Em menos de dois anos, o Brasil passou
de observador a protagonista na corrida global pelos sistemas autônomos de
combate. Robôs EOD nacionais já integram o Exército, drones armados avançam em
bancadas de engenharia e fabricantes consolidados como a Taurus anunciam
portfólios que vão do calibre .22 ao .50, agora também podendo ser embarcados em veículos
não tripulados terrestres e aéreos.
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| Primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos
(EOD — Explosive Ordnance Disposal) inteiramente produzido no país pela Ambipar Robotics (imagem original renderizada com IA) |
*LRCA Defense Consulting - 20/05/2026
Em meados de maio de 2026, o Exército
Brasileiro recebeu o primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos
(EOD — Explosive Ordnance Disposal) inteiramente produzido no país. O sistema
foi fabricado pela Ambipar Robotics, de Jacareí (SP), e foi entregue ao 6º
Batalhão de Engenharia de Combate, onde será usado no processo de certificação
de tropas brasileiras para missões de paz da ONU, no âmbito do United Nations
Peacekeeping Capability Readiness System (UNPCRS).
A diretora executiva da empresa, Fernanda
Morelli Macedo, celebrou a entrega nas redes sociais como "o primeiro robô
militar nacional desenvolvido no Brasil", ressaltando que a conquista
demonstra que o país possui capacidade técnica e profissionais qualificados
para desenvolver tecnologias estratégicas de alto valor. A plataforma é
descrita como multi-operacional e foi desenvolvida com apoio da empresa
Detronics.
A chegada do robô EOD nacional é
especialmente relevante porque, até então, o Exército Brasileiro operava
equipamentos importados nessa função, como os modelos alemães tEODor e
Telemax, que por anos foram mantidos de forma artesanal, inclusive com peças
reproduzidas pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) da FAB. O novo
sistema da Ambipar Robotics representa, portanto, um salto de soberania
tecnológica.
A Taurus avança para
os UGVs armados
Enquanto a Ambipar Robotics consolida sua
presença no segmento EOD, a Taurus Armas revelou, em live
com analistas e investidores realizada em 18 de maio de 2026, que está
desenvolvendo, em paralelo ao seu portfólio de armas convencionais, um conjunto
de veículos não tripulados, tanto aéreos quanto terrestres (UGV), destinados a
receber as armas de médio e pesado calibre que a empresa pretende produzir
quando a tecnologia estiver disponível.
O anúncio foi feito pelo CEO global Salesio
Nuhs durante a apresentação dos resultados do primeiro trimestre de 2026. Nuhs
não revelou o parceiro tecnológico para o desenvolvimento dos UGVs, mas analistas do setor apontam que a Ambipar Robotics, já fornecedora de
plataformas robóticas ao Exército, seria uma parceira natural, embora nenhuma
das empresas tenha confirmado tal acordo.
O drone aéreo armado da Taurus já existe em
forma concreta: o TAS (Tactical Air Soldier), um quadricóptero equipado com
armamento tático nos calibres 5,56 mm, 7,62 mm e 9 mm, foi apresentado
inicialmente na LAAD Defence & Security 2025, no Rio de Janeiro, e
reapresentado no World Defense Show 2026, em Riade, na Arábia Saudita. Segundo
a empresa, o TAS foi desenvolvido com um fabricante brasileiro de drones do
agronegócio e conta com câmera 4K estabilizada em três eixos, sistema de
controle de fogo integrado, sensores de distância, ponteiro laser e
identificação de alvos com inteligência artificial embarcada.
A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de
Fuzileiros Navais (CFN), já assinou com a Taurus um Protocolo de Intenções para
o desenvolvimento de novos sistemas de armas, incluindo o drone armado, destinado às tropas anfíbias. A cerimônia contou com o apoio institucional do
BNDES, alinhada à Missão 6 da Nova Indústria Brasil (NIB), que prevê R$ 112,9
bilhões em investimentos em defesa até 2026.
Para completar o portfólio de armas
coletivas que alimentará esses sistemas autônomos, a Taurus negocia a aquisição
da fabricante turca Mertsav Savunma, especializada em metralhadoras nos
calibres 5,56 mm, 7,62 mm e .50 BMG, além de fuzis, pistolas e lança-granadas. O CEO afirmou, na mesma live de maio de
2026, que a due diligence está "bastante avançada" e que a decisão
deve ser tomada "com certeza absoluta" até o final do ano. A
estratégia é trazer a tecnologia para São Leopoldo (RS) a fim de atender às
Forças Armadas brasileiras. "A Taurus será a única empresa fabricante de
armas do mundo que vai ter um portfólio do calibre .22 ao calibre .50",
disse Nuhs.
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| TAS (Tactical Air Soldier), da Taurus Armas |
XMobots: do
reconhecimento ao combate reutilizável
A XMobots, de São Carlos (SP), apontada
como a sexta maior empresa de drones civis do mundo, avança em duas frentes
distintas no segmento de defesa. A primeira é a versão armada do Nauru 1000C,
drone de 150 kg já utilizado pelo Exército Brasileiro em missões de
inteligência e reconhecimento de fronteiras. Em parceria com a MBDA, maior
grupo de mísseis da Europa, a empresa integra ao Nauru 1000C dois mísseis
Enforcer Air, projetados para atingir veículos com blindagem leve a até 8 km
de distância. Esse seria o primeiro sistema de arma aéreo não tripulado
genuinamente brasileiro.
