![]() |
| Render do míssil de cruzeiro da PlasmaHub, com o selo PED do Ministério da Defesa, em imagem do portal Brazil Defense Brief (BDB) |
*LRCA Defense Consulting - 22/06/2026
Até o fechamento desta matéria, porém, não foi localizada cobertura da imprensa especializada que confirme o míssil de longo alcance como destaque efetivo da presença da empresa na feira. Diferentemente de companhias brasileiras como Embraer, CBC, Taurus, Mac Jee e Condor, que tiveram estandes próprios na Eurosatory 2026, a PlasmaHub esteve no espaço coletivo do pavilhão nacional, o que pode ter limitado a visibilidade individual de seus produtos.
O sistema de lançamento e a propulsão híbrida
Segundo publicação do portal Brazil Defense Brief (BDB) feita antes da abertura da feira, o sistema contaria com um lançador móvel rodoviário configurável para dois a quatro mísseis em canisters. A solução integrada incluiria recarga de mísseis, fornecimento de combustível, controle móvel de missão, comunicações via satélite e integração C2 (comando e controle). Essas características, no entanto, não foram confirmadas por cobertura da feira em si nem por declaração oficial da PlasmaHub.
A propulsão, segundo a mesma publicação, combinaria dois estágios: um foguete de propelente sólido, usado como acelerador inicial (booster), e um motor turbojato, empregado na fase de cruzeiro. Essa arquitetura em dois estágios conferiria ao sistema capacidade de ataque de longo alcance, com ogiva de fragmentação por explosão.
As imagens do míssil em montagem permitem identificar, no banco de testes, um motor turbojato de eixo único que corresponde, em proporções e posicionamento, ao modelo TJ-1000, fabricado pela brasileira Turbomachine. O motor tem peso seco de 70 quilos, 1.180 milímetros de comprimento e 350 milímetros de diâmetro, sendo capaz de gerar entre 1.000 e 1.200 libras-força de empuxo, conforme a configuração. Utiliza um compressor axial de quatro estágios, fabricado em peça única de alumínio, e turbina de um estágio. O mesmo motor já é empregado pela Avibras Aeroco, sob acordo de licença de fabricação, no míssil AV-TM 300 (também chamado MTC-300), que equipa o sistema ASTROS.
Fontes do setor apontam que versões mais potentes da propulsão, como um motor identificado como TF-1200, poderiam elevar o alcance de sistemas baseados no TJ-1000 a algo entre 1.500 e 2.000 quilômetros. Essa estimativa encontra respaldo em fonte primária: um trabalho acadêmico de 2025, produzido por sete oficiais do Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt) do Exército Brasileiro como requisito para a especialização em Planejamento e Emprego do Sistema de Mísseis e Foguetes, confirma que a PlasmaHub está desenvolvendo míssil de longo alcance denominado AATD, o qual pode chegar até 2000 km. O mesmo documento confirma que a plataforma lançadora teria capacidade de lançar até duas munições, no mesmo sentido do que circulava em publicações de terceiros nas redes sociais.
O estudo, voltado à base industrial de defesa que sustenta o sistema ASTROS, traz a confirmação institucional mais robusta sobre o programa até o momento. Descreve a PlasmaHub como empresa com expertise na integração de sistemas componentes de mísseis, foguetes, além de munições pesadas com sistemas de guiamento acoplados, fundada em 2018 e classificada como Empresa Estratégica de Defesa (EED). Detalha ainda a rede de parceiros da empresa na manufatura horizontalizada de seus produtos: Edge Of Space (EOS), responsável por dispositivos pirotécnicos; Índios Pirotecnia; Castro Leite Consultoria (CLC), que contribui com navegação inercial; Airtech Defense; e a própria Turbomachine, fornecedora dos motores. A PlasmaHub aparece como responsável pelo desenvolvimento do computador de missão (descrito no documento como Mission First Computer).
O estudo também registra que a empresa alega que seus produtos estão fora da jurisdição das ITAR (International Traffic in Arms Regulations, o regime norte-americano de controle de exportação de tecnologias de defesa), embora dependa de insumos e matérias-primas importadas para executar seus projetos. Buscar a condição de ITAR Free é relevante para a competitividade comercial do míssil, já que produtos sujeitos às ITAR enfrentam restrições severas de exportação impostas pelos Estados Unidos.
A ficha técnica completa do portfólio de mísseis
Materiais divulgados pela própria PlasmaHub detalham um portfólio mais amplo do que o míssil de longo alcance isoladamente. Ele inclui um míssil de cruzeiro de curto e médio alcance, o míssil de cruzeiro de longo alcance, uma estação de controle terrestre e uma estação de lançamento móvel baseada em veículo terrestre. A empresa também desