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17 junho, 2026

Embraer oferece linha de montagem do C-390 na Índia para disputar contrato de US$ 6 a 8 bilhões

Imagem renderizada para ilustração

*LRCA Defense Consulting - 17/06/2026

A Embraer está disposta a abrir uma linha de montagem do C-390 Millennium na Índia como parte de sua oferta ao programa Medium Transport Aircraft (MTA) da Força Aérea Indiana (FAI). O anúncio foi feito à publicação especializada FlightGlobal em 16 de junho de 2026 por executivos da fabricante brasileira, incluindo o presidente-executivo Francisco Gomes Neto e o diretor de marketing da Embraer Defesa & Segurança, Marcio Monteiro.

O programa MTA tem como objetivo substituir a frota de mais de 100 Antonov An-32 e 17 Ilyushin Il-76 que a FAI opera desde os anos 1980. O processo de aquisição, avaliado entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões, prevê a compra de 60 aeronaves sob o modelo "Buy and Make": 12 unidades serão entregues prontas para voo pelo fabricante original e 48 serão produzidas localmente por um parceiro industrial indiano. O Defence Procurement Board aprovou o programa em 2 de março de 2026, dando início a um processo que ainda depende de aval do Defence Acquisition Council (DAC) e do Cabinet Committee on Security antes da publicação do edital de licitação.

Parceria com a Mahindra e transferência integral de tecnologia
Para atender aos requisitos de conteúdo local exigidos pela política de defesa indiana, que em geral demandam ao menos 50% de componentes fabricados no país, a Embraer formalizou parceria com o grupo Mahindra. O MoU inicial foi assinado em fevereiro de 2024; em outubro de 2025, durante a inauguração do escritório da Embraer em Nova Délhi, a cooperação evoluiu para um acordo estratégico de produção. Em fevereiro de 2026, as empresas anunciaram planos conjuntos para uma instalação de manutenção, reparo e revisão (MRO) no país, condicionada à seleção do C-390 no MTA.

A proposta para o programa MTA vai além do MRO. Segundo Monteiro, a Embraer está disposta a replicar na Índia a estrutura de sua fábrica em Gavião Peixoto (SP), que inclui dois hangares com montagem estrutural de seções da fuselagem e linha de montagem final. "Estamos dispostos a transferir tudo, o máximo possível", afirmou o executivo ao FlightGlobal. Dependendo dos percentuais de localização exigidos no edital, a Embraer poderá ir além e instalar no país fábricas de componentes estruturais que hoje são fabricados em São Paulo e transportados para Gavião Peixoto.

A linha indiana também poderia atender exportações do C-390 para outros operadores ao redor do mundo. "Acho que a Índia teria interesse nesse tipo de negócio", disse Monteiro. O CEO Francisco Gomes Neto foi mais direto: "Em termos de operações, custo de manutenção e desempenho, acreditamos que é a melhor solução para a Força Aérea Indiana."

Concorrência acirrada: C-130J à frente em presença industrial
O principal rival do C-390 no MTA é o C-130J Super Hercules, da Lockheed Martin. A Força Aérea Indiana já opera 12 exemplares da versão J-30, configurada para apoio a forças de operações especiais, o que confere à Lockheed uma vantagem de familiaridade operacional e logística. A empresa norte-americana tem parceria com a Tata Advanced Systems desde setembro de 2024 para a produção de empenas do C-130J em Hyderabad, peças que abastecem toda a linha global de novas aeronaves do tipo.

Para reforçar sua candidatura, a Lockheed desenvolveu um kit de extensão de alcance para o C-130J ofertado à Índia, atualmente em processo de certificação, voltado a cobrir as vastas distâncias do Oceano Índico e atingir bases avançadas de altitude elevada sem escalas frequentes de reabastecimento. A empresa também afirma ser capaz de adaptar a aeronave com arquitetura aberta para integração de sistemas nacionais indianos.

A Airbus concorre com o A400M, que já tem precedente de produção local pelo programa C295 (montado pela Tata em Vadodara, com 40 dos 56 exemplares encomendados pela Índia a serem fabricados no país). Contudo, fontes da indústria e analistas indianos indicam que o A400M tem sido progressivamente descartado por ser considerado grande e caro demais para os requisitos do MTA, estreitando a disputa para um confronto direto entre o C-390 e o C-130J.

