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08 julho, 2026

T-BOT, robô da Treffer, participa de testes operacionais da Marinha do Brasil em Furnas

Plataforma robótica nacional, fabricada por empresa recém-credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), foi avaliada em cenários de alto risco durante a Operação Furnas 2026, em Minas Gerais 


*LRCA Defense Consulting - 08/07/2026

O robô terrestre T-BOT, desenvolvido pela empresa mineira Treffer e recentemente incorporado pela Marinha do Brasil, participou de testes operacionais realizados durante a Operação Furnas 2026, no Lago de Furnas (MG). A informação foi divulgada pela própria fabricante em 7 de julho, em matéria publicada no site institucional da empresa. Segundo a Treffer, a plataforma foi empregada na validação de suas capacidades em cenários de alto risco, apoiando missões de reconhecimento remoto, inspeção de áreas de difícil acesso e apoio a operações de identificação e neutralização de artefatos explosivos.

De acordo com a empresa, o emprego do T-BOT integra a estratégia da Marinha de incorporar tecnologias capazes de ampliar a segurança das equipes e a eficiência das operações, permitindo que atividades potencialmente perigosas sejam executadas remotamente e reduzindo a exposição de militares a situações de risco.

Como foram os testes
Os exercícios em Furnas submeteram o T-BOT a diferentes desafios de mobilidade, buscando reproduzir condições próximas às de missões reais, segundo relato da Treffer. Entre os testes estiveram deslocamentos em terrenos irregulares, rampas, trechos de lama e vegetação, além de obstáculos naturais e artificiais. Além da avaliação de mobilidade, o equipamento foi empregado em atividades de aproximação segura, reconhecimento remoto e apoio a equipes especializadas na neutralização de artefatos explosivos, funções conhecidas no jargão militar pela sigla em inglês EOD (explosive ordnance disposal).

O que é o T-BOT
Desenvolvido no Brasil, o T-BOT é uma plataforma robótica modular projetada para aplicações em defesa, segurança pública, mineração, óleo e gás e outros ambientes de alto risco. Sua arquitetura permite operação sobre rodas ou esteiras, o que possibilita adaptar o equipamento às características de cada missão e às diferentes condições de terreno.

Entre as características do robô estão a operação remota, com possibilidade de evolução para funções autônomas supervisionadas, mobilidade em diferentes tipos de terreno, autonomia de até oito horas e capacidade para transportar cargas superiores a 100 kg. A plataforma também conta com integração a câmeras HD, sensores embarcados e braço robótico para manipulação remota de objetos, segundo especificações divulgadas pela fabricante.
 

Uma fabricante recém-chegada ao grupo das EED
A Treffer, sediada em Belo Horizonte, atua na importação e distribuição de equipamentos de automação, robótica e mineração, além de fabricar robôs autônomos próprios, caso do T-BOT. Em janeiro deste ano, a empresa obteve do Ministério da Defesa a certificação de Empresa Estratégica de Defesa (EED), condição prevista na Lei nº 12.598/2012 para pessoas jurídicas sediadas no país que desenvolvam produtos de defesa com tecnologia própria ou em parceria com instituições científicas nacionais.

A certificação como EED abre à empresa a possibilidade de participar de licitações restritas a fornecedores credenciados, acesso a regimes tributários especiais e a linhas de financiamento voltadas a projetos de defesa, além de cobertura de crédito à exportação por meio do Fundo de Garantia à Exportação (FGE). Para o setor, a Treffer soma-se ao grupo ainda reduzido de empresas nacionais dedicadas a plataformas robóticas terrestres com essa credencial.

A Operação Furnas 2026
A participação do T-BOT ocorreu no âmbito da Operação Furnas 2026, exercício conduzido pelo Corpo de Fuzileiros Navais na região do Lago de Furnas, em Minas Gerais, iniciado em 22 de junho e que mobiliza cerca de 2 mil militares, veículos blindados, aeronaves e observadores de países parceiros. O exercício reúne treinamento de operações ribeirinhas, missões de paz e apoio à defesa civil, e vem sendo utilizado pela Marinha como ambiente de validação prática de sistemas desenvolvidos por empresas da Base Industrial de Defesa (BID), tendência que já havia colocado em teste, na mesma edição, o simulador de tiro do míssil MAX 1.2 AC, da SIATT.

Em edição anterior do mesmo exercício, a Operação Furnas 2025, a Marinha já havia utilizado o ambiente para finalizar os testes de lançamento de seu primeiro drone tático de ataque, desenvolvido internamente pelo Batalhão de Combate Aéreo do Corpo de Fuzileiros Navais. A recorrência do uso de Furnas para validação de novos equipamentos reforça o papel do exercício como laboratório de inovação da Força.

Não é o primeiro contato do T-BOT com a Marinha
O emprego em Furnas não é a primeira aparição do T-BOT junto à Força. Em junho deste ano, o robô já havia sido utilizado por Fuzileiros Navais em treinamento realizado no Rio de Janeiro e em São Gonçalo, no âmbito da preparação de tropas para certificação da Organização das Nações Unidas (ONU) em missões de paz, segundo divulgação anterior da própria Treffer.

O que ainda não foi confirmado
Nem a Treffer nem a Marinha do Brasil divulgaram, até a publicação desta matéria, valores ou quantidade de unidades envolvidas na incorporação do T-BOT pela Força, tampouco a modalidade contratual da aquisição. As informações sobre os testes em Furnas têm como fonte exclusiva o material divulgado pela fabricante; a reportagem não localizou, até o momento, nota oficial da Marinha sobre o episódio específico.

Embraer leva o Ipanema 203 à Exposición Rural, na Argentina, em novo passo de internacionalização

Avião agrícola movido a etanol participa pela primeira vez do maior evento do agronegócio argentino, após acordo para produção de etanol no país e certificação recente no Paraguai 


*LRCA Defense Consulting - 08/07/2026

A Embraer confirmou, em comunicado divulgado nesta quarta-feira (8), que apresentará o Ipanema 203 pela primeira vez na 138ª Exposición Rural, um dos eventos de agronegócio mais tradicionais da América Latina. O evento ocorre de 16 a 26 de julho, no predio ferial de Palermo, em Buenos Aires, e reúne produtores, empresários e técnicos de toda a região.

A participação argentina integra a estratégia da fabricante brasileira de ampliar a presença internacional do Ipanema 203, avião agrícola líder de mercado no Brasil e único do mundo movido integralmente a etanol. Segundo a empresa, mais de 1.700 unidades já foram entregues, o que garante à aeronave papel de destaque entre operadores que buscam baixo custo operacional, alta produtividade e precisão de aplicação.

Durante o evento, a Embraer participará de um painel com outros líderes do setor para discutir o futuro da aplicação aérea inteligente e as tecnologias emergentes voltadas ao aumento da produtividade agrícola. Para Sany Onofre, líder da área de Aviação Agrícola da Embraer, a presença na Exposición Rural reforça a estratégia de expansão em mercados chave para o desenvolvimento da aviação agrícola regional.

Acordo para produção de etanol na Argentina
A movimentação da Embraer na Argentina não se limita à exposição. A empresa avançou recentemente ao assinar um Memorando de Entendimento (MoU) com a Essential Energy Holding, empresa especializada em soluções de eficiência energética, e com a Bioenergías Agropecuaria, do mesmo grupo, responsável pela produção de biocombustíveis. O acordo prevê estudos de viabilidade para produção e distribuição de etanol destinado a futuros operadores do Ipanema no país.

Paraguai já opera o Ipanema
Em paralelo, a companhia também anunciou a certificação do Ipanema 203 no Paraguai, concedida pela Direção Nacional de Aeronáutica Civil (DINAC) em dezembro de 2025, o que abre caminho para a operação em maior escala da aeronave no país vizinho. A homologação paraguaia foi apresentada pela Embraer como o primeiro passo de uma estratégia mais ampla de internacionalização da aviação agrícola brasileira na América Latina, com Uruguai e Argentina já mapeados para os próximos movimentos.

Desempenho e sustentabilidade
Movido a etanol, o Ipanema 203 pulveriza mais de 200 hectares por hora, com desempenho equivalente a quatro grandes pulverizadores terrestres operando simultaneamente. Segundo a Embraer, a aplicação aérea uniforme evita danos às plantações causados por equipamentos terrestres e reduz a disseminação de pragas pelo contato com o solo, o que pode elevar a produtividade em até 15 sacas por hectare, a depender do tipo de cultura e das condições de operação.

Desde a certificação do modelo a etanol, em 2004, o Ipanema já evitou a emissão de mais de 28 milhões de toneladas de CO2, uma média de 1,4 milhão de toneladas por ano, segundo dados históricos divulgados pela fabricante.

07 julho, 2026

Visita do comandante da Aeronáutica à Mac Jee reforça elo com o 14-X e outros programas estratégicos

Presença do Alto Comando da FAB nas instalações da empresa de São José dos Campos ocorreu no mesmo dia da inauguração do túnel hipersônico T5, e ganha novo significado após declarações do presidente do conselho da empresa sobre um míssil antiaéreo de médio alcance derivado do MAA-1B e um MAR-1 com alcance estendido



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LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

O Grupo Mac Jee recebeu, em 1º de julho de 2026, em suas instalações de São José dos Campos, o tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, comandante da Aeronáutica. A comitiva incluiu o tenente-brigadeiro do ar Valter Borges Malta, comandante-geral de Apoio da Força Aérea Brasileira (COMGAP), o tenente-brigadeiro do ar Mauro Bellintani, diretor-geral do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), e o major-brigadeiro do ar Eric Breviglieri, vice-diretor do mesmo órgão (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial). Em publicação no LinkedIn, a empresa descreveu a visita como reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo grupo e classificou a presença do Alto Comando como reforço à cooperação entre Forças Armadas, base industrial de defesa e centros de inovação tecnológica do país. Durante o encontro, a Mac Jee apresentou capacidades industriais, projetos estratégicos e investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Dois eventos, uma só data
A escolha do dia não parece casual. Também em 1º de julho, a Força Aérea Brasileira inaugurou, no Instituto de Estudos Avançados (IEAv), em São José dos Campos, o Túnel de Choque Hipersônico T5, estrutura de 50 metros destinada a ensaios em condições superiores a Mach 5. O equipamento foi concebido para apoiar o Projeto Estratégico PROPHIPER, conduzido pelo IEAv e financiado pelo Comando da Aeronáutica, cujo objetivo é desenvolver o veículo hipersônico 14-X, com propulsão scramjet integrada à fuselagem. A própria Mac Jee é parte interessada nesse programa: a empresa desenvolve o RATO-14X, veículo acelerador que deve colocar o 14-X em condições para futuros ensaios em voo, em colaboração com o IEAv, o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A Revisão Preliminar de Projeto do RATO-14X foi concluída nos dias 2 e 3 de junho, poucas semanas antes da visita do Alto Comando. O lançamento do 14-X está previsto para o fim de 2027, no Centro Espacial de Alcântara.

 

Parcerias já em curso com a FAB
A relação entre a Mac Jee e a Força Aérea não se limita ao programa hipersônico. Em novembro de 2025, a empresa adquiriu, da extinta Mectron, em parceria com a FAB, a propriedade intelectual dos mísseis MAR-1, de antirradiação, e MAA-1B, ar-ar de curto alcance, ambos hoje sob gestão da companhia sediada no Vale do Paraíba. Em 12 de junho, a Mac Jee também esteve entre as empresas que assinaram protocolos de intenção com o Comando da Aeronáutica durante o 1º Encontro de Inovação Aeroespacial (INOVAERO), na Base Aérea de Salvador, no âmbito do Parque Industrial Tecnológico Aeroespacial da Bahia (PITA-BA), evento que reuniu o ministro da Defesa e o próprio comandante Damasceno.

Fundada em 2007, com capital cem por cento nacional e fábricas em São José dos Campos e Paraibuna, a Mac Jee reúne hoje as empresas Mac Jee Defesa, Mac Jee Tecnologia e Equipaer. Seu portfólio inclui munições aéreas das séries MK e BLU, o kit de guiagem de precisão Dagger, o sistema lançador de foguetes Armadillo, espoletas eletrônicas HiRel, o drone kamikaze Anshar e linhas de produção de materiais energéticos como TNT, RDX e HMX.

A frente MBDA e o que ela pode significar
A visita ao Alto Comando também ocorre em meio a um movimento mais amplo de aproximação da Mac Jee com fabricantes estrangeiros. Em 29 de maio, a empresa assinou memorando de entendimento com a MBDA, maior grupo europeu de mísseis, formalizando um diálogo iniciado no Paris Air Show de 2023. Entre os eixos de convergência citados pelas próprias empresas estão a propulsão hipersônica, área na qual a MBDA desenvolve o projeto europeu HYDIS (Hypersonic Defence Interceptor System). As competências consolidadas em materiais energéticos e propulsão sólida, exibidas pela Mac Jee na sua trajetória recente, foram apresentadas no AUSA Global Force Symposium 2026, em Huntsville, Alabama.

 

Possíveis novos capítulos
Um eixo que pode ganhar relevância a partir da aproximação com o Alto Comando é o de defesa aérea multicamada e combate a drones. A Mac Jee já mantém memorando com a norte-americana MSI Defense Solutions para integrar o foguete guiado Armadillo, calibre de 70mm, ao sistema EAGLS de combate a aeronaves não tripuladas, tema que dialoga diretamente com as lacunas de defesa antiaérea de curto alcance hoje discutidas no âmbito do Exército Brasileiro. Outra frente em aberto é o Anshar, drone kamikaze de fabricação própria apresentado no Dubai Airshow de 2023, com alcance declarado de até 180 quilômetros e uma hora de autonomia de voo, mas sem contrato público confirmado com a FAB até o momento.

De fornecedora de componentes a desenvolvedora de sistemas completos
A visita do Alto Comando ganha um significado adicional à luz de declarações do próprio presidente do conselho da Mac Jee, Simon Jeannot, em vídeo institucional (abaixo) gravado durante a Eurosatory 2026, feira de defesa terrestre realizada recentemente em Paris. 

Míssil ar-ar de quarta geração MAA-1B com alcance de 40 quilômetros. Ar-ar ou antiaéreo?
Ao apresentar o portfólio da empresa, Jeannot afirmou que o míssil ar-ar de quarta geração desenvolvido com a FAB (referência ao MAA-1B, já testado em nível de maturidade tecnológica TRL 7 e com produção iniciada) está servindo de base para uma nova família de mísseis antiaéreos de médio alcance, equipada com propulsor mais longo e alcance de 40 quilômetros.

O MAA-1B, apelidado Piranha II, é uma evolução do MAA-1A e tem origem no americano AIM-9 Sidewinder, guardando semelhanças conceituais com o israelense Python 4, da Rafael. Originalmente concebido pela extinta Mectron em parceria com a Embraer e o DCTA, é um míssil de curto alcance com guiamento infravermelho de sensor duplo, alta manobrabilidade e resistência a contramedidas como flares, com cerca de 2,8 metros de comprimento e 89 quilos, velocidade próxima de Mach 3,5 e alcance original de até 12 quilômetros, empregado a partir de caças F-5M em testes operacionais. 

É justamente esse perfil de manobrabilidade e guiamento por infravermelho, adequado ao combate contra alvos ágeis a curta distância, que torna o MAA-1B uma base tecnológica plausível para um interceptador de curto a médio alcance, categoria que depende de mísseis capazes de reagir rapidamente a ameaças de baixa altitude, como aeronaves tripuladas, drones e mísseis de cruzeiro. 

Jeannot, porém, não especifica qual seria a plataforma de lançamento dessa nova família: sua fala não menciona uma viatura, um lançador terrestre ou qualquer outro vetor de solo, tampouco descarta a manutenção do lançamento a partir de caças, como no MAA-1B original. Vale registrar, no entanto, que o termo por ele empregado, "mísseis antiaéreos", costuma ser reservado, no vocabulário do setor de defesa, a sistemas de defesa aérea de solo (os chamados SAM, na sigla em inglês), em contraposição a "ar-ar", usado para mísseis lançados por aeronaves contra alvos também aéreos. 

Essa escolha de palavras abre espaço para a hipótese de uma versão de fato destinada a emprego terrestre (SAM), mas, na ausência de confirmação explícita sobre o lançador, também não se pode descartar que se trate simplesmente de uma versão aperfeiçoada do próprio míssil ar-ar, com maior alcance de engajamento contra alvos aéreos.

 

Míssil antirradiação 
MAR-1 com alcance superior a 100 quilômetros
Segundo o dirigente, o MAR-1 também está sendo estendido: partindo de um alcance de referência de 70 quilômetros, citado por ele no vídeo, a empresa desenvolve uma versão com propulsor maior capaz de superar os 100 quilômetros.

O MAR-1 é o primeiro míssil antirradiação concebido no Brasil, também originado no fim dos anos 1990 em parceria entre a Mectron e o DCTA. Trata-se de um míssil ar-terra tático do tipo fire-and-forget ("dispare-e-esqueça"), com guiamento passivo por radar, estrutura de cerca de 4 metros e 266 quilos, ogiva de 90 quilos e materiais que reduzem sua assinatura de radar, empregado a partir de aeronaves como AMX, F-5M e Gripen E/F. Sua função é localizar e atacar radares e sistemas de defesa antiaérea inimigos em missões de supressão de defesas aéreas (SEAD), abrindo corredores de penetração para outras aeronaves de combate; o míssil já foi exportado ao Paquistão, integrado aos caças Mirage ROSE e ao JF-17. 
 
Na versão estendida, Jeannot associou o novo alcance a uma antena de banda larga descrita como capaz de cobrir a maior parte do espectro de frequências utilizado por radares, permitindo ao míssil da Mac Jee, segundo o dirigente, detectar e atacar uma gama mais ampla de sistemas inimigos. Esse tipo de antena de banda larga é o componente central de qualquer míssil antirradiação: é ela quem localiza a emissão do radar alvo e guia o míssil até a fonte, de forma análoga ao papel do buscador (seeker) em outras famílias de mísseis desse tipo, como o norte-americano AGM-88 HARM. Ampliar a cobertura de frequências da antena significa, na prática, tornar o míssil capaz de atacar uma variedade maior de radares e sistemas de defesa aérea adversários, incluindo modelos mais modernos que operam em bandas menos usuais. Jeannot classificou essa tecnologia de antena como exclusiva e rara no mundo, sob controle brasileiro, argumento que a empresa já vinha utilizando para posicionar o MAR-1 como ativo estratégico de soberania nacional.

Linha de mísseis livre de restrições ITAR
Jeannot também enquadrou toda a linha de mísseis da empresa como livre de restrições ITAR, o regime de controle de exportação de defesa dos Estados Unidos, reforçando o discurso de soberania tecnológica que a Mac Jee já vinha associando a outros produtos, como os materiais energéticos fornecidos à Arábia Saudita. 

 
Trajetória de transformação e aposta da FAB na empresa
Tomado em conjunto com a visita de 1º de julho, o anúncio de Jeannot sugere uma trajetória de transformação: de fornecedora de componentes e materiais energéticos, a Mac Jee caminha para se firmar como desenvolvedora de sistemas de mísseis completos, incluindo uma possível frente de defesa antiaérea que, até então, não fazia parte do que a empresa divulgava publicamente sobre o MAA-1B. Até o fechamento desta matéria, porém, nem a Mac Jee havia detalhado prazos, contratos ou nomes oficiais de programa para o míssil antiaéreo, nem a publicação sobre a visita do Alto Comando mencionava desdobramentos concretos além do encontro institucional.

Ainda assim, é difícil minimizar o peso simbólico do gesto. Não é todo dia que uma empresa de capital nacional recebe, ao mesmo tempo, o comandante da Aeronáutica, o comandante-geral de Apoio e toda a cúpula do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial em suas próprias instalações, e justamente no dia em que a FAB inaugurava um túnel hipersônico construído para testar tecnologia da qual a própria Mac Jee é parte interessada. 

No jogo institucional da base industrial de defesa brasileira, esse tipo de visita costuma funcionar como reconhecimento explícito a um parceiro que ganhou peso estratégico, sobretudo para uma empresa que, em poucos meses, deixou de ser apenas fornecedora de componentes e coadjuvante em programas de terceiros para se posicionar como protagonista de uma linha própria de mísseis ar-ar, antirradiação e, possivelmente, antiaéreos.

Se essas movimentações (a aquisição do MAR-1 e do MAA-1B, o avanço do RATO-14X, o memorando com a MBDA e o anúncio de Jeannot na Eurosatory) se confirmarem como trajetória consistente, e não apenas como sequência de anúncios pontuais, a visita de 1º de julho poderá ser lembrada menos como um evento protocolar e mais como o momento em que o Alto Comando da FAB sinalizou publicamente sua aposta na empresa.

IMBEL apresenta nova geração de produtos durante troca da presidência na sede em Brasília

Lançamentos abrangem munições, fuzis e sistema de comando e controle para viatura Guaicurus, enquanto pistola striker fired e rádio Rondon seguem em desenvolvimento 


*LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

No dia 1º de julho, no auditório da Secretaria de Economia e Finanças (SEF), no Quartel General do Exército, em Brasília, a Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) uniu a cerimônia de transmissão do cargo de diretor-presidente a uma apresentação de novos produtos e projetos em desenvolvimento. A solenidade foi presidida pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general de exército Marcos Antonio Amaro dos Santos, e marcou a passagem do cargo do general de divisão Ricardo Rodrigues Canhaci para o general de divisão Flávio Mayon Ferreira Neiva, que antes ocupava a função de subcomandante logístico do Exército.

Antes da cerimônia de posse, no espaço Gen Ex Leônidas Pires Gonçalves, também nas dependências da SEF, a IMBEL reservou um evento específico para mostrar o resultado de seus projetos de inovação nos eixos de munições, explosivos e propelentes, armamento e comando e controle. Entre os produtos já prontos para comercialização, a empresa lançou duas novas espoletas de ogiva de percussão para o canhão de 90mm e novas munições de artilharia nos calibres 105mm e 155mm, além de munição para morteiro de 120mm. Também foram apresentados o tiro de 105mm de exercício, destinado aos carros de combate Leopard e M-60, e grãos propelentes para míssil anticarro.

A linha de armamento leve recebeu boa parte dos destaques. A IMBEL mostrou o fuzil de precisão calibre .308, voltado a atiradores de elite, ao lado de duas variantes para treinamento: um fuzil simulador de tiro e um fuzil de treinamento no calibre 5,56mm, ambos derivados da plataforma IA2. Somaram-se a esse conjunto o fuzil de assalto 7,62 IA2 e um conversor de calibre .22, peça que permite adaptar fuzis e carabinas da família 5,56mm IA2 para esse calibre, reduzindo o custo de munição em exercícios de tiro.

No eixo de comando e controle, a empresa apresentou o sistema desenvolvido para a viatura blindada leve sobre rodas Guaicurus, item que amplia o histórico da IMBEL no fornecimento desse tipo de solução às Forças Armadas, como o já conhecido sistema Gênesis empregado na coordenação de fogos de artilharia.

Além dos itens já disponíveis, um segundo grupo de produtos segue em fase de desenvolvimento. Fazem parte dessa lista os estojos para munições de canhão de 90mm e de artilharia de 105mm, uma pistola de 9mm com sistema striker fired, a família de rádio transceptor multibanda TRC-1222, batizada de rádio Rondon, e sistemas de comunicações capazes de operar além da linha do horizonte.

 

A cerimônia também formalizou a posse do novo vice-presidente executivo da IMBEL, general de divisão Alexandre de Almeida Porto, em substituição ao general de brigada João Denison Maia Correia. Ao final da solenidade, o chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) e presidente do Conselho de Administração da IMBEL, general de exército Hertz Pires do Nascimento, acompanhado dos generais Flávio Neiva e Porto, assinou os termos de posse, oficializando a assunção dos cargos de diretor-presidente e de vice-presidente executivo da empresa, respectivamente. 

Os produtos e projetos em desenvolvimento permaneceram expostos durante um coquetel no mesmo espaço, o que permitiu a convidados e representantes da base industrial de defesa conhecer detalhes técnicos diretamente com engenheiros e técnicos das fábricas da empresa.

Família de jatos E da Embraer recebe certificação de tipo da Autoridade de Aviação Civil da Índia

 

*LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

A família de jatos E da Embraer recebeu a Certificação de Tipo da Direção Geral de Aviação Civil da Índia (DGCA). A certificação abrange várias aeronaves da família E, incluindo o E190, o E195 e o E195-E2, as aeronaves de pequeno porte mais silenciosas e com maior eficiência de combustível do mundo.

“Acolhemos com satisfação a certificação de tipo das aeronaves da Embraer e agradecemos à DGCA pela sua avaliação minuciosa”, disse Raul Villaron, Vice-Presidente Sênior de Vendas e Marketing e Chefe da Região Ásia-Pacífico da Aviação Comercial. “Com desempenho, economia e conforto notáveis ​​para os passageiros, os E-Jets da Embraer estão preparados para remodelar a aviação regional na Índia e apoiar a visão UDAN do governo indiano.”

O E-Jets é um dos programas de aeronaves mais bem-sucedidos da aviação comercial, com mais de 1.900 unidades entregues e em operação global com mais de 80 companhias aéreas em mais de 50 países. O E195-E2 possui baixo custo operacional e é a aeronave de pequeno porte mais eficiente em termos de consumo de combustível em operação atualmente. Apresenta uma cabine moderna com configuração de assentos 2x2, sem assentos do meio, amplos compartimentos de bagagem de mão e unidades de serviço individuais para os passageiros.

O E175 já possui certificação de tipo para a Índia e é operado pela Star Air. Em fevereiro de 2026, a Adani Defence & Aerospace e a Embraer anunciaram um Memorando de Entendimento (MoU) aprimorado com o objetivo de estabelecer uma Linha de Montagem Final (FAL) para o jato regional E175, alinhada ao programa de Aeronaves de Transporte Regional (RTA) da Índia.

A próxima geração do E195-E2 recebeu tripla certificação de três importantes autoridades de aviação civil – a FAA (EUA), a EASA (Europa) e a ANAC (Brasil) – em 2018 e 2019, respectivamente. O E195-E2 é a aeronave de corredor único mais eficiente em termos de consumo de combustível em operação atualmente.

“Os E-Jets oferecem um alcance ampliado de até 7 horas e capacidade de desempenho para operar em aeroportos desafiadores com pistas curtas ou baixa resistência do pavimento”, disse Adity Shekhar, Vice-Presidente Regional de Vendas da Embraer. “Essa certificação nos permite apoiar as companhias aéreas na expansão de suas redes e na abertura de rotas exclusivas, explorando oportunidades em 'oceano azul' que são pequenas demais para uma aeronave de corredor único de grande porte ou distantes demais para um turboélice.”

A Embraer tem uma presença forte e crescente na Índia, com quase 50 aeronaves de 11 modelos diferentes em operação, abrangendo aviação comercial, defesa e aviação executiva. A Star Air opera uma frota de 11 aeronaves Embraer E175 e ERJ145.

Diehl Defence e AEL Sistemas assinam memorando para reforçar defesa aérea do Brasil

Acordo fechado em Brasília amplia a parceria em torno do IRIS-T e ocorre em meio à disputa entre concorrentes europeus pelo futuro sistema antiaéreo de média altura do Exército Brasileiro

 


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LRCA Defense Consulting - 07/07/2026

A alemã Diehl Defence e a brasileira AEL Sistemas assinaram, na sexta-feira (3), em Brasília, um memorando de entendimento (memorandum of understanding, MoU) para reforçar a cooperação nos programas brasileiros de defesa aérea terrestre de médio e de longo alcance, segmento conhecido pela sigla em inglês GBAD (ground based air defence). Segundo comunicado da Diehl Defence, o documento reafirma uma parceria estratégica de longa data entre as duas empresas e formaliza o compromisso conjunto com o desenvolvimento das capacidades antiaéreas do país.

No arranjo, a Diehl Defence segue como contratante principal (prime contractor) dos sistemas IRIS-T SLM, de médio alcance, e, no futuro, do IRIS-T SLX, de alcance estendido. Já a AEL Sistemas atua como parceira nacional, responsável pela integração de componentes tecnológicos brasileiros, entre eles o enlace de dados táticos Link BR2, além do suporte logístico dentro do país.

Conforme a nota da fabricante alemã, o memorando reforça projetos já em curso, como a adoção do IRIS-T como armamento padrão dos caças F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira (FAB), e dá continuidade à colaboração de longa data entre as duas empresas voltada à integração do IRIS-T à frota de caças F-5. Essa base de sistemas já existente, segundo a Diehl, deve sustentar o programa de GBAD do Exército Brasileiro.

A assinatura ocorreu durante visita de uma delegação empresarial alemã à América do Sul, liderada pelo ministro federal das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, que esteve em São Paulo e em Brasília nos dias 2 e 3 de julho. O périplo, segundo nota do Itamaraty, deu seguimento à agenda bilateral discutida na 3ª Reunião de Consultas Intergovernamentais de Alto Nível, realizada em abril, em Hanôver, sob o chanceler federal Friedrich Merz e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele encontro, os dois países já haviam firmado um memorando de cooperação para a aquisição de equipamentos de defesa e atividades correlatas, o que a Diehl Defence descreve como evidência da intensificação da agenda de cooperação teuto-brasileira.

O executivo-chefe da Diehl Defence, Helmut Rauch, afirmou que o Brasil é um mercado estrategicamente importante para a companhia na América do Sul e descreveu a AEL Sistemas como uma parceira que conhece e entende as necessidades das forças armadas do país. Segundo Rauch, a cooperação de longa data une o desempenho do míssil IRIS-T e do IRIS-T SLM, já testado em combate, à expertise brasileira em integração, o que também permite estabelecer a base industrial para o sistema IRIS-T SLX, apontado pelo executivo como fundamento de uma solução antiaérea soberana e sustentável para o Brasil.

Uma parceira com raízes na indústria nacional e vínculo com Israel
A AEL Sistemas é uma empresa brasileira com mais de quarenta anos de atuação em sistemas eletrônicos militares e espaciais, hoje subsidiária do grupo israelense Elbit Systems, com participação minoritária da Embraer em seu capital. Além do desenvolvimento do Link BR2, a companhia integra outros programas estratégicos de comando e controle do Ministério da Defesa, como o Sterna, o SIC3MB e o RDS-Defesa, e forneceu sistemas embarcados para plataformas como o A-29 Super Tucano, o F-5M, o E-99 e o KC-390 Millennium.

O Link BR2, enlace tático criptografado que compartilha dados entre aeronaves, radares e centros de comando, está em operação desde 2020 nos caças F-5M e avança em fase de integração ao F-39 Gripen; workshop realizado no Laboratório de Guerra Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica reuniu, em julho de 2025, representantes da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate, do Comando de Preparo, do Primeiro Grupo de Defesa Aérea e do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial para acelerar esse processo.

Uma disputa ainda em aberto no Exército
O memorando chega em um momento de indefinição sobre qual sistema deve equipar o programa específico do Exército Brasileiro para defesa antiaérea de média e de alta altura, lacuna identificada como prioridade emergencial pela força, que hoje conta apenas com meios de baixa altitude, como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Reportagens do setor mostraram que, entre os candidatos avaliados pelo Exército, estavam o IRIS-T SLM/SLS, da Diehl Defence, o Aster (SAMP/T), da Eurosam, e o EMADS, da MBDA; segundo apuração publicada em janeiro, uma portaria assinada pelo chefe do Estado-Maior do Exército já indicaria o sistema italiano EMADS, associado a um acordo de cooperação governamental, como a opção definida para o projeto, sem data nem valor de contrato ainda divulgados.

Diante desse cenário, o memorando entre a Diehl Defence e a AEL Sistemas parece mirar, antes, a consolidação da presença do IRIS-T já estabelecida na Força Aérea Brasileira, com a integração ao F-39 Gripen e à futura frota de F-5, e a possibilidade de que essa base sirva de plataforma para uma futura camada de defesa aérea terrestre baseada no IRIS-T SLX. Não há, até o momento, confirmação de que o acordo altere a definição já reportada para o programa de média altura do Exército, e a própria nota da Diehl Defence não detalha qual órgão das Forças Armadas seria o cliente final da cooperação anunciada.

O IRIS-T SLX, apresentado pela Diehl Defence na feira Enforce Tac 2026, combina em um mesmo lançador de oito células munições das famílias SLM e SLX, sem exigir mudanças no radar ou na arquitetura de controle já existentes, e amplia o alcance de engajamento para perto de cem quilômetros, aproximando-se do patamar de sistemas como o Patriot, americano, embora sem substituí-lo por completo.

Contexto mais amplo da cooperação teuto-brasileira
A assinatura em Brasília integra uma agenda mais ampla da visita de Wadephul ao Brasil, que também incluiu um evento sobre terras raras na embaixada alemã e a participação do chanceler alemão em painel sobre o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, promovido pela Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo. Nesses eventos, representantes dos dois governos citaram defesa, segurança e minerais críticos entre os setores prioritários para o aprofundamento do relacionamento bilateral, o que reforça a leitura de que o memorando entre a Diehl Defence e a AEL Sistemas se insere em um esforço diplomático e industrial coordenado, e não em um episódio isolado.

06 julho, 2026

Plano para destravar o ATMOS une Elbit e Avibras Aeroco em Jacareí

Segundo o Estadão, o Ministro José Múcio obteve aval de Lula para acordo que tornaria o obuseiro israelense montado no Brasil; AEL Sistemas negocia com a Avibras Aeroco e o sistema PULS, da Elbit, entra no pacote; comandante do Exército visitou as 18 unidades fabris de Jacareí em 1º de julho; inauguração oficial do complexo foi adiada a pedido da Presidência 

ATMOS 2000

*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

A AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, está negociando com a Avibras Aeroco um acordo que pode finalmente destravar a licitação bilionária por meio da qual o Exército Brasileiro pretende adquirir 36 viaturas blindadas de combate obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas (VBCOAP 155 mm SR). A informação é da coluna do jornalista Marcelo Godoy, publicada nesta segunda-feira (7) pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo a coluna, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, obteve do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o sinal verde para o acordo, que tornaria o ATMOS 2000 "100% nacional", expressão que traduz o enquadramento político da solução, não uma realidade industrial estrita, já que o obuseiro em si é produto israelense. A ideia é que a Avibras Aeroco, que retomou as operações em seu complexo de Jacareí (SP) após aporte de R$ 300 milhões de um grupo de investidores que inclui os irmãos Joesley e Wesley Batista, seja responsável pela montagem e integração local do sistema.

Licitação vencida, contrato suspenso
O ATMOS 2000, montado sobre chassi Tatra T-815 6×6, venceu em abril de 2024 a licitação internacional RFP/RFT COLOG nº 01/2023, superando o Zuzana 2 (Excalibur International, Tchéquia), o CAESAR (KNDS, França) e o SH-15 (Norinco, China). O valor estimado do contrato é de cerca de US$ 210 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão ou 180 milhões de euros, dependendo da cotação). A escolha foi considerada tecnicamente superior em desempenho, alcance, precisão e proposta de transferência de tecnologia.