A segunda frente é o Nauru 100D, lançado em
abril de 2025 sob a marca XMobots Defense. Trata-se de um sistema tático de
vigilância de 9 kg, montável em menos de três minutos a partir de duas
mochilas, com decolagem e pouso vertical elétrico (eVTOL) e até seis horas de
autonomia. Na LAAD Security Milipol Brazil 2026, realizada em São Paulo em
abril de 2026, a empresa revelou o conceito UCAV (Unmanned Combat Aerial
Vehicle) do aparelho: uma versão armada capaz de atacar a 60 metros de altura
com bombas de alto explosivo (HE) ou cargas antitanque (HEAT), corrigir a
trajetória em tempo real e retornar à base para ser rearmado e operar novamente, diferenciando-se das chamadas munições vagantes (loitering munitions), que
são descartadas no impacto.
Além do UCAV, a XMobots apresentou o
conceito Swarm (enxame): até 30 aeronaves lançadas simultaneamente a partir de
um contêiner de 20 pés, três para reconhecimento e 27 para ataque coordenado, com alcance previsto entre 120 km e 340 km. A empresa afirma ter capacidade
produtiva de 360 unidades por mês e ter iniciado a fabricação de um lote-teste
de 20 sistemas. Em janeiro de 2026, a XMobots também firmou acordo de
cooperação técnica com a Marinha do Brasil e a Petrobras para adaptar drones da
família Nauru a operações embarcadas em navios, com investimento de R$ 40
milhões.
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| Drones Nauru 1000C, da XMobots, armado com mísseis Enforcer Air produzidos pela MBDA (acima) e Nauru 100D armado com granada de alto explosivo (HE) (abaixo) |
O Exército quer mais:
consulta por drones armados SARP 3
O Estado-Maior do Exército (EME) abriu, em
março de 2025, consulta pública para a aquisição de até três Sistemas de
Aeronaves Remotamente Pilotadas categoria 3 (SARP 3). Os requisitos publicados
no edital são exigentes: peso máximo de decolagem de 700 kg, alcance mínimo de
300 km, altitude máxima de 18.000 pés e autonomia de pelo menos 48 horas. Em
termos de armamento, o Exército espera que as aeronaves sejam capazes de
transportar ao menos quatro foguetes de 70 mm ou dois mísseis guiados por laser
com alcance mínimo de 4 km, além de bombas ou granadas não guiadas. O edital
previa consulta aberta até 4 de agosto de 2025.
Atualmente, todas as aeronaves remotamente
pilotadas no arsenal das Forças Armadas brasileiras são de monitoramento; nenhuma porta armamento. A consulta pública do EME sinaliza que essa realidade
deve mudar em horizonte próximo.
A guerra na Ucrânia
como laboratório: drones armados com espingardas
O conflito na Ucrânia continua acelerando a
inovação tática em sistemas não tripulados. Pilotos ucranianos passaram a
equipar seus VANTs com armas de fogo para abater quadricópteros FPV (first
person view) russos, criando uma nova forma de combate aéreo em que os
pilotos, sentados a quilômetros de distância, duelam indiretamente nos céus por
meio de suas máquinas. Analistas de defesa observam que esse desenvolvimento
não é uma excentricidade, mas o próximo passo lógico após meses de testes com
armas completas embarcadas em drones de baixa altitude realizados por ambos os
lados. O fenômeno reforça a percepção de que qualquer sistema não tripulado
moderno precisa, já no projeto, incorporar capacidade de ataque ou de resposta
a ameaças aéreas.
Base Industrial de
Defesa: avanço real, desafios estruturais
Os desenvolvimentos recentes indicam que a
Base Industrial de Defesa (BID) brasileira saiu de uma posição praticamente
inativa nesse segmento para articular, em menos de dois anos, múltiplas
iniciativas simultâneas: o primeiro robô EOD nacional (Ambipar Robotics), o
primeiro drone armado com potencial de emprego em forças especiais e fuzileiros
navais (Taurus/TAS), os primeiros testes de mísseis em drone brasileiro
(XMobots/MBDA) e os primeiros conceitos de enxame e UCAV reutilizável
(XMobots/Nauru 100D).
Analistas do setor, porém, alertam que as
iniciativas ainda carecem de uma estratégia nacional integrada. O documento
Defesa BR 2027–2057, referenciado em publicações especializadas, propõe a
criação de um Comando de Drones e Robôs de Combate (CDRC) centralizado no
Ministério da Defesa, com centros regionais vinculados às três Forças. A
proposta permanece no plano conceitual, mas ganha relevância à medida que os
projetos industriais avançam e que as informações das guerras atuais convergem para essa necessidade.
A Nova Indústria Brasil (NIB), com sua
Missão 6 voltada à defesa nacional, representa o principal vetor de
financiamento público. Os R$ 112,9 bilhões previstos até 2026 e a meta de 55%
de domínio das tecnologias críticas de defesa são sinais de que o governo
federal reconhece a urgência estratégica do tema. O desafio agora é transformar
protótipos e memorandos de intenção em sistemas certificados, produzidos em
escala e integrados à doutrina das Forças Armadas.