Requisitos operacionais: altitude e carga são diferenciais do C-390
Um dos pontos mais sensíveis da competição é a operação em pistas de altitude elevada e semipreparadas, essencial para bases avançadas em Ladakh e no nordeste indiano, regiões próximas às fronteiras com China e Paquistão. O C-130J tem histórico comprovado nesse ambiente, incluindo missões no Afeganistão e voos históricos no Himalaia durante a Guerra Fria. O C-390, mais pesado e com maior distância de decolagem, poderia estar em desvantagem nesse quesito.

Monteiro, porém, afirma que a Embraer já avaliou a questão diretamente com a FAI. "A aeronave é completamente capaz de atender a esses requisitos", disse. Outro diferencial do C-390 é a capacidade de carga: até 26 toneladas, ante 20 toneladas do C-130J. Esse dado é relevante porque uma das exigências do MTA é a capacidade de transportar o tanque leve Zorawar, de 25 toneladas, na baia de carga, o que excluiria na prática o Super Hercules se a exigência for mantida no edital.

A Embraer aponta taxa de disponibilidade operacional de 93% para a frota de C-390 em serviço (14 aeronaves no Brasil, Portugal e Hungria), em comparação com 60% registrados no C-130J da Guarda Costeira dos EUA e 72% na Força Aérea norte-americana, segundo relatórios de 2025 do Congressional Budget Office e da publicação Air & Space Forces Magazine.

 

Sequência renderizada do C-390 e do tanque leve Zorawar, criada por IA

Cronologia da parceria Embraer-Mahindra
A aproximação entre Embraer e Mahindra tem avançado por etapas desde 2024. Em fevereiro daquele ano, as empresas assinaram o MoU inicial para o MTA. Em outubro de 2025, o acordo evoluiu para uma cooperação estratégica de produção, formalizada na abertura do escritório da Embraer em Nova Délhi. Em fevereiro de 2026, o MRO foi anunciado como componente adicional da proposta. A reportagem do FlightGlobal desta semana revela a disposição de ir além: uma segunda linha de montagem completa do C-390, com potencial para fabricação de componentes estruturais e para servir como base de exportação global.

A Embraer descreveu a Índia como estando em "modo de urgência" para publicar o pedido de proposta (request for proposal, RFP). O processo ainda depende de aprovações de múltiplas instâncias burocráticas indianas, mas a expectativa da fabricante é que o edital seja publicado nos próximos meses.

O C-390 no mercado global
O atual portfólio de pedidos e opções do C-390 soma cerca de 90 aeronaves. Uma vitória no MTA indiano, com 60 unidades confirmadas e possibilidade de expansão para 80, representaria praticamente dobrar o backlog da aeronave e consolidaria o programa como referência global em transporte tático de médio porte. A Embraer projeta entregar seis C-390 em 2026 e atingir uma taxa de até dez aeronaves por ano até 2030 na linha de Gavião Peixoto.

16 junho, 2026

CBC e Paligen firmam aliança estratégica para munição de médio calibre

Acordo anunciado no Eurosatory 2026 fortalece posição da CBC no mercado de defesa dos EUA e amplia portfólio de médio calibre do grupo

Assinatura do acordo entre a CBC Global Ammunition e a Paligen Technologies, com as bandeiras do Brasil e dos EUA sobre a mesa

*LRCA Defense Consulting - 16/06/2026

A CBC Global Ammunition e a Paligen Technologies anunciaram, em 16 de junho de 2026, durante a feira Eurosatory, em Paris, a assinatura de um Acordo de Aliança Estratégica voltado ao segmento de munição de médio calibre. O acordo estabelece um arcabouço de colaboração para que as duas empresas atuem conjuntamente em oportunidades no mercado americano, com foco inicial em programas do governo dos Estados Unidos e em futuras necessidades de munição tática e de treinamento.

A aliança reúne a estrutura verticalizada de produção de munição da CBC, sua escala industrial global e a crescente presença manufatureira nos EUA, com a especialização da Paligen em engenharia avançada, materiais energéticos e integração de sistemas de defesa.

