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01 maio, 2026

ALADA e Atech firmam parceria estratégica para fortalecer a indústria de defesa brasileira no mercado global

Acordo de cooperação entre a estatal aeroespacial e a empresa do Grupo Embraer reforça o modelo G2G e amplia a presença do Brasil no setor internacional de defesa em momento de expansão recorde das exportações  


*LRCA Defense Consulting - 01/05/2026

Na última segunda-feira, 28 de abril, duas das empresas mais estratégicas do setor de defesa e tecnologia brasileiro sentaram-se à mesa na capital federal para selar uma parceria que pode marcar um novo capítulo na projeção internacional da indústria nacional. A ALADA – Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil e a Atech – Negócios em Tecnologias S/A, integrante do Grupo Embraer, assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) na sede da ALADA, em Brasília, formalizando uma cooperação estratégica voltada ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira por meio de negociações governo a governo, o chamado modelo G2G.

O documento foi assinado pelo presidente da ALADA, Sergio Roberto de Almeida, e pelo diretor-presidente da Atech, Rodrigo Persico de Oliveira Padron.

Quem são as signatárias
A ALADA é uma estatal relativamente jovem, mas de origem institucional robusta. Subsidiária da empresa pública NAV Brasil – Serviços de Navegação Aérea S/A, ela foi constituída com base na Lei nº 15.083, de 2 de janeiro de 2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a primeira lei do ano. Concebida como um catalisador do Programa Espacial Brasileiro (PEB), a empresa foi desenhada para identificar oportunidades, facilitar interações e promover a geração de negócios no setor aeroespacial, atuando ainda como representante institucional do Estado brasileiro em negociações internacionais.

A empresa também atua na execução de projetos estratégicos que envolvem o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB) e os lançamentos por meio do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Mais recentemente, ganhou protagonismo adicional ao ser designada pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a conduzir contratos no modelo G2G em nome do Estado brasileiro.

Do outro lado da mesa, a Atech não é uma recém-chegada. Sua história remonta à década de 1980, quando surgiu no âmbito de um programa de transferência de tecnologia na área de Controle de Tráfego Aéreo da Força Aérea Brasileira. Em 2011, a Embraer Defesa e Segurança anunciou a compra de 50% da empresa, e em setembro de 2013 a integração ao Grupo Embraer foi concluída. Com certificação de Empresa Estratégica de Defesa emitida pelo Ministério da Defesa, a Atech atua em áreas como tráfego aéreo, sistemas de comando e controle, sistemas embarcados e simuladores, e já entrega projetos no Brasil e em países da América Latina, Ásia e África.

O peso do modelo G2G
O acordo entre ALADA e Atech se insere num movimento estrutural mais amplo da política de defesa do Brasil. Em março de 2026, o Ministério da Defesa publicou a Portaria GM-MD nº 1.456, que regulamenta a atuação da pasta em operações de exportação e prestação de serviços técnicos relacionados a produtos de defesa brasileiros, com participação de estatais vinculadas em negociações G2G.

A lógica do modelo é simples e já comprovada por grandes potências exportadoras: mesmo que contratos envolvam empresas privadas, a negociação é conduzida diretamente pelo governo do país fornecedor, que atua como garantidor, supervisionando e assegurando a entrega dos produtos. Potências como EUA e França utilizam amplamente esse modelo, e os próprios caças Gripen foram vendidos ao Brasil por meio de um contrato com o governo da Suécia.

No caso brasileiro, um entrave jurídico impedia que o governo representasse diretamente empresas privadas nesse tipo de transação internacional. A solução encontrada foi usar estatais como ponte institucional entre o comprador estrangeiro e a fornecedora privada. É exatamente nesse papel que a ALADA se posiciona.

A empresa foi designada pelo Ministério da Defesa como entidade autorizada a conduzir esse tipo de contratação em nome do Estado brasileiro, consolidando sua posição institucional nesse segmento.

Um acordo no momento certo
O MoU com a Atech chega em meio a um cenário de expansão sem precedentes das exportações de defesa do Brasil. Segundo o Ministério da Defesa, a indústria brasileira somou US$ 1,02 bilhão em exportações autorizadas apenas no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro dos US$ 457 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.

O setor reúne mais de 300 empresas credenciadas e mais de 2.200 produtos catalogados, representa 3,5% do PIB e envolve até 3 milhões de empregos diretos e indiretos. O segmento aeroespacial lidera, respondendo por cerca de 30% das exportações totais, seguido por eletrônicos como radares e sistemas de guerra eletrônica.

Não é a primeira parceria estratégica recente da ALADA. Em abril, durante a Feira Internacional de Defesa e Aeronáutica do Chile (FIDAE), o Ministério da Defesa assinou memorandos de entendimento com a ALADA, a EMGEPRON e a IMBEL para ampliar a segurança jurídica e fomentar operações de exportação de produtos de defesa no modelo G2G. Na mesma ocasião, a ALADA firmou acordo com a Embraer para alavancar plataformas como o KC-390 Millennium e o A-29 Super Tucano em mercados da América Latina e da África.

O que esperar da parceria
Para Rodrigo Padron, o MoU com a ALADA representa mais do que uma formalidade burocrática. "A assinatura deste acordo reforça a relevância da cooperação entre empresas brasileiras no fortalecimento da Base Industrial de Defesa e na ampliação da competitividade do país no mercado internacional", afirmou o dirigente da Atech.

A combinação das competências das duas organizações é estrategicamente complementar. A Atech é responsável pelos sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo e de defesa aérea brasileiro, além de estar presente em projetos como o Programa das Fragatas da Classe Tamandaré, fornecendo soluções para o sistema de gerenciamento de combate e para o sistema integrado de gestão da plataforma. Esse portfólio tecnológico, articulado pelo papel institucional da ALADA como canal G2G, pode abrir portas em mercados onde a credencial estatal pesa tanto quanto a qualidade do produto.

O formato G2G permite integrar políticas públicas e soluções industriais, assegurando prazos, compliance e interoperabilidade. Para a Base Industrial de Defesa, isso reduz o risco de projeto e amplia a previsibilidade de receita.

O acordo entre ALADA e Atech é, nesse sentido, mais um tijolo na construção de uma arquitetura institucional que o Brasil ainda está aprendendo a erguer, mas que, dado o ritmo das exportações e o volume de parcerias sendo firmadas, parece estar ganhando velocidade e consistência. 

Simulador com IA desenvolvido por empresa portuguesa pode transformar o Gripen E em um caça com “copiloto digital”

Projeto liderado pela empresa portuguesa Critical Software, em parceria com a sueca Saab, aposta em inteligência artificial para reduzir carga do piloto e ampliar capacidade de combate 

Imagem meramente representativa

*LRCA Defense Consulting - 01/05/2026

A empresa portuguesa Critical Software está desenvolvendo um avançado simulador de voo baseado em inteligência artificial que poderá mudar significativamente a forma como pilotos de caça operam aeronaves modernas. O sistema, ainda em desenvolvimento, tem como objetivo final viabilizar um “copiloto digital” para o Saab JAS 39 Gripen E, um dos caças mais avançados atualmente em operação.

A iniciativa ocorre em cooperação com a fabricante sueca Saab e integra um esforço mais amplo de evolução tecnológica do Gripen, cuja arquitetura já foi concebida para priorizar software, conectividade e atualizações contínuas.

Um simulador que vai além do treinamento
Diferentemente dos simuladores tradicionais, voltados apenas à formação de pilotos, o sistema em desenvolvimento tem dupla função: treinar operadores humanos e, principalmente, desenvolver algoritmos de inteligência artificial capazes de atuar em cenários de combate aéreo.

Na prática, o ambiente virtual permite a criação de milhares de situações táticas, incluindo combates complexos e cenários extremos, nas quais agentes de IA podem aprender, errar e evoluir sem qualquer risco real. Esse processo é essencial para amadurecer sistemas autônomos antes de sua aplicação em aeronaves operacionais.

O conceito de “copiloto digital”
O objetivo central do projeto é incorporar ao Gripen E um assistente inteligente capaz de atuar como um verdadeiro copiloto virtual. Esse sistema não substituiria o piloto humano, mas funcionaria como um amplificador de suas capacidades.

Entre as funções esperadas estão:

  • Apoio à tomada de decisão em combate
  • Sugestão de manobras táticas em tempo real
  • Gerenciamento de sensores e fusão de dados
  • Identificação e priorização de ameaças
  • Assistência no emprego de armamentos

A proposta é reduzir significativamente a carga cognitiva do piloto, permitindo que ele se concentre nos aspectos mais críticos da missão.

Testes já avançam para o mundo real
Embora o simulador da Critical Software ainda não esteja concluído, a base conceitual do projeto já começa a se materializar em testes práticos conduzidos pela Saab.

Em experiências recentes, sistemas de inteligência artificial foram embarcados em voos reais do Gripen E, demonstrando capacidade de executar manobras e auxiliar o piloto em decisões de combate. Esses testes indicam que a transição do ambiente virtual para a operação real está em curso, ainda que de forma gradual e controlada.

Portugal ganha espaço na indústria de defesa
O envolvimento da Critical Software reforça o papel de Portugal na cadeia global de defesa, especialmente no segmento de software crítico. A empresa já possui histórico em setores como aeroespacial, energia e sistemas de missão crítica, e agora amplia sua atuação para soluções de inteligência artificial aplicadas ao combate aéreo.

Esse movimento acompanha uma tendência global: o valor estratégico dos sistemas militares está migrando do hardware para o software, especialmente para algoritmos capazes de processar grandes volumes de dados e tomar decisões em tempo real.

Uma nova era no combate aéreo
O desenvolvimento de um copiloto baseado em IA sinaliza uma transformação mais ampla na aviação de combate. Em vez de operar isoladamente, o piloto passa a dividir o cockpit com uma inteligência artificial capaz de analisar cenários complexos em frações de segundo.

Especialistas apontam que essa integração pode redefinir o conceito de superioridade aérea, tornando a capacidade de processamento e decisão tão importante quanto velocidade, alcance ou poder de fogo.

Se bem-sucedido, o projeto liderado pela Critical Software e pela Saab poderá colocar o Gripen E entre os primeiros caças do mundo a operar com um verdadeiro “copiloto digital”, um passo decisivo rumo à próxima geração de sistemas de combate aéreo.

30 abril, 2026

Avibras Aeroco: renasce a maior empresa de defesa do Brasil

Sob a liderança de Sami Youssef Hassuani,  ASTROS, MTC-300 e MTB definirão a nova era do poder de fogo brasileiro 


*LRCA Defense Consulting - 30/04/2026

A empresa que fabricou o míssil mais lucrativo já produzido no Brasil, capaz de saturar áreas inimigas a dezenas de quilômetros de distância e vendido por mais de US$ 1 bilhão apenas entre 1982 e 1987, passou os últimos quatro anos à beira da falência, com trabalhadores sem salário, credores à porta e potências estrangeiras circulando à espera de um aceno. Nesta quinta-feira (30/04), a Avibras Aeroco anunciou oficialmente o início de suas operações, encerrando um dos capítulos mais turbulentos da história da indústria de defesa brasileira.

A nova empresa surge das cinzas da Avibras Indústria Aeroespacial, fundada em 1961 em Jacareí, interior de São Paulo, e que chegou ao início desta década completamente estrangulada financeiramente. Constituída com capital privado brasileiro e governança renovada, a Avibras Aeroco herda o portfólio tecnológico, os contratos estratégicos e, sobretudo, o legado de décadas de engenharia aeroespacial que tornou o Brasil um ator singular no tabuleiro global de defesa.

O colapso
A trajetória que levou à criação da Avibras Aeroco começa com o colapso financeiro que se aprofundou a partir de 2020, quando uma combinação de redução de encomendas governamentais, atrasos em contratos internacionais e endividamento acelerado tornou insustentável a operação da empresa. Em março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial com dívidas declaradas de R$ 394 milhões, valor que, segundo estimativas posteriores, chegaria a superar R$ 1,5 bilhão quando somados os passivos com trabalhadores, fornecedores e órgãos públicos.

O impacto humano foi imediato e doloroso. Cerca de 900 funcionários ficaram sem receber salários por um período que se estendeu por mais de 28 meses, levando a uma greve histórica que paralisou a fábrica a partir de setembro de 2022. No auge, a empresa havia empregado 6.000 pessoas; no momento do colapso, operava com uma fração disso. Ao longo de 2024 e 2025, três grupos estrangeiros demonstraram interesse em adquirir ou financiar a companhia: o conglomerado de defesa chinês Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries. O interesse estrangeiro acendeu o alerta em Brasília e no Exército. A Avibras não era apenas uma empresa em dificuldades, era detentora de tecnologias de propulsão e integração de sistemas que países desenvolvidos há décadas tentam restringir a seus aliados mais próximos.

A disputa pela soberania
O risco de que a empresa fosse vendida a um grupo estrangeiro galvanizou uma reação interna. O governo federal chegou a estudar um plano de resgate com R$ 600 milhões, sendo metade de capital privado e metade de financiamento público via Finep e BNDES, mas o modelo não se concretizou na forma planejada.

Quem deu o passo decisivo foi o Fundo Brasil Crédito, que havia se tornado o principal credor da empresa e elaborou um plano alternativo de reestruturação. O plano foi aprovado por 99,2% dos credores presentes na Assembleia Geral. Em agosto de 2025, a Avibras passou por uma troca de controle e inaugurou uma nova gestão focada na implementação do plano.

Em março de 2026, dois marcos jurídicos fundamentais foram alcançados. Em 10 de março, o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou, por unanimidade, todos os recursos contra o plano de recuperação judicial, mantendo-o válido em sua integralidade. No dia seguinte, os trabalhadores aprovaram, em assembleia sindical, a proposta de pagamento da dívida trabalhista de R$ 230 milhões em até quatro anos, encerrando uma paralisação histórica de 1.280 dias.

A entrada do empresário Joesley Batista, controlador da J&F, holding que detém a JBS, a maior processadora de carnes do mundo, completou o quadro de financiamento. Batista assinou contrato para participar de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, tornando-se um dos investidores da retomada. Segundo apuração do jornal O Estado de S. Paulo, ele havia condicionado sua participação exatamente ao cumprimento do acordo trabalhista, condição que se concretizou no mês de março.

O que é a Avibras Aeroco
A nova empresa que emerge desse processo é constituída como uma entidade jurídica distinta, com "bases sólidas de governança, de estrutura financeira e de operação", conforme seu comunicado de lançamento. Ela reúne os ativos estratégicos e o portfólio tecnológico da antiga Avibras, mas nasce sem o peso do passivo que estrangulou a predecessora.

À frente, como Diretor-Presidente, está Sami Youssef Hassuani (foto ao lado), engenheiro com mais de 40 anos de trajetória nos setores de defesa e aeroespacial, e figura já conhecida e respeitada da empresa. Hassuani havia presidido a antiga Avibras e esteve associado ao Fundo Brasil Crédito durante o processo de reestruturação. Sua presença sinaliza continuidade técnica e conhecimento profundo dos contratos e relações institucionais que a empresa mantém com o Exército Brasileiro.

"Agregar consistência e visão estratégica ao negócio é fundamental para o desenvolvimento da Avibras Aeroco, especialmente em um setor que exige planejamento de longo prazo, relações de confiança e continuidade nas parcerias. Acredito na importância de alinhar tecnologia e propósito, e de reforçar o papel das soluções desenvolvidas em função das necessidades operacionais e estratégicas de nossos clientes", declarou Hassuani no comunicado de lançamento.

Conheça mais sobre o Presidente da Avibras Aeroco nesta matéria: "Sami Youssef Hassuani: o arquiteto da resiliência e o futuro da Avibras".

O legado tecnológico e os novos programas
A razão pela qual tantos atores nacionais e estrangeiros, públicos e privados, disputaram o controle da Avibras está inscrita no portfólio de tecnologias que a empresa desenvolveu ao longo de décadas.

O carro-chefe é o Sistema de Artilharia ASTROS (Artillery Saturation Rocket System), lançador múltiplo de foguetes desenvolvido nos anos 1980 e comprovado em combate em múltiplos conflitos, das Guerras do Golfo ao uso pela Arábia Saudita contra alvos iraquianos em 1991. O sistema foi exportado para Iraque, Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Angola, Malásia e Indonésia, entre outros países. Só entre 1982 e 1987, as vendas do ASTROS II totalizaram US$ 1 bilhão, tornando-o a arma mais lucrativa já produzida pela Avibras e lançando o Brasil ao posto de sexto maior exportador de armas do mundo naquele período.

