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24 abril, 2026

Drones da brasileira Speedbird Aero estreiam em Nova York

Empresa brasileira  será parceira de aeronaves em um grande teste de operações de entrega por drones na cidade de Nova York, em um marco significativo para o mercado de mobilidade aérea avançada nos Estados Unidos 


*LRCA Defense Consulting - 24/04/2026

A Speedbird Aero, líder global em logística aérea não tripulada, tem o orgulho de anunciar sua participação como parceira de aeronaves em um importante teste de operações de entrega por drones na cidade de Nova York, marcando um marco significativo para o mercado de mobilidade aérea avançada nos Estados Unidos.

O teste de 12 meses, operado pela Skyports Drone Services em parceria com a Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey (PANYNJ), transportará cargas leves entre o Lower Manhattan e o Terminal Marítimo do Brooklyn. As operações ocorrerão em dias úteis ao longo de uma rota fixa sobre a água, longe de áreas residenciais, sob a supervisão de pilotos de drones certificados da Skyports e com a aprovação da Administração Federal de Aviação (FAA).

Esta iniciativa posiciona a cidade de Nova York como uma das primeiras grandes áreas metropolitanas do mundo a testar a integração da logística baseada em drones em um ecossistema de transporte urbano. O teste se baseia nos esforços contínuos da Autoridade Portuária para avaliar a viabilidade de rotas de carga por drones que possam apoiar entregas de interesse público em toda a região. O objetivo mais amplo é reduzir o congestionamento nas estradas, viabilizar soluções logísticas de baixo carbono e explorar alternativas à entrega tradicional de média distância.

O programa dá sequência a uma prova de conceito de duas semanas realizada em janeiro de 2026 pela Skyports, em parceria com a Autoridade Portuária e a NYCEDC, utilizando a mesma rota, cronograma e plataforma Speedbird.

“O início das operações em Nova York é um momento decisivo para a logística com drones”, disse Manoel Coelho, CEO da Speedbird Aero. “Poucas cidades apresentam a complexidade operacional e a demanda logística. Temos orgulho de fornecer a tecnologia que permite à Skyports integrar a logística com drones de forma segura e eficiente em um dos espaços aéreos mais movimentados do mundo. O início do serviço aqui demonstra a maturidade de nossa tecnologia e a prontidão da logística com drones para dar suporte a cadeias de suprimentos reais em grande escala.”

“Em todo o mundo, os drones provaram ser uma ferramenta eficaz para o transporte de cargas críticas, oferecendo uma alternativa mais rápida e limpa ao transporte rodoviário tradicional”, disse Alex Brown, CEO da Skyports Drone Services. “Seja navegando por ambientes urbanos densos ou terrenos desafiadores, os drones têm o potencial de transformar a logística de média distância. Estamos ansiosos para demonstrar esse potencial em Nova York nos próximos 12 meses.”

Com base na experiência global e na comprovada confiabilidade tecnológica da Speedbird, a empresa está apoiando a implementação de uma estrutura projetada para operações logísticas contínuas.

“Estamos construindo uma estrutura que pode suportar uma rede logística de longo prazo”, acrescentou Coelho. “Assim como caminhões e aeronaves operam sob sistemas padronizados, os drones estão entrando em uma fase em que podem dar suporte a cadeias de suprimentos reais — não apenas demonstrações.”

A plataforma da Speedbird está se consolidando rapidamente como a ferramenta principal do setor. Sua comprovada confiabilidade é demonstrada pelas operações pioneiras da Skyports, como o primeiro serviço comercial de entrega por drones do Reino Unido, com voos rotineiros do Royal Mail nas Ilhas Orkney, logística remota de saúde na Bélgica pilotada a partir do Reino Unido e missões de navio para terra em Singapura, integrando sistemas UTM e de rastreamento marítimo. 

Essas missões além da linha de visão (BVLOS) são sustentadas por protocolos de segurança reconhecidos globalmente, incluindo a estrutura de Avaliação de Risco Operacional Específico (SORA) — uma abordagem amplamente endossada por autoridades de aviação em todo o mundo e pela visão da FAA para operações BVLOS. O projeto também foi realizado com ampla divulgação e coordenação com órgãos reguladores locais, agências de aplicação da lei, entidades governamentais e grupos comunitários para garantir total alinhamento.

Essa abordagem focada na segurança permite que a Skyports implante a plataforma da Speedbird para missões médicas e logísticas urgentes em Nova York. As operações a partir do heliporto do centro de Manhattan permitem uma implantação rápida e criam uma base para a expansão futura para outros bairros e centros regionais.

Sobre a Speedbird Aero
A Speedbird Aero é uma empresa brasileira de tecnologia, fundada em 2018 e com presença global, sediada no Brasil (Franca-SP) e em Portugal, especializada em logística aérea não tripulada. A companhia desenvolve, fabrica e opera sistemas de entrega por drones, atuando por meio de um modelo integrado que combina hardware, software e operação.

Pioneira no setor no Brasil, a empresa foi uma das primeiras a obter certificações para operações comerciais com drones, incluindo voos BVLOS (além da linha de visada), com múltiplos modelos de aeronaves. Suas soluções atendem áreas como delivery, saúde e transporte de cargas leves, com foco em eficiência, segurança e sustentabilidade.

A Speedbird Aero já realizou quase 40 mil missões comerciais com drones, demonstrando a maturidade e confiabilidade de sua tecnologia em aplicações logísticas reais. Com operações em 14 países, a empresa acumula importantes avanços regulatórios, como a autorização no Brasil para voos sobre áreas com densidade populacional de até 5.000 pessoas por km² e a aprovação para operar sob o nível SAIL III na Europa.

A companhia oferece suas soluções por meio de um modelo Drone-as-a-Service (DaaS), apoiando clientes em toda a cadeia — da fabricação das aeronaves à operação e conformidade regulatória —, posicionando-se como uma das referências globais no desenvolvimento da logística com drones.

Mac Jee: a empresa brasileira que foi a Huntsville com ambições de potência mundial em mísseis

De São José dos Campos ao coração do complexo militar americano, a empresa acumula, em menos de dois anos, aquisições estratégicas, contratos internacionais e parcerias com a FAB que a colocam no mapa global da indústria de defesa

 

*LRCA Defense Consulting - 24/04/2026

Quando a Mac Jee fincou presença no AUSA Global Force Symposium & Exposition, em Huntsville, Alabama, não estava apenas participando de mais uma feira de defesa ou de um simpósio. Estava pisando no que talvez seja o endereço mais simbólico do mundo para qualquer empresa que queira ser levada a sério no setor de mísseis.

Huntsville sedia o segundo maior simpósio militar dos Estados Unidos, reunindo líderes do Exército, contratantes de defesa e inovadores da indústria. A cidade abriga o Redstone Arsenal, o NASA Marshall Space Flight Center, o U.S. Army Aviation and Missile Command, e os quartéis-generais regionais de gigantes como Lockheed Martin, RTX e General Dynamics. É a "Rocket City" americana, e a Mac Jee foi até lá para mostrar que tem algo a dizer.

A presença no evento não foi acidental. Ela é o capítulo mais recente de uma trajetória de expansão acelerada que transformou uma empresa pouco conhecida do público em um dos atores mais ambiciosos da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.

De distribuidora a fabricante de mísseis: a trajetória da Mac Jee
Fundada em 2007, a Mac Jee iniciou suas operações com a distribuição de componentes militares importados para os mercados nacional e sul-americano: conectores especiais, eletrônica embarcada e monitores. Com capital 100% nacional, o grupo foi expandindo gradualmente seu escopo até se tornar um conglomerado composto pela Mac Jee Defesa, Mac Jee Tecnologia e Equipaer.

Hoje, a empresa opera em outra escala. Com sede em São José dos Campos e escritórios comerciais em São Paulo e na França, o grupo atua com operações globais e se posiciona como parte da Base Industrial de Defesa brasileira.

O salto mais visível veio em novembro de 2025. A Mac Jee anunciou a aquisição exclusiva da propriedade intelectual dos mísseis MAR-1, míssil antirradiação, e MAA-1B, míssil ar-ar de curto alcance, dois sistemas já testados. O MAR-1 foi exportado para o Paquistão e integrado aos caças Mirage ROSE e ao JF-17, enquanto o MAA-1B foi lançado por caças F-5M em testes.

Esses sistemas foram desenvolvidos originalmente pela extinta Mectron em parceria com a FAB. Ao adquirir sua propriedade intelectual, a Mac Jee herdou décadas de pesquisa aplicada e assumiu a responsabilidade de levá-los adiante.

Com a aquisição, a empresa pretende criar uma base comum de desenvolvimento e produção, reduzindo custos e aumentando a capacidade fabril para atender demandas nacionais e internacionais. A Mac Jee afirmou ainda que irá anunciar dois novos programas estratégicos em breve, atualmente em fase final de engenharia.

Além dos mísseis herdados: os projetos que ninguém esperava
Se a aquisição do MAR-1 e do MAA-1B já representou um salto significativo, o que se sabe sobre os projetos não catalogados da Mac Jee vai além do que qualquer empresa de seu porte costuma revelar.

Segundo análises do setor, a empresa está desenvolvendo versões evoluídas dos sistemas adquiridos: o ARM (evolução do MAR-1) com alcance de 70 km e ogiva de 90 kg, e o SRAAM (evolução do MAA-1B) com guiamento infravermelho dual-band de quinta geração. Paralelamente, trabalha em um míssil de cruzeiro com motor microjato e asas retráteis, e em um míssil balístico tático de curto alcance (SRBM) com 300 km de alcance, 2.200 kg de peso e precisão de até 10 metros via navegação GNSS/INS, características comparáveis ao norte-americano MGM-140 ATACMS.

O planejamento da empresa abarcando a produção de mísseis, inclusive de cruzeiro, explica seu interesse em eventualmente adquirir toda ou parte da Avibras, especialmente o know-how de seu míssil de cruzeiro AV-TM 300.

O front hipersônico: parceira da FAB no projeto mais ambicioso do Brasil
O projeto que talvez melhor defina a nova escala da Mac Jee é o PROPHIPER 14-X, o programa hipersônico mais avançado já conduzido no Brasil.

Em 18 de dezembro de 2025, a Mac Jee e o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), organização militar vinculada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), formalizaram um Acordo de Parceria para execução conjunta de atividades de Ciência, Tecnologia e Inovação no âmbito do Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica 14-X. O instrumento, publicado no Diário Oficial da União em 16 de dezembro, tem vigência de 36 meses e contará com cerca de 40 engenheiros e cientistas diretamente envolvidos.

O objeto central da parceria é o RATO-14X, o foguete acelerador que levará o veículo hipersônico 14-X às condições necessárias para seus testes em voo. A Mac Jee foi selecionada pela FINEP, em conjunto com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), para liderar o desenvolvimento desse foguete de decolagem para veículos hipersônicos. A iniciativa também envolve o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Em fevereiro de 2026, a rede de parcerias se ampliou ainda mais. Um acordo formalizado em 11 de fevereiro prevê colaboração do ITA com a Mac Jee em aerodinâmica, aeroelasticidade e otimização de trajetória do RATO-14X, com lançamento previsto para o final de 2027 no Centro Espacial de Alcântara.

Em dezembro de 2021, o demonstrador 14-X S já havia atingido velocidade próxima a Mach 6 em seu primeiro teste de voo, na Operação Cruzeiro em Alcântara, validando condições de partida e combustão do scramjet em ambiente relevante.

O presidente do Conselho de Administração do Grupo Mac Jee, Simon Jeannot, definiu o significado da parceria com o IEAv de forma direta: "A parceria com o IEAv acelera a maturação de capacidades nacionais em propulsão hipersônica e contribui para a preparação do sistema integrado e da campanha de testes do PROPHIPER 14-X". Jeannot deixou o cargo de CEO da empresa para focar em decisões de nível estratégico e na expansão global do grupo.

Huntsville como estratégia, não como turismo
É nesse contexto que a presença da Mac Jee em Huntsville adquire seu real significado. A empresa não foi à "Rocket City" para observar. Foi para ser vista e para estabelecer as parcerias que precisará para os próximos passos.

No AUSA Global Force, a Mac Jee apresentou suas competências em propulsão sólida para foguetes e mísseis, tecnologias de grande calibre, materiais energéticos e integração de ogivas. O programa RATO foi explicitamente citado como âncora de posicionamento no domínio de sistemas de mísseis, a prova de que a empresa não está vendendo promessas, mas resultados em desenvolvimento.

A escolha do evento também foi cirúrgica. O AUSA Global Force Symposium explora as capacidades delineadas na Estratégia de Modernização do Exército americano, endereçando pontos críticos de pesquisa e desenvolvimento, aquisição, contratos e parcerias industriais. Estar nessa mesa significa ser considerado um interlocutor válido por forças armadas e contratantes de primeira linha.

Contratos, escala e a questão da demanda doméstica
Do lado comercial, os números começam a refletir a nova dimensão da empresa. Em julho de 2025, a Mac Jee anunciou a formalização de um contrato internacional no valor aproximado de US$ 60 milhões para o fornecimento de munições de tecnologia avançada, reforçando sua posição como OEM internacional, com capacidade de ser contratada diretamente por forças armadas estrangeiras.

A ironia que permeia toda essa ascensão, porém, é conhecida por quem acompanha o setor: boa parte dos contratos da Mac Jee é internacional. As Forças Armadas brasileiras ainda não figuram como cliente expressivo da empresa em cujos projetos bilhões de reais em capacidade tecnológica nacional estão sendo construídos, uma tensão estrutural que remete ao colapso da Engesa nos anos 1990 e que o setor inteiro preferiria não repetir.

A Lei Complementar 221, aprovada em novembro de 2025, autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal, e o orçamento do Exército deve triplicar entre 2026 e 2031. Se esse dinheiro chegar, e se as Forças Armadas demonstrarem interesse pelos projetos que estão sendo desenvolvidos em seu próprio quintal, a Mac Jee pode se tornar algo que o Brasil raramente conseguiu sustentar: uma empresa de defesa de classe mundial com raízes genuinamente nacionais.

A viagem a Huntsville foi, no fundo, um recado. A Mac Jee está na mesa.

Embraer, TKMS e Min. da Defesa firmam MoU para segundo lote de quatro fragatas da classe Tamandaré

 


*LRCA Defense Consulting - 24/04/2026

A TKMS informou hoje que assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com o Ministério da Defesa do Brasil e a Embraer com vistas à construção de um segundo lote de quatro fragatas da classe Tamandaré. 

A assinatura ocorreu durante uma cerimônia da Marinha do Brasil que marcou a entrada em serviço da fragata Tamandaré (F200), o primeiro navio do Programa de Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), na frota brasileira, e contou com a presença do CEO da TKMS, Oliver Burkhard, outros representantes de alto escalão da TKMS e das empresas participantes, bem como da Marinha do Brasil e do governo, incluindo o Almirante Marcos Sampaio Olsen, Comandante da Marinha do Brasil.

A PFCT é o projeto naval mais moderno e inovador já desenvolvido no Brasil. A construção da F200 foi concluída dentro do prazo, em menos de quatro anos, e mais três fragatas serão entregues à Marinha do Brasil até 2029. 

O memorando de entendimento estabelece agora as bases para a continuação e expansão do Programa de Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), com foco no fortalecimento das capacidades operacionais da Marinha do Brasil e da base industrial de defesa do país.

“Este Memorando de Entendimento visa negociar um novo lote de quatro fragatas da Classe Tamandaré, reafirmando a longa parceria Brasil-Alemanha e a cooperação estratégica com a TKMS, preservando e promovendo a transferência de conhecimento tecnológico, fortalecendo a base industrial de defesa do Brasil e criando oportunidades de exportação para ambos os países”, disse Bosco da Costa Junior, Presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança.

Oliver Burkhard, CEO da TKMS: “A aquisição de uma nova leva de fragatas é essencial para manter capacidades críticas e preservar o conhecimento desenvolvido por meio da transferência de tecnologia no âmbito do Programa Tamandaré. Este memorando de entendimento também reflete a forte cooperação entre o Brasil e a Alemanha e o compromisso de longo prazo da TKMS com o Brasil.” 

O acordo está alinhado com a Carta de Intenções assinada esta semana pelos governos do Brasil e da Alemanha na Feira de Hannover para iniciar as negociações para um novo lote de fragatas. As fragatas contribuirão para a renovação da frota naval brasileira e oferecerão potencial de exportação, com benefícios para ambos os países. 

O segundo lote amplia ainda mais o impacto industrial e socioeconômico do PFCT no Brasil. Além de seu papel estratégico na defesa, o programa envolve cerca de 1.000 empresas brasileiras em toda a sua cadeia de suprimentos, fortalecendo a indústria local, fomentando o desenvolvimento tecnológico e gerando aproximadamente R$ 5 bilhões em conteúdo local, bem como cerca de R$ 500 milhões em impostos. 

Atualmente, cerca de 2.000 profissionais estão diretamente envolvidos na construção das embarcações. Incluindo os efeitos indiretos e induzidos, espera-se que o programa gere cerca de 23.000 empregos, refletindo seu forte efeito multiplicador na economia. 

Amazônia sob pressão

 Ataques a militares revelam lacunas estratégicas e redefinem a soberania brasileira


*Mauro Beirão

No último mês de março, militares do 8º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, localizado em Tabatinga (AM), região na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, foram atacados a tiros por narcotraficantes durante um patrulhamento. 

Fatos como esse transcendem o âmbito da segurança pública, pois eles expõem uma mudança qualitativa no ambiente operacional da Amazônia Legal: a transição de uma fronteira permeável, caracterizada pela evasão e ocultação, para um espaço progressivamente contestado por organizações criminosas e transnacionais armadas capazes de confronto direto.

Com o uso de armamento pesado e táticas típicas de forças irregulares organizadas, esses incidentes representam um enfrentamento direto a tropas regulares. Não se trata de mais um caso do aumento da criminalidade na região, mas de uma contestação prática da autoridade do Estado brasileiro em áreas sensíveis do território nacional.

Soberania em xeque - do plano criminal ao estratégico
Historicamente, episódios de confrontos diretos entre atores não estatais e forças militares brasileiras são raros, mas não inéditos. A Operação Traíra (1991), deflagrada após incursão armada das FARC em solo brasileiro, já havia demonstrado a necessidade de resposta coordenada em nível de segurança nacional. O paralelo é oportuno: quando grupos armados passam de ações furtivas para o confronto aberto, o patamar da ameaça se eleva. 

Nos últimos anos, o crime organizado na Amazônia Legal expandiu-se de forma dramática. Segundo a 4ª edição do relatório Cartografias da Violência na Amazônia (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, novembro/2025), facções criminosas atuam hoje em 344 dos 772 municípios da região — o equivalente a cerca de 45% do total. Esse número representa um crescimento de 32% em apenas um ano.

Presença estatal - avanços e limites
Desde 1985, o Projeto Calha Norte consolidou a estratégia de presença física na Amazônia Legal por meio da implantação de Pelotões Especiais de Fronteira e infraestrutura básica. Essa iniciativa evitou o vácuo de poder que criminosos rapidamente explorariam.

Paralelamente, o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) introduziu a dimensão tecnológica, permitindo monitoramento aéreo abrangente, detecção de voos ilícitos, integração de sensores (radares, satélites e meteorologia) e apoio a operações militares e interagências. O país evoluiu de uma lógica puramente física para uma lógica de consciência situacional.

Contudo, os eventos recentes deixam claro que a presença isolada de pelotões de fronteira aliada ao SIVAM, tecnologia de geração anterior, focada principalmente no domínio aéreo, não é suficiente para garantir controle efetivo do território. O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) reforça essa arquitetura, mas ainda demanda integração plena para enfrentar a complexidade atual.

O salto necessário - tecnologia e integração
A resposta estratégica passa necessariamente pela incorporação de capacidades mais avançadas:

VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados), como o Hermes 900, empregado pela Força Aérea Brasileira, oferecem vigilância persistente de longa duração, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, monitoramento de rotas ilícitas com baixa exposição de pessoal e capacidade de transformar dados em inteligência acionável, reduzindo o tempo de resposta;

Arquitetura C4ISR (Comando, Controle, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento) representa o verdadeiro diferencial operacional. Ela exige interoperabilidade entre sensores, plataformas e centros de comando; comunicações seguras e resilientes; operação em ambientes contestados; e integração com inteligência de sinais (SIGINT). O domínio do espectro eletromagnético torna-se, assim, um domínio de disputa essencial à superioridade informacional.

Essas capacidades só se consolidam com o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, incentivando o desenvolvimento e a adaptação de soluções às especificidades da selva amazônica e reduzindo dependências externas.

Conclusão: três pilares para a soberania no Século XXI
Os ataques na Amazônia não são eventos isolados. São um alerta estratégico inequívoco de que a soberania brasileira nas fronteiras depende da integração plena de três pilares:

1. Presença Física: consolidada pelo Projeto Calha Norte;

2. Consciência Situacional: viabilizada pelo SIVAM e SISFRON;

3. Superioridade Tecnológica: materializada em sistemas C4ISR e plataformas autônomas de média e longa distância (MALE – Medium Altitude Long Endurance) de categoria 4 como o Hermes 900, já empregado pela FAB.

A soberania contemporânea não se mede apenas pela ocupação do território, mas pela capacidade de compreender, antecipar e atuar com superioridade decisiva. Integrar esses elementos de forma eficiente é o desafio e a oportunidade que o Brasil precisa enfrentar com urgência.

A Base Industrial de Defesa tem papel central nesse processo: apenas o domínio nacional das tecnologias críticas garantirá o controle efetivo da Amazônia Legal no século XXI. 

*Mauro Beirão tem formação em Engenharia Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial, atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e tecnologia para a defesa nacional.  

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