração de capacidade operacional efetiva, homologação do plano de recuperação judicial e, crucialmente, aprovação pela Controladoria-Geral da União e pelos órgãos fiscalizadores.

Implicações mais amplas
A visita do General Villela transcende o caso específico da Avibras. Ela representa um posicionamento sobre o modelo de Base Industrial de Defesa que o Brasil pretende construir. O Exército está, essencialmente, sinalizando que prefere investir na recuperação de capacidades nacionais existentes do que depender integralmente de fornecedores estrangeiros.

Esta é uma decisão estratégica com implicações de longo prazo. Empresas de defesa não se criam da noite para o dia, levam décadas para desenvolver conhecimento técnico, certificações, infraestrutura e credibilidade. A Avibras representa 60 anos de desenvolvimento tecnológico acumulado. Sua falência significaria não apenas a perda de empregos e capacidade produtiva, mas a destruição de conhecimento que seria extremamente difícil de reconstruir.

Por outro lado, essa estratégia tem riscos. Se a recuperação falhar após o Exército ter sinalizado apoio público, isso gerará embaraços políticos e operacionais. Recursos públicos investidos poderiam ser perdidos. E o tempo gasto tentando salvar a Avibras é tempo não gasto desenvolvendo planos B.

Reações e próximos passos
A visita do General Villela foi amplamente divulgada nas redes sociais do próprio general e rapidamente repercutiu em círculos especializados em defesa. Analistas veem o movimento como extremamente positivo para a Avibras, mas alertam que declarações precisam ser seguidas de ações concretas.

Trabalhadores, através do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, reagiram com cautela. Apesar do otimismo com o apoio do Exército, continuam exigindo pagamento dos salários atrasados como pré-condição para qualquer retorno ao trabalho. “Palavras são importantes, mas precisamos ver o dinheiro dos salários”, resumiu um representante sindical em declaração não oficial.

Credores também observam atentamente. O fundo Brasil Crédito, principal credor, tem interesse em ver a empresa recuperada para maximizar o valor de seus créditos. Mas outros credores, mais céticos, podem interpretar o apoio do Exército como oportunidade para pressionar por melhores condições de pagamento.

Os próximos passos críticos incluem:

• Homologação definitiva do plano de recuperação judicial, ainda pendente devido a recursos legais;

• Negociação com trabalhadores para retorno gradual das atividades;

• Regularização mínima das dívidas tributárias e trabalhistas;

• Demonstração de capacidade operacional com entregas concretas;

• Conclusão das negociações com a Indonésia e, idealmente, assinatura de novos contratos;

• Possível anúncio de novos contratos ou aditivos com o Exército Brasileiro.

Um ponto de inflexão?
A visita do General Tales Villela à Avibras, acompanhada de declarações públicas inequívocas de apoio, representa potencialmente um ponto de inflexão na saga de recuperação da empresa. Pela primeira vez em três anos, há um sinal claro de que as Forças Armadas brasileiras, o principal cliente da Avibras, acreditam na viabilidade da retomada.

A sincronia com a missão Indonésia não é coincidência. É evidência de uma estratégia coordenada: demonstrar viabilidade interna para fortalecer negociações externas, e vice-versa. A Avibras está tentando criar um círculo virtuoso de credibilidade.

No entanto, seria prematuro declarar vitória. A empresa ainda enfrenta desafios monumentais: dívidas bilionárias, trabalhadores sem salário há mais de dois anos, instalações paradas, credores impacientes e um ambiente jurídico complexo. O apoio do Exército é necessário, mas não suficiente.

O que a visita do General Villela fez foi mudar a narrativa. De uma empresa moribunda esperando o que parecia inevitável, a Avibras passa a ser vista como uma empresa com relevância estratégica em processo de recuperação com apoio institucional. Esta mudança de percepção, por si só, tem valor.

A questão agora é: essa mudança de percepção será seguida de ações concretas? Haverá novos contratos? Os trabalhadores receberão seus salários? A produção efetivamente retornará? As próximas semanas e meses darão a resposta.

O que está claro é que o Exército Brasileiro fez sua escolha: apostou na recuperação da Avibras como elemento essencial da autonomia estratégica brasileira. Agora, cabe à empresa e a seus diversos stakeholders honrar essa confiança.

 

Saiba mais:

Avibras busca retomada na Indonésia enquanto luta por sobrevivência no Brasil 

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