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17 julho, 2026

Do Essequibo ao narcotráfico: a nova ameaça que preocupa o Exército na Amazônia

Chefe do Estado-Maior aponta confrontos semanais com o GAOR na fronteira com a Colômbia e desloca a prioridade do Comando Militar da Amazônia para o oeste da região

  

*LRCA Defense Consulting - 17/07/2026

O chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, revelou que a principal ameaça enfrentada pelo Comando Militar da Amazônia (CMA) deixou de ser a fronteira de Roraima com a Venezuela e passou a se concentrar no oeste da região amazônica, onde pelotões brasileiros travam confrontos semanais com guerrilheiros colombianos ligados ao narcotráfico. A declaração foi feita durante o seminário “A Evolução da Guerra: Desafios para o Componente Terrestre”, realizado no auditório do quartel-general do Exército, em Brasília, no dia 14 de julho de 2026.

Segundo o general, soldados, tenentes e sargentos da 2.ª e da 16.ª Brigadas de Infantaria de Selva enfrentam ataques e trocam tiros toda semana com integrantes do GAOR (Grupos Armados Organizados Residuais), denominação dada a dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que se recusaram a aderir ao acordo de paz de 2016 e passaram a atuar como um dos mais fortes cartéis do narcotráfico da América do Sul. “O cenário mudou. Hoje, a gente tem um cenário muito preocupante no CMA”, afirmou Montenegro, segundo reportagem do jornalista Marcelo Godoy publicada pelo Estadão.

Rotas de escoamento de droga levam a mudança de foco
De acordo com o general, os guerrilheiros dos GAOR cruzam a fronteira brasileira para escoar drogas com destino à Europa e à África, principalmente por duas vias. A primeira é a rota do Solimões, que liga áreas produtoras de droga nos países andinos à malha fluvial amazônica, passando perto da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru; dali, a carga pode seguir por rio até Manaus e Belém, de onde alcança rotas internacionais. A segunda é a chamada rota Caipira, historicamente associada ao escoamento de entorpecentes vindos da Bolívia e do Paraguai pelo Centro-Oeste até o Sudeste, com saída pelo litoral de São Paulo. Segundo o general, essa combinação de rotas fez da faixa oeste do CMA a nova prioridade operacional da Força.

Levantamentos de segurança pública anteriores já indicavam que a rota do Solimões é considerada a segunda principal via de entrada de cocaína no País, atrás apenas da rota Caipira. Reportagens sobre o tema apontam ainda que ex-integrantes das Farc se associaram a facções brasileiras, como o Comando Vermelho, para disputar o controle de trechos da rota amazônica, o que ajudaria a explicar a intensidade dos confrontos hoje relatados pelo Exército.

Prejuízo de R$ 600 milhões e apreensões na fronteira
O general Montenegro também citou um dado divulgado pelo comando do Exército em maio de 2026, segundo o qual a atuação da Força Terrestre na faixa de fronteira impôs mais de R$ 600 milhões de prejuízo ao crime organizado em 2025, somando milhares de ações contra ilícitos, entre apreensões de drogas, destruição de estruturas ilegais e patrulhamentos. Um episódio emblemático dessa rotina ocorreu na madrugada de 27 de fevereiro de 2025, quando o 2.º Pelotão Especial de Fronteira (PEF), da 16.ª Brigada de Infantaria de Selva, apreendeu uma tonelada de skunk (variedade de maconha de alto teor de THC) em uma embarcação no Rio Içá, no Amazonas, próximo à fronteira com a Colômbia.

Os Pelotões Especiais de Fronteira funcionam como pontos avançados e quase permanentes de presença do Estado brasileiro em áreas remotas da Amazônia, muitas vezes cercadas por rios e selva fechada. Segundo dados do próprio Comando Militar da Amazônia, o CMA vigia atualmente cerca de 60% das fronteiras terrestres do Brasil, com efetivos distribuídos em 64 organizações militares, 23 pelotões especiais de fronteira e um destacamento especial de fronteira, atuando nas quatro tríplices fronteiras da região (Brasil-Guiana-Venezuela, Brasil-Colômbia-Venezuela, Brasil-Peru-Colômbia e Brasil-Peru-Bolívia).

O que perdeu prioridade: o dispositivo montado contra Maduro
A fala do general reposiciona um dispositivo que havia sido montado nos últimos anos em razão do risco de o então ditador venezuelano Nicolás Maduro usar o território brasileiro para se apossar da região de Essequibo, na Guiana. Para reforçar a 1.ª Brigada de Infantaria de Selva, com sede em Boa Vista (RR), o Exército havia criado, em 2023, o 18.º Regimento de Cavalaria Mecanizado e enviado à unidade dezenas de mísseis antitanque MAX 1.2 AC (à época ainda designados MSS 1.2 AC), sistema guiado a laser desenvolvido com tecnologia nacional pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) em parceria com a SIATT, além de artilharia antiaérea de baixa altura. Reportagens recentes já reenquadram esse mesmo material dentro da nova prioridade amazônica, afirmando que os mísseis foram enviados com urgência à região em 2023 e 2024 por causa da crise de Essequibo, mas hoje servem, sobretudo, para reforçar a soberania brasileira sobre a Amazônia como um todo.

Ao comentar a revelação do general, o jornalista Marcelo Godoy observou que, enquanto forças políticas do País discutem a classificação jurídica do crime organizado, os grupos armados continuam a se infiltrar na política, na economia e nas fronteiras nacionais.

Um precedente histórico
O confronto direto entre tropas brasileiras e guerrilheiros colombianos em solo nacional não é inédito. Em fevereiro de 1991, cerca de 40 guerrilheiros das Farc, que se autodenominavam “Comando Simón Bolívar”, invadiram o território brasileiro às margens do Rio Traíra, no Amazonas, e atacaram de surpresa um destacamento do Exército guarnecido por apenas 17 militares. A resposta brasileira, batizada de Operação Traíra, envolveu tropas de elite, forças especiais e apoio do Exército colombiano. O episódio de 1991 e os confrontos hoje relatados pelo general Montenegro têm origem em contextos distintos (o ataque de 1991 seria motivado pela repressão ao garimpo ilegal, enquanto os atritos atuais decorreriam do narcotráfico), mas ilustram a persistência histórica da fronteira amazônica como área de atrito armado com grupos originados da guerrilha colombiana.

Cooperação binacional em curso
Paralelamente ao quadro descrito pelo general, Brasil e Colômbia têm ampliado ações conjuntas na mesma faixa de fronteira. Um exemplo é a Operação Fronteira Dourada, conduzida entre 11 e 19 de novembro de 2025, que reuniu Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Exército, Polícia Rodoviária Federal, Censipam e a Polícia Nacional da Colômbia contra o garimpo ilegal na região do Rio Puruê, com resultado de mais de R$ 112 milhões de prejuízo às estruturas criminosas. Organismos internacionais também têm sinalizado atenção ao tema: o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime destacou, em 2026, que Brasil e Colômbia assinaram protocolo de intercâmbio de inteligência para enfrentar o crime organizado transnacional ligado ao tráfico de drogas em áreas marítimas e fluviais da Amazônia compartilhada.

A revelação do general Montenegro Júnior deve alimentar o debate sobre quais equipamentos o Exército deve priorizar para o combate diário nas áreas de fronteira mais expostas ao narcotráfico, tema que, segundo o próprio general, já está sendo avaliado pela Força.

Embraer obtém certificação da EASA para o ROAAS na família E-Jet E2

Tecnologia monitora condições de pouso com algoritmos preditivos e emite alertas para apoiar pilotos na identificação e mitigação de riscos de ultrapassagem dos limites da pista

 
*LRCA Defense Consulting - 17/07/2026

A Embraer (NYSE: EMBJ / B3: EMBJ3) anunciou, em 17 de julho de 2026, que a EASA (Agência de Segurança da Aviação da União Europeia) certificou a tecnologia ROAAS (Runway Overrun Awareness and Alerting System, sistema de alerta de excursão de pista) para a família de aeronaves E-Jet E2. A aprovação europeia foi concedida logo após a recente validação do sistema pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), consolidando mais uma etapa na implementação da inovação de segurança no programa.
Como funciona o sistema
O ROAAS foi desenvolvido para ajudar a prevenir ultrapassagens dos limites da pista durante operações de pouso. Trata-se de um sistema baseado em energia que monitora continuamente as condições da aeronave e calcula, em tempo real, o desempenho de pouso, tanto na fase de aproximação quanto após o contato com a pista. Quando identifica um risco potencial, o sistema emite alertas para aumentar a consciência situacional da tripulação e apoiar decisões mais seguras. Os algoritmos que sustentam a ferramenta foram desenvolvidos internamente pela própria Embraer e avaliam a capacidade de a aeronave parar com segurança dentro do comprimento de pista disponível.
Um sistema que já circula por outras famílias da Embraer
O ROAAS não é uma novidade isolada. A tecnologia já equipa aeronaves da aviação executiva da fabricante, como o Phenom 300E e os recém-certificados Praetor 500E e Praetor 600E, tendo tornado a Embraer, segundo a própria empresa, a primeira e única fabricante da aviação executiva a desenvolver e certificar esse tipo de solução. Com a chegada à família E-Jet E2, voltada à aviação comercial de corredor único, a companhia amplia o alcance da tecnologia para um segmento de mercado com volume de operações consideravelmente maior.
A fala da Embraer
Segundo Luís Carlos Affonso, vice-presidente de Engenharia e Desenvolvimento Tecnológico da Embraer, a certificação do ROAAS pela EASA representa uma conquista importante para o programa E2, obtida em conformidade e dentro do prazo do requisito obrigatório da autoridade europeia de aviação. O executivo destacou que a tecnologia reforça o compromisso da fabricante em avançar continuamente na segurança da aviação, por meio de soluções que apoiam os pilotos e ajudam a prevenir excursões de pista.
Por que o tema importa
As excursões de pista figuram, de forma recorrente, entre as ocorrências mais comuns da aviação comercial. Dados da IATA relativos a 2025 apontam eventos desse tipo entre as categorias de acidente mais frequentes no transporte aéreo global, ao lado de tail strikes e falhas de trem de pouso. No País, o tema ganhou peso simbólico após o acidente de julho de 2007 em Congonhas, que motivou a criação, pela ANAC, de uma comissão dedicada especificamente à prevenção de excursões de pista e a levantamentos estatísticos conduzidos pelo CENIPA. É nesse contexto de atenção regulatória contínua que se insere a certificação agora obtida pelo ROAAS.
O que muda para os operadores
A certificação da EASA amplia a disponibilidade do ROAAS para operadores de aeronaves E2 na Europa e em outras regiões que reconhecem aprovações da agência europeia. Para a Embraer, o movimento reforça a posição da família E-Jet E2, que já soma mais de 200 aeronaves em operação junto a 24 companhias aéreas em seis continentes, como uma das opções mais avançadas em segurança entre os jatos de corredor único disponíveis no mercado.

Eve e Hitachi Energy firmam memorando para eletrificar a mobilidade aérea urbana

Acordo entre a controlada da Embraer e o braço de energia do grupo japonês mira a infraestrutura de recarga para eVTOLs em São Paulo e Nova York, com operação comercial prevista para 2028
 


*LRCA Defense Consulting - 17/07/2026

A Eve Air Mobility, subsidiária de mobilidade aérea urbana controlada pela Embraer, e a Hitachi Energy, braço de energia do grupo japonês Hitachi, assinaram nesta sexta-feira (17) um Memorando de Entendimento (MoU) para desenvolver conjuntamente a infraestrutura elétrica necessária à operação em escala de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, os eVTOLs. O acordo foi anunciado simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos e tem como foco inicial as cidades de São Paulo e Nova York, apontadas pelas empresas como mercados prioritários em função do já elevado tráfego de helicópteros.
Segundo as companhias, à medida que a mobilidade aérea urbana (UAM, na sigla em inglês) se aproxima da operação comercial, o principal gargalo deixa de ser o desenvolvimento das próprias aeronaves e passa a ser a garantia de energia suficiente, disponível e confiável para abastecer os vertiportos, os pontos de pouso, decolagem, embarque e recarga dos eVTOLs. Por se tratar de um memorando de entendimento voltado ao alinhamento de estudos e futuras frentes de cooperação, as empresas informaram que o acordo não prevê, por ora, investimentos ou aportes financeiros definidos.
Recarga rápida como condição para escalar a operação
Pelo acordo, a Hitachi Energy adaptará sua plataforma de carregamento Grid-eMotion, já utilizada em outros segmentos de eletromobilidade, às exigências específicas dos eVTOLs. A tecnologia segue o conceito que a empresa chama de “grid to plug”, ou seja, o transporte de energia desde a rede das transmissoras até as tomadas em que as aeronaves serão conectadas para recarga, garantindo maior confiabilidade e menor exposição a oscilações comuns na rede de distribuição.
Diferentemente dos automóveis elétricos, que costumam permanecer estacionados por longos períodos durante a recarga, os eVTOLs foram projetados para realizar diversos voos curtos ao longo do dia, o que exige ciclos de recarga rápidos entre uma operação e outra. Essa dinâmica é considerada determinante para viabilizar economicamente o serviço, sobretudo para operadoras como a Revo, empresa de táxi aéreo que já assinou o primeiro pedido firme de aeronaves da Eve, no valor de 250 milhões de dólares, referente a 50 unidades.
Uma das soluções em estudo prevê que os equipamentos mais pesados, responsáveis pela conversão de energia e pelo gerenciamento do sistema, permaneçam instalados no térreo dos edifícios, enquanto nos topos das construções, onde ficarão os vertiportos, seriam instalados apenas os dispensadores de energia conectados ao sistema centralizado. A estratégia busca reduzir a carga estrutural sobre as edificações e liberar espaço operacional nas plataformas de pouso.
Rede elétrica brasileira precisará evoluir, diz Hitachi Energy
Para Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e executivo líder para o Sul da América Latina, o Sistema Interligado Nacional (SIN) é referência mundial em interconexão, mas ainda não está preparado para o volume de demanda energética que os futuros vertiportos deverão gerar. “O sistema elétrico brasileiro hoje é referência mundial: quase 99% do País está conectado, só falta Fernando Noronha”, afirmou o executivo, segundo o site Brasil 247. “É uma rede extremamente interconectada. Mas, para a demanda que está por vir, ela não está preparada. É uma jornada.”
Já Luiz Mauad, vice-presidente de Serviços ao Cliente da Eve, destacou que o desafio da eletrificação vai muito além da simples instalação de carregadores. “A infraestrutura elétrica é um elemento fundamental para viabilizar operações seguras, eficientes e escaláveis de eVTOL. Não se trata apenas de instalar carregadores, mas de planejar a disponibilidade de potência, os ciclos de recarga, a integração com a rede e a operação em solo”, disse o executivo, conforme reportagem da Reuters replicada pelo InfoMoney.
Mauad afirmou ainda que a Eve vem firmando acordos com outras companhias para desenvolver diferentes frentes da mobilidade aérea urbana, sem revelar, no entanto, a identidade desses parceiros. Segundo ele, os estudos internos da empresa apontam para mais de 300 eVTOLs em operação em São Paulo nas próximas duas décadas, conectando mais de 35 pontos estratégicos da região metropolitana, com entrada gradual da frota seguida de escalada progressiva.
Segunda vida das baterias e frente global de negócios
Além da recarga, a parceria vai explorar o potencial de reaproveitamento das baterias dos eVTOLs em sistemas de armazenamento de energia, após o fim de seu ciclo de vida na aviação, ampliando a sustentabilidade do ecossistema como um todo. O memorando também estabelece uma frente conjunta de modelagem de negócios e de relacionamento coordenado com clientes, visando a expansão global da infraestrutura de mobilidade aérea urbana.
Em nota oficial divulgada pela Hitachi Energy, o presidente-executivo da Eve, Johann Bordais, afirmou que a construção de um ecossistema de mobilidade aérea urbana bem-sucedido depende da colaboração entre diferentes setores da economia. “A colaboração com a Hitachi Energy apoia nossos esforços contínuos para ajudar a viabilizar a infraestrutura necessária para operações de eVTOL seguras, eficientes, escaláveis e economicamente sustentáveis em todo o mundo”, declarou.
Já Marco Berardi, responsável pela área de Soluções e Serviços de Rede e Qualidade de Energia da Hitachi Energy, associou o acordo ao desafio mais amplo da transição energética global. “Nenhuma empresa ou país, isoladamente, pode fazer a transição energética acontecer, por isso estamos entusiasmados em colaborar com a Eve para acelerar conjuntamente a descarbonização da mobilidade aérea urbana”, disse o executivo.
Contexto: carteira de encomendas e prazo de certificação
A Eve, listada na Bolsa de Nova York (NYSE: EVEX e EVEXW) e também na B3 (EVEB31), soma atualmente cerca de 2.700 cartas de intenção de compra de eVTOLs em diferentes mercados. A aeronave, projetada para transportar quatro passageiros, segue em campanha de voos de teste na unidade da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, com certificação e início de operação comercial previstos para 2028.
Do lado da Hitachi Energy, a companhia informou manter investimentos superiores a 9 bilhões de dólares em expansão de pesquisa e desenvolvimento, capacidade fabril, engenharia e colaborações estratégicas voltadas à eletrificação e à modernização de redes elétricas em todo o mundo.
A parceria com a Hitachi Energy é a primeira assinada pela Eve especificamente com o escopo de recarga das baterias de seus eVTOLs, somando-se a um histórico recente de colaborações da empresa no eixo de infraestrutura em solo, que inclui, por exemplo, a participação da Eve no sandbox regulatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para vertiportos, ao lado da VertiMob Infrastructure e do consórcio formado por Pax Aeroportos e UrbanV.

16 julho, 2026

Avibras Aeroco e Exército Brasileiro avançam nas tratativas sobre contratos atuais e futuros

Reunião em Jacareí reúne generais ligados à fabricação, à artilharia e ao programa ASTROS-FOGOS para discutir contratos vigentes e novas oportunidades de cooperação com a Base Industrial de Defesa
 
 
*LRCA Defense Consulting - 16/07/2026

A Avibras Aeroco realizou, nesta quinta-feira, dia 16 de julho, em sua unidade industrial de Jacareí (SP), uma reunião de trabalho com oficiais-generais e demais autoridades do Exército Brasileiro (EB) que lideram organizações estratégicas nas áreas de defesa, tecnologia, fabricação e artilharia. O objetivo do encontro foi discutir os contratos já em vigor entre a empresa e a Força Terrestre, além de mapear novas oportunidades de cooperação para os próximos ciclos de contratação.
Participaram do encontro o General de Brigada Carlos Alexandre Bastos de Vasconcellos, Diretor de Fabricação (DF) do EB; o General de Brigada Sandro Ernesto Gomes, Comandante de Artilharia do Exército; o General de Brigada R/1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva, gerente do Programa Estratégico do Exército ASTROS-FOGOS; e o General de Brigada R/1 Moisés da Paixão Júnior, gerente do Subprograma Artilharia de Campanha do EB. Também integraram a comitiva os membros da Comissão de Absorção de Conhecimentos e Transferência de Tecnologia (CACTTAV) na Avibras Aeroco, Tenente-Coronel Eduardo Bento Guerra e Capitão Eduardo Henrique dos Santos.
Durante o encontro, a Avibras Aeroco apresentou à comitiva do Exército o estágio atual de suas atividades, sua capacidade industrial, tecnológica e produtiva, além das perspectivas para o fortalecimento da cooperação com a Força Terrestre. As discussões reforçaram o alinhamento entre as duas instituições e o compromisso mútuo com a continuidade dos programas estratégicos de defesa, com a soberania nacional e com o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa do País.
Uma sequência de encontros em 2026
O encontro de 16 de julho não é um episódio isolado. Ele se soma a uma sequência de reuniões e visitas realizadas ao longo de 2026 entre a Avibras Aeroco e o Exército Brasileiro, em meio ao processo de retomada industrial da empresa, historicamente responsável pelo Sistema ASTROS. Em 28 de janeiro, uma comitiva chefiada pelo então titular da Diretoria de Fabricação já havia visitado a fábrica de Jacareí para acompanhar a evolução da retomada industrial e o andamento dos projetos em parceria, com a presença do gerente do Programa Estratégico ASTROS e de engenheiros da CACTTAV.
Em 6 de maio, representantes das áreas operacional e comercial da Avibras Aeroco estiveram no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), no Rio de Janeiro, em reunião que também contou com oficiais do Centro de Avaliações do Exército (CAEx) e da CACTTAV, para alinhar demandas operacionais em andamento e avançar nas tratativas de novos contratos. Já em 1º de julho, o Comandante do Exército, General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, visitou pessoalmente as 18 unidades fabris do complexo de Jacareí, acompanhado de integrantes do Alto Comando da Força, em um movimento lido pelo setor como sinalização institucional de apoio à empresa.
A reunião mais recente, com a presença do Comandante de Artilharia do Exército e do gerente do ASTROS-FOGOS, aprofunda esse ciclo de aproximações, concentrando a pauta especificamente nos contratos vigentes e nas oportunidades futuras ligadas à artilharia de campanha.
O papel da CACTTAV e do programa ASTROS-FOGOS
A presença recorrente da CACTTAV nesses encontros não é acidental. Criada em 2013 para acompanhar as atividades de pesquisa e desenvolvimento ligadas ao Sistema Foguete Guiado e ao Míssil Tático de Cruzeiro no âmbito do Projeto Estratégico do Exército ASTROS, a comissão é subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) e tem como função absorver conhecimento técnico e viabilizar a transferência de tecnologia entre a indústria e a Força Terrestre. Sua atuação contínua evidencia que, além da entrega de produtos, o Exército acompanha de perto a capacitação tecnológica da Avibras Aeroco.
O ASTROS-FOGOS é hoje o principal programa estratégico entre a Avibras Aeroco e o Exército Brasileiro, com investimentos que já superaram R$ 1 bilhão. O programa visa dotar a Força Terrestre de capacidade de apoio de fogo de longo alcance, incluindo o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), com elevada precisão e letalidade. A presença de dois gerentes de programa distintos, o do ASTROS-FOGOS e o do Subprograma Artilharia de Campanha, na reunião de 16 de julho, indica que a pauta tratou tanto da execução dos contratos já firmados quanto da estruturação de novas frentes de fornecimento.
Contexto: a retomada industrial em Jacareí
As tratativas ocorrem em meio a um momento decisivo para a Avibras Aeroco. Após anos de dificuldades financeiras e de um processo de recuperação judicial que chegou a colocar em risco a continuidade da tradicional fabricante do Sistema ASTROS, a nova operação industrial de Jacareí retomou a montagem de foguetes e o corte de chapas para blindados do Exército em julho de 2026. A cerimônia oficial de inauguração do complexo industrial, inicialmente marcada para 2 de julho e que contaria com a presença dos comandantes das três Forças Armadas, foi adiada a pedido formal da Presidência da República, com nova data ainda prevista para este mês.
A empresa opera hoje com cerca de 500 funcionários, montante ainda inferior ao efetivo que mantinha em seu período de operação plena, e projeta faturar R$ 500 milhões em 2028. Paralelamente às tratativas com o Exército sobre o ASTROS-FOGOS, a Avibras Aeroco também discute, com a Força Terrestre e com as empresas israelenses AEL Sistemas e Elbit Systems, uma eventual nacionalização da montagem do obuseiro autopropulsado ATMOS, em negociação que envolveria ainda o sistema de lançadores PULS.
A sequência de reuniões ao longo de 2026, da visita de janeiro ao encontro de 16 de julho, reforça a leitura de que o Exército Brasileiro trata a retomada da Avibras Aeroco como prioridade estratégica para a artilharia de campanha nacional, mantendo acompanhamento próximo tanto da execução dos contratos vigentes quanto da absorção de tecnologia prevista nos programas em curso.

Grupo EDGE compra 100% da Akaer e amplia domínio sobre a indústria de defesa brasileira

Em entrevista à CNN, o CFO do conglomerado emiradense, Rodrigo Torres, detalha dívidas trabalhistas da fabricante brasileira, manutenção do status de Empresa Estratégica de Defesa e prioridade à modernização do blindado Cascavel 


*LRCA Defense Consulting - 16/07/2026

O Grupo EDGE, conglomerado de defesa e tecnologia avançada dos Emirados Árabes Unidos, anunciou nesta quinta-feira (16) a compra de 100% da Akaer, empresa brasileira de engenharia aeroespacial e de defesa sediada em São José dos Campos (SP). A informação foi divulgada pela CNN Brasil em entrevista com o diretor financeiro (CFO) do grupo, Rodrigo Torres. Os valores da transação não foram revelados.

Segundo Torres, a aquisição integra a estratégia do EDGE de ampliar sua presença no País e incorporar capacidades de engenharia consideradas relevantes para os projetos do conglomerado. A relação entre as duas empresas não é recente: cerca de 40% da receita da Akaer já vinha de contratos com o grupo árabe, sobretudo no desenvolvimento do JENIAH, aeronave não tripulada de grande porte do EDGE, para a qual a fabricante brasileira produz a estrutura (frame), o interior da plataforma e a integração de motores, cabos e sistemas.

Uma parceira de longa data
Fundada em 1992, a Akaer acumula mais de 10 milhões de horas de engenharia e participou de projetos como o caça Gripen, o cargueiro KC-390 e o Super Tucano, além de diferentes aeronaves comerciais da Embraer. A empresa também atua em sistemas optrônicos, tecnologias espaciais, integração de plataformas e modernização de equipamentos militares.

O vínculo entre as duas companhias remonta a abril de 2023, quando, durante a LAAD, Akaer e EDGE assinaram um memorando de entendimento para cooperação no desenvolvimento e na produção de sistemas de alta tecnologia para os setores aeroespacial e de defesa. Segundo o dossiê Uninhabited Middle East, do International Institute for Strategic Studies (IISS), publicado em 2026, a Akaer também contribuiu com o design e a análise de desempenho do motor do REACH-S, UAV de média altitude e longa autonomia da ADASI (subsidiária do EDGE), e aparece como parceira internacional do próprio JENIAH. O mesmo levantamento lista a empresa brasileira como parceira de design do Samoom, UAV da saudita Intra Defense Technologies, ao lado da sul-africana Hensoldt e da belga ULPower Aero Engines.

Dificuldades financeiras
A compra ocorre em meio a uma situação financeira delicada da Akaer. De acordo com Torres, a empresa acumulou dívidas e passou a enfrentar dificuldades para cumprir compromissos com funcionários e fornecedores, deixando de pagar a folha de pagamento por um período e o plano de saúde dos funcionários por quase um ano.

O executivo afirmou que o Ministério da Defesa e integrantes das Forças Armadas procuraram o EDGE durante a LAAD para discutir alternativas que evitassem o fechamento da companhia, pedindo ao grupo que avaliasse não necessariamente uma aquisição, mas uma parceria capaz de impedir a falência de outra grande empresa da defesa brasileira.

O atual controlador da Akaer, Cesar Silva, deixará a gestão da empresa, mas deverá permanecer como consultor do EDGE por um período de um a dois anos. Um fator que teria facilitado a negociação foi a atual estrutura acionária da companhia: a Saab, que chegou a deter 42,21% da holding Akaer Participações S.A., teve sua participação integralmente recomprada pela controladora Connectus Gestão e Participações em outubro de 2023, com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Volta às atividades centrais
A estratégia do EDGE será concentrar a Akaer nas atividades consideradas centrais para a companhia, após um período em que a fabricante brasileira passou a atuar em áreas que não faziam parte de suas principais especialidades. Segundo Torres, o foco será a área aeroespacial, drones, espaço, modernização e integração de plataformas, óptica (lentes e câmeras) e baterias.

O grupo pretende utilizar a capacidade da Akaer desde a concepção de projetos até a industrialização dos produtos, integrando a empresa aos trabalhos do EDGE em optrônica, sistemas eletro-ópticos e infravermelhos e tecnologias espaciais. A expectativa é repetir na Akaer estratégia semelhante à adotada após os investimentos na SIATT e na Condor, com injeção de capital, expansão da produção e acesso à carteira internacional do conglomerado.

Cascavel será uma das prioridades
Um dos projetos considerados prioritários pelo novo controlador será a modernização do EE-9 Cascavel, blindado de reconhecimento utilizado pelo Exército Brasileiro. A Akaer venceu, em 2023, uma licitação para modernizar um lote inicial de nove veículos, com mudanças na motorização, na suspensão e nos sistemas eletrônicos, além da instalação de novas miras, sensores, equipamentos de comunicação e uma torre modernizada.

O programa enfrenta limitações orçamentárias e teve seu ritmo reduzido nos últimos anos. Segundo Torres, a aquisição deve dar maior segurança ao Exército quanto à continuidade dos trabalhos, já que o programa de modernização do Cascavel continuará sendo executado pela Akaer.

Status de Empresa Estratégica de Defesa é mantido
Apesar da compra de 100% do capital por um grupo estrangeiro, o EDGE afirma que a Akaer continuará credenciada como EED (Empresa Estratégica de Defesa), enquadramento concedido pelo Ministério da Defesa a companhias responsáveis pelo desenvolvimento ou pela produção de bens e tecnologias essenciais para a defesa nacional, e que envolve requisitos societários e de governança.

Segundo Torres, será mantida uma estrutura local de governança e uma participação brasileira suficiente para atender às regras do credenciamento, ainda que o desenho definitivo dependa das aprovações regulatórias. Integrantes do governo federal, do Ministério da Defesa e das Forças Armadas foram informados sobre a negociação ao longo dos últimos meses.

Expansão do EDGE no Brasil
Criado em 2019 e sediado em Abu Dhabi, o EDGE reúne mais de 35 empresas em áreas como plataformas militares, mísseis, sistemas de inteligência, segurança, tecnologias espaciais e industrialização. O grupo encerrou 2024 com receita próxima de US$ 5 bilhões e passou a tratar o Brasil, desde a abertura de um escritório em Brasília em 2023, como uma das principais bases de sua expansão na América Latina.

Além da Akaer, o conglomerado já detém 50% da SIATT, especializada em armamentos inteligentes e sistemas de alta tecnologia, e controla a Condor, fabricante de equipamentos não letais, na qual adquiriu participação de 51% em 2024. O grupo mantém ainda projetos com a Marinha, entre eles o desenvolvimento dos mísseis antinavio MANSUP e MANSUP-ER, que serão integrados às fragatas da classe Tamandaré, além de sistemas contra drones e novas plataformas não tripuladas. A Akaer poderá ser incorporada a esses programas, principalmente nas etapas de engenharia, integração e industrialização de aeronaves.

Para o EDGE, a entrada em empresas brasileiras permite combinar a engenharia nacional com a capacidade financeira e comercial do grupo. Executivos da companhia argumentam que os problemas orçamentários das Forças Armadas não inviabilizam os projetos, desde que os produtos brasileiros também sejam destinados à exportação, usando encomendas internacionais para dar escala às fábricas no País e reduzir o custo dos equipamentos para as próprias Forças Armadas brasileiras.

O boato que antecipou o anúncio
A possível venda da Akaer ao EDGE já vinha sendo especulada desde junho de 2026. O informe foi veiculado inicialmente pelo canal Base Militar Vídeo Magazine e repercutido pelo blog Brazilian Space em 22 de junho, que sustentava que a negociação já estaria concluída havia cerca de três meses, restando apenas o anúncio oficial. Até a publicação da matéria da CNN, nenhuma das partes (Akaer, EDGE ou a controladora Connectus) havia confirmado oficialmente a operação.

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