A Paligen Technologies
Sediada em Tampa, Flórida, com operações adicionais no Kentucky e no Texas, a Paligen Technologies é uma empresa americana de manufatura avançada e engenharia voltada aos setores aeroespacial, de defesa, naval e de produção química. A companhia desenvolve materiais energéticos, componentes de precisão e soluções de engenharia que atendem a requisitos críticos de segurança nacional.

Entre os produtos certificados da Paligen estão corpos de bomba e componentes de hardware fornecidos para a Força Aérea e a Marinha dos EUA e para nações aliadas, incluindo ogivas para os programas Small Diameter Bomb (SDB) e Joint Air-to-Surface Standoff Missile (JASSM), ambos fabricados pela empresa há mais de vinte anos. A divisão McCormick Stevenson, integrante da Paligen, oferece capacitação em engenharia mecânica ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento de produtos.

Com experiência declarada no Department of War (DoW, a denominação atual do Departamento de Defesa americano para propósitos de aquisição), a Paligen se posiciona como um elo entre a base industrial de defesa americana e fabricantes estrangeiros de alto volume com capacidade de suprimento verticalizado.

O que o acordo prevê
Segundo o comunicado conjunto, a aliança abrangerá atividades de desenvolvimento de negócios, engenharia, manufatura, qualificação e execução de programas. O foco inicial recai sobre a categoria de médio calibre, que compreende, no jargão OTAN/EUA, cartuchos de 20mm a 40mm, como o 20x102mm, o 25x137mm (utilizado no Bradley), o 30x113mm (helicópteros Apache), o 30x173mm (utilizados em canhões autocannon Bushmaster e em plataformas navais e aéreas) e o 40x53mm para lançadores de granadas.

Nessa faixa de calibre, a demanda americana é considerável e crescente, especialmente à luz das lições operacionais da guerra na Ucrânia, que evidenciou o consumo massivo de munição por sistemas de armas automáticos embarcados em viaturas blindadas de combate, como o Bradley Fighting Vehicle, e em aeronaves como o A-10 Thunderbolt II e o AH-64 Apache. O portfólio de médio calibre da CBC no segmento defesa já inclui versões 20x102mm, 20x128mm, 30x113mm, 30x173mm e 40x53mm.

A expansão da CBC nos EUA
A aliança com a Paligen se insere em um movimento mais amplo de internacionalização acelerada da CBC no mercado americano. Em maio de 2025, a empresa anunciou o lançamento da CBC USA, uma instalação de manufatura de munição em Oklahoma, com investimento de US$ 300 milhões e criação de 350 empregos. A unidade replicará os processos produtivos da CBC e abrangerá a cadeia completa de componentes críticos, incluindo estojos, projéteis, espoletas, pólvora e nitrocelulose.

O portfólio inicial da CBC USA contempla calibres 9mm, 5,56mm, 7,62mm e .50 BMG, voltados a mercados militar, policial, esportivo e comercial. A previsão era de lançamento da obra em fins de 2025, em terreno historicamente utilizado para produção de munição durante a Segunda Guerra Mundial.

Também em junho de 2026, poucos dias antes do Eurosatory, a CBC anunciou uma colaboração com a Shell Shock Technologies (SST), voltada à industrialização e comercialização global da tecnologia de estojo híbrido NAS3 da SST, com integração prevista na planta do Oklahoma. Projetos de co-desenvolvimento, demonstrações militares e participação em feiras como SHOT Show, AUSA e Eurosatory integram o escopo dessa parceria.

Implicações para a CBC brasileira
A Companhia Brasileira de Cartuchos, fundada em 1926 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa, é a empresa-mãe e o núcleo produtivo do grupo CBC Global Ammunition. O desempenho comercial e tecnológico alcançado no exterior tende a impactar a subsidiária brasileira de mais de uma maneira.

