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03 setembro, 2026

Do laboratório da USP às Forças Armadas: como a XMobots construiu uma indústria brasileira de drones de combate

Com mais de R$ 220 milhões investidos em soluções de Defesa desde 2022, empresa de São Carlos verticaliza tecnologia, avança em drones armados e mira operações navais e enxames autônomos 

Nauru 1000C armado com míssil MBDA Enforcer Air


*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A XMobots, fabricante brasileira de veículos aéreos não tripulados sediada em São Carlos, interior de São Paulo, informou ter destinado mais de R$ 220 milhões, desde 2022, ao desenvolvimento de soluções para Defesa e Segurança. O valor, revelado pela própria empresa, soma-se a outros R$ 11 milhões aplicados entre 2010 e 2022 em projetos de pesquisa apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 


Reinaldo Junior - Diretor de Defesa da XMobots

Fundada em 2007 por Giovani Amianti, então estudante de mestrado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), a empresa nasceu incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia da própria universidade (Cietec-USP). Quase duas décadas depois, tornou-se a única fabricante brasileira de drones próprios fornecidos simultaneamente ao Exército Brasileiro, à Marinha do Brasil, à Receita Federal e ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), além de ocupar, segundo o ranking da consultoria alemã Drone Industry Insights, a sexta posição entre as maiores empresas de drones do mundo. 

Uma cadeia produtiva verticalizada dentro de casa 
Com sede em São Carlos, polo aeronáutico e universitário do interior paulista, a XMobots conta atualmente com quadro de funcionários que já superou 500 colaboradores, mais da metade deles engenheiros de diferentes especialidades. Essa estrutura sustenta o principal diferencial da empresa: a verticalização de toda a cadeia tecnológica e produtiva, da engenharia aeronáutica ao software embarcado, passando por aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.

Segundo a empresa, essa integração reduz peso, potência e custo dos sistemas, em abordagem que a companhia compara à lógica adotada pela Apple na integração entre software e hardware. A capacidade instalada de produção já ultrapassa duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas da linha Nauru e o sensor XSIS 222A. 

Linha de produção do Nauru 1000C

Nauru 1000C do Exército Brasileiro

Família Nauru: da vigilância tática ao ataque com munição 
O portfólio militar da XMobots está reunido na Família Nauru, conjunto de plataformas de diferentes portes e capacidades voltadas a missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos, a chamada ISTAR.

O menor da linha, o Nauru 100D, pesa 9 kg, emprega tecnologia eVTOL (decolagem e pouso vertical elétrico) e alcança até seis horas de autonomia em campanha, com alcance de 30 quilômetros. Sua evolução armada, o Nauru 100D UCAV, foi apresentada ao Alto Comando do Exército em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, e voltou a ser exibida em abril, na LAAD Security Milipol Brazil, com direito a demonstração conjunta das versões ISR e UCAV que atingiu o alvo com precisão de 1,4 metro.

O Nauru 500C ISR, de 25 kg e autonomia de quatro horas, foi o primeiro VTOL autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a operar além da linha de visada visual (BVLOS) no país, incluindo autorização inédita para voos noturnos obtida em 2024. Está hoje em uso pelo Censipam, pela Marinha do Brasil e pela Polícia Militar de Santa Catarina, além de empresas do setor de celulose.

Já o Nauru 1000C ISTAR, com 181 kg e autonomia de dez horas, é o modelo mais robusto em operação, entregue ao 1º Batalhão de Aviação do Exército, em Taubaté, no interior paulista, em dezembro de 2022. Passou por avaliação técnica e operacional do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), concluída em julho de 2024, e por experimentação doutrinária encerrada em dezembro do mesmo ano, tendo ainda participado das operações Perseu (novembro de 2024) e IVR (março de 2025), esta última conjunta entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Ao longo de sua trajetória, a Família Nauru acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações, distribuídas entre mais de 1.500 voos do Nauru 100D, aproximadamente 2.600 do Nauru 500C e cerca de 800 do Nauru 1000C. 


Nauru 100D na versão bombardeiro (acima) e em voo noturno (abaixo)

Sensores, aviônicos e navegação: a arquitetura por trás dos drones 
Por trás das plataformas está uma arquitetura tecnológica própria, desenvolvida progressivamente pela empresa. Ela inclui os softwares de comando e controle XCockpit e XSIS Manager; o sistema de gerenciamento automático de bordo AMS XG, de sétima geração, que aplica redundâncias e aciona paraquedas em caso de falha; a navegação por filtro de Kalman estendido (EKF); o controle robusto TECS (Total Energy Control System); e o enlace de rádio definido por software com salto de frequência (FHSS), que blinda as comunicações contra tentativas de bloqueio deliberado, o jamming.

A empresa aposta ainda em baterias de lítio-íon em estado semi-sólido com troca rápida em campo (quick-connect), estruturas em polímeros avançados, espumas de impacto e tubos de carbono, e em manufatura aditiva combinada à injeção plástica para produção em escala.

No campo dos sensores, o XSIS 222A, de aproximadamente 6 kg e arquitetura compacta de baixo peso, consumo e tamanho (SWaP), integra imageamento diurno e noturno, câmera térmica, telêmetro a laser, rastreamento automático de alvos e leitura de placas veiculares por inteligência artificial. Desenvolvido originalmente para o Nauru 1000C ISTAR, o sensor já é adaptado também a helicópteros tripulados, como o Airbus AS350.

A empresa destaca ainda um algoritmo próprio de lançamento de alta precisão, testado no Nauru 100D UCAV com erro circular provável inferior a 2 metros, que corrige em tempo real os efeitos do vento e da velocidade sobre a munição, dispensando ajustes manuais do operador e permitindo que a aeronave seja recuperada, rearmada e reempregada em novas missões. 

Nauru 1000C ISTAR com sensor XSIS 222A

Marinha, Petrobras e a corrida pela Amazônia Azul 
A aproximação com a Marinha do Brasil se intensificou ao longo de 2026. Em fevereiro, o comandante Carlos Alexandre Tunala da Silva, oficial superior do Corpo de Fuzileiros Navais, visitou a sede da empresa em São Carlos para avaliar o emprego do Nauru 100D em missões de reconhecimento e vigilância em ambientes litorâneos, fluviais e expedicionários. Em abril, o drone foi testado pelos Fuzileiros Navais na Ilha da Marambaia, no litoral fluminense, em voos diurnos e noturnos. Em maio, autoridades de alto escalão da Marinha, incluindo o diretor geral do Material da Marinha, retornaram à empresa para tratar da integração de plataformas eVTOL a operações embarcadas em navios de superfície.

Em janeiro de 2026, a XMobots iniciou, em parceria com a Marinha e com a Petrobras, um programa orçado em R$ 50 milhões para adaptar a Família Nauru a operações navais e offshore, contemplando resistência à salinidade e à umidade, comunicação por satélite (SATCOM) e pouso e decolagem a partir de plataformas móveis. O interesse da Marinha se relaciona à vigilância da chamada Amazônia Azul, o território marítimo de cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados sobre o qual o Brasil reivindica direitos soberanos, hoje monitorado com apoio limitado de meios não tripulados nacionais. 


Nauru 500C na Marinha do Brasil

Capital, sócios e credenciamento como empresa de Defesa 
A expansão da XMobots no setor de Defesa acompanhou mudanças relevantes em sua estrutura societária. Em setembro de 2022, a Embraer anunciou acordo para participação minoritária na companhia, por meio de fundo cujo único cotista era a própria fabricante aeroespacial, com opção de aportes adicionais no futuro. O negócio sucedeu uma rodada Série A de R$ 30 milhões captada em 2019, liderada pelo fundo Aerotec, com participação da Confrapar. Em janeiro de 2024, a gestora Spectra adquiriu fatia de 20% na XMobots, movimento que coincidiu com ampliação da participação da Embraer, sem que os valores das transações fossem divulgados.

No plano regulatório, a razão social XMobots Aeroespacial e Defesa Ltda. figura entre as empresas avaliadas pelo Ministério da Defesa para credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa (EED), categoria prevista na Lei 12.598/2012 que reconhece companhias consideradas essenciais à soberania tecnológica nacional. A companhia consolidou uma estrutura dedicada ao setor, a XMobots Defense, apresentada durante a LAAD Defence & Security de 2025 e hoje comandada por Reinaldo de Campos Gonçalves Junior, executivo com mais de dez anos de experiência no setor e passagens por empresas como Akaer, Becker Avionics e IACIT.

“Nossa estratégia é construir uma capacidade de Defesa que não termine na entrega de uma aeronave. Dominamos a engenharia, a produção, a integração, o treinamento, a manutenção e a evolução tecnológica do sistema. Essa verticalização nos permite responder com mais agilidade às necessidades das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, manter dentro do País o conhecimento necessário para sustentar capacidades estratégicas”, afirma Reinaldo. 

Conceito de sistema contentorizado projetável da XMobots para emprego de enxames de drones 
(Créditos: @Defence360)

Cooperação internacional e o caminho até o UCAV nacional 
A evolução das plataformas armadas contou também com cooperação tecnológica externa. Em 2022, a XMobots firmou acordo com a MBDA, uma das principais empresas globais do setor de mísseis, para integrar os mísseis Enforcer Air ao Nauru 1000C. A parceria permitiu à empresa brasileira acumular conhecimento posteriormente aproveitado no desenvolvimento das capacidades armadas do Nauru 100D.

Para a XMobots, projetar, integrar, testar e operar uma aeronave de combate reutilizável exige domínio de múltiplas áreas de engenharia e sistemas críticos, competência que a empresa associa ao objetivo de reduzir a dependência de sistemas armados importados e fortalecer a cadeia produtiva nacional.

Próximas fronteiras: enxames, plataformas armadas e o Nauru 3000D 
Entre os projetos em desenvolvimento está o Nauru 1000C Armado, evolução da plataforma ISTAR para missões de ataque, avaliando arquitetura de ataque em mergulho (dive bomber) semelhante à do Nauru 100D, na qual o Nauru 1000C ISTAR identifica e acompanha o alvo enquanto uma segunda aeronave armada recebe os dados de posição, deslocamento e vento necessários ao cálculo da trajetória.

Outra frente é o Nauru 100D Swarm, arquitetura para coordenação de múltiplas aeronaves em uma mesma operação. Na configuração em desenvolvimento, três aeronaves cuidam do reconhecimento do ambiente e da aquisição de alvos, enquanto outras 27 atuam de forma coordenada a partir das informações obtidas durante a missão, combinando navegação, enlace de dados, processamento de informações e comando e controle compartilhados.

A empresa desenvolve ainda o Nauru 3000D, plataforma de maior porte, configuração VTOL, propulsão híbrida e até 14 horas de autonomia, projetada para módulos intercambiáveis de missões ISTAR, transporte de carga e transporte de tropas. Em cenário de referência estudado pela própria companhia, considerando o transporte equivalente a 28 soldados ao longo de 20 anos de operação, a solução distribuída com o Nauru 3000D apresentaria custo total cerca de 54% inferior ao de uma solução equivalente baseada em helicópteros, mantendo capacidade de transporte semelhante.

A companhia organiza essa evolução em um roteiro próprio, o programa FW1000, que classifica as plataformas em quatro categorias crescentes de porte e complexidade, da CAT0 (Nauru 100D) à CAT3 (Nauru 3000X), com certificação prevista para 2028. 


Uma indústria em ascensão dentro da Base Industrial de Defesa 
O avanço da XMobots ocorre em meio à expansão mais ampla da Base Industrial de Defesa brasileira em sistemas não tripulados, movimento que também inclui empresas como Taurus e Ambipar Robotics. Para analistas do setor, o desafio remanescente é a articulação dessas iniciativas dispersas em torno de uma estratégia nacional integrada para drones e robôs de combate, capaz de orientar prioridades de investimento e doutrina entre Exército, Marinha e Força Aérea.

Enquanto essa arquitetura institucional amadurece, a XMobots segue como a referência mais visível do setor: fornecedora estabelecida de duas três Forças Armadas brasileiras que hoje operam drones nacionais, parceira de programas industriais internacionais e protagonista dos primeiros testes brasileiros de drones armados reutilizáveis.

Embraer e SPX Capital se unem para criar gigante da cibersegurança

Troca de ações une Tempest e Vision Cybersecurity e mira expansão na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa



*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

A Embraer e a SPX Capital vão se tornar sócias em uma nova companhia de cibersegurança, com receita anual superior a R$ 700 milhões. O acordo, formalizado por meio de troca de ações, prevê a aquisição da Tempest Security Intelligence, hoje controlada pela fabricante de aeronaves, pela Vision Cybersecurity, empresa sob controle da gestora paulista. A operação foi anunciada nesta quinta-feira (3), em São Paulo.

A transação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de outros órgãos reguladores. Após sua conclusão, a SPX assumirá o controle e a maior fatia acionária do grupo resultante, enquanto a Embraer passará a integrar o quadro societário como acionista relevante e seguirá também como cliente da companhia. Os valores da operação e os percentuais de participação de cada sócia não foram divulgados.

O comando do novo grupo ficará com André Fleury, hoje CEO da Vision. Mais do que somar clientes e receita, ele diz que a ambição é construir um player capaz de atuar em toda a cadeia de segurança cibernética, do desenvolvimento de tecnologias e do monitoramento recorrente até a detecção, a contenção e a recuperação de ataques. Segundo Fleury, existem hoje apenas três ou quatro empresas no mundo capacitadas a oferecer esse tipo de serviço completo, e a união das duas companhias brasileiras abre espaço para que o grupo resultante também ocupe essa posição. "Queremos ser o principal player de cibersegurança para essas empresas no Brasil e no mundo", afirma.

As duas empresas têm atuações complementares. Voltada a empresas de médio porte, a Vision presta serviços gerenciados de cibersegurança, os chamados MSSP (managed security service provider), monitorando sistemas de clientes de forma contínua para identificar e neutralizar ameaças antes que se tornem incidentes. Já a Tempest, nascida de um grupo de pesquisa acadêmica em Recife (PE) há 26 anos, concentra-se em grandes empresas e setores críticos da economia, como bancos, energia, óleo e gás e saúde, com um portfólio que vai da consultoria à integração de tecnologias e identidade digital.