O contrato, no entanto, foi suspenso ainda em 2024. O PT e aliados entendiam que a compra poderia contribuir indiretamente para o esforço de guerra israelense na Faixa de Gaza. Apesar do aval técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), que em dezembro de 2024 rejeitou a medida cautelar da KNDS contra o resultado, e do visto político que o próprio Lula havia dado à compra original, as negociações permaneceram paralisadas. Como escreveu Godoy, parte do governo parecia seguir o ensinamento de Hans Morgenthau: as Forças Armadas são instrumento da política externa, não o seu senhor.

A Avibras como chave política e industrial
A solução desenhada pelo ministério serve a dois objetivos simultâneos. O primeiro é político: associar uma empresa brasileira de grande porte ao projeto reduz o peso simbólico da compra israelense e oferece ao governo uma narrativa de fortalecimento da indústria nacional. O segundo é industrial: a Avibras Aeroco, dona do maior complexo fabril de defesa da América Latina, com 2,7 milhões de metros quadrados e 18 unidades fabris encravadas na Serra do Mar, perto da Rodovia dos Tamoios, já opera o chassi Tatra, o mesmo utilizado no ASTROS II e previsto para o ATMOS.

Em 1º de julho, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, acompanhado do comandante do Sudeste, general Ricardo Piai Carmona, e dos generais Everton Pacheco da Silva (Escritório de Projetos do Exército), Erb Lyra Leal (Departamento de Ciência e Tecnologia), Marcelo Lorenzi Zucco (2ª Divisão de Exército) e Evandro Luís Amorim Rocha (Aviação do Exército), visitou todas as unidades fabris do complexo de Jacareí. Embora o tema do ATMOS não tenha sido tratado diretamente na visita, a coluna do Estadão informa que a alternativa de nacionalização da montagem já é objeto de "conversas iniciais" entre a Força Terrestre, a Avibras Aeroco e a Elbit/AEL. Entre os generais, a solução é vista positivamente como vetor de desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID).

A empresa hoje conta com 500 funcionários, cerca de um terço do efetivo de quando operava a pleno vapor, e deve entregar os primeiros dois lotes de munições ao Exército ainda em 2026. A Avibras Aeroco trata o tema do ATMOS com cautela, tanto por razões empresariais quanto políticas, já que está em fase inicial de retomada.

Sistema PULS

O PULS e a artilharia de precisão integrada
O pacote negociado vai além do obuseiro. Segundo a coluna do Estadão, a AEL Sistemas pode oferecer à Avibras Aeroco também o sistema de lançamento múltiplo de foguetes e mísseis Precise & Universal Launching System (PULS), desenvolvido pela Elbit. O PULS é uma plataforma de alta precisão e flexibilidade, capaz de disparar diferentes tipos de munições: foguetes não guiados, foguetes guiados e mísseis balísticos de teatro (TBMs - projéteis de curto e médio alcance projetados para atingir alvos dentro de um "teatro de operações" militar específico) a partir de uma mesma unidade de lançamento.

Tanto o ATMOS quanto o PULS podem ser montados sobre o chassi Tatra, o mesmo utilizado pela Avibras no ASTROS II. Segundo oficiais do Exército ouvidos pela coluna, essa compatibilidade abre caminho para uma evolução natural do ASTROS, com ganho expressivo de capacidade de fogo de precisão a longa distância. A integração simplificaria também a cadeia logística da Força Terrestre, que já opera e mantém o chassi tcheco.

É por meio do ASTROS que a Avibras Aeroco planeja lançar o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com alcance de até 450 km e previsto para teste em novembro de 2026, e o futuro Míssil Tático Balístico (S+100), de natureza hipersônica. A eventual incorporação do PULS ao mesmo sistema de lançamento criaria uma plataforma de fogo de precisão que abrangeria desde foguetes não guiados até mísseis de teatro.

O contexto que pressiona por uma decisão
A urgência em torno do programa vai além do impasse político com Israel. O Exército Brasileiro opera hoje obuseiros com projetos de cerca de 70 anos. O general Tomás Paiva tem reiterado publicamente a necessidade de modernização da artilharia divisionária diante do novo cenário geopolítico, citando os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio como demonstração da centralidade do fogo de precisão, dos drones e dos mísseis no campo de batalha moderno. Na sexta-feira (4), o general reafirmou à coluna do Estadão com síntese direta: "Nós queremos drones."

No SSNTFT 2026, realizado em Brasília em 27 de maio, o mesmo general havia rompido com décadas de discurso oficial ao afirmar: "No passado, não tínhamos nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje temos uma percepção de ameaça." Dias antes, o ministro Múcio, em encontro reservado com representantes da BID, havia sido ainda mais contundente: "A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa."

É nesse ambiente que a solução Elbit/AEL/Avibras ganha tração. A perspectiva de um acordo de paz no Oriente Médio, somada à nacionalização da montagem, oferece ao governo Lula uma saída que preserva a escolha técnica do Exército sem o custo político de um contrato direto com empresa israelense em plena guerra. Para a BID brasileira, representa a possibilidade de que o maior programa de artilharia do Exército em décadas ancore capacidade produtiva real em território nacional.

Próximos passos... e um adiamento que fala por si
As conversas entre Exército, Avibras Aeroco e Elbit/AEL estão em estágio inicial. Não há anúncio oficial de contrato assinado. O desfecho depende da conclusão das negociações entre as empresas, da formalização do aval presidencial em instrumento contratual e, possivelmente, da evolução do quadro diplomático no Oriente Médio.

Nesse contexto, um detalhe da agenda chama atenção. A inauguração oficial do complexo de Jacareí, originalmente marcada para 2 de julho de 2026, foi adiada com poucos dias de antecedência a pedido formal da Presidência da República, para permitir a participação de autoridades do governo federal. 

A justificativa oficial é protocolar. Mas a coincidência com o momento em que o sinal verde presidencial para o acordo ATMOS/Avibras acaba de ser dado, segundo a coluna do Estadão, abre uma leitura alternativa, além de uma possível injeção de novos recursos e da mera capitalização política do evento: o governo pode preferir que a cerimônia ocorra já num estágio mais avançado ou formalizado das negociações, transformando a inauguração num marco político de peso, não apenas para a Avibras Aeroco, mas para o próprio governo Lula, que teria, enfim, uma narrativa de solução para um impasse que se arrasta há mais de dois anos.

ALADA e Fundação Ezute assinam memorando de entendimentos na SpaceBR Show 2026

Acordo firmado em São Paulo aproxima a estatal responsável pela gestão espacial brasileira de uma das principais integradoras de tecnologia e defesa do país, com potencial de convergência em projetos ligados à soberania tecnológica nacional 


*LRCA Defense Consulting - 06/07/2026

A ALADA (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A.) e a Fundação Ezute assinaram, em 16 de junho de 2026, um memorando de entendimentos (MoU) durante a SpaceBR Show 2026, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo. O documento estabelece uma cooperação estratégica voltada ao desenvolvimento de soluções de alta tecnologia para o setor aeroespacial brasileiro, com foco declarado no fortalecimento da soberania tecnológica do país.

O acordo foi anunciado pela própria ALADA em suas redes sociais logo após a assinatura, no âmbito de um evento que reuniu mais de 150 empresas expositoras e cerca de dez mil participantes ligados aos setores de espaço, drones, geointeligência e mobilidade aérea avançada. Segundo a estatal, a parceria cria um ambiente de colaboração para o intercâmbio de conhecimentos, a identificação de oportunidades e o desenvolvimento conjunto de projetos capazes de contribuir para a inovação e a competitividade do ecossistema aeroespacial nacional.

Duas integradoras com trajetórias paralelas
A ALADA é uma empresa pública federal vinculada ao Ministério da Defesa por meio do Comando da Aeronáutica, responsável pela gestão e comercialização de serviços aeroespaciais estratégicos do país, incluindo operações de lançamento a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Sua atuação é frequentemente descrita como a de um elo dinâmico entre governo, indústria e academia.

A Fundação Ezute, por sua vez, nasceu em 1997 como Fundação Atech, criada para viabilizar o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam). Hoje é uma organização privada sem fins lucrativos dedicada a soluções de tecnologia e gestão para instituições públicas brasileiras, com histórico de atuação em programas estratégicos de defesa como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), o MANSUP (Míssil Antinavio de Superfície) e o PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), tendo inclusive participado de testes do submarino Riachuelo, o primeiro da classe com propulsão diesel elétrica construído no âmbito do programa.

Pontos de convergência entre as instituições
A leitura conjunta dos perfis institucionais da ALADA e da Fundação Ezute sugere ao menos quatro eixos de convergência possíveis para a cooperação anunciada.

O primeiro é o papel de integradoras que ambas reivindicam para si: enquanto a ALADA se posiciona como elo entre governo, indústria e academia no setor espacial, a Ezute já exerce função semelhante há quase três décadas nos ecossistemas de defesa, aeroespacial e aeronáutico, o que pode facilitar a linguagem comum entre as partes.

O segundo eixo é a experiência da Ezute em sistemas de monitoramento e vigilância de grande escala, como o Sisfron e o SisGAAz, competências que dialogam diretamente com demandas de rastreamento espacial, telemetria e segurança de operações de lançamento sob responsabilidade da ALADA em Alcântara.

O terceiro ponto é a bagagem da Ezute em sistemas críticos navais e de mísseis, casos do MANSUP e do PROSUB, que envolvem engenharia de sistemas complexos, integração de sensores e garantia da qualidade, capacidades transponíveis para cargas úteis, sistemas de bordo e infraestrutura terrestre de programas espaciais.

O quarto eixo é de natureza institucional: por ser uma fundação de apoio historicamente próxima de órgãos de defesa e ciência e tecnologia, a Ezute pode operar como ponte entre a ALADA e projetos de pesquisa acadêmica, algo alinhado ao discurso da estatal sobre integrar governo, indústria e academia em torno de objetivos estratégicos nacionais.

O que dizem as instituições
Em nota, o presidente da ALADA, Sergio Roberto de Almeida, afirmou que o Brasil vive um momento decisivo para sua agenda espacial e que a assinatura do memorando durante a SpaceBR Show representa a convergência de duas instituições comprometidas com a inovação de base nacional, com o objetivo de identificar e desenvolver soluções de alta complexidade para o avanço autônomo do país no espaço.

O diretor-presidente da Fundação Ezute, Roberto Lorenzoni Neto, declarou que o memorando cria um canal institucional para que ambas as organizações explorem oportunidades conjuntas, com o propósito de avaliar como as competências das duas partes podem se somar para entregar soluções robustas a projetos de alta complexidade voltados ao desenvolvimento tecnológico e à soberania do país.

Um MoU, não um contrato
Cabe reforçar que o instrumento assinado é um memorando de entendimentos, e não um contrato ou uma parceria operacional já definida. Documentos desse tipo formalizam a intenção de cooperação e abrem canal institucional para negociações futuras, mas não obrigam, por si só, as partes a executar projetos, cronogramas ou aportes financeiros específicos. A materialização prática da cooperação entre ALADA e Ezute dependerá de etapas subsequentes de detalhamento, ainda não anunciadas publicamente.

Contexto: SpaceBR Show 2026
A SpaceBR Show 2026 ocorreu entre 16 e 18 de junho, em São Paulo, organizada pela MundoGEO em conjunto com a IEG Brasil, simultaneamente aos eventos MundoGEO Connect, DroneShow Robotics e Expo eVTOL. A feira reuniu representantes de agências governamentais, como a Agência Espacial Brasileira (AEB), a Força Aérea Brasileira e o Centro de Lançamento de Alcântara, além de empresas do setor espacial nacional e internacional, consolidando-se como o principal evento anual do setor espacial brasileiro e latino-americano.

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