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15 setembro, 2026

A nova fronteira da BID: empresas brasileiras avançam em mísseis, drones e munições vagantes

Projetos da Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots, Stella Tecnologia e de uma nova geração de empresas revelam capacidade tecnológica crescente, mas o salto para a autonomia dependerá de encomendas, escala industrial e continuidade orçamentária


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LRCA Defense Consulting - 15/09/2026

O Brasil atravessa uma fase incomum no desenvolvimento de armamentos inteligentes e sistemas aéreos não tripulados. Empresas de diferentes portes da Base Industrial de Defesa (BID) conduzem, simultaneamente, projetos de mísseis de cruzeiro, armas antinavio, foguetes guiados, munições vagantes e aeronaves remotamente pilotadas destinadas a reconhecimento, vigilância e ataque de precisão.

O movimento reúne companhias consolidadas, como Avibras Aeroco, SIATT, Mac Jee, XMobots e Stella Tecnologia, e uma nova geração representada por BRVANT, Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD) e Akaer. Os programas apresentam graus muito diferentes de maturidade. Alguns possuem contratos, certificações ou plataformas em demonstração; outros permanecem como protótipos ou conceitos que ainda precisarão comprovar desempenho, obter financiamento e chegar à produção seriada.

Mesmo com essas diferenças, o conjunto revela algo maior: o País começa a reunir competências nacionais em praticamente todas as camadas do combate contemporâneo. A questão decisiva já não é apenas saber se a engenharia brasileira consegue projetar esses sistemas, mas se o Estado, as Forças Armadas e a indústria conseguirão transformá-los em capacidade operacional permanente.

Avibras Aeroco e a reconstrução da capacidade de fogos de longo alcance
A Avibras Aeroco ocupa posição singular nesse panorama. A empresa é responsável pela família ASTROS, um dos produtos de defesa brasileiros mais conhecidos no exterior, e participa dos projetos do Míssil Tático de Cruzeiro de 300 quilômetros (MTC-300) e do foguete guiado SS-40G, contratados pelo Exército Brasileiro.

O MTC-300 deverá proporcionar à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos estratégicos a longa distância com elevada precisão. Mais do que uma nova munição, o sistema representa o domínio de áreas sensíveis, como propulsão, navegação, guiamento, planejamento de missão, integração com lançadores e produção de cabeças de guerra. O programa oficial prevê ainda evoluções de alcance, guiamento terminal e emprego contra alvos móveis.

A retomada da Avibras sob a denominação Avibras Aeroco, depois de uma prolongada crise financeira, é relevante porque preserva conhecimentos acumulados durante décadas. Também devolve centralidade ao futuro do ASTROS, agora relacionado a uma arquitetura mais ampla de fogos, busca de alvos, defesa antiaérea e integração multidomínio. Entretanto, a recuperação da empresa somente se consolidará se houver continuidade contratual, capital para recompor fornecedores e capacidade de entregar os programas dentro de cronogramas realistas.

SIATT amplia família de mísseis e infraestrutura industrial
Na SIATT, o principal vetor é a família MANSUP. O míssil antinavio nacional nasceu de um programa da Marinha do Brasil para substituir o Exocet MM40 e preservar no País o conhecimento relacionado a armas de negação do uso do mar. A versão inicial possui alcance divulgado de aproximadamente 70 quilômetros, enquanto o MANSUP-ER amplia o envelope de emprego e as possibilidades de exportação.

A empresa responde por competências de guiamento, navegação, controle, telemetria e integração. O acordo de fornecimento para as fragatas classe Tamandaré criou uma perspectiva concreta de inserção do sistema em navios modernos da Esquadra. Paralelamente, estudos de versões lançadas de terra e do ar podem transformar o MANSUP em uma família multimissão, com maior escala industrial e comunalidade logística.

A entrada do EDGE Group como acionista e parceiro estratégico acrescentou recursos financeiros, acesso comercial e uma rede internacional de programas. Em 2026, a SIATT também colocou em funcionamento sua unidade de Caçapava (SP), planejada para ampliar a fabricação de mísseis, foguetes e sistemas de propulsão. A cooperação anunciada com a Safran Electronics & Defense para estudar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e motores-foguete de propelente sólido pode preencher uma lacuna crítica da cadeia nacional.

O ponto de atenção está na autonomia efetiva. Investimento estrangeiro e acesso a mercados podem acelerar os projetos, mas a relevância estratégica para o Brasil dependerá da manutenção, no País, da engenharia, da propriedade intelectual, da produção de componentes sensíveis e da liberdade de evolução e exportação dos sistemas.


Mac Jee reúne munições guiadas, sistema lançador e aeronave não tripulada
A Mac Jee construiu um portfólio que combina munições aéreas, materiais energéticos e sistemas terrestres. Entre os projetos mais conhecidos estão o Dagger, kit destinado a converter bombas convencionais em munições guiadas; o ANSHAR, apresentado como aeronave não tripulada de emprego tático; e o Armadillo, lançador múltiplo compacto instalado em viatura leve.

O Armadillo emprega módulos de foguetes de 70 milímetros e foi concebido para ocultar o lançador durante deslocamentos. Segundo a empresa, a configuração pode transportar um módulo pronto para o disparo e outros três no compartimento de munições, permitindo lançar mais de 70 foguetes em poucos minutos. O sistema já passou por demonstrações e avaliações no Centro de Avaliações do Exército.

No segmento aéreo, a associação com a Aero.ID no MQ-18 Arqus reforça uma tendência importante: o uso de aeronaves relativamente simples e produzíveis em quantidade como lançadoras de munições. Para a Mac Jee, a convergência entre plataforma, carga bélica, sistema de guiamento e material energético cria a possibilidade de oferecer soluções mais completas. Ainda será necessário, porém, conhecer com maior precisão o estágio atual do ANSHAR, do Dagger e do Arqus, seus resultados de ensaio e a existência de clientes lançadores.


XMobots avança da vigilância para uma família de emprego militar

A XMobots apresenta um dos processos mais visíveis de expansão industrial no setor brasileiro de aeronaves não tripuladas. A companhia reúne centenas de profissionais, verticaliza componentes, sensores, inteligência artificial e sistemas de controle e anunciou investimentos de R$ 220 milhões na área de Defesa.

O Nauru 100D obteve, em setembro de 2026, autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar a até 30 quilômetros, a 6 mil pés, de dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento tem peso máximo de decolagem de 9 quilogramas, decolagem e pouso vertical elétrico e autonomia de até duas horas por bateria.

A mesma arquitetura está sendo empregada no desenvolvimento do Nauru 100D UCAV, versão de combate apresentada ao Exército Brasileiro, e em conceitos de operação coordenada em enxame. A certificação da versão de reconhecimento não equivale à aprovação automática das configurações armadas, mas consolida a célula, a navegação, o comando e controle e a experiência regulatória sobre as quais a família poderá evoluir.

Em uma camada superior está o Nauru 1000C, concebido para missões de maior persistência e carga útil. A companhia também desenvolve o Nauru 500C e participa, com a Marinha do Brasil e a Petrobras, de estudos para adaptar sistemas da família a operações embarcadas. O conjunto coloca a XMobots em posição de disputar desde missões táticas de pequenas frações até vigilância de fronteiras, apoio de fogo e operações marítimas.


Stella Tecnologia aposta em autonomia, propulsão nacional e resistência à guerra eletrônica
A Stella Tecnologia desenvolveu uma família de plataformas que inclui o Atobá, o Albatroz, o Atobá XR e o Albatroz Vortex. Os projetos buscam atender missões de longa permanência, vigilância marítima e terrestre, emprego embarcado e transporte de diferentes sensores e cargas úteis.

O Albatroz Vortex ganhou destaque ao voar com a ATJR 15-5, turbina de fabricação nacional desenvolvida pela Aero Concepts em cooperação com o Comando da Aeronáutica. A combinação de uma plataforma brasileira com propulsão local atinge uma das áreas mais difíceis da autonomia aeronáutica, na qual poucos fornecedores dominam materiais, projeto térmico, fabricação e controle do motor.

Outro eixo é o desenvolvimento de munições vagantes e de aeronaves de ataque guiadas por fibra óptica. Essa solução mantém comando e transmissão de imagens por meio de um cabo físico, reduzindo a vulnerabilidade à interferência de radiofrequência. A experiência das guerras recentes mostrou o valor desse recurso, embora o peso do carretel, as limitações de manobra e os resíduos deixados no terreno imponham restrições.

A parceria da Stella Tecnologia com Thales e Omnisys acrescenta sensores, comunicações e integração de missão. O desafio será converter a variedade de protótipos em produtos qualificados e demonstrar quais configurações possuem demanda definida, financiamento e capacidade de produção em quantidade.


BRVANT, AdTech SD e Akaer formam uma nova linha de projetos

Entre as empresas que precisam ser acompanhadas está a BRVANT. O projeto Carvalho foi apresentado como uma aeronave não tripulada de maior alcance, capaz de receber diferentes configurações de missão e incorporar inteligência artificial, além de aproveitar conhecimentos da família de munições Hunter. A proposta é ambiciosa, mas permanece em estágio de desenvolvimento. Seu marco decisivo será a construção e o voo de um protótipo funcional, seguidos por campanhas de ensaio que confirmem alcance, carga, navegação e resistência à guerra eletrônica.

A AdTech SD, por sua vez, alcançou uma etapa regulatória concreta com o Harpia. A aeronave de asa fixa é lançada por catapulta e recuperada por paraquedas e bolsas de ar, o que dispensa pista. A autorização da ANAC contempla operação além da linha de visada, BVLOS, a até 180 quilômetros da estação de pilotagem e teto operacional de 10 mil pés. Sua modularidade permite receber câmeras e outros sensores destinados a vigilância de fronteiras, reconhecimento, busca e salvamento e apoio à aquisição de alvos.

A Akaer acrescenta ao panorama a capacidade de engenharia e integração aeronáutica. A empresa foi escolhida para participar da implantação no Brasil do REACH-S, sistema não tripulado desenvolvido pela ADASI, pertencente ao EDGE Group. A montagem final e a integração no País podem abrir uma nova etapa para plataformas de maior porte. O anúncio da aquisição da Akaer pelo EDGE, realizado em julho de 2026, amplia o acesso a capital e mercados, mas também torna essencial acompanhar as condições de preservação das competências brasileiras e a efetiva transferência de atividades para o território nacional.


Um ecossistema que vai além das plataformas

O avanço brasileiro não depende apenas das empresas que fabricam mísseis ou aeronaves. Aero.ID, AEL Sistemas, Santos Lab, Omnisys, IACIT e Aero Concepts representam partes importantes da cadeia de integração, sensores, comunicações, guerra eletrônica, radares, propulsão e sistemas de missão.

Essa rede poderá ser tão importante quanto as plataformas. Um sistema não tripulado militar exige enlaces seguros, navegação resistente a interferências, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, processamento de imagens, inteligência artificial, estações de controle, logística, treinamento e integração aos sistemas de comando das Forças Armadas. Da mesma maneira, um míssil somente produz efeito estratégico quando está ligado a meios confiáveis de detecção, identificação, designação e avaliação de danos.

O teste decisivo será transformar projetos em capacidade de combate
O panorama demonstra que o Brasil possui conhecimento para disputar segmentos de elevado valor tecnológico. Avibras Aeroco e SIATT trabalham em armas de longo alcance e negação do mar; Mac Jee combina munições e sistemas lançadores; XMobots e Stella Tecnologia ampliam o espectro das aeronaves não tripuladas; BRVANT, AdTech SD e Akaer acrescentam novas arquiteturas, níveis de autonomia e possibilidades de integração.

Entretanto, a existência de bons projetos não garante, por si só, soberania. A indústria precisa de encomendas previsíveis, financiamento para concluir o desenvolvimento, campos de prova, certificação militar, estoques mínimos e contratos que sustentem a produção durante anos. Também precisa projetar desde o início para fabricar centenas ou milhares de unidades, porque os conflitos atuais demonstram que quantidade, reposição e custo passaram a integrar o próprio conceito de desempenho.

O primeiro piloto desse novo ciclo já está em curso nas pranchetas, laboratórios e fábricas da BID. O próximo passo caberá à articulação entre governo, Forças Armadas e empresas: selecionar prioridades, evitar a dispersão de recursos e assegurar que a tecnologia desenvolvida no País resulte em meios disponíveis, doutrina, pessoal adestrado e capacidade industrial mobilizável.

13 setembro, 2026

ABIMDE promove fórum nacional sobre aquisições estratégicas para a Defesa

Evento on-line reunirá especialistas para discutir legislação, planejamento, tributação, transferência de tecnologia e instrumentos capazes de aproximar o poder público da Base Industrial de Defesa

 


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LRCA Defense Consulting - 13/09/2026

A Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE) promoverá, nos dias 16 e 17 de setembro, o 1º Fórum Nacional de Aquisições Estratégicas. Realizado em formato on-line, com transmissão ao vivo, o encontro reunirá militares, juristas e especialistas para examinar os mecanismos que regulam as compras públicas de produtos e sistemas de defesa no Brasil.

A programação aborda um dos pontos mais sensíveis para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID): a transformação das necessidades operacionais do Estado em contratos capazes de preservar conhecimento, continuidade produtiva e autonomia tecnológica no País. O fórum tratará tanto dos fundamentos jurídicos quanto das dificuldades práticas enfrentadas pelos órgãos contratantes e pelas empresas.

Aquisições de defesa exigem planejamento de longo prazo
A compra de um sistema militar não pode ser analisada apenas pelo preço ou pela entrega imediata. Projetos de defesa envolvem ciclos prolongados de desenvolvimento, certificação, produção, treinamento, manutenção e atualização. Também podem exigir proteção de informações sensíveis, segurança da cadeia de suprimentos e garantias de fornecimento durante crises internacionais.

A Lei nº 12.598/2012 criou normas especiais para compras, contratações e desenvolvimento de produtos e sistemas de defesa. O marco permite, em determinadas condições, restringir licitações a Empresas Estratégicas de Defesa (EED) ou a produtos desenvolvidos e fabricados no Brasil. Também prevê transferência de conhecimento tecnológico, participação nacional na cadeia produtiva, continuidade produtiva e compensações industriais e tecnológicas.

A relevância desses instrumentos ficou evidente em junho, durante encontro realizado pela ABIMDE e pelo Sistema FIERGS na AEL Sistemas, em Porto Alegre. Na ocasião, representantes da indústria e das Forças Armadas apontaram a falta de informação e a morosidade dos processos como obstáculos à aplicação mais ampla do Termo de Licitação Especial (TLE). O assunto retorna agora em uma programação voltada especificamente à qualificação do relacionamento entre o Estado e a indústria.

Primeiro dia examinará o ambiente jurídico e tributário
A programação de 16 de setembro começará às 9h15, com o tenente-brigadeiro do ar R1 José A. Crepaldi Affonso. Em sua apresentação, o diretor-executivo da ABIMDE traçará um panorama das aquisições estratégicas no Brasil, relacionando defesa, soberania nacional e autonomia estratégica. Também abordará o papel da BID, as mudanças no ambiente das contratações e as oportunidades abertas para empresas e para a Administração Pública.

Às 10h15, Monique Rocha Furtado apresentará uma introdução às contratações de defesa e segurança sob a perspectiva da Lei nº 14.133/2021. A exposição discutirá as diferenças entre uma contratação comum e uma contratação estratégica, as hipóteses jurídicas aplicáveis, as peculiaridades ligadas à segurança nacional e as possibilidades oferecidas pela nova Lei de Licitações.

Na sequência, às 11h15, André Jansen e João Vianna analisarão a Lei nº 12.598/2012 como marco jurídico de fomento à BID. A apresentação tratará da estrutura jurídica do setor, dos microssistemas de aquisição de defesa e do papel do governo na implementação dos instrumentos criados pela legislação.

As atividades serão retomadas às 14h, quando Angelina Leonez falará sobre o planejamento das contratações estratégicas. Entre os temas previstos estão a fase preparatória, a governança, a análise de riscos e o alinhamento entre a necessidade operacional, o objeto contratado e a estratégia de aquisição.

Às 15h, João Vianna apresentará o TLE como ferramenta de fomento à BID, com base na experiência do Exército Brasileiro. A exposição detalhará a lógica, a estrutura e as etapas do procedimento, além de examinar o Catálogo de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e dados sobre a aplicação do instrumento.

O primeiro dia terminará com a apresentação de Luis Carlos Szymonowicz, das 16h às 17h, sobre a reforma tributária e os incentivos aplicáveis ao setor de defesa. Serão analisados o RETID, o tratamento das Empresas de Defesa e das Empresas Estratégicas de Defesa, o Anexo XI, o split payment, os créditos acumulados, o risco de formação de estoques tributários durante a transição e os efeitos sobre exportações, drawback e contratos públicos de longo prazo.

