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19 junho, 2026

O drone de ataque virou míssil de cruzeiro barato: o que isso significa para a defesa antiaérea brasileira

Shahed-238 (Irã) e Geran-3 (Rússia); drones de ataque com turbina a jato
 


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LRCA Defense Consulting - 20/06/2026

A chegada de variantes a turbina a jato do Shahed-136/Geran-2 irano-russo, somada aos ataques de drones e mísseis contra radares americanos, sauditas e jordanianos durante a guerra de 2026 entre Israel, Estados Unidos e Irã, expõe uma mudança silenciosa na natureza da ameaça que as defesas antiaéreas precisam enfrentar. O que começou como um drone lento e barato, abatível por uma metralhadora ou um canhão antiaéreo, hoje tem uma variante que se comporta, na prática, como um míssil de cruzeiro subsônico de baixo custo. Para o Brasil, a discussão não é apenas sobre como se defender: é também sobre se a indústria nacional, que já demonstrou domínio de propulsão a jato em plataformas não tripuladas, tem ou não uma oportunidade real nesse mercado emergente.

Antes de entrar no diagnóstico técnico, vale deixar explícito o fio que conecta as duas partes desta reportagem, porque ele não é só uma analogia industrial. Não existe forma barata de qualificar um sensor ou um interceptador contra um drone a jato sem ter, à disposição, um alvo de teste que reproduza fielmente o comportamento daquele drone, da mesma forma que qualquer força aérea usa drones-alvo modelados sobre ameaças reais para validar seus próprios sistemas de defesa. Por isso, ao longo deste texto, as medidas de defesa antiaérea (sensores e armas) aparecem sempre ao lado da possibilidade de o Brasil desenvolver seus próprios vetores de ataque equivalentes ao Shahed-136 e ao Shahed-238/Geran-3: não como digressão, mas como insumo necessário ao próprio programa de defesa, além de, eventualmente, abrir uma frente de exportação e uma opção doutrinária própria.

Da hélice ao turbojato: o que muda

O Shahed-136, conhecido na nomenclatura russa como Geran-2, cruza a aproximadamente 180 km/h, velocidade compatível com a de um avião agrícola. É essa lentidão que historicamente permitiu respostas de baixo custo contra ele: canhões antiaéreos, metralhadoras pesadas e até helicópteros e aronaves agrícolas ou de treinamento com atiradores a bordo, solução amplamente empregada pela Rússia e pela Ucrânia.

A variante a jato, batizada de Shahed-238 pelo Irã e de Geran-3 pela Rússia, é outra categoria de problema. Equipada com um motor turbojato do tipo Tolou-10/13 (derivado não licenciado do tcheco PBS TJ100/TJ150), ela atinge entre 550 e 600 km/h em cruzeiro, com picos de até 700 ou 800 km/h em mergulho final. Há divergência entre as fontes: o Irã declara um teto mais conservador, de 500 km/h, enquanto fontes russas chegam a citar 800 km/h, número ainda não confirmado de forma independente. Mesmo no piso dessas estimativas, a velocidade já está na faixa baixa de mísseis de cruzeiro subsônicos clássicos, como o Kh-101 russo ou o Tomahawk americano.
Shahed-238 (Irã) e Geran-3 (Rússia); drones de ataque com turbina a jato

Por que a defesa atual não foi desenhada para isso
Para entender o tamanho do problema, vale simular três cenários de alcance de detecção, 50, 100 e 200 quilômetros, contra os dois perfis de ameaça: o Shahed-136 clássico, a hélice, com cruzeiro de aproximadamente 180 km/h, e o Geran-3 a jato, com cruzeiro estimado entre 550 e 600 km/h. Em todos os casos, assume-se que o tempo disponível é o trajeto entre o ponto de detecção e o alvo protegido, dividido pela velocidade de cruzeiro do drone, simplificação que ignora manobras evasivas e mudanças de rota, mas que serve para comparar ordens de grandeza.

Alcance de detecção

Tempo até o impacto (Shahed-136, ~180 km/h)

Tempo até o impacto (Geran-3, ~575 km/h)

50 km

≈ 17 minutos

≈ 5 minutos

100 km

≈ 33 minutos

≈ 10 minutos

200 km

≈ 1 hora e 7 minutos

≈ 21 minutos

Os números deixam claro onde está o ponto de inflexão. Contra o Shahed-136, mesmo o alcance mais modesto, de 50 quilômetros, já entrega uma janela generosa, suficiente para qualquer aeronave em alerta rápido, como o A-29, decolar e interceptar com folga. Contra o Geran-3, a equação só começa a fazer sentido operacional a partir de 100 quilômetros, quando a janela passa a cobrir o tempo mínimo de decolagem de alerta (entre 5 e 8 minutos) somado a uma margem de manobra; com 200 quilômetros de alcance, a janela de cerca de 21 minutos já se aproxima do conforto observado contra o drone a hélice. No entanto, como será visto abaixo, a velocidade do drone a jato já será um novo problema, pois supera a dos interceptadores aéreos improvisados (helicópteros e aeronaves turboélice).

O problema é que alcançar 100 ou 200 quilômetros de detecção contra um alvo de baixo RCS voando rasante é, por si só, um desafio de engenharia muito maior do que cobrir 50 quilômetros. O horizonte de radar de um sensor terrestre é limitado pela curvatura da Terra e pela altura da antena, de modo que detectar um alvo rasante a 200 quilômetros exigiria altitude de voo incompatível com o próprio perfil baixo do drone, ou então um sensor elevado (aerotransportado, em balão ou em mastro alto), e não um radar fixo ao nível do solo. Dobrar ou quadruplicar o alcance nominal de um sistema, portanto, não resolve o problema se a antena continuar à mesma altura.

Esse é o mesmo tipo de falha que já apareceu na avaliação brasileira do Gepard durante a Operação Punhos de Aço: os radares orgânicos do sistema (banda MPDR-12/Echo) não conseguiram adquirir drones de baixo RCS voando baixo, forçando as guarnições a voltar ao rastreio manual por periscópio. O problema não é exclusivo de um efetuador específico: é estrutural, e afeta canhão, aeronave leve ou sistema de mísseis de curto alcance igualmente, se o sensor de cueing (sensor de indicação ou de alerta) não entregar alcance e antecedência suficientes. 

O padrão se repete: do Oriente Médio à Ucrânia
A guerra de 2026 entre Israel, Estados Unidos e Irã deixou um retrato claro desse problema em escala real. Bases americanas no Catar, na Jordânia e na Arábia Saudita tiveram radares de alerta precoce e sistemas de defesa de mísseis THAAD danificados por enxames combinados de drones e mísseis; o Catar relatou ondas de drones lançadas do Irã, parte delas interceptada, parte não; e o Kuwait sofreu um ataque direto contra um centro 
tático de operações americano, com baixas. Em praticamente todos os episódios, o fator comum foi a saturação de defesas dimensionadas para ameaças mais rápidas e em menor número, não para enxames de baixo custo voando baixo.

Na Ucrânia, a evolução é ainda mais didática. A defesa improvisada que funcionava contra o Shahed-136 a hélice, com helicópteros, aeronaves agrícolas ou de treinamento e armas de pequeno calibre, perde efetividade contra o Geran-3 justamente pela diferença de velocidade: a mesma plataforma aérea que servia de interceptador barato contra o alvo lento simplesmente não alcança o alvo rápido.

 
Soldado russo tentando engajar um drone de ataque unidirecional ucraniano sobre Moscou usando um MANPADS enquanto outros disparam armas automáticas, mas o drone continua o voo 

O Brasil já tem uma peça do quebra-cabeça: o Albatroz Vórtex
É aqui que a história ganha um ângulo particular para o Brasil. Em dezembro de 2025, na Base Aérea de Santa Cruz, a Stella Tecnologia e a paulista AERO Concepts realizaram o primeiro voo do Albatroz Vórtex, um drone de inteligência, vigilância e reconhecimento com peso máximo de decolagem de cerca de 150 quilos, autonomia de até 24 horas e alcance entre 150 e 250 quilômetros, equipado com uma turbina a jato 100% nacional, a ATJR 15-5. O voo foi resultado de um acordo de cooperação assinado em novembro de 2025 entre o Ministério da Defesa, a Força Aérea Brasileira e as duas empresas, dentro da estratégia institucional batizada de Força Aérea 100 e do ecossistema do Parque Industrial e Tecnológico Aeroespacial da Bahia.

A AERO Concepts mantém uma linha de turbinas que cobre uma faixa de empuxo entre 500 e 5.000 newtons, ou seja, justamente a categoria de motor usada em drones de ataque do tipo Shahed-238/Geran-3. O Albatroz Vórtex, vale repetir, é hoje uma plataforma de ISR, sem missão de ataque declarada. Mas a competência tecnológica que ele comprova (integração de turbina, aviônica e célula em escala miniaturizada) é exatamente a mesma base que sustentaria, em tese, o desenvolvimento de um vetor de ataque nacional equivalente ao Shahed-238, e é também a peça que, lá na frente, fecharia o ciclo descrito na abertura deste texto: a mesma plataforma que poderia atacar é a que serviria de alvo de teste para qualificar os sensores e interceptadores discutidos nas seções seguintes.

Drone Albatroz Vórtex, da Stella Tecnologia

Medidas de curto, médio e longo prazo para o Brasil

Curto prazo: sensores
A prioridade imediata não é necessariamente comprar um radar novo, mas elevar a altura do sensor já disponível, já que o horizonte de radar contra alvo rasante depende mais disso do que da potência de transmissão. Aerostatos de vigilância, torres em pontos críticos da fronteira e de áreas de infraestrutura sensível, ou o uso de plataformas já na frota da FAB, como o E-99/R-99, como sensor avançado de baixa altitude, são opções que aproveitam capacidade já instalada. 

Em paralelo, a indústria nacional de radar (Bradar, subsidiária da Embraer Defesa, além de Orbisat e Omnisys) tem histórico em vigilância terrestre e contrabateria que poderia ser direcionado para um modo específico de baixa altitude e baixo RCS, em vez de depender de importação pontual de sistema completo.

Curto prazo: armas
Contra o perfil de ameaça mais provável no curto prazo, o drone a hélice clássico, a medida mais rápida é adotar postura de alerta pronto para aeronaves leves já em uso, como o A-29 Super Tucano, com piloto e armamento prontos para decolagem em poucos minutos. É uma medida de implementação quase imediata, porque não depende de desenvolvimento de novo equipamento, apenas de doutrina, escala e rotina operacional.

Voo do Albatroz Vórtex em junho de 2026, no 1º INOVAER 

Médio prazo: sensores

No médio prazo, vale investir em linhas de pesquisa de radar passivo ou multiestático, que detectam o drone pela perturbação que ele causa em sinais de rádio e televisão já existentes, sem precisar emitir sinal próprio, reduzindo a vulnerabilidade do próprio sensor e ajudando especificamente contra alvos de baixa observabilidade. Outra possibilidade é equipar plataformas como o Albatroz Vórtex e o Atobá, da própria Stella Tecnologia, com payload de vigilância de baixa altitude, dando a elas uma função dupla de sensor avançado, além do papel original de inteligência, vigilância e reconhecimento.

Médio prazo: armas
É também no médio prazo que caberia um programa de upgrade do Gepard, tratando sensor e munição como um pacote único, e não como medidas isoladas. A Punhos de Aço expôs uma falha de cadeia completa: o radar orgânico (banda MPDR-12/Echo) não adquiriu drones de baixo RCS, a guarnição recorreu ao rastreio manual por periscópio, e o canhão de 35 mm carece de munição com fusão de proximidade adequada contra alvo pequeno. Resolver isso exigiria substituir ou complementar o radar orgânico por um sensor com melhor desempenho contra baixo RCS, qualificado e integrado à plataforma, e licenciar ou nacionalizar uma munição programável do tipo AHEAD, etapas que dificilmente se completam no curto prazo, mas que são viáveis dentro de um horizonte de poucos anos.

O mesmo horizonte de médio prazo é onde a indústria nacional de mísseis e foguetes tem o espaço mais claro para entrar. A Avibras Aeroco, em processo de reativação de portfólio (FOG-MPM, linha ASTROS), e a SIATT, com sua competência em mísseis guiados (MANSUP/SDCL, extensão de vida do Penguin Mk2), são vetores naturais para o desenvolvimento de um míssil de defesa antiaérea de curto alcance lançado do solo, no estilo do conceito britânico Gravehawk, que adapta um míssil ar-ar (no caso brasileiro, o equivalente seria o MAA-1) para lançamento terrestre contra alvos lentos e rápidos. 
 
Como camada complementar de baixo custo, a guerra eletrônica contra GNSS (jamming ou spoofing na área de proteção) reduz a precisão terminal do drone mesmo sem abatê-lo, aproveitando competência já existente na BID, como a da Mectron.

Em primeiro plano, drones interceptadores (C-UAS) Taurus, seguido de drone VTOL (laranja) para munição vagante e enxame; todos ainda em mockup

Cabe também ao médio prazo, e não ao longo prazo, o desenvolvimento de drones interceptadores, o conceito de usar um drone barato e rápido para abater outro drone, em vez de gastar munição de canhão ou míssil. A barreira tecnológica aqui é mais baixa do que a de outros itens deste artigo: a experiência ucraniana mostra que boa parte da solução depende de guiamento por operador via FPV, não de buscador autônomo sofisticado, e o Brasil já tem tanto a base industrial de células (SkyDrones, XMobots, Stella) quanto a experiência institucional recente da licitação de munição vagante do Exército (37 empresas habilitadas, 33 nacionais) para sustentar esse desenvolvimento dentro de poucos anos.

Ainda no médio prazo, e em paralelo ao próprio tema deste artigo, vale registrar que a BRVANT Soluções Tecnológicas já apresentou, no 1º INOVAERO, um drone de concepção semelhante à do Shahed-136, com propulsão a hélice. Se confirmado como vetor de ataque (vale a ressalva de que, até a publicação desta reportagem, não há confirmação oficial de que a BRVANT tenha apresentado a plataforma com essa finalidade declarada, em vez de como demonstrador tecnológico ou conceito de ISR), o desenvolvimento se encaixaria no nível de maturidade e custo equivalente ao do Shahed-136 clássico, complementando, num horizonte mais próximo e mais barato, a hipótese de longo prazo de um vetor a jato equivalente ao Shahed-238/Geran-3. 

E, voltando ao fio condutor desta reportagem, uma plataforma nacional desse tipo seria também o alvo de teste de baixo custo ideal para qualificar tanto os radares de baixa altitude quanto os mísseis terra-ar e a munição programável do Gepard mencionados nas seções anteriores, fechando o ciclo entre detectar, abater e simular a ameaça.

Longo prazo: sensores

No horizonte mais distante, o objetivo deveria ser consolidar uma arquitetura de sensoriamento em camadas (radar elevado, radar passivo e guerra eletrônica) integrada a um comando e controle automatizado nacional, capaz de cruzar dados de fontes diferentes e reduzir o tempo entre detecção e decisão, em vez de depender de um único sistema de radar como ponto único de falha.

Longo prazo: armas
No longo prazo, a fronteira é a própria possibilidade discutida ao longo deste artigo: usar a competência em propulsão a jato miniaturizada, provada pelo Albatroz Vórtex e pela turbina ATJR 15-5, para desenvolver um vetor de ataque nacional equivalente ao Shahed-238/Geran-3, complementando, no topo da escala de custo e desempenho, o caminho mais rápido e mais barato que a BRVANT já indica no médio prazo. 

O financiamento para essa frente já está disponível via Carta Convite MCTI/Finep/FNDCT nº 943682. O programa EMADS (CAMM-ER, modelo de cooperação governo a governo com a Itália), já em andamento, funciona como guarda-chuva institucional que dá viabilidade orçamentária e política para encaixar todas essas iniciativas, de curto, médio e longo prazo, em vez de tratá-las como esforços isolados.

Drone brasileiro tipo "Shahed-136, da BRVANT

Ameaça e oportunidade na mesma turbina
O avanço tecnológico que torna um drone de ataque mais difícil de interceptar é, em essência, o mesmo que o Brasil acabou de provar que sabe construir. A diferença entre ameaça e oportunidade, nesse caso, não está na tecnologia em si, mas na decisão política e industrial de para que lado apontar essa turbina: para detecção e defesa, ou também para um vetor de ataque sob bandeira nacional. 