João Lins, CEO da Tempest, que passará a ocupar a vice-presidência de tecnologia e inovação do grupo combinado, afirma que boa parte dos concorrentes atua apenas em nichos específicos ou se limita à revenda de produtos, ao passo que a união das duas companhias permite atender o mercado de cibersegurança de forma mais abrangente. Segundo ele, as carteiras de clientes de Tempest e Vision praticamente não se sobrepõem, o que reforça o potencial de ganho de escala combinado.

A empresa resultante da fusão terá cerca de 900 profissionais e mais de 600 clientes corporativos, cujos nomes não foram revelados por questões de segurança. Num primeiro momento, as marcas Tempest e Vision seguirão operando de forma independente; o nome definitivo do grupo será decidido à medida que a integração avançar. Assessoraram a operação o Bradesco BBI e o Madrona Advogados, pelo lado da Embraer, e o Mattos Filho, pelo lado da SPX.

A movimentação dá continuidade a um relacionamento antigo entre Embraer e Tempest. A fabricante brasileira de aeronaves entrou no capital da empresa pernambucana por volta de 2015, por meio de um fundo de investimento, tornou-se acionista majoritária em 2020 e concluiu a aquisição da totalidade da companhia em 2023, movida pela avaliação de que a cibersegurança é uma camada estratégica tanto para a área de defesa quanto para a aviação. Já em 2024, a Embraer chegou a contratar o Bradesco BBI para buscar um comprador para a Tempest, dentro de uma estratégia de concentração em negócios considerados core business.

Do outro lado da mesa, a Vision nasceu como spin-off da ISH Tecnologia, empresa capixaba fundada em 1996 e pioneira em cibersegurança no País, que passou a concentrar sua atuação em contratos com o setor público. A SPX começou a analisar o mercado brasileiro de cibersegurança e a mapear oportunidades de consolidação em 2025 e, em janeiro deste ano, formalizou um investimento de até R$ 400 milhões na Vision, assumindo participação majoritária na companhia; Rodrigo Dessaune, fundador da ISH, permanece como presidente do conselho de administração de ambas as empresas. A operação teve assessoria da Ártica.

O movimento ocorre em um mercado brasileiro de cibersegurança ainda bastante fragmentado, apesar de o País figurar entre os mais visados por ataques cibernéticos no mundo; o setor foi estimado em cerca de US$ 2 bilhões em 2024, com penetração de serviços ainda considerada baixa em relação a mercados mais maduros.

A expansão para fora do Brasil é apontada pelos executivos como o passo seguinte da estratégia. Fleury cita a América Latina como o mercado natural mais próximo e, na sequência, a América do Norte e a Europa, nesta ordem. Segundo ele, a lógica é sustentada tanto pela tecnologia quanto pela base de clientes: parte das empresas brasileiras atendidas pelo grupo já opera internacionalmente e demanda serviços de cibersegurança integrados em escala global. "Não ficamos devendo nada para as empresas de fora", diz Fleury.

Brasil eleva Embraer e Petrobras a peças de uma nova agenda industrial com a África do Sul

Ata da Comissão Mista Brasil-África do Sul associa o KC-390, os jatos E2 e o retorno da Petrobras dentro de uma mesma estratégia de aprofundamento econômico entre os dois países 

Renderização de um C-390 nas cores da Força Aérea Sul-Africana

*LRCA Defense Consulting - 03/09/2026 

O chanceler brasileiro Mauro Vieira colocou, em uma única frase de discurso, três negócios que normalmente seriam tratados como notícias separadas. Na ata final da VIII Sessão da Comissão Mista Brasil-África do Sul, realizada em 26 de agosto de 2026, em Pretória, o Vieira “destacou também as negociações em curso relativas à aeronave brasileira de transporte militar KC-390 e aos jatos regionais E2 da Embraer, e observou as oportunidades decorrentes da retomada das operações da Petrobras na África do Sul”, segundo o documento assinado por ele e pelo ministro sul-africano Ronald O. Lamola.

Isoladamente, nenhum dos três temas é inédito. O interesse sul-africano pelo KC-390 já é acompanhado desde 2023; a presença comercial da Embraer no País, por meio da Airlink, é antiga; e o retorno da Petrobras à exploração na África do continente vem sendo construído desde 2024. A novidade está em outro lugar: pela primeira vez, os três temas aparecem reunidos dentro do texto oficial de uma reunião ministerial de alto nível, como parte da mesma agenda econômica e estratégica bilateral, e não mais como notícias setoriais dispersas.

Defesa: o KC-390 como carro-chefe industrial 
No eixo de defesa, o compromisso já tem lastro contratual. Em abril de 2025, durante a feira LAAD Defence and Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Denel, estatal sul-africana de defesa, assinaram um memorando de entendimento para uma futura colaboração na fabricação de aeroestruturas e em serviços de manutenção, reparo e revisão (MRO) do KC-390. O acordo foi firmado por Fabio Caparica, vice-presidente de Contratos da Embraer Defesa & Segurança, e Chris Boshoff, CEO da área aeroespacial da Denel.

A ata da Comissão Mista recupera esse memorando e o descreve como potencial gerador de cooperação industrial aeroespacial, desenvolvimento tecnológico, integração em cadeias internacionais de suprimentos e transferência de competências entre as indústrias de defesa dos dois países. O documento tem uma seção própria dedicada ao programa KC-390, na qual os dois governos registram que prosseguem as discussões sobre a possível adoção da aeronave na África do Sul.

Do lado comercial, a ofensiva da Embraer ganhou estrutura dedicada em janeiro de 2026, quando a fabricante nomeou Leandro Marc Pienaar como diretor de Desenvolvimento de Negócios para a África Austral, com a promoção do KC-390 e do A-29 Super Tucano entre suas atribuições. Pienaar, formado em engenharia mecânica pela Universidade de Pretória, veio da Milkor (Pty) Ltd, onde negociou contratos de defesa em todo o continente.

A publicação sul-africana DefenceWeb confirmou, em reportagem de 26 de junho de 2026, que a Embraer vê o KC-390 como a aeronave preferencial para substituir a envelhecida frota de C-130BZ Hercules da Força Aérea Sul-Africana (SAAF). Segundo Marcio Monteiro, diretor de Marketing da Embraer Defesa & Segurança, a força aérea sul-africana gastou 2,3 bilhões de rands entre os exercícios fiscais de 2021/22 e 2025/26 apenas com fretamento de aeronaves para sustentar missões de paz na República Democrática do Congo e em Moçambique, recurso que poderia ter sido direcionado à compra de aviões novos.

Um fator estratégico adicional reforça o interesse: Brasil e África do Sul operam o caça sueco Gripen (a FAB com as versões E/F, a SAAF com C/D), e o KC-390 já foi certificado, em testes conduzidos com a Saab e a Força Aérea Brasileira, para reabastecer Gripens em voo. A África do Sul perdeu sua capacidade de reabastecimento aéreo com a aposentadoria dos Boeing 707 usados como tanque. 

Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa (D) observa o interior de uma aeronave de transporte Embraer C-390 Millennium durante sua visita à Africa Aerospace and Defence (AAD) 2024 Trade and Exhibition na Base Aérea de Waterkloof, em Pretória, em 18 de setembro de 2024. (Foto de Phill Magakoe / AFP)

Aviação comercial: os E2 em um mercado já consolidado 
Se no KC-390 a Embraer ainda negocia uma venda, na família E2 ela já colhe resultados. A Airlink, maior operadora de aeronaves Embraer da África desde 2001 e dona de uma frota de 70 aparelhos da fabricante, fechou em agosto de 2025 um contrato de leasing com a Azorra para dez unidades do E195-E2. As três primeiras aeronaves foram entregues entre setembro e outubro de 2025 e entraram em operação comercial em dezembro daquele ano, com voo inaugural entre Joanesburgo e Durban; as demais devem chegar até 2027.

O mercado sul-africano foi formalmente aberto à nova geração de jatos em 3 de setembro de 2025, quando a Autoridade de Aviação Civil da África do Sul (SACAA) concedeu a certificação de aceitação de tipo ao E190-E2 e ao E195-E2. Segundo Stephan Hannemann, vice-presidente sênior da Embraer para África e Oriente Médio, a certificação abriu novas oportunidades para as aeronaves no continente.

É nesse contexto que a menção de Vieira a negociações envolvendo os E2 ganha outro significado. Como o negócio com a Airlink já está em curso, a referência do chanceler sugere uma agenda comercial mais ampla do que essa operação isolada, possivelmente incluindo outras companhias aéreas sul-africanas ou aprofundamento da cooperação industrial em torno da família E2, e não apenas a confirmação de um contrato que já foi assinado.

Energia: a Petrobras de volta ao setor exploratório sul-africano 
O terceiro eixo citado por Vieira é a retomada das operações da Petrobras na África do Sul. A estatal brasileira participa do bloco Deep Western Orange Basin (DWOB), na costa sul-africana, operado pela TotalEnergies, dentro de um movimento mais amplo de reposicionamento da companhia no continente africano desde fevereiro de 2024. A mesma estratégia já rendeu à Petrobras participação em blocos na Namíbia (o 2613, também com a TotalEnergies) e em São Tomé e Príncipe, onde a estatal brasileira é operadora, com 75% do Bloco 3.

A ata da Comissão Mista também registra que os dois países discutem a finalização de um acordo de cooperação nuclear, que permitiria o comércio na área nuclear entre Brasil e África do Sul, além de intercâmbios técnicos sobre transmissão elétrica, energias renováveis e minerais críticos.

Uma agenda industrial em formação 
Reunidos em um único parágrafo da fala oficial do chanceler brasileiro, os três temas (defesa, aviação comercial e energia) desenham algo que ultrapassa o comércio bilateral tradicional entre Brasil e África do Sul, historicamente descrito nas atas da Comissão Mista sobretudo pelos números de exportação de minérios, produtos químicos e alimentos. A ata de 2026 também documenta outros sinais dessa aproximação industrial: a cooperação entre a Denel e a Embraer, apontada como base para participação da indústria sul-africana no programa KC-390; a chegada da missão empresarial sul-africana ao Brasil em agosto de 2026, com empresas dos setores aeroespacial, de defesa e de mineração; e as tratativas para um Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos entre os dois países, que ambos os lados pretendem concluir até o fim de 2026.

Ainda não há confirmação de uma decisão de compra do KC-390 pela SAAF, nem detalhamento oficial de quais negociações específicas em torno dos E2 Vieira tinha em mente ao discursar em Pretória. O que a ata deixa mais claro é a intenção política de tratar aeroespacial e energia como setores estratégicos comuns entre os dois países, ao lado de temas já consolidados como agronegócio e mineração.

02 setembro, 2026

PLOA 2027 movimenta bilhões entre fabricantes de aviões, mísseis, blindados, drones, fragatas e submarinos

Proposta orçamentária do Governo Federal destina R$ 20,4 bilhões ao programa Defesa Nacional; Embraer e os estaleiros do programa de submarinos e das fragatas Tamandaré concentram os maiores contratos já confirmados com a indústria privada, mas peça ainda depende da aprovação do Congresso Nacional



*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Governo Federal encaminhou ao Congresso Nacional, em 31 de agosto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com previsão de R$ 147,68 bilhões para o Ministério da Defesa. Desse total, R$ 20,43 bilhões estão classificados no programa orçamentário Defesa Nacional, no qual estão concentradas diversas ações de reaparelhamento, manutenção operacional e desenvolvimento tecnológico das Forças Armadas. Um levantamento produzido a partir do Volume IV do PLOA mostra que parcela relevante desses recursos está concentrada em poucas ações orçamentárias relacionadas a grandes programas de reaparelhamento, alguns deles com contratos já firmados com empresas da Base Industrial de Defesa (BID).. Por se tratar de uma proposta, o texto ainda será analisado pela Comissão Mista de Orçamento, poderá receber emendas parlamentares e só terá redação final depois da votação no Congresso, prevista para o fim do ano.

Aeronáutica concentra grandes projetos, com Gripen, KC-390, helicópteros e A-29 
O maior item individual do orçamento de Defesa é o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB), com R$ 3,31 bilhões, dos quais R$ 1,80 bilhão classificado como investimento. Logo atrás vem o projeto FX-2, responsável pela aquisição dos caças F-39 Gripen, com R$ 2,89 bilhões, praticamente todo (97%) em investimento. O caça é fabricado pela sueca Saab em parceria com a Embraer, que monta as aeronaves em Gavião Peixoto (SP) e entregou em março o primeiro exemplar produzido em solo brasileiro, um marco que coloca o País entre o pequeno grupo de nações capazes de montar aeronaves de combate supersônicas. O contrato atual prevê 36 unidades, das quais 15 devem sair da linha brasileira. Em julho, as duas empresas assinaram, em Farnborough, um acordo preliminar para viabilizar a produção, em Gavião Peixoto, de outros 20 caças Gripen. O acordo, porém, não representa uma encomenda adicional da FAB e, portanto, não permite afirmar que a frota brasileira chegará a 56 aeronaves.

A Aeronáutica também aparece no PLOA com R$ 571,8 milhões para a aquisição do cargueiro KC-390 (Embraer), R$ 413 milhões para os helicópteros leves H125 Esquilo (fabricados pela Helibras, subsidiária da Airbus Helicopters, em Itajubá, MG) e R$ 337,6 milhões para a disponibilização dos A-29 Super Tucano (também Embraer) no âmbito do programa Sisdabra.

Marinha reforça os programas de submarinos e frasgatas
O PLOA reserva R$ 1,43 bilhão para o "Desenvolvimento de Sistemas de Tecnologia Nuclear da Marinha", quase integralmente (98%) classificado como investimento. O valor está associado ao programa nuclear da Marinha e constitui um dos principais componentes tecnológicos necessários ao futuro submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, desenvolvido no âmbito do Prosub, que reúne a Marinha do Brasil, a francesa Naval Group e o estaleiro Itaguaí Construções Navais (ICN). A dotação chega depois de um período de turbulência financeira: em março, a própria Marinha alertou sobre risco de paralisação parcial do Complexo Naval de Itaguaí sem um aporte extra de cerca de R$ 1 bilhão, e em julho o cronograma de lançamento do submarino foi adiado para 2038, atraso atribuído pela Marinha à falta de previsibilidade orçamentária dos anos anteriores.

O Prosub soma ainda R$ 388,8 milhões para a construção do próprio submarino nuclear, R$ 248,0 milhões para os submarinos convencionais da classe Riachuelo e R$ 215,75 milhões para a infraestrutura do estaleiro, os três praticamente 100% classificados como investimento.

Outro contrato relevante da Marinha é o das fragatas da classe Tamandaré, com R$ 900 milhões previstos para 2027. A dotação está vinculada à disponibilização de uma fragata do programa, cuja construção é realizada pela SPE Águas Azuis, formado pela alemã ThyssenKrupp Marine Systems (TKMS), pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, que constroem as embarcações no estaleiro de Itajaí (SC) sob gestão da EMGEPRON.

Exército distribui recursos entre blindados, mísseis, drones e SISFRON
No Exército, o maior projeto individual é a Implantação do Projeto Forças Blindadas, com R$ 1,02 bilhão (93% investimento) e produto declarado de 126 blindados adquiridos; o PLOA não identifica fabricante nem modelo. O dado chama atenção porque a Força assinou, em 31 de agosto, um dia antes do envio do PLOA ao Congresso, o contrato do VBC Centauro II BR, dentro de um programa que prevê até 221 viaturas ao longo do tempo. Não é possível confirmar, a partir do texto orçamentário, se a dotação de 126 unidades corresponde a esse mesmo contrato.

Em seguida vem o sistema ASTROS-FOGOS, com R$ 671,4 milhões (96% investimento); a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones, com R$ 520 milhões; e o SISFRON, com R$ 467 milhões voltados a sensores, radares e integração de sistemas de monitoramento de fronteira. O PLOA não identifica fabricantes em nenhum item de aquisição do documento; o ASTROS-FOGOS, porém, é historicamente produzido pela Avibras Aeroco, única fornecedora do sistema no País.

Defesa antiaérea de média altura ainda não tem rubrica própria
Um programa que não aparece no PLOA 2027 é o de defesa antiaérea de média altura. Por diretriz aprovada pelo Exército em dezembro de 2025 e divulgada em janeiro de 2026, o Exército definiu o sistema EMADS, da europeia MBDA, equipado com o míssil CAMM-ER (o mesmo das fragatas Tamandaré), para suprir uma lacuna histórica: hoje a Força só dispõe de meios de baixa altura, como o RBS-70 NG e o blindado Gepard. Até a elaboração do PLOA, no entanto, o contrato ainda não tinha data nem valor definidos, e nenhuma rubrica do orçamento de 2027 faz referência ao sistema ou à MBDA; os itens de artilharia antiaérea do Exército somam, ao todo, pouco mais de R$ 39 milhões, valor incompatível com uma aquisição desse porte. É um programa a acompanhar nos próximos créditos suplementares ou na LOA definitiva.

Dotações das estatais são majoritariamente destinadas a pessoal e custeio 

Entre as empresas estatais vinculadas ao Ministério da Defesa, a AMAZUL recebe a maior dotação (R$ 664,9 milhões) e a IMBEL, a segunda maior (R$ 543,2 milhões), mas a composição de ambas é dominada por pessoal e custeio administrativo; a AMAZUL destina apenas R$ 275 mil a investimento, e a IMBEL, R$ 67,5 milhões. Isso indica que, apesar dos valores absolutos, o potencial de movimentação da cadeia produtiva privada por meio dessas duas estatais é limitado em comparação aos grandes projetos de aquisição das Forças. Assim, os valores totais destinados às duas empresas não podem ser interpretados, isoladamente, como volume de novos contratos de fornecimento à indústria.

O quadro traçado pelo PLOA 2027 confirma uma tendência observada em orçamentos recentes: aeronaves de combate e tecnologia naval de propulsão nuclear concentram os maiores volumes de recursos, à frente de programas terrestres como o ASTROS-FOGOS e o SISFRON. Como projeto de lei, porém, o texto está sujeito a emendas parlamentares e alterações durante a tramitação no Congresso. Depois de aprovado e sancionado, a execução dos valores dependerá ainda da programação financeira e da eventual ocorrência de bloqueios ou contingenciamentos.

Embraer entrega o 2.000º jato da família E-Jet, recebido pela Azul em São José dos Campos

Aeronave é um E195-E2 e também marca a 50ª entrega da versão E2 para a companhia aérea brasileira, uma das maiores operadoras da família no mundo



*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

A Embraer entregou nesta terça-feira (2), em cerimônia realizada em sua sede, em São José dos Campos (SP), o 2.000º avião da família E-Jet. A aeronave, um E195-E2, foi recebida pela Azul Linhas Aéreas, maior companhia aérea do País em número de destinos atendidos. O marco reforça a posição do programa entre os maiores da aviação comercial mundial em número de unidades entregues.

Em serviço desde 2004, a família E-Jet já foi operada por mais de 90 companhias aéreas em mais de 60 países, acumulou cerca de 48 milhões de horas de voo e transportou mais de 2,85 bilhões de passageiros, segundo dados divulgados pela fabricante. O programa reúne as gerações E170, E175, E190 e E195, além dos modelos de segunda geração, E190-E2 e E195-E2, que trouxeram nova motorização e maior eficiência de combustível em relação à primeira geração.

Para Arjan Meijer, presidente e CEO da Embraer Commercial Aviation, a entrega da 2.000ª unidade é “um marco extraordinário” tanto para a fabricante quanto para o setor de transporte aéreo global. Segundo ele, ao longo das últimas duas décadas a família E-Jet teve papel relevante na conexão de comunidades, na abertura de novos mercados e na criação de oportunidades de crescimento sustentável para as companhias aéreas clientes.

A parceria entre Embraer e Azul remonta a dezembro de 2008, quando a companhia aérea recebeu, em seu voo inaugural, o primeiro E190, registrado como PR-AZL. Desde então, a Azul já operou mais de 140 jatos da família E-Jet e foi cliente de lançamento do E195-E2, tendo recebido a primeira unidade da versão em 2019. A aeronave entregue nesta semana marca também o 50º jato E2 recebido pela companhia. Para John Rodgerson, CEO da Azul, a coincidência dos dois marcos, o do programa da Embraer e o da própria trajetória da companhia aérea, dá um significado especial à entrega, que resume quase duas décadas de expansão da conectividade aérea regional no Brasil e de melhorias na experiência dos passageiros.

Além do peso simbólico, a marca de 2 mil unidades consolida o E-Jet como um dos três maiores programas de jatos comerciais do mundo em volume de entregas, atrás apenas das famílias A320, da Airbus, e 737, da Boeing, tradicionalmente as mais entregues da aviação comercial mundial. O resultado também sustenta a posição da Embraer entre as maiores fabricantes de aeronaves comerciais do planeta e permitiu à companhia brasileira ampliar sua presença no segmento global de narrowbodies de pequeno porte, além do tradicional nicho de aviação regional em que o programa nasceu.

Exército prevê evolução do míssil Avibras MTC-300 com maior alcance e guiamento terminal

MTC Bloco II amplia a capacidade planejada para o sistema ASTROS-FOGOS, mas ainda não há indicação pública de início do desenvolvimento ou definição do alcance

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 02/09/2026

O Exército Brasileiro prevê uma evolução do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), atualmente em fase avançada de certificação, para uma futura versão denominada MTC Bloco II. A proposta contempla maior alcance, novas cabeças de guerra e a incorporação de guiamento terminal, ampliando o espectro de alvos que o sistema poderá enfrentar.

A previsão integra a atualização das diretrizes do Programa Estratégico ASTROS-FOGOS e confirma que a evolução do MTC não se limita ao aumento da distância de emprego. O objetivo é acrescentar capacidades que permitam maior flexibilidade operacional, inclusive diante de alvos móveis.

O MTC-300 atualmente em certificação tem alcance declarado de até 300 quilômetros. Em 26 de agosto de 2026, a Avibras Aeroco e o Exército Brasileiro realizaram com sucesso novo ensaio de tiro no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, os objetivos previstos para aquela etapa foram integralmente alcançados.

Uma evolução que já estava prevista 
A concepção do MTC Bloco II, entretanto, não surgiu apenas com a atualização de 2026. Documentos de planejamento da Defesa já previam uma evolução do sistema em razão de novas necessidades operacionais, especialmente para a defesa do litoral e o emprego contra alvos móveis. Entre os requisitos apontados estavam justamente o guiamento terminal, novas cabeças de guerra e alcance superior ao MTC então existente.

O Plano Estratégico do Exército também já havia associado o Bloco II à necessidade de desenvolver um Míssil Tático de Cruzeiro com guiamento terminal contra alvos móveis. Isso mostra que a nova diretriz representa a continuidade de uma linha de planejamento, e não a criação repentina de um novo projeto.

Mais do que simplesmente aumentar o alcance 
A principal mudança qualitativa do Bloco II poderá estar no guiamento terminal. O MTC-300 foi concebido para ataques de precisão contra alvos previamente definidos, enquanto a capacidade de buscar ou discriminar o alvo na fase final do voo abre a possibilidade de emprego contra alvos móveis, incluindo, em determinados cenários, meios navais em movimento.

Essa característica tem relevância especial para a defesa do litoral. Estudos produzidos no âmbito do próprio Exército já apontaram que um míssil de cruzeiro destinado a engajar vetores navais em manobra necessita de uma solução de guiamento terminal, complementar aos sistemas de navegação inercial e por satélite.

O alcance do Bloco II ainda não foi definido publicamente 
Embora o planejamento estabeleça que o Bloco II deverá superar os 300 quilômetros associados ao MTC-300, não há, nas informações públicas consultadas, um número oficial para o alcance da futura versão.

Estimativas muito superiores, frequentemente atribuídas ao futuro míssil em discussões públicas, não devem ser confundidas com requisitos oficialmente divulgados ou capacidades demonstradas. Até o momento, a referência segura é a de que o Bloco II deverá ter alcance superior ao atual, sem especificação pública de quantos quilômetros serão alcançados. 

Projeto ainda não equivale a desenvolvimento iniciado 
Outro ponto importante é a diferença entre uma capacidade prevista no planejamento estratégico e um projeto efetivamente em desenvolvimento. A documentação disponível indica que o Bloco II permanece no campo da evolução planejada. Não há evidência pública suficiente para afirmar que uma campanha de desenvolvimento já tenha sido iniciada.

Essa distinção é particularmente relevante porque o MTC-300 e o MTC Bloco II encontram-se em situações diferentes. Enquanto o primeiro vem passando por ensaios destinados à certificação, o segundo continua associado a uma capacidade futura, cujos requisitos e soluções tecnológicas ainda podem sofrer alterações. 

A questão da propulsão permanece em aberto 
Também não há definição pública consolidada sobre a turbina que equipará o Bloco II. Referências anteriores do setor associaram diferentes soluções de propulsão à evolução da família MTC, mas os documentos públicos mais recentes consultados não permitem afirmar que o TF-1200, o TJ-1000B ou qualquer outro modelo tenha sido oficialmente selecionado para a futura versão.

A ausência de uma definição pública, portanto, não significa que determinadas alternativas tenham sido descartadas. Significa apenas que não há informação oficial suficiente para atribuir ao Bloco II uma configuração de propulsão específica. 

O novo contexto do ASTROS-FOGOS 
A evolução do MTC ocorre em um momento de reorganização do portfólio estratégico do Exército. Em março de 2026, a Força estruturou o ASTROS-FOGOS como um de seus programas prioritários, concentrando sob uma mesma arquitetura iniciativas relacionadas à artilharia, mísseis e foguetes e defesa antiaérea.

Nesse contexto, o MTC Bloco II passa a integrar uma visão mais ampla de capacidades de fogos de longo alcance. O desenvolvimento de munições mais precisas, com maior alcance e capacidade de enfrentar diferentes tipos de alvos, é coerente com a busca do Exército por maior capacidade de dissuasão e projeção de efeitos sem a necessidade de empregar meios aéreos tripulados. 

MTC-300 avança enquanto o Bloco II permanece no horizonte 
O contraste entre os dois projetos é importante. O ensaio realizado em 26 de agosto reforçou o avanço do MTC-300 no processo de certificação. A atividade reuniu equipes do Exército e da Avibras Aeroco e contou ainda com representantes do Escritório de Projetos do Exército, da Diretoria de Fabricação, do Instituto Militar de Engenharia e do Centro Tecnológico do Exército.

Já o Bloco II representa uma etapa posterior. Sua importância está menos em uma capacidade já disponível e mais na direção tecnológica que o Exército pretende seguir: maior alcance, novas opções de carga militar e capacidade de guiamento terminal. Caso o projeto avance para a fase de desenvolvimento, essas características poderão transformar o MTC em uma arma significativamente mais versátil do que a versão atualmente em certificação. 

O que deve ser observado 
Os próximos documentos de planejamento e eventuais decisões de contratação serão importantes para verificar se o MTC Bloco II deixará o estágio de previsão e passará a uma fase formal de desenvolvimento. Também será relevante acompanhar eventual definição dos requisitos de alcance, do sistema de guiamento terminal, das cabeças de guerra e da propulsão.

Por enquanto, o quadro que emerge da documentação pública é claro: o Brasil trabalha para consolidar o MTC-300 de até 300 quilômetros e, paralelamente, mantém planejada uma evolução capaz de ampliar substancialmente suas possibilidades de emprego. O Bloco II, porém, ainda deve ser tratado como uma capacidade futura, e não como um míssil já em desenvolvimento ou com características técnicas definitivamente estabelecidas. 

01 setembro, 2026

ITA e OpenAI: o que o acordo realmente prevê, segundo documentos oficiais

Caráter estratégico do ITA e seu vínculo com a Força Aérea Brasileira torna improvável que o acordo previsse, ou sequer admitisse, repasse de dados institucionais


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

A OpenAI, empresa americana responsável pelo ChatGPT, anunciou, em 18 de agosto de 2026, durante evento em São Paulo, o início de suas operações comerciais no Brasil. O anúncio incluiu quatro iniciativas e parcerias institucionais: com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com a Prefeitura de São Paulo, por meio da Prodam, com a plataforma de capacitação jurídica ENTER e com o programa Estímulo, voltado a pequenos empreendedores.

O acordo com o ITA, uma das principais escolas de engenharia ligadas às Forças Armadas no País, chamou atenção de setores que acompanham temas de defesa e soberania tecnológica. Nas redes sociais, circulou a leitura de que a instituição teria fechado uma parceria para compartilhar dados com a OpenAI, e de que o acordo levantaria suspeitas quanto à entrega de informações sensíveis à soberania nacional a uma empresa dos Estados Unidos.

O que dizem os documentos e anúncios oficiais 
Segundo o anúncio publicado pela própria OpenAI e confirmado por veículos como CNN Brasil, Poder360, IT Forum e Consecti, os termos tornados públicos descrevem a concessão de acesso e créditos pela OpenAI ao ITA: a empresa fornecerá contas do ChatGPT Edu a estudantes, docentes e funcionários do ITA, além de créditos para o uso de recursos avançados, como modelos de raciocínio e o Codex, ferramenta de programação da companhia. O objetivo declarado é ampliar o acesso a ferramentas de inteligência artificial no ensino, na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico da instituição.

Em nenhuma das fontes oficiais consultadas, incluindo o anúncio da OpenAI e a cobertura jornalística sobre o evento de lançamento, foi localizada menção a cláusulas de compartilhamento de dados institucionais, de pesquisa ou de projetos do ITA com a empresa americana. O modelo descrito é equivalente ao adotado pela OpenAI em outras universidades, como Oxford, Wharton, Arizona State e Columbia. A iniciativa também se insere na estratégia maior da empresa de ampliar a utilização de suas ferramentas no ambiente universitário e acadêmico.

A política da OpenAI para contas institucionais do tipo Edu e Enterprise, disponível na central de ajuda da empresa, afirma que os dados dessas organizações não são utilizados para treinar os modelos por padrão, e que as informações são protegidas por criptografia em trânsito e em repouso. Isso, contudo, não significa que a empresa jamais processe os dados: o tratamento ocorre de acordo com as condições do serviço, as configurações da organização e as respectivas políticas de privacidade. 

Por que o tema gera desconfiança 
O caráter estratégico do ITA, ligado à formação de engenheiros para a indústria aeroespacial e de defesa, explica por que qualquer parceria da instituição com uma empresa estrangeira de tecnologia tende a ser observada com atenção redobrada. A chegada da OpenAI ao País ocorre, ainda, em um momento de disputa comercial entre grandes empresas de inteligência artificial por espaço no mercado brasileiro, o que amplia o escrutínio sobre os termos de cada acordo firmado com instituições públicas ou estratégicas.

Ainda assim, a distinção entre fornecer acesso a uma ferramenta e repassar dados institucionais é relevante para a análise do caso. Um risco operacional distinto, e esse sim mencionado por especialistas em segurança da informação de forma genérica, é o de usuários inserirem, no uso cotidiano de ferramentas de inteligência artificial, informações sensíveis em suas próprias consultas, independentemente da existência de qualquer cláusula contratual de repasse de dados. Esse risco, no entanto, decorre do comportamento do usuário e não caracteriza, por si só, um acordo institucional de transferência de informações como o descrito nas redes sociais.

Situação até o fechamento desta matéria
Até o momento, não foi localizado, nos canais oficiais consultados do ITA, da Aeronáutica ou do Ministério da Defesa, documento contratual público que permita conhecer eventuais cláusulas adicionais do acordo além das informações divulgadas pela OpenAI. Também não foi localizada manifestação pública específica dessas instituições que detalhe o teor jurídico e operacional da parceria.

Isso não permite concluir, contudo, que não existam outras cláusulas contratuais. Significa apenas que, até o fechamento desta matéria, elas não foram tornadas públicas ou não foram localizadas nas fontes oficiais consultadas.

Diante do caráter estratégico do ITA e de seu vínculo direto com a Força Aérea Brasileira, seria de se esperar que a instituição não admitisse, em um acordo dessa natureza, cláusula que previsse, ou sequer deixasse em aberto, a possibilidade de transferência de dados institucionais, de pesquisa ou de projetos estratégicos a uma empresa estrangeira. Nas informações públicas disponíveis, não há qualquer indício de que esse tenha sido o objeto da parceria com a OpenAI. O que está documentado é a disponibilização de contas do ChatGPT Edu e de créditos para recursos avançados, incluindo modelos de raciocínio e o Codex.

Portugal autoriza assinatura de MoU com a Grécia sobre o KC-390, e CEO da Embraer confirma negociação

Despacho publicado no Diário da República em 26 de agosto habilita o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa português a formalizar a parceria estratégica bilateral; Francisco Gomes Neto citou a Grécia no earnings call de agosto, mas com cautela que sinaliza contrato ainda não fechado


*LRCA Defense Consulting - 01/09/2026

Dois documentos tornados públicos nas últimas semanas permitem, pela primeira vez, fixar com precisão em que ponto se encontra o processo de aquisição dos três KC-390 pela Grécia: iminente, mas não concluído. O primeiro é um despacho do Ministério da Defesa de Portugal publicado no Diário da República em 26 de agosto de 2026, autorizando formalmente o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assinar um Memorando de Entendimento com o homólogo grego sobre uma "parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar". O segundo é a transcrição do earnings call do segundo trimestre da Embraer, realizado em 10 de agosto, em que o CEO Francisco Gomes Neto mencionou a Grécia no contexto de suas campanhas de defesa em andamento, com uma escolha de palavras que merece atenção cuidadosa.

Tomados em conjunto, os dois documentos redesenham o mapa do processo: Portugal está juridicamente pronto para assinar; a Embraer acompanha a negociação, mas ainda não a contabiliza como contrato; e a janela de assinatura mais provável é a primeira quinzena de setembro de 2026.

O despacho português: o lado Lisboa está pronto
O Diário da República é o diário oficial de Portugal, e um despacho ministerial publicado nele tem força de ato administrativo vinculante. O documento de 26 de agosto aprova a minuta de um Memorando de Entendimento entre os ministérios da Defesa de Portugal e da Grécia e autoriza o diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa a assiná-lo. O texto menciona explicitamente o interesse grego na aquisição de aeronaves KC-390 no âmbito da parceria estratégica bilateral.

DIÁRIO DA REPÚBLICA — DESPACHO DE 26/08/2026 (síntese)

Ato: Despacho ministerial, Ministério da Defesa Nacional de Portugal

Objeto: Aprovação da minuta de Memorando de Entendimento entre os Ministérios da

   Defesa de Portugal e da Grécia

Matéria: "Parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar"

Referência ao KC-390: explícita no texto do despacho

Autorização: diretor-geral de Armamento e Patrimônio da Defesa fica habilitado a assinar

Publicação: Diário da República, 26 de agosto de 2026

O significado prático é preciso: o lado português está juridicamente habilitado para assinar. A publicação no Diário da República não é uma formalidade interna, é o ato que confere ao signatário a competência legal para vincular o Estado português. Sem esse despacho, o MoU não poderia ser assinado por representante do governo de Lisboa. Com ele publicado, a única etapa que resta é a marcação da data e do local da cerimônia, mais a concordância do lado grego que, como demonstrado pela aprovação do KYSEA em 23 de julho, já completou seu próprio ciclo de autorizações institucionais.

A arquitetura jurídica do negócio é composta por duas camadas. O MoU intergovernamental Portugal-Grécia estabelece o quadro da parceria estratégica e os termos da transferência dos slots de produção que Portugal reservou na linha de montagem da Embraer em São José dos Campos. O contrato de aquisição propriamente dito, os EUR 597,5 milhões aprovados pelo Parlamento heleno em junho e referendados pelo KYSEA em julho, pode ser assinado no mesmo ato ou em momento imediatamente posterior. Em outros programas com estrutura semelhante, como o MoU de MRO entre a Embraer e a Hellenic Aerospace Industry (HAI) em maio de 2026, o instrumento preparatório e o ato principal foram separados por dias, não meses.

O earnings call: Gomes Neto confirma, mas escolhe as palavras
Na teleconferência de resultados do segundo trimestre, realizada em 10 de agosto, dezesseis dias antes do despacho português, o CEO Francisco Gomes Neto foi questionado pelo analista Ron Epstein, do Bank of America, sobre o impacto da situação geopolítica nas campanhas de defesa da Embraer. A resposta citou a Grécia, mas em termos que diferem significativamente do que foi dito sobre a Colômbia.


EMBRAER — EARNINGS CALL Q2 2026 (10/08/2026) — TRANSCRIÇÃO PARCIAL

"You saw the recent announcement after the UAE, we announced Colombia recently.

 You saw Greece also mentioning a potential deal through Portugal of KC-390.

 We are working on other campaigns as well that I cannot disclose at this point."

— Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer

   Resposta ao analista Ron Epstein (Bank of America)

 
A distinção lexical é o elemento analítico central. A Colômbia foi apresentada como "newest KC-390 customer" (cliente confirmado), contrato assinado em 4 de agosto, anunciado no próprio call. A Grécia foi descrita como "mentioning a potential deal through Portugal" (um negócio potencial), ainda em discussão, não um cliente. A Embraer tem histórico consistente de precisão terminológica neste ponto: só anuncia um país como cliente quando o contrato está assinado. A linguagem de Gomes Neto em 10 de agosto era, portanto, uma confirmação de que o processo grego estava avançado, mas incompleto.

O despacho do Diário da República, publicado dezesseis dias depois, resolve a equação do lado português. Se na data do call o processo ainda estava em negociação, a publicação da autorização de assinatura pelo governo de Lisboa indica que as conversações evoluíram rapidamente para a etapa final. O padrão é coerente com o que o Army Recognition descreveu em 26 de julho: "acordo esperado para ser assinado no outono de 2026, com setembro como possível data-alvo".

Por que setembro e não outubro
Há três razões concretas para que setembro seja o prazo real, e não apenas o desejável. A primeira é a pressão dos slots de produção: a Grécia assumirá três posições previamente reservadas por Portugal na linha de Gavião Peixoto. Esses slots têm janelas temporais associadas ao cronograma de produção da Embraer, e a linha está crescentemente pressionada pela carteira de pedidos acumulada: Emirados Árabes Unidos (20 aeronaves, maio de 2026), Colômbia (2, agosto de 2026), Eslováquia (em negociação final) e potencialmente outros clientes não divulgados que Gomes Neto mencionou no mesmo call. Cada mês de atraso na formalização aumenta o risco de conflito de slots.

A segunda razão é o cronograma de entrega: a Grécia precisa receber a primeira aeronave em 2027. Para isso, o contrato precisa estar assinado com margem suficiente para que a Embraer complete os processos de aceitação, configuração e transferência. Fontes do setor estimam que o prazo mínimo entre assinatura e primeira entrega, neste tipo de contrato com slots pré-reservados, é de doze a dezoito meses. Um contrato assinado em setembro de 2026 deixa exatamente doze a quinze meses para a entrega de 2027, uma margem ajustada, mas viável.

A terceira razão é política: o governo Mitsotakis tem interesse em fechar o maior programa de defesa da história moderna da Grécia antes do fim do terceiro trimestre de 2026. O Escudo de Aquiles foi assinado em Tel Aviv em 31 de agosto. A narrativa de um "setembro de contratos", com o KC-390 seguindo imediatamente o sistema antiaéreo israelense, é um ativo político de primeira grandeza para um governo que fez da modernização das Forças Armadas um dos pilares de sua agenda.

O que ainda falta para o contrato ser assinado
O despacho português de 26 de agosto autoriza a assinatura do MoU intergovernamental, não do contrato de aquisição em si. A sequência mais provável é: MoU Portugal-Grécia assinado em data próxima, formalizando a parceria estratégica e a transferência de slots; em seguida, ou no mesmo ato, o contrato de compra e venda entre as partes, no valor de EUR 597,5 milhões aprovado pelas instituições gregas.

Do lado grego, todos os obstáculos institucionais foram superados: aprovação parlamentar (10 de junho), aprovação do KYSEA (23 de julho), negociações técnicas com Portugal conduzidas pela Diretoria-Geral de Investimentos e Armamentos de Defesa (GDDIA). Do lado português, o despacho de 26 de agosto fecha o ciclo de autorizações. Do lado da Embraer, a empresa acompanha e viabiliza tecnicamente a transferência de slots, sem ser a parte signatária do acordo governo a governo.

O único elemento de incerteza remanescente é a data exata e o local da cerimônia, Lisboa, Atenas ou outro ponto, que não foi anunciado por nenhum dos dois governos até o momento de publicação desta matéria. Mas os instrumentos jurídicos estão prontos. A caneta está sobre a mesa.

CRONOLOGIA: DOS ESTUDOS AO MoU

Fev. 2026

Delegação da Força Aérea Helênica avalia o KC-390 em operação em Beja, Portugal

22 mai. 2026

MoU Embraer / HAI para capacidade de MRO na Grécia — primeiro sinal público de decisão tomada

10 jun. 2026

Parlamento heleno aprova o programa: EUR 597,5 milhões, 3 aeronaves via Portugal

23 jul. 2026

KYSEA referenda os contratos — ciclo institucional grego encerrado

31 jul. 2026

Army Recognition: "setembro como possível data-alvo" para assinatura do acordo com Portugal

10 ago. 2026

Earnings call Embraer Q2: CEO cita Grécia como "potential deal through Portugal" — não como cliente confirmado

26 ago. 2026

Diário da República (Portugal) publica despacho autorizando assinatura do MoU com a Grécia sobre KC-390

31 ago. 2026

Escudo de Aquiles assinado em Tel Aviv — programa paralelo, distinto do KC-390

Set. 2026*

Assinatura do MoU Portugal-Grécia e do contrato de aquisição do KC-390 (data não anunciada)

2027

Previsão de entrega da 1ª aeronave à Força Aérea Helênica

2030

Conclusão das entregas das 3 aeronaves

(*) Linhas em verde: eventos confirmados por ato oficial. Setembro: projeção baseada em documentos primários.

Fontes: Diário da República de Portugal — Despacho 10563/2026 (26/08/2026) | Embraer Q2 2026 Earnings Call Transcript (Motley Fool / Globe and Mail, 10/08/2026) | Army Recognition (26/07/2026) | LRCA Defense Consulting

 

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