A versão mais moderna, o ASTROS 2020, está no centro de um dos projetos de modernização mais ambiciosos já anunciados pelo Exército Brasileiro. Em março de 2026, o Exército oficializou a transformação do programa ASTROS no que passa a se chamar "FOGOS", uma plataforma multidomínio que integra artilharia de foguetes, mísseis de cruzeiro e um inédito sistema de defesa antiaérea contra drones e mísseis, com investimentos de R$ 3,4 bilhões previstos para o período 2026–2031. Esse contexto é inseparável do novo marco legal que permite excluir até R$ 30 bilhões do arcabouço fiscal para investimentos em defesa.

No horizonte imediato da Avibras Aeroco estão dois programas críticos. O primeiro é o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de 300 quilômetros, precisão circular inferior a 9 metros e capacidade de voar a baixa altitude para evitar sistemas de defesa, o que coloca o Brasil em um seleto grupo de países com essa tecnologia. O segundo é o Míssil Tático Balístico (MTB), com alcance superior a 100 quilômetros, evolução do sistema S-80 da antiga linha de produtos.

Ambos os programas são prioritários para o Exército. A retomada imediata das operações da nova empresa terá o MTC-300 como foco central.


O contexto geopolítico
O ressurgimento da Avibras acontece em um momento em que o mercado global de defesa experimenta uma expansão sem precedentes desde o fim da Guerra Fria. A invasão russa da Ucrânia em 2022 acelerou o rearmamento europeu e redefiniu percepções de segurança em todo o mundo. Países que antes hesitavam em investir em capacidades militares próprias, hoje competem por acesso a tecnologias de propulsão, sistemas de mísseis e plataformas de lançamento.

Nesse cenário, as capacidades que a Avibras Aeroco detém, em especial a expertise em propulsão de foguetes e a integração de sistemas complexos, tornam-se ainda mais raras e valiosas. A transferência desse tipo de conhecimento é estritamente controlada por tratados internacionais e regimes de controle de exportação como o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), do qual o Brasil é membro. Isso significa que países que querem desenvolver capacidades similares não têm a opção de simplesmente comprá-las no mercado aberto: precisam de parceiros que já as possuam e que estejam dispostos a compartilhá-las, ou precisam adquirir as empresas que as detêm.

Foi precisamente esse cálculo que orientou o interesse de grupos como o Norinco chinês e a saudita Black Storm na Avibras durante os anos de crise. E foi esse mesmo cálculo que motivou a resistência brasileira a uma eventual venda a interesses estrangeiros.

Desafios pela frente
Apesar do alívio que o anúncio de hoje representa, analistas do setor alertam que a retomada não será trivial. O BTG Pactual, por exemplo, contesta judicialmente o plano de reestruturação liderado pelo Fundo Brasil Crédito, alegando que ativos dados como garantia no processo foram comprometidos pelo acordo; o banco cobra cerca de R$ 40 milhões. Há também a questão dos R$ 300 milhões de financiamento público via Finep, BNDES ou PAC, que não foram concluídos, e que poderiam compor a segunda metade do plano original de capitalização.

A pergunta mais profunda permanece em aberto: conseguirá uma empresa de defesa de capital essencialmente privado manter a consistência de investimento que projetos de longo prazo de desenvolvimento de mísseis exigem? Diferentemente de setores de consumo, onde o mercado fornece sinais rápidos de retorno, programas como o MTC-300 exigem décadas de desenvolvimento, relações institucionais profundas e um Estado disposto a ser cliente fiel e de longo prazo.

É justamente essa equação que Sami Hassuani terá de resolver à frente da Avibras Aeroco, com a história da antiga empresa como lição e o interesse renovado das Forças Armadas como seu principal trunfo. Mas Sami tem capacidade, conhecimento e determinação suficientes para liderar esse processo com as melhores chances de êxito.

Bem-vinda, Avibras Aeroco!

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