Segundo dia abordará tecnologia e novos modelos de contratação
O segundo dia começará às 9h com João Gabriel Álvares, que tratará das compensações comerciais, industriais e tecnológicas nas aquisições estratégicas. A apresentação examinará como contrapartidas negociadas em grandes contratos podem contribuir para internalizar tecnologias, gerar capacidade industrial no País e reduzir dependências externas.

Às 10h, Monique Rocha Furtado voltará ao fórum para abordar sanções administrativas, responsabilização, prevenção de passivos e boas práticas institucionais. O tema é particularmente relevante em contratos de defesa, nos quais falhas de execução podem afetar capacidades operacionais e programas de longa duração.

Às 11h, André Jansen explicará o funcionamento das contratações governo a governo, conhecidas pela sigla G2G. A exposição discutirá vantagens, limites e oportunidades para a indústria brasileira, assim como a compatibilização desses acordos com os interesses estratégicos do Estado.

No período da tarde, Madeline Rocha Furtado tratará, às 14h, da gestão de contratos de terceirização de mão de obra no setor de defesa. A palestra examinará riscos de execução, fiscalização, responsabilização e governança em contratos considerados sensíveis.

Às 15h, Renila Bragagnoli abordará a integridade no setor, com foco na prevenção de fraudes e conflitos de interesse, nos controles internos e na construção de uma cultura de conformidade. Em seguida, às 16h, João Vianna apresentará os fundamentos do diálogo competitivo, suas fases, critérios de julgamento e possibilidades de aplicação nas contratações estratégicas.

Painel encerrará os debates sobre a relação público-privada
O fórum será concluído com um painel conduzido por João Vianna, Madeline Rocha Furtado e pelo brigadeiro Crepaldi. Sob o título “Diálogos e peculiaridades na relação público-privada”, o encontro deverá reunir os principais pontos discutidos nos dois dias e aproximar as perspectivas da Administração Pública e das empresas. O material de divulgação não informa o horário específico do painel.

A composição da programação indica que o evento pretende ir além da exposição das normas. Ao reunir planejamento, tributação, transferência de tecnologia, integridade, sanções e modalidades especiais de contratação, o fórum aborda diferentes etapas de uma mesma questão: como fazer com que os recursos destinados à Defesa também preservem capacidades produtivas e tecnológicas consideradas essenciais para o País.

Um debate diretamente ligado à autonomia nacional
A capacidade de adquirir no mercado interno reduz vulnerabilidades logísticas, mantém conhecimento técnico no País e permite que equipamentos sejam adaptados às necessidades das Forças Armadas. Essa política, contudo, depende de planejamento orçamentário, segurança jurídica e continuidade dos programas. Sem encomendas previsíveis, empresas que trabalham com produtos de alta complexidade têm dificuldade para manter equipes, fornecedores e linhas de produção.

O 1º Fórum Nacional de Aquisições Estratégicas surge nesse contexto. A iniciativa oferece aos gestores públicos e às empresas uma oportunidade de compreender melhor os instrumentos disponíveis e discutir os pontos que ainda limitam sua utilização. Para a BID, o resultado esperado é uma relação mais clara com o Estado, capaz de transformar compras públicas em capacidade de defesa, desenvolvimento industrial e autonomia tecnológica.

Serviço

Evento: 1º Fórum Nacional de Aquisições Estratégicas da ABIMDE

Datas: 16 e 17 de setembro de 2026

Formato: on-line, com transmissão ao vivo

Inscrições: link divulgado pela organização



11 setembro, 2026

Gepard, Tunguska e Bofors: para enfrentar drones, os velhos canhões voltam à guerra

Da Ucrânia ao Vietnã, sistemas de várias gerações voltam a enfrentar drones de baixa altura. Para o Brasil, a experiência reforça a necessidade de modernizar o Gepard enquanto se constrói uma solução nacional de nova geração.



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

O canhão antiaéreo voltou à guerra 

A guerra dos drones está produzindo uma transformação que parecia improvável há poucos anos: o retorno dos canhões automáticos de médio calibre ao centro da defesa antiaérea de baixa altura.

A razão é econômica e operacional. Drones pequenos, lentos, de baixa assinatura e empregados em grande quantidade impõem um desafio que nem sempre pode ser resolvido de maneira racional por mísseis de alto custo. A resposta vem sendo construída com uma combinação de sensores, radares, sistemas eletro-ópticos, controle de tiro, redes de comando e munições mais eficientes.

Mas existe outra característica dessa transformação: armas consideradas ultrapassadas estão recebendo uma segunda vida.

Na Ucrânia, Bofors L70, Gepard e o soviético 2S6 Tunguska continuam sendo empregados. A Suécia mantém o conceito de canhão automático de 40 mm em veículos blindados modernos. No Vietnã, antigos sistemas de 37 mm vêm recebendo novos sensores e recursos de automação.

O fenômeno tem uma consequência importante para o Brasil. O País não precisa simplesmente decidir entre conservar armas antigas ou comprar sistemas novos. Pode aproveitar plataformas existentes enquanto desenvolve uma capacidade de nova geração.

O Bofors brasileiro e a lição de 2023 
Em março de 2023, o Estado-Maior do Exército determinou, pela Portaria EME/C Ex nº 994, a desativação do Sistema de Defesa Antiaérea Bofors-FILA 40 mm. Os equipamentos haviam chegado ao fim de seu ciclo de vida operacional, com problemas de manutenção, integração e emprego.

A decisão de retirar de serviço uma plataforma obsoleta era compreensível. A questão que a guerra dos drones trouxe posteriormente é outra: a obsolescência daquela configuração não significava que o conceito do canhão antiaéreo de médio calibre tivesse perdido sua utilidade.

O mesmo Bofors L70, que havia sido retirado de serviço por países europeus, voltou ao campo de batalha ucraniano. A Lituânia transferiu 36 unidades do sistema para a Ucrânia em 2023, e os L70 passaram a integrar a defesa contra ameaças aéreas de baixa altitude.

O ensinamento não é que o Brasil deveria ter mantido indefinidamente seus Bofors. É que não se deve confundir a obsolescência de uma plataforma específica com a obsolescência da missão que ela desempenhava. 


O velho Tunguska também voltou à caça 
O exemplo mais recente e talvez mais surpreendente vem da própria Ucrânia.

Em 3 de setembro de 2026, o Defense Express informou que as Forças Armadas ucranianas divulgaram imagens de um sistema 2S6 Tunguska em operação. O vídeo foi publicado pelo 1020º Regimento de Mísseis Antiaéreos e mostra o sistema empregando seus canhões de 30 mm contra um alvo aéreo movido a jato, identificado pela publicação como provavelmente um drone Geran-4.

O episódio é particularmente significativo porque o Tunguska é um produto típico da Guerra Fria. O sistema soviético foi concebido para acompanhar forças blindadas e mecanizadas e protegê-las contra aeronaves e helicópteros voando em baixa e muito baixa altitude. Combina dois canhões duplos de 30 mm com mísseis antiaéreos 9M311, radar e sistema de controle de tiro.

Segundo o Defense Express, os Tunguska ucranianos já haviam sido registrados contra drones em 2024 e também aparecem em imagens de 2026. Embora alguns exemplares estejam equipados com poucos mísseis 9M311, os canhões permanecem uma opção de interceptação relativamente econômica, com alcance de até cerca de 4 km.

A limitação dos estoques de mísseis é reveladora. Como os 9M311 são de origem russa, sua reposição é problemática. Os canhões, porém, continuam oferecendo uma capacidade própria.

O caso mostra que mesmo um sistema híbrido concebido décadas atrás pode continuar relevante quando a ameaça predominante se desloca para o seu envelope natural de emprego.

Há ainda uma ironia: o Tunguska se aproxima conceitualmente do Gepard. Ambos são sistemas autopropulsados de defesa antiaérea de baixa altura, dotados de radar, controle de tiro e canhões automáticos. A diferença é que o Tunguska acrescenta mísseis ao conjunto. 


Gepard: a experiência ucraniana é a mais importante 

Entre os sistemas de sua geração, o Gepard talvez seja o exemplo mais eloquente da reinvenção do canhão antiaéreo.

A Ucrânia emprega o Gepard contra drones russos desde os primeiros estágios da guerra em grande escala. O sistema foi concebido durante a Guerra Fria, mas seus dois canhões de 35 mm, sua elevada cadência de tiro e seus sensores continuam oferecendo uma combinação particularmente adequada à defesa contra alvos de baixa altitude.

A Rheinmetall continua fornecendo munição de 35 mm para os Gepard ucranianos. Em janeiro de 2025, a empresa anunciou um contrato para 180 mil tiros, depois de uma encomenda de 300 mil tiros feita em 2023.

O dado mais importante, contudo, não é apenas a quantidade de munição. É a demonstração operacional de que o conceito continua válido.

O Gepard consegue enfrentar drones porque foi concebido para adquirir, acompanhar e engajar alvos aéreos de forma rápida. Sua evolução para a guerra atual depende principalmente de sensores, integração e munição, e não da substituição de seu princípio básico de funcionamento. 


O próprio Exército Brasileiro identificou a lacuna 
A situação brasileira ganhou um elemento novo com a análise publicada pelo próprio Exército sobre a Operação Punhos de Aço 2025.

O estudo relata dificuldades do radar do Gepard para adquirir um aeromodelo de baixíssima seção reta radar. Diante da limitação, os operadores recorreram ao método manual, utilizando o periscópio para observar o alvo e corrigindo a trajetória do tiro pela observação dos disparos.

O valor dessa constatação está justamente em sua origem. Não se trata de uma avaliação de um observador externo ou de uma hipótese formulada pelo LRCA Defense Consulting. É uma dificuldade identificada durante o treinamento operacional da própria Força.

O País possui 37 Gepard 1A2, com dois canhões de 35 mm por viatura. A plataforma continua interessante. O desafio está em fazê-la detectar e acompanhar os alvos que mais caracterizam a ameaça contemporânea: pequenos, lentos, de baixa assinatura e potencialmente numerosos.

A resposta não precisa começar pela compra de uma nova viatura. Pode começar pela modernização da cadeia de detecção e engajamento.

A Suécia mantém o canhão de 40 mm no campo 
No exercício Baltic Zenith 2026, realizado na Letônia entre 1º e 10 de junho, tropas da Suécia, da Letônia, da Lituânia e do Canadá participaram de treinamento de defesa aérea de curto alcance com fogo real. A participação sueca incluiu o Lvkv 9040, variante antiaérea da família CV90, equipada com canhão automático de 40 mm.

O exercício não deve ser apresentado como uma validação formal de uma doutrina da OTAN. Ele demonstra, porém, algo mais simples e importante: em uma força militar moderna, integrada à estrutura de defesa aérea aliada, o canhão automático de médio calibre continua sendo considerado uma capacidade útil contra ameaças aéreas de baixa altura.

A Suécia não está ressuscitando um sistema obsoleto. Está mantendo o conceito em uma plataforma blindada moderna, com sensores e arquitetura de combate compatíveis com o campo de batalha atual.

É uma diferença fundamental em relação ao Bofors brasileiro de 2023. O problema não era o princípio do canhão. Era a combinação de plataforma, sensores, comando e controle e ciclo de vida. 


O Vietnã mostra que até sistemas muito antigos podem ser modernizados 
O Vietnã oferece uma outra perspectiva. A Fábrica A34 vem trabalhando na modernização dos sistemas antiaéreos 37 mm-2N, de origem soviética.

Publicações especializadas vietnamitas descrevem a incorporação de recursos eletro-ópticos, incluindo câmera noturna e telêmetro laser, ampliando a capacidade de operação em condições de baixa luminosidade e reduzindo a dependência dos métodos tradicionais de acompanhamento.

Vídeos divulgados pela mídia de defesa vietnamita apresentam iniciativas ainda mais ambiciosas, associadas à automação e ao emprego de inteligência artificial para identificação, acompanhamento e predição de alvos. Como nem todos esses detalhes podem ser confirmados independentemente, eles devem ser tratados como capacidades apresentadas pelo próprio programa vietnamita.

O aspecto relevante, porém, permanece confirmado: o Vietnã está investindo em sensores, automação e controle de tiro para prolongar a utilidade de uma arma concebida muitas décadas atrás.

É exatamente a lógica que aparece, em diferentes níveis tecnológicos, na Ucrânia, na Suécia e no Brasil. 



Não é o calibre. É o sistema 

Os exemplos parecem diferentes, mas obedecem a uma mesma lógica.

O Bofors L70 ucraniano, o Tunguska soviético, o Gepard alemão, o Lvkv 9040 sueco e o 37 mm vietnamita pertencem a gerações distintas. Alguns foram projetados na década de 1940, outros durante a Guerra Fria e outros já incorporam tecnologias contemporâneas.

O ponto comum é o emprego de um canhão automático contra ameaças aéreas que voam baixo e podem ser numerosas.

A diferença entre uma solução limitada e uma solução realmente eficaz está na cadeia completa: detectar, classificar, acompanhar, calcular, engajar e avaliar o resultado.

É por isso que a munição programável ganhou importância. Em vez de depender exclusivamente de um impacto direto, ela pode produzir uma nuvem de fragmentos no ponto calculado da trajetória do alvo. O princípio é empregado por sistemas modernos como o Skynex, da Rheinmetall, com munição AHEAD de 35 mm.

Para o Gepard brasileiro, isso significa que uma eventual modernização deve ser pensada como um sistema, e não apenas como uma atualização de um canhão.

Gepard agora, VBC AAe depois 
A experiência internacional não elimina a necessidade de uma nova geração de defesa antiaérea brasileira. Pelo contrário, ajuda a definir como chegar até ela.

No curto prazo, uma modernização do Gepard poderia recuperar rapidamente uma capacidade de defesa antiaérea de baixa altura já existente no inventário. A prioridade deveria ser a integração a sensores externos, o aperfeiçoamento da detecção e do acompanhamento de alvos de baixa assinatura, a avaliação de munição programável e a integração em rede com a arquitetura de defesa aérea.

No médio e longo prazo, uma VBC AAe nacional sobre o chassi do Guarani, equipada com torre moderna, radar adequado, sensores eletro-ópticos, integração em rede e munição programável, poderia representar a solução estrutural.

As duas iniciativas não competem necessariamente entre si. O Gepard modernizado pode ser a ponte entre a capacidade atual e a futura. A VBC AAe nacional seria a solução de nova geração.

A guerra dos drones está dando uma segunda vida aos canhões 
A principal lição da Ucrânia e dos demais exemplos não é que o mundo esteja simplesmente ressuscitando armas antigas.

O que está acontecendo é mais interessante. A guerra dos drones está fazendo com que forças militares reavaliem sistemas que haviam sido considerados superados porque a ameaça para a qual eles eram adequados desaparecera ou perdera prioridade.

O retorno do Bofors L70, a permanência do Tunguska, o desempenho do Gepard, o emprego sueco do canhão de 40 mm e a modernização vietnamita dos 37 mm apontam na mesma direção.

A idade do tubo não é o fator decisivo. O que importa é a capacidade de enxergar o alvo, acompanhar sua trajetória e colocar sobre ele, rapidamente e a custo compatível, uma quantidade suficiente de energia destrutiva.

Para o Brasil, a conclusão é particularmente relevante. O País já possui uma plataforma que reúne características adequadas à missão. Possui também empresas e instituições capazes de trabalhar com radares, sensores, comunicações, sistemas de comando e controle e integração tecnológica.

O próprio Exército já identificou a limitação que precisa ser superada. O Brasil, portanto, não precisa descobrir se o canhão de médio calibre ainda tem lugar na guerra dos drones. A Ucrânia já respondeu a essa pergunta.

A questão brasileira é outra: se o País possui 37 Gepard, canhões de 35 mm, pessoal treinado e uma base tecnológica capaz de modernizar sensores e sistemas de controle, quanto tempo ainda será necessário para transformar essa capacidade existente em uma verdadeira solução de defesa antidrone de baixa altura?

O velho gato ainda caça.  Mas, diante dos drones modernos, ele precisa de olhos novos.

Sistemas não tripulados na defesa e segurança pública brasileira: cenário, investimentos e perspectivas


*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/08/2026

CENÁRIO, INVESTIMENTOS E PERSPECTIVAS

O emprego de sistemas não tripulados deixou de ser uma discussão teórica para se tornar uma realidade operacional, não apenas no campo de batalha, mas nas ruas, nas fronteiras, nos rios e nas áreas acometidas por desastres naturais. A experiência ucraniana demonstrou de forma cabal que plataformas de baixo custo, descartáveis e altamente adaptáveis podem alterar a dinâmica da guerra. No Brasil, o que se observa é um momento decisivo em que Forças Armadas, órgãos de segurança pública e entidades civis avançam em iniciativas que, somadas, configuram um mercado em maturação acelerada.

DIMENSIONAMENTO DE MERCADO: OS NÚMEROS QUE IMPORTAM

Os números são expressivos em escala global e promissores em dimensão nacional. O mercado global de sistemas não tripulados foi avaliado em US$ 25,01 bilhões em 2025, com projeção de US$ 46,76 bilhões até 2030 (CAGR de 13%) segundo dados da Mordor Intelligence. Projeções mais agressivas apontam US$ 76,05 bilhões até 2035(Future Market Insights).

No segmento militar, o mercado global de drones militares deve saltar de US$ 22,49 bilhões em 2026 para US$ 52,31 bilhões até 2034 (Fortune Business Insights). Já as plataformas terrestres (UGVs) militares crescem de US$ 4,44 bilhões em 2026 para US$ 6,63 bilhões em 2030 (Research and Markets). O segmento de drones de combate a incêndios movimentou US$ 1,33 bilhão em 2025, com projeção de US$ 2,75 bilhões até 2034 (IMARC).

No segmento da segurança pública, o mercado global de drones foi avaliado em US$ 5,9 bilhões em 2025, com projeção de US$ 14,89 bilhões até 2034 (CAGR de 10,8%) segundo o Market Research Future. A pesquisa da Versaterm indica que 76% das agências de segurança pública já utilizam drones em algum grau.

No Brasil, o mercado de drones militares foi avaliado em US$ 207,7 milhões em 2026, com projeção de US$ 446,4 milhões até 2031 (CAGR de 16,5%), acima da média global (Markets and Markets). O mercado geral de plataformas voadoras (UAVs) no Brasil movimentou US$ 85,6 milhões em 2025, com projeção de US$ 157,9 milhões até 2030 (Markets and Markets). Já o mercado de drones de consumo e comercial deve alcançar US$ 3,12 bilhões até 2033 (Grand View Research). O mercado de drones agrícolas (fortemente utilizado com duplo propósito, também para vigilância e mapeamento) deve movimentar cerca de R$ 2 bilhões em 2026 (Xmobots).

O orçamento de defesa brasileiro foi de aproximadamente US$ 23,5 bilhões em 2025, com projeção de US$ 25,1 bilhões em 2026 e US$ 27,2 bilhões nos anos seguintes (Yahoo Finance). Em escala regional, o orçamento militar brasileiro de 2026 supera o somatório dos gastos de defesa de todos os demais países sul-americanos (Rio Times). O governo federal definiu a alocação de R$ 30 bilhões em investimentos estratégicos das Forças Armadas fora do teto fiscal, distribuídos em seis anos (Valor International). O Exército dobrará seu investimento anual para R$ 3 bilhões entre 2026 e 2031 (Times Brasil).

Para quem avalia oportunidade de negócio, está claro que existe disponibilidade de recursos, sendo direcionados para aquisição e desenvolvimento de sistemas não tripulados, com taxa de crescimento acima da média global e demanda reprimida em todos os níveis da administração pública.

FORÇAS ARMADAS: INICIATIVAS E CASOS DE SUCESSO

O marco normativo foi atualizado em novembro de 2025 com o Decreto 12.725/2025, que aprovou as novas versões da Política Nacional de Defesa (PND), Estratégia Nacional de Defesa (END) e do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), reorientando prioridades para tecnologias avançadas, programas espaciais e capacidades autônomas (Carlton Fields).

EXÉRCITO BRASILEIRO: CTEx COMO VETOR CENTRAL

O Centro Tecnológico do Exército – CTEx, consolidou-se como o principal polo de desenvolvimento de sistemas não tripulados terrestres e aéreos do país. Os projetos em andamento incluem: 

• Unidroid (Ambipar/Ares): UGV com lançador duplo para o míssil anticarro. Versão autônoma em estudo com o SARC Remax 4 (12,7mm).

• SARC REMAX 3 (Ares): estação de armas remotamente controlada com câmeras diurna, termal, telêmetro laser e estabilização em dois eixos.

• SVTRP 1 e SVTRP 2: financiados por FINEP/FAPEB. O SVTRP 1 é transportável por dois militares, com braço robótico para manipulação de objetos. O SVTRP 2 integra sistemas optrônicos, disparo remoto de armamento e transporte autônomo de suprimentos em zona de conflito.

• Veículo detector de radiação: parceria CTEx/IDQBRN, UGV com Raspberry Pi 5 e transmissão de dados radiológicos por rádio.

• Enxames de drones com IA: primeiro demonstrador nacional de controle coordenado de múltiplos drones por IA, apresentado em março de 2026 (DefesaNet).

O Exército já opera drones Nauru (Xmobots) de curto e médio alcance e estuda a aquisição de unidades de longo alcance armadas. Testes de drones e sistemas não tripulados da Base Industrial de Defesa (BID) nacional ganham forte destaque na Operação Perseu e estão previstos para o final de 2026. 

Fontes: Infodefensa e Exército Brasileiro.

FORÇA AÉREA BRASILEIRA:

A FAB opera um Hermes 900 há 15 anos. Trata-se de um SARP de origem israelense (Elbit) baseado em Santa Maria (RS), com mais de 1.000 km de alcance e 8h de autonomia. Foi largamente empregado na Operação Taquari, durante as enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul em 2024. Além disso, por meio do Projeto RQ-XBR sob a COPAC, a FAB busca desenvolver um SARP 100% nacional (Agência Marinha).

INDÚSTRIA NACIONAL: A BASE SENDO CONSTRUÍDA

Embora o Brasil ainda dependa significativamente de plataformas importadas para suas necessidades imediatas de sistemas não tripulados, a Base Industrial de Defesa (BID) nacional vem articulando, em ritmo acelerado, múltiplas iniciativas que incluem desde drones de reconhecimento até plataformas armadas, veículos terrestres não tripulados e sistemas anti-drone. 

As iniciativas a seguir representam uma parcela do ecossistema em construção, já que outras tantas encontram-se em estágios iniciais de desenvolvimento, sob financiamento público e parcerias público-privadas, e tendem a se multiplicar à medida que os editais de fomento e as demandas operacionais das Forças Armadas ganhem escala.

• Harpia (AdTech): Recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril de 2026, após quatro anos de desenvolvimento, com investimento superior a R$ 6,7 milhões (FIESC).

• Albatroz Vórtex (Stella/AERO Concepts): Drone de 4 metros de envergadura, 150 kg de carga útil, 24 horas de autonomia e motor a jato de fabricação nacional (A Tarde).

• Nauru 500C (XMobots): Adquirido pelo CENSIPAM para monitoramento da fronteira em Rondônia. Em janeiro de 2026, a empresa firmou acordo de cooperação técnica com a Marinha do Brasil e a Petrobras para adaptar drones da família Nauru a operações embarcadas em navios, com investimento de R$ 40 milhões (Tecnodefesa).

• Taurus Cyber Robotics: Apresenta proposta de modelos aéreos e terrestres, incluindo o TAS (Tactical Air Soldier), drone armado com fuzil T4, câmera 4K, designador laser e IA. Além disso, anuncia drones quadrúpedes e plataformas para operação de munições loitering/kamikaze (Infodefesa). 

• RADeCO: Drone quadrúpede para trabalhos de engenharia, remoção e manipulação de EOD (Neutralização de Artefatos Explosivos) e CBRN (Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear).

• ARES Aeroespacial e Defesa: Desenvolve o sistema Anti-SARP (Antidrone), baseado no sistema de armas remotamente controlada (SARC) REMAX 4, apresentado na LAAD 2025. O projeto conta com financiamento da FINEP por meio de dois contratos de subvenção econômica somando aproximadamente R$ 30 milhões, destinados ao desenvolvimento de capacidades de detecção, identificação e neutralização de drones e munições vagantes (Valor Econômico).

• Ambipar Robotics: Entregou ao Exército Brasileiro, em maio de 2026, o primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos (EOD) inteiramente produzido no Brasil. O sistema foi destinado ao 6º Batalhão de Engenharia de Combate e será empregado na certificação de tropas brasileiras para missões de paz da ONU (LCRA). 

• Exército Brasileiro — Enxame de Drones com IA: O Exército apresentou, em março de 2026, projeto pioneiro e nacional para o controle de enxames de drones em operações militares, com financiamento da FINEP. O sistema emprega inteligência artificial para coordenação de múltiplas plataformas em missões de reconhecimento e ataque, com expectativa de produção futura por empresas da BID nacional (DefesaNet).

FINANCIAMENTO FINEP: ACELERAÇÃO DO FOMENTO PÚBLICO

O papel da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) tem sido central na construção dessa base industrial. Historicamente, a agência já investiu cerca de R$ 100 milhões em projetos iniciais de VANTs militares, remontando ao período 2013-2014, quando os primeiros drones militares nacionais começaram a ser desenvolvidos com recursos públicos e apoio do Ministério da Defesa.

Mais recentemente, o ritmo de fomento acelerou significativamente. Em fevereiro de 2026, a FINEP e o MCTI publicaram um chamamento de R$ 300 milhões em subvenção econômica para empresas da BID. Pouco depois, em maio de 2026, foi lançada a Carta Convite MCTI/FINEP/FNDCT Promoção da Autonomia Tecnológica na Área da Defesa, com até R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis destinados às Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Defesa (ICTMDs), com aporte mínimo de R$ 25 milhões por proposta aprovada. O edital contempla sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados terrestres, aéreos e navais. Em conjunto, os dois editais somam R$ 800 milhões em recursos comprometidos com a defesa em menos de quatro meses, o maior aporte público unitário já destinado à BID em P&D com capital a fundo perdido.

Adicionalmente, a FINEP e o MCTI destinaram R$ 75 milhões a projetos aeroespaciais de defesa, incluindo iniciativas como o Veículo Lançador de Satélites (VLS) e sistemas correlatos.

Esses desenvolvimentos indicam que a Base Industrial de Defesa brasileira saiu de uma posição praticamente inativa nesse segmento para articular, em menos de dois anos, múltiplas iniciativas simultâneas: o primeiro robo EOD nacional, o primeiro drone armado com potencial de emprego, os primeiros testes de mísseis em drone brasileiro, o primeiro VANT de grande porte em prototipagem, e os primeiros conceitos de enxame com IA e sistemas anti-drone. O desafio agora é transformar protótipos, memorandos de intenção e autorizações regulatórias em sistemas certificados, produzidos em escala e integrados à doutrina das Forças Armadas. 

SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA CIVIL: O MERCADO QUE EMERGIU

O mercado brasileiro de sistemas não tripulados tem uma dimensão que muitas análises subestimam: a segurança pública e a proteção civil. É onde estão os volumes de aquisição mais significativos, com ciclos de compra mais curtos e demanda menos concentrada.

SENASP E A LIDERANÇA DA COORDENAÇÃO FEDERAL

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, exerce o papel de coordenadora do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e tem editado portarias estruturadoras, como a Portaria SENASP/MJSP nº 635/2025 e a Portaria SENASP/MJSP nº 648/2026, que definem padrões e diretrizes operacionais para os entes federativos (Biblioteca Digital MJ e DOU).

O Diopi (Divisão de Operações e Inteligência Policial) tem capacitado profissionais de segurança pública para operação de drones, com cursos voltados a investigações, patrulhamento ostensivo e operações.

A criação de um Programa Nacional de Drones foi aprovada para debate na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado em agosto de 2026, com audiência pública reunindo ANAC, Aeronáutica, governo e empresas (Rádio Senado). Esse é um sinal claro de que o tema migrou do campo técnico para o campo político-legislativo, isso significa, do ponto de vista comercial, que regras de mercado e incentivos estão sendo estruturadas.

POLÍCIAS MILITARES E CIVIS: A FRENTE TÁTICA

As Polícias Militares e Polícias Civis estaduais constituem o maior bloco de demanda potencial por sistemas não tripulados no segmento de segurança pública. Inúmeras iniciativas estão em curso em diversas regiões da federação, como por exemplo:

• Mato Grosso do Sul: a Sejusp investiu mais de R$ 1 milhão em drones para ampliar monitoramento, patrulhamento e operações táticas (Campo Grande News).

• Rio de Janeiro: o estado vai investir R$ 27 milhões em sistema antidrones para segurança pública, com equipamentos que detectam, rastreiam e neutralizam drones usados em ações criminosas (G1)

• Polícia Militar do Pará (PMPA): utiliza drones no monitoramento de áreas remotas, combate a crimes ambientais e apoio tático a abordagens (Revista Tópicos).

• Ponta Grossa (PR): investiu R$ 47,5 milhões em segurança, incluindo leitura de placas e rostos com drones pela Guarda Municipal (aRede).

GUARDAS MUNICIPAIS: O SEGMENTO QUE MAIS CRESCE

As guardas municipais tornaram-se, em 2025, a segunda maior força de segurança pública do Brasil em efetivo, com 107.457 integrantes, superando as Polícias Civis (Valor Econômico). São mais de 1.300 municípios com guardas ativas, constituindo um mercado fragmentado mas com enorme potencial de volume.

A cidade de Curitiba, no Paraná, destaca-se pela criação da Patrulha de Drones Aéreos da Guarda Municipal, com 32 equipamentos em operação e 80 guardas habilitados como pilotos. Investimento de R$ 500 mil, financiado por emendas parlamentares (Diário do Sudoeste).

Já em São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana utiliza drones para monitorar eventos públicos, identificar atividades suspeitas e apoio tático (ITARC). Ainda no Estado de São Paulo, a prefeitura da cidade de Diadema adquiriu um drone de R$ 365 mil (sob investigação do MP por ausência de licitação) para lançar gás lacrimogêneo em bailes funk, caso que, independente da controvérsia jurídica, ilustra a velocidade com que municípios de médio porte estão adotando a tecnologia (G1).

Para um fornecedor ou integrador, o mercado de guardas municipais é particularmente atrativo: ciclo de decisão mais rápido, financiamento por emendas parlamentares (que dispensam parte da complexidade de editais tradicionais) e necessidade crescente de soluções turnkey com capacitação inclusa.

CORPOS DE BOMBEIROS: DO COMBATE A INCÊNDIOS AO SALVAMENTO

Os Corpos de Bombeiros Militares estaduais utilizam drones desde 2018 em incêndios florestais, buscas e monitoramento de áreas de risco (ANABOM). O mercado global de drones de combate a incêndios cresce a CAGR de 8,17% e deve alcançar US$ 2,75 bilhões até 2034 (IMARC), com segmento autônomo crescendo a 19% ao ano (Strategic Market Research).

No Brasil, podemos destacar algumas iniciativas, dentre as diversas existentes:

• CBMERJ (Rio de Janeiro): incorporou drones com câmeras de alta resolução e sensores para a temporada 2025/2026 (A Tribuna).

• Bombeiros de Goiás: utilizam drone de alta tecnologia em buscas e combate a incêndios (R7).

• Defesa Civil de Erechim (RS): opera drones com geoprocessamento e integrou missão humanitária enviada à Venezuela em 2026 para avaliação de danos estruturais após terremotos (Prefeitura de Erechim).

• Dois Vizinhos (PR): Bombeiros e Defesa Civil utilizam drones no combate à dengue, mapeando focos do Aedes aegypti em áreas de difícil acesso (Prefeitura de Dois Vizinhos).

• O Governo do Estado do Paraná, por meio da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR), iniciou processo de aquisição de até 26 robôs de combate a incêndios fabricados pela empresa alemã EmiControls, em contrato avaliado em R$ 85,5 milhões, representando a maior aquisição de robôs de combate a incêndios já realizada por um estado brasileiro (Tribuna PR).

DEFESA CIVIL: O VETOR DE DUPLO PROPÓSITO

A Defesa Civil brasileira, coordenada nacionalmente pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e operada nos estados e municípios, tem sido uma das maiores beneficiárias da tecnologia de drones. O emprego do Harpia no Acre durante as cheias do Rio Acre é talvez o caso mais emblemático de uso de um sistema originalmente concebido para defesa em missão de proteção civil (FIESC). O Hermes 900 da FAB na Operação Taquari, durante as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 é outro exemplo prático desta adoção.

Esse padrão se repete: plataformas desenvolvidas para defesa sendo empregadas em desastres naturais tem implicação comercial direta: viabiliza aquisições com dupla justificativa orçamentária, abrindo fontes de recurso que vão além dos orçamentos específicos de defesa ou segurança.

O LADO DA AMEAÇA: DRONES EM MÃOS CRIMINOSAS

Não se pode discutir o mercado de sistemas não tripulados para segurança pública sem reconhecer que a criminalidade organizada também opera drones. O Comando Vermelho adquiriu drones com capacidade de transporte, descoberto pela polícia em maio de 2026 (O Globo). Durante operação policial no Complexo do Alemão ocorrida em Outubro de 2025, drones do CV sobrevoaram policiais e lançaram granadas (A Gazeta).

Isso cria uma demanda urgente e não discricionária por sistemas antidrones, um mercado global avaliado em US$ 7,1 bilhões em 2025 com projeção de US$ 31,6 bilhões até 2032 (Stratview Research). O investimento do Rio de Janeiro de R$ 27 milhões em antidrones representa o primeiro investimento estadual significativo nesse segmento.

MARCO REGULATÓRIO: O QUE ESTÁ EM JOGO

O PL 3.611/2021, em tramitação no Senado, cria regras para uso de drones por órgãos de segurança pública (Senado). A proposta proíbe acoplamento de armas e automação total nos equipamentos de segurança pública, com votação prevista para 2026.

Para a indústria, a definição desse marco é crítica. Se o armamento for liberado (mesmo que condicionado), abre-se um mercado de kits de armamento para drones de segurança pública, segmento em que a Taurus já está posicionada com o TAS. Se for mantida a proibição, o mercado se concentra em ISR (vigilância, inteligência, reconhecimento) e contra medidas.

DESAFIOS ESTRUTURAIS E LACUNAS

Fragmentação entre defesa e segurança pública: As Forças Armadas desenvolvem iniciativas sob o Ministério da Defesa; as polícias e guardas respondem ao MJSP via SENASP; e a Defesa Civil opera em estrutura paralela. Não há um programa nacional integrado de sistemas não tripulados que contemple defesa e segurança pública simultaneamente.

Descentralização federal: Estados e municípios compram isoladamente, sem escala de compra, sem interoperabilidade e sem padronização técnica. O resultado é ineficiência: Estados e Municípios comprando isoladamente em lotes pequenos, pagando mais por menos.

Dependência tecnológica externa: Subsistemas críticos (motores, sensores de alto desempenho, data links seguros, processamento de bordo, dentre outros) ainda são importados. 

Escala industrial insuficiente: A BID tem empresas competentes (Xmobots, AdTech, Taurus, Ares, Ambipar, Mac Jee/AeroID), mas a produção ainda é tímida em volume. Sem contratos plurianuais e demanda agregada, a indústria não investe em capacitação industrial nem atinge custos competitivos para exportação.

Capacidade de contramedidas: A deficiência mais crítica. O mercado global de contramedidas cresce a taxas aceleradas, e o Brasil está começando agora (R$ 27 milhões no Rio é uma gota no oceano comparado à escala da ameaça).

PERSPECTIVAS E OPORTUNIDADES

Para investidores, indústrias e estrategistas que avaliam o setor de sistemas não tripulados no Brasil, é possível identificar as principais frentes de oportunidade com horizontes temporais e perfis de risco-retorno distintos. O que as une é um denominador comum: a demanda não é especulativa, é estrutural, ancorada em deficiências operacionais reais das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, e sustentada por fluxos de financiamento que já estão sendo liberados.

CURTO PRAZO: 

CONTRAMEDIDAS E SISTEMAS ANTI-DRONE PARA SEGURANÇA PÚBLICA

A proliferação de drones civis e militares cria demanda não discricionária e imediata por capacidades de detecção, identificação e neutralização. Estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pará constituem os mercados prioritários. O volume de emendas parlamentares destinadas à segurança pública cresceu 96% entre 2022 e 2024, passando de R$ 346 milhões para R$ 672 milhões, segundo a Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados. 

DRONES ISR PARA GUARDAS MUNICIPAIS

As guardas municipais brasileiras, representam a segunda maior força de segurança pública do país. Contudo, apenas uma fração dos municípios já adotou tecnologia de drones. Salvador implantou drones em 2025, Curitiba adquiriu 32 aeronaves em 2026 com 80 agentes habilitados e municípios do Litoral Norte de SP acessaram emendas parlamentares para o mesmo fim. O gap entre a base instalada e o universo endereçável é significativo. Cada adoção municipal envolve tipicamente aquisição de múltiplas aeronaves, treinamento certificado de operadores, integração com centros de comando e contratos de manutenção recorrente, configurando um ciclo de investimento contínuo. O PL 3.611/2021, em tramitação no Senado, deverá estabelecer o marco regulatório que estrutura o mercado, reduzindo incerteza jurídica e acelerando a curva de adoção.

CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO INTEGRADO

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) e os estados estão demandando ativamente a formação de operadores de drones para segurança pública. Curitiba habilitou 80 agentes como case inicial, mas a escala nacional exigirá centenas de turmas. O modelo de negócio mais competitivo não é o da venda isolada de equipamento, mas o do pacote integrado: curso certificado + aeronave + software de gestão + suporte técnico recorrente. Fornecedores que entregarem essa solução turnkey terão vantagem e receita via contratos de serviço plurianuais.

MÉDIO PRAZO: 

UGVS PARA BOMBEIROS E DEFESA CIVIL

Plataformas terrestres não tripuladas para manipulação de artefatos explosivos, reconhecimento em áreas contaminadas e combate a incêndios em zonas de difícil acesso representam uma categoria com demanda comprovada e oferta incipiente. A Ambipar Robotics entregou ao Exército, em maio de 2026, o primeiro robô EOD fabricado no Brasil. A Taurus anuncia veículos terrestres e quadrúpedes para armamento de médio e pesado calibre. A transição do protótipo para produção em série, especialmente para corpos de bombeiros militares e coordenadorias estaduais de defesa civil, depende de editais de aquisição que tendem a se multiplicar à medida que os sistemas ganham certificação operacional.

DRONES DE ASA FIXA DE LONGO ALCANCE PARA VIGILÂNCIA DE FRONTEIRA

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) do Exército Brasileiro está em expansão contínua, com o Nauru (XMobots) já adquirido pelo CENSIPAM para monitoramento da fronteira em Rondônia. A Consulta Pública do Estado-Maior do Exército para o SARP 3 confirma a intenção de migrar de plataformas exclusivamente de monitoramento para sistemas com capacidade de emprego de força. 

LONGO PRAZO:

DRONES 100% NACIONAIS DE COMBATE

A Comissão de Aquisições da Aeronáutica (COPAC) está mapeando a Base Industrial de Defesa para identificar capacidades nacionais em sistemas não tripulados de combate. O edital MCTI/FINEP de R$ 500 milhões contempla expressamente sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados. Empresas que se posicionarem agora no ecossistema de fornecedores terão vantagem quando os programas de aquisição avançarem, convertendo capacidade técnica em contratos de fornecimento de longo prazo. 

ENXAMES DE DRONES COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O Exército Brasileiro apresentou em março de 2026 um demonstrador nacional pioneiro de controle de enxames de drones com IA, financiado pela FINEP, para coordenação de múltiplas plataformas em missões de reconhecimento e ataque. A transição de protótipo para capacidade operacional cria demanda por três camadas tecnológicas: software de coordenação descentralizada, redes de comunicação mesh resilientes e IA de bordo para processamento em tempo real. Estas são competências com alto valor agregado, baixa commoditização e barreiras de entrada significativas, características que tornam o segmento atrativo para investimento em P&D e propriedade intelectual.

ROBÓTICA QUADRÚPEDE (UGVs LEGGED)

A Taurus e a RADeCO já dispõem de plataformas quadrúpedes. A demanda para essas plataformas é real e multisetorial: EOD e CBRN pelo Exército e Defesa Civil, patrulhamento de instalações críticas (infraestrutura energética, portuária, aeroportuária) e apoio a operações de Forças Especiais. A convergência entre armamento e a maturação de plataformas robóticas nacionais sugere que a integração arma-plataforma será o próximo vetor de produtos dentro de um horizonte de 3 a 5 anos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil está diante de uma janela de oportunidade que não vai permanecer aberta por muito tempo. Os recursos existem: R$ 30 bilhões fora do teto fiscal para defesa, orçamento de segurança pública estadual em expansão, guardas municipais com efetivo superior ao das polícias civis e demanda crescente por tecnologia. O marco normativo está sendo definido agora, no Senado e na ANAC. A Base Industrial de Defesa tem empresas competentes e ágeis, mas precisa de contratos plurianuais e demanda agregada para escalar.

O que fará a diferença entre um Brasil protagonista e um Brasil importador será a velocidade de execução e a capacidade de integrar iniciativas que hoje operam de forma separada: defesa de um lado, segurança pública de outro, proteção civil em terceiro. Quem conseguir estruturar uma oferta que atenda simultaneamente esses três mercados, com tecnologia nacional, preço competitivo e modelo de negócio escalável, estará posicionado em um mercado de R$ 2 bilhões (drones militares), R$ 800 milhões (UAVs gerais) e mais R$ 2 bilhões (drones comerciais/agrícolas de duplo propósito) crescendo a dois dígitos ao ano, com demanda reprimida em todo o território nacional.

Não é uma questão de se o Brasil vai investir massivamente em sistemas não tripulados. É uma questão de quando, com quem e em que escala. Para os que estão prontos, o momento é agora. 

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

De cargueiro a arsenal aéreo: Embraer avança com o C-390/Barracuda e leva conceito a operadores e potenciais clientes

Encontro com a Anduril na MSPO 2026 mostra que parceria anunciada em Farnborough começa a avançar para a prospecção operacional e comercial, com atenção especial à Europa e à Polônia



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

Menos de dois meses depois de anunciar, no Farnborough International Airshow, um Memorando de Entendimento com a Anduril para estudar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M ao C-390 Millennium, a Embraer deu um novo passo na iniciativa. Durante a MSPO 2026, em Kielce, na Polônia, representantes seniores das duas empresas voltaram a se reunir para avançar o acordo e, principalmente, levar a proposta ao diálogo com operadores atuais e forças aéreas que avaliam a aeronave brasileira.

A novidade é relevante porque desloca o foco da parceria. Em julho, Embraer e Anduril apresentaram essencialmente um conceito tecnológico e operacional. Agora, a própria Embraer informa que as conversas na MSPO envolveram clientes e potenciais clientes do C-390, cuja questão recorrente foi a rapidez com que a nova capacidade poderia ser incorporada a uma plataforma que já operam ou estão considerando adquirir.

Do memorando à prospecção junto aos operadores 
O acordo anunciado em Farnborough, em 21 de julho, prevê a busca conjunta pela integração do Barracuda-500M paletizado ao C-390. O conceito utiliza sistemas roll-on/roll-off e procedimentos convencionais de lançamento aéreo, evitando, em princípio, a necessidade de transformar permanentemente a aeronave de transporte em uma plataforma de ataque.

A combinação permitiria que o C-390 transportasse e lançasse simultaneamente dezenas de munições de longo alcance, agregando à sua função de mobilidade aérea a possibilidade de gerar efeitos cinéticos e não cinéticos a distância. A Anduril apresenta o Barracuda como uma família concebida desde o início para fabricação simplificada, custos inferiores aos de mísseis de cruzeiro tradicionais e produção em grande escala.

Na MSPO, porém, a discussão ganhou uma dimensão comercial mais concreta. Segundo a nova publicação da Embraer, a resposta de operadores do C-390 e de forças aéreas que avaliam a aeronave reforçou o interesse pelo conceito. A pergunta sobre a velocidade de incorporação da capacidade sugere que os potenciais usuários já começam a observar o Barracuda não apenas como uma experiência tecnológica, mas como possível opção para suas próprias frotas. 

A Polônia está no centro dessa convergência 
O local escolhido para esse novo movimento não é secundário. A Polônia está avaliando o C-390 no programa DROP, destinado à renovação de sua aviação de transporte. Segundo o portal polonês Defence24, o processo poderá resultar na aquisição de até oito aeronaves. A Embraer vem ampliando sua presença industrial no País e, em março, apresentou o C-390 à WZL-2, em Bydgoszcz, no contexto da cooperação para manutenção, reparo e revisão da aeronave.

Ao mesmo tempo, a Polônia já ocupa posição central na estratégia europeia da Anduril. Em julho, a empresa norte-americana, a Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ) e a WZL-2 firmaram acordo para estabelecer em Bydgoszcz a montagem e, progressivamente, a produção local do Barracuda-500M lançado de superfície. A previsão divulgada pelas empresas é produzir milhares de unidades, ampliando gradualmente a participação de componentes poloneses e europeus.

A presença simultânea desses dois movimentos cria uma convergência particularmente interessante: o País que avalia o C-390 também se prepara para produzir o Barracuda-500M. Isso não significa que exista, até agora, uma decisão polonesa de adquirir a configuração C-390/Barracuda, mas torna a Polônia um ambiente especialmente favorável para demonstrar a lógica industrial e operacional da proposta.

O C-390 como plataforma de efeitos em massa 
O conceito acompanha uma transformação mais ampla observada nas guerras recentes. Estoques limitados de armamentos sofisticados e caros passaram a conviver com a necessidade de lançar grande número de vetores, saturar defesas, manter capacidade de reposição e sustentar operações prolongadas. Nesse cenário, quantidade, custo unitário e velocidade de produção passam a integrar o próprio cálculo do poder de combate.

A proposta da Embraer e da Anduril procura inserir o C-390 nessa lógica. Em vez de desenvolver uma aeronave específica para a missão, utiliza-se uma plataforma de transporte já existente, com 26 toneladas de capacidade de carga, elevada velocidade e possibilidade de rápida reconfiguração. O armamento paletizado seria embarcado quando necessário e retirado posteriormente, preservando as demais missões do avião.

Esse aspecto é particularmente atraente para países que operam frotas relativamente pequenas. Uma mesma aeronave poderia continuar cumprindo transporte de tropas e cargas, evacuação aeromédica, reabastecimento em voo, missões humanitárias e outras tarefas, recebendo adicionalmente uma capacidade de lançamento stand-off quando a situação operacional exigisse. 


Uma rede crescente de usuários 
A estratégia também ganha importância à medida que aumenta a comunidade internacional do C-390. A aeronave já foi selecionada por Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Lituânia e, mais recentemente, Colômbia. Uma capacidade modular desenvolvida para a plataforma poderia, em tese, ser oferecida a diversos desses operadores, respeitadas as decisões políticas, requisitos nacionais e autorizações aplicáveis.

É justamente essa base instalada, em expansão, que diferencia a iniciativa. O C-390 deixaria de ser visto somente como um avião que pode eventualmente lançar mísseis e passaria a constituir uma possível rede de plataformas multimissão capazes de receber rapidamente novos módulos e efeitos. Para a Embraer, isso acrescenta valor à aeronave sem descaracterizar sua função principal.

Barracuda: produção em escala como parte da capacidade militar 
A Anduril associa diretamente o Barracuda à necessidade de recompor estoques com rapidez. O primeiro teste bem-sucedido do B-500M lançado por palete ocorreu em setembro de 2024 e foi seguido, segundo a Embraer, por dezenas de outros ensaios, incluindo autonomia colaborativa em rede, engajamentos terminais e validação de cargas úteis.

Na Polônia, a estratégia industrial vai além da simples importação. O acordo com a PGZ prevê produção local do Barracuda-500M e crescente localização da cadeia de suprimentos. Durante a própria MSPO 2026, a Anduril também intensificou a oferta de outros sistemas autônomos às Forças Armadas polonesas, reforçando o País como uma de suas principais portas de entrada no mercado europeu.

O que mudou desde Farnborough 
A integração ainda não pode ser considerada um programa contratado. Embraer e Anduril não anunciaram cliente para a versão paletizada, contrato de desenvolvimento, cronograma de integração ou data para ensaios de lançamento a partir do C-390. O Memorando de Entendimento continua sendo o instrumento formal conhecido.

O que mudou é o estágio da discussão. Em Farnborough, as empresas anunciaram que pretendiam explorar a integração. Em Kielce, passaram a discutir a capacidade com quem já opera o C-390 e com quem pode comprá-lo. A pergunta deixou de ser apenas se o conceito é tecnicamente interessante e começou a incluir outra questão: em quanto tempo ele poderia chegar às frotas. 


Por que isso importa 
Se a parceria avançar para integração e testes, o C-390 poderá ampliar significativamente sua posição no mercado militar internacional. Além de competir como transporte tático e aeronave multimissão, passaria a oferecer uma capacidade de projeção de poder baseada em armamentos paletizados, de longo alcance e produzidos em escala, algo muito relevante para, por exemplo, a licitação de 60 aeronaves que está em curso na Índia. 

Para a Embraer, trata-se de uma nova camada de valor para uma plataforma que já acumula clientes na Europa, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Para a Anduril, o C-390 oferece acesso a uma aeronave moderna, em expansão internacional e capaz de transportar grande quantidade de munições. Para os operadores, a combinação promete transformar rapidamente capacidade logística em capacidade de geração de efeitos, sem exigir uma frota dedicada exclusivamente ao ataque.

A MSPO 2026, portanto, não trouxe ainda o contrato que transformará o conceito em capacidade operacional. Trouxe, porém, algo importante para o caminho até ele: a confirmação de que Embraer e Anduril estão avançando além do anúncio inicial e colocando o C-390/Barracuda diante de operadores e potenciais compradores. A partir de agora, os próximos marcos a observar serão a definição de um cliente, o financiamento da integração, os primeiros ensaios com a aeronave e um eventual cronograma de entrada em serviço.

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