Em primeiro lugar, o acesso a programas militares americanos de médio calibre, historicamente dominados por empresas como General Dynamics Ordnance and Tactical Systems e Northrop Grumman, pode abrir à CBC um fluxo de receita expressivo e de alta margem, capaz de financiar investimentos em P&D que beneficiem também a planta brasileira. Programas americanos em andamento no PdM Medium Caliber incluem o desenvolvimento dos projéteis XM1170 (substituto do Mk258 APFSDS-T em 30x173mm), XM1172 (projétil de treinamento correspondente) e munições de detonação em voo (airburst) para combate a alvos aéreos não tripulados, exatamente o tipo de munição que as Forças Armadas brasileiras ainda importam ou não possuem em quantidade suficiente.

Em segundo lugar, o acesso à base tecnológica da Paligen em materiais energéticos e integração de sistemas pode ser aproveitado para modernizar o portfólio de médio calibre da própria CBC brasileira, que atualmente fornece às Forças Armadas nacionais munições para canhões de aeronaves, viaturas blindadas e sistemas navais. A qualificação de novos projéteis, como versões de proximidade ou programáveis, exigiria acesso precisamente ao tipo de know-how que a Paligen possui.

Em terceiro lugar, a aliança fortalece a posição da CBC em negociações de transferência de tecnologia (ToT) e compensações industriais (offsets) associadas a eventuais contratos de defesa entre Brasil e EUA. A consolidação de uma presença industrial americana robusta facilita a celebração de acordos governamentais (G2G) em que a CBC possa figurar como contraparte industrial qualificada nos dois países.

O grupo CBC Global em 2026
A CBC Global Ammunition celebra em 2026 seu centenário. O grupo emprega mais de 3.000 profissionais e produz mais de dois bilhões de cartuchos por ano, com operações no Brasil, EUA, Alemanha e Bélgica. Suas marcas comerciais incluem CBC, Magtech, MEN (Alemanha) e SinterFire (EUA). O grupo detém ainda participações estratégicas na New Lachaussée e na Fritz Werner, empresas especializadas em equipamentos e sistemas de produção de munição. o que lhe confere capacidade verticalizada singular no setor.

Além da expansão orgânica e das marcas próprias, a CBC detém posição acionária relevante no Colt CZ Group SE, grupo tcheco-americano listado na Bolsa de Valores de Praga e, desde abril de 2026, também na Euronext Amsterdam (símbolo “COLT”). A participação da CBC Europe S.à r.l. corresponde a 19,52% do capital registrado e 19,60% dos direitos de voto do grupo, tornando-a seu segundo maior acionista, com assento no conselho de supervisão. A posição resultou da venda da Sellier & Bellot ao Colt CZ Group, concluída em maio de 2024 por uma combinação de US$ 703 milhões em dinheiro e ações. 

O primeiro trimestre de 2026 do Colt CZ Group registrou receita de CZK 7,3 bilhões (alta de 32,7% sobre o mesmo período de 2025), EBITDA ajustado de CZK 2,1 bilhões (+72,1%) e lucro líquido ajustado de CZK 950,6 milhões (+73,9%), o melhor resultado trimestral da história do grupo. O conselho propôs dividendo de CZK 30 por ação, do qual a CBC receberá a parcela proporcional à sua participação. Em maio de 2026, o Colt CZ Group assinou um Memorando de Entendimento com a Frankenburg Technologies, empresa estoniana especializada em mísseis interceptadores de baixo custo para contramedidas C-UAS, reforçando a presença do grupo no segmento de sistemas guiados de alta demanda na Europa.

O CEO da CBC Global Ammunition, Fabio Mazzaro, declarou que a aliança com a Paligen representa um marco no compromisso da empresa com o mercado de defesa americano, ressaltando a combinação entre a escala produtiva da CBC e a presença e experiência técnica da parceira americana. A vice-presidente da Paligen Technologies para Aeroespacial e Defesa, Katie Hartman, afirmou que o acordo representa uma oportunidade de ampliar a resiliência da cadeia de suprimentos e de modernizar o fornecimento de munição para o governo americano.

A parceria foi assinada no Eurosatory, maior feira terrestre de defesa do mundo, realizada em Paris em junho de 2026, o que reforça a vocação da CBC de utilizar grandes eventos multilaterais como plataforma de expansão comercial e de sinalização estratégica para clientes governamentais e industriais.

Embraer e Adani definem Dholera como sede da linha de montagem de jatos regionais na Índia

 

*LRCA Defense Consulting - 16/06/2026

A linha de montagem final (Final Assembly Line), ou FAL, da Embraer na Índia terá sede na Região Especial de Investimento de Dholera (DSIR), em Gujarat. A definição do local, reportada em 16 de junho de 2026 pelo Economic Times, encerra meses de disputa entre dois estados indianos e consolida a aposta da fabricante brasileira no maior mercado emergente de aviação regional do mundo.

Da disputa entre estados à escolha de Gujarat
Desde janeiro de 2026, quando a Adani Defence & Aerospace e a Embraer assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para desenvolver um ecossistema integrado de aeronaves de transporte regional na Índia, dois estados competiam pela FAL: Gujarat, com Dholera, e Andhra Pradesh, com Bhogapuram. Dholera levou vantagem por reunir atributos que o projeto exige: um aeroporto internacional greenfield em fase avançada de desenvolvimento, um parque aeroespacial adjacente e o apoio do governo federal, que vê a iniciativa como âncora do programa Make in India no setor aeronáutico.

A DSIR está sendo construída do zero, próxima a Ahmedabad, como cidade industrial inteligente planejada, concebida para abrigar indústrias de alta tecnologia com infraestrutura dedicada. A Embraer abriu seu escritório em Nova Délhi em outubro de 2025, sinalização prévia do aprofundamento da presença da empresa no país.

O E175 como veículo do Make in India
A aeronave prevista para a FAL é o E175-E1, jato regional de 88 assentos da família E-Jets de primeira geração. O modelo já opera na Índia pela companhia aérea Star Air e é considerado pela Embraer o produto mais adequado para o mercado indiano de conectividade regional, cujo principal vetor de demanda é o programa governamental UDAN (Ude Desh Ka Aam Naagrik), voltado a conectar cidades de médio porte à malha aérea nacional a tarifas subsidiadas. O UDAN completa dez anos em operação.

A Embraer possui hoje cerca de 50 aeronaves em operação na Índia, atendendo à Força Aérea Indiana, agências governamentais, operadores de aviação executiva e a Star Air. Os E-Jets iniciaram operações no país em 2005.

Condicionante central: o compromisso das companhias aéreas
Apesar da definição do local, o projeto mantém uma condicionante crítica. Arjan Meijer, CEO da Embraer Aviação Comercial, declarou na semana passada, durante interação com a imprensa na sede da empresa em São José dos Campos (SP), que a FAL só faz sentido se houver pedidos de companhias aéreas em paralelo.

“Precisamos obter o compromisso das companhias aéreas, porque não há necessidade de instalar uma linha de montagem se não houver pedidos de companhias aéreas em paralelo”, afirmou Meijer, que também qualificou a Índia como um mercado “complexo do ponto de vista da receita”.

A meta, confirmada pelo CEO Francisco Gomes Neto em março de 2026, é obter pedidos de ao menos 200 aeronaves para viabilizar a operação da FAL até 2028. Detalhes sobre volumes de pedidos já confirmados, estrutura de capital da joint venture e cronograma de obras em Dholera não foram divulgados. Embraer e Adani não comentaram o assunto.

Defesa e aviação comercial: dois eixos da estratégia indiana da Embraer
O acordo com o Adani Group não se limita à aviação civil. Em outubro de 2025, as duas empresas firmaram parceria estratégica para produzir o C-390 Millennium, aeronave militar de transporte multimissão da Embraer, na Índia. O país está em processo de licitação para substituir sua frota de transportadores militares, e a Embraer figura entre os concorrentes.

A fabricante brasileira busca fortalecer presença em todos os segmentos do mercado indiano: aviação comercial, defesa, aviação executiva, serviços e suporte, e mobilidade aérea urbana. A parceria com o Adani Group, conglomerado com presença em infraestrutura aeroportuária, MRO e treinamento de pilotos, oferece à Embraer uma plataforma integrada para essa estratégia.

Contexto: precedente do C295 e prazo realista
A referência mais próxima para o projeto é a linha de montagem do C295, aeronave de patrulha e transporte da Airbus, instalada em Vadodara (Gujarat) em parceria com a Tata Advanced Systems Limited (TASL). O governo indiano assinou o contrato de 56 unidades em setembro de 2021; a fábrica foi inaugurada em outubro de 2024 e a primeira aeronave montada no país está prevista para setembro de 2025, quase quatro anos após o acordo. Analistas do setor projetam cronograma semelhante para a FAL da Embraer.

Uma linha de montagem final de aeronave comercial de asa fixa seria inédita na Índia e representaria marco relevante para o programa Aatmanirbhar Bharat (Índia Autossuficiente), com potencial de geração de até 5.000 empregos diretos e indiretos, segundo estimativas do setor, além de efeitos de adensamento na cadeia de componentes aeronáuticos, aviônica e materiais compósitos.

Modirum Group cria subsidiária internacional para comercializar portfólio da Modirum Gespi no exterior

A Modirum International será responsável pelas vendas globais de munições, foguetes e sistemas não tripulados produzidos pela fabricante brasileira, consolidando a estratégia de expansão do grupo finlandês-brasileiro


*LRCA Defense Consulting - 16/06/2026

O Modirum Group anunciou, em 16 de junho de 2026, a criação da Modirum International, nova empresa do grupo destinada a atuar como braço global de vendas, comercialização e logística de defesa. Sediada em Paris, a subsidiária foi apresentada como a representante internacional oficial da Modirum Gespi, fabricante brasileira de origem estratégica classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED) pelo Ministério da Defesa.

A Modirum International concentrará suas atividades em três segmentos principais: munições, foguetes e sistemas aéreos não tripulados (Unmanned Aerial Systems, UAS), incluindo componentes e matérias-primas para fabricação de produtos de defesa. A empresa funcionará como plataforma de intermediação comercial, responsável por estruturar transações, assegurar o abastecimento e garantir entregas a mercados internacionais em conformidade com as regulamentações vigentes.

Segundo o comunicado do grupo, a nova estrutura fortalece a capacidade de oferecer soluções respaldadas diretamente pelo fabricante aos parceiros globais, mantendo aderência às normas internacionais de controle de exportações.

A liderança da Modirum International ficará a cargo de Jussi Tammelin, que assumirá a presidência da subsidiária. Tammelin possui mais de duas décadas de experiência nos setores de defesa e tecnologia, com atuação em liderança executiva, engenharia de sistemas e excelência operacional.

“Este é um marco fundamental para fortalecer nossa posição no mercado internacional de defesa. Ao integrar a excelência industrial da Modirum Gespi à nossa organização global de vendas de defesa e ao unir nossas equipes, parcerias e redes de relacionamento, estamos construindo uma plataforma mais robusta para um crescimento sustentável e para o sucesso de longo prazo”, afirmou Tammelin no comunicado oficial.

 

Da Gespi à Modirum Gespi: uma trajetória de meio século
A empresa que hoje integra o Modirum Group tem raízes profundas na Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Fundada em 1974, a Gespi construiu ao longo de cinco décadas um portfólio diversificado, que inclui foguetes de 70 mm (2,75"), bombas aéreas das séries MK 81, 82, 83 e 84, bombas de exercício BDU-33 e BDU-50, o lança-rojão Hunter e barcos de patrulha blindados, além de serviços de militarização de aeronaves.

No início dos anos 1990, os sócios administradores João Batista M. Scarparo (CEO) e Carlos Augusto Picolini (CFO) assumiram o controle da empresa. Em 2012, a israelense Rafael Advanced Defense Systems adquiriu 40% das ações, prevendo o desenvolvimento de novos sistemas de mísseis no Brasil. A parceria permitiu acordos com a alemã Dynamite Nobel Defence (controlada pela Rafael), possibilitando transferência de tecnologia para a Gespi e a IMBEL no desenvolvimento da Arma Leve Anticarro (ALAC), hoje denominada Hunter.

Em 2019, ao completar 45 anos, os sócios readquiriram as ações detidas pela Rafael, devolvendo à empresa seu status de companhia 100% brasileira. Em setembro de 2024, entretanto, a multinacional finlandesa Modirum Defence adquiriu participação majoritária na Gespi, dando origem à atual denominação Modirum Gespi. A transação foi concluída com todas as aprovações regulatórias necessárias, sem divulgação do valor.

A integração reuniu a expertise em fabricação de hardware e munições da Gespi com as capacidades de inteligência artificial (IA) e comando e controle da Modirum Defence, cujas operações se estendem pela Finlândia, Estados Unidos, Reino Unido, Estônia e Emirados Árabes Unidos.

Expansão da base industrial: aquisição da Ocellott e parceria com a IMBEL
Desde a fusão, a Modirum Gespi ampliou sistematicamente sua base industrial no Brasil. Em abril de 2025, a empresa adquiriu participação majoritária na Ocellott, Empresa Estratégica de Defesa especializada em engenharia eletrônica complexa. O portfólio da Ocellott inclui rádios definidos por software, sistemas de energia, baterias, antenas MAGE (Medida de Apoio à Guerra Eletrônica) e outros subsistemas críticos.

A aquisição foi descrita pela direção da empresa como estratégica para consolidar capacidades críticas sob um único teto e acelerar a entrega de sistemas de defesa integrados. Com a incorporação da Ocellott, a Modirum Gespi passou a ter maior controle sobre subsistemas relevantes para suas plataformas autônomas não tripuladas, incluindo sistemas de enxame. A Ocellott foi posteriormente redenominada e incorporada à marca Modirum Gespi.

Em setembro de 2025, a Modirum Gespi e a IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil) anunciaram o fortalecimento de uma parceria de longa data, com foco no desenvolvimento de soluções voltadas tanto para as Forças Armadas brasileiras quanto para o mercado externo. O acordo prevê compartilhamento de know-how técnico, aprimoramento de produtos, certificação e padronização segundo os mais altos requisitos institucionais e internacionais.

“O fortalecimento desta parceria com a IMBEL marca um passo estratégico importante na trajetória de longo prazo da Modirum Gespi. A integração de nossas competências representa entregar resultados cada vez mais inovadores e um avanço significativo na consolidação de um ecossistema tecnológico de segurança robusto, confiável e ágil”, declarou Elias Silvola, presidente e CEO da Modirum Gespi.

Também em 2025, a empresa recebeu visita da comitiva do Comando Logístico (COLOG) do Exército Brasileiro, chefiada pelo General de Exército Flávio Marcus Lancia Barbosa, Comandante Logístico. Na ocasião, foram apresentadas as capacidades industriais da empresa, reforçando o alinhamento com as prioridades estratégicas do Exército.

Portfólio em evolução: munições inteligentes e sistemas autônomos
Em dezembro de 2025, a Modirum Gespi anunciou o desenvolvimento da munição vagante autônoma Dart, do tipo switchblade, para lançamento em 2026. O sistema tem alcance de 80 km, autonomia de voo de 40 minutos e velocidade de até 130 km/h. Seu desenvolvimento resulta da integração entre a capacidade de fabricação de hardware e munições da Gespi e as soluções de inteligência artificial da Modirum Defence, matriz finlandesa do grupo. Lançado de tubo compacto com asas retráteis, pode operar em modo espera sobre área designada antes de atacar com precisão. Essa tecnologia foi inclusive demonstrada recentemente em ambiente operacional para o Comando do Exército Brasileiro como parte das modernizações de combate da base industrial de defesa do país, durante o 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre 2026 (SSNTFT).

O diferencial do sistema reside na capacidade de operação em enxame: dezenas de unidades poderão ser controladas simultaneamente pelo software de IA denominado SISU AI, que elimina a necessidade de controle humano direto em cada unidade, conferindo maior eficiência e velocidade às operações táticas.

O portfólio em expansão contempla ainda munições convencionais de alta precisão no calibre 155 mm em padrão OTAN, em linha com a demanda crescente por munição de artilharia observada no conflito na Ucrânia e com o interesse de aliados ocidentais em diversificar fontes de suprimento.

A criação da Modirum International representa, portanto, não apenas uma reorganização comercial, mas o desfecho lógico de um ciclo de integração vertical e tecnológica iniciado com a aquisição da Gespi em 2024. Com uma subsidiária dedicada exclusivamente à projeção internacional, o grupo busca converter a capacidade produtiva acumulada no Brasil em contratos de exportação consistentes, num momento em que a demanda global por munições e sistemas não tripulados segue em trajetória ascendente.

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