As duas frentes, aliás, não são mutuamente exclusivas, e a experiência de outros países que cultivam simultaneamente indústrias de defesa antiaérea e de drones de ataque sugere que tratá-las separadamente seria desperdiçar a competência que custou caro para construir.

IACIT e DECEA avançam em sistema nacional de monitoramento de drones e aeronaves urbanas

Protocolo assinado na DroneShow Robotics 2026 formaliza próxima etapa do projeto MUST, que integra múltiplos sensores e inteligência artificial para vigiar o espaço aéreo de baixa altitude 


*LRCA Defense Consulting - 19/06/2026

A IACIT e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) assinaram nesta quinta-feira (18) um protocolo de intenções para a definição e o desenvolvimento da prova de conceito do projeto MUST (Multi-Sensor Urban Surveillance and Tracking), sistema de monitoramento de aeronaves não tripuladas e veículos de mobilidade aérea avançada em ambientes urbanos. A cerimônia ocorreu durante a DroneShow Robotics e SpaceBR Show 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo, um dos principais eventos de tecnologia aeroespacial da América Latina.
O ato marca nova fase de um projeto que teve origem em abril de 2025, quando a IACIT assinou contrato com a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) para o desenvolvimento do sistema. À época, a cerimônia de contratação ocorreu durante a LAAD Defence & Security 2025, no Rio de Janeiro, e reuniu os ministros Luciana Santos (Ciência, Tecnologia e Inovação) e José Múcio Monteiro (Defesa), o diretor de Inovação da FINEP, Elias Ramos de Souza, e o CEO da IACIT, Luiz Teixeira.
Consórcio e investimento
O projeto tem prazo de execução de 36 meses e conta com investimento de R$ 28 milhões da FINEP, complementado por contrapartida de R$ 12 milhões da IACIT e de suas coexecutoras: Ocellott (desenvolvimento de sistemas de visão computacional e detecção), Saipher ATC (especializada em software de controle e gerenciamento do tráfego aéreo, com sistemas em operação em mais de 150 aeródromos brasileiros) e Senai Cimatec (centro de pesquisa e inovação industrial). O aporte total supera R$ 40 milhões.
A Saipher ATC, também certificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), traz ao consórcio experiência direta em automação do controle de tráfego aéreo. A presença da empresa reforça a aposta no MUST como solução integrada ao ecossistema operacional do DECEA, e não apenas como plataforma de detecção isolada.
O que é o MUST
O MUST foi concebido para integrar dados de múltiplos sensores — radares, câmeras, sensores de radiofrequência e outras fontes — combinados com recursos de inteligência artificial, de modo a permitir o rastreamento em tempo real de aeronaves não tripuladas (UAS) e veículos de mobilidade aérea avançada (Urban Air Mobility — UAM), como drones de entrega e aeronaves de decolagem e pouso vertical elétricos (eVTOLs).
O diferencial declarado pelo consórcio é a capacidade de vigilância persistente em ambientes urbanos de alta densidade, onde a multiplicidade de obstáculos e a proximidade entre aeronaves tripuladas e não tripuladas colocam demandas específicas sobre os sistemas de monitoramento. O projeto prevê também integração com as plataformas já existentes de gestão de tráfego aéreo e com futuras soluções padronizadas pelo DECEA.
Além das aplicações civis, a arquitetura transversal do MUST permitirá seu emprego em segurança pública, proteção de infraestruturas críticas e defesa, ampliando o alcance potencial da tecnologia a cenários de uso governamental mais sensíveis.
Prova de conceito: o que muda com o protocolo
O protocolo assinado nesta quinta-feira não cria um novo contrato de financiamento, mas formaliza a participação operacional do DECEA na fase de prova de conceito do MUST. Trata-se de etapa considerada crítica em projetos de alta complexidade tecnológica: antes de uma solução ser adquirida ou implementada em escala, ela precisa ser validada em ambiente operacional representativo, com requisitos técnicos definidos em conjunto com o usuário final.
No caso do MUST, o DECEA assume o papel de parceiro técnico nessa validação, contribuindo com conhecimento operacional sobre as necessidades reais do controle do espaço aéreo não tripulado. O acordo estabelece as bases para definir conceitos, requisitos de integração e métricas de desempenho que orientarão o desenvolvimento das próximas etapas do sistema.
Para o Tenente-Brigadeiro do Ar Sérgio Rodrigues Pereira Bastos Júnior, Diretor-Geral do DECEA, o protocolo é relevante para a missão central do órgão. "A tecnologia impulsiona constantemente a atuação dos órgãos reguladores, e contar com empresas parceiras de longa data, que têm sido extremamente eficientes na entrega de resultados positivos e na projeção estratégica do Brasil ao longo de várias décadas, é motivo de grande satisfação. Temos uma expectativa muito positiva em relação a esse projeto, que certamente será uma ferramenta de suma importância para que possamos manter os elevados níveis de segurança da navegação aérea", afirmou.
Luiz Teixeira, CEO da IACIT, destacou o papel da parceria para a maturidade da solução: "A prova de conceito é uma etapa estratégica porque permite validar tecnologias, conceitos operacionais e modelos de integração em um ambiente próximo da realidade. A participação do DECEA agrega conhecimento e experiência essenciais para a construção de uma solução preparada para os desafios da mobilidade aérea avançada e da gestão do tráfego de aeronaves não tripuladas."
Contexto regulatório: BR-UTM e a ICA 100-40
O desenvolvimento do MUST ocorre em um momento de aceleração regulatória no Brasil. Em janeiro de 2026, o DECEA iniciou a implementação do BR-UTM, sistema nacional de controle e regulação do tráfego aéreo não tripulado voltado a drones e eVTOLs. Em paralelo, a nova ICA 100-40/2026 — que substituiu a MCA 56-2 — entrou em vigor, ampliando o alcance da regulação ao exigir autorização prévia para aeronaves não tripuladas com peso de decolagem de até 250 gramas, independentemente da categoria operacional.
O DECEA trabalha ainda na ICA 100-48, norma específica sobre gerenciamento do tráfego aéreo não tripulado (UTM), que deverá detalhar os procedimentos para operação em zonas UTM e a relação com provedores de serviços privados. Nesse cenário, uma plataforma de vigilância com a abrangência do MUST representa um componente potencialmente central para a supervisão estatal desse tráfego emergente.
Segundo dados do setor, o Brasil já ultrapassou 133 mil drones registrados, consolidando-se como um dos maiores mercados da América Latina para a tecnologia. A expansão das operações comerciais, agrícolas e logísticas com aeronaves não tripuladas eleva as exigências sobre a capacidade de monitoramento do espaço aéreo de baixa altitude, em especial nas grandes regiões metropolitanas.
IACIT: trajetória e portfólio
Com 40 anos de atuação, a IACIT é uma EED com sede em São José dos Campos (SP), polo do chamado Cluster Aeroespacial Brasileiro. A empresa desenvolve soluções para defesa, controle do espaço aéreo, meteorologia e segurança pública, entre as quais radares meteorológicos, sistemas de auxílio à navegação aérea, a plataforma de análise atmosférica MIND (Meteorologia Integrada de Nowcasting para Decisores), o sistema antidrone DRONEBlocker e o radar além do horizonte OTH 0200 Skywave.
A IACIT participa de grupos internacionais de planejamento de gestão do tráfego aéreo, como o Grepecas (Grupo Regional de Planejamento e Implementação para as Regiões do Caribe e América do Sul), o IGWG (International GBAS Working Group) e o Comitê Técnico sobre SWIM, estabelecido pelo DECEA, o que posiciona a empresa como interlocutora relevante em discussões sobre a evolução dos padrões internacionais do setor.
O MUST é apresentado pela empresa como o sistema que potencialmente a colocará "na vanguarda da vigilância de aeronaves não tripuladas" no âmbito nacional e internacional — uma afirmação que, caso o projeto conclua sua prova de conceito com êxito, poderá ser testada em condições operacionais reais nos próximos dois a três anos.

Finep formaliza contrato com a Bizu Space e amplia investimento no microlançador brasileiro


*LRCA Defense Consulting - 19/06/2026

A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) assinaram, nesta quinta-feira (18), durante o SpaceBR Show 2026, em São Paulo, um novo contrato de inovação com a Bizu Space. O ato também marcou o início da fase de integração do modelo estrutural do Microlançador Brasileiro (MLBR) e reforça a estratégia do governo de reduzir a dependência tecnológica do país no setor espacial.

Dois contratos, R$ 75 milhões
O contrato com a Bizu Space integra um pacote maior, anunciado no mesmo dia, que soma R$ 75 milhões em recursos para projetos aeroespaciais da indústria de defesa. Desse total, R$ 49,7 milhões foram destinados à Iacit, empresa especializada em radares além do horizonte (tecnologia capaz de detectar embarcações e aeronaves a distâncias maiores do que o limite imposto pela curvatura da Terra). Outros R$ 25 milhões couberam à Bizu Space, para atividades relacionadas ao MLBR. Os dois projetos estão entre os primeiros aprovados na segunda rodada da chamada pública Mais Inovação Brasil, voltada à Base Industrial de Defesa (BID).

O que o dinheiro financia
Segundo a Finep, os recursos destinados à Bizu Space vão financiar o desenvolvimento de um terceiro estágio com propulsão líquida para o MLBR, além de tecnologias que poderão ser aproveitadas, no futuro, em foguetes de maior capacidade. O novo estágio é batizado de Arion: um motor que usa peróxido de hidrogênio de alto teste e querosene como propelentes, com empuxo entre 3 kN e 5 kN, projetado para substituir o atual terceiro estágio sólido do lançador.

A iniciativa já avança em testes. No início de 2026, o primeiro estágio do MLBR passou por um teste hidrostático (o envelope-motor foi preenchido com água e pressurizado até o limite, com aprovação confirmada). A Bizu Space também já anunciou um teste estático do motor líquido Arion-1, no campus da Univap, em São José dos Campos.

Um projeto, valores diferentes
É importante não confundir o novo contrato de R$ 25 milhões com o orçamento histórico total do MLBR. Em 2023, o programa, sob coordenação da Cenic, já havia recebido cerca de R$ 180 milhões da Finep, valor próximo aos R$ 189 milhões citados como custo total do projeto em reportagens recentes. O contrato anunciado nesta quinta-feira é um aporte novo, específico e adicional, dentro de um edital distinto, o Mais Inovação Brasil, vinculado à Base Industrial de Defesa.

A Bizu Space e o consórcio do MLBR
Fundada em 2020 como desdobramento da equipe ITA Rocket Design, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Bizu Space foi incorporada oficialmente em 2022 e hoje detém o selo de Empresa Estratégica de Defesa. Dentro do arranjo produtivo do MLBR, a empresa concentra sua atuação em planejamento de missão e em tecnologia de propulsão líquida.

A composição do consórcio variou ao longo do tempo: passou de sete para oito empresas entre 2024 e 2025, segundo registros do setor. A formação mais recente, apresentada durante o SpaceBR Show 2026, reúne Cenic, Concert Space, PlasmaHub, Delsis e Etsys como líderes da iniciativa, com Bizu Space, FibraForte e HorusEye Tech atuando como parceiras estratégicas.

Soberania como meta declarada
Ao comentar os investimentos, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, associou o avanço a um objetivo mais amplo: “Precisamos encarar o desafio da área espacial focando nas tecnologias que o Brasil ainda não detém, pois não existe soberania sem independência tecnológica.”

O diretor de Inovação da Finep, Elias Ramos, reforçou o ponto ao citar uma meta concreta da política industrial do governo: elevar a autonomia tecnológica do país, hoje em 40%, para 75% até 2033, dentro do programa Nova Indústria Brasil.

Os dois contratos assinados no SpaceBR Show fazem parte de um esforço mais amplo da Finep. Desde 2023, a instituição já direcionou mais de R$ 2 bilhões a 76 projetos vinculados à Missão 6 da Nova Indústria Brasil, política que tem como objetivo reduzir a dependência tecnológica externa do país.

O que vem a seguir
Concluída a fase de integração estrutural, o MLBR avança rumo aos ensaios finais e à validação do veículo. O edital da Finep prevê dois lançamentos bem-sucedidos do foguete, na variante de propelente sólido, para considerar o projeto concluído. Depois disso, a expectativa do arranjo produtivo é migrar para a variante de propelente líquido como veículo comercial e, no longo prazo, desenvolver um lançador maior, com propulsão totalmente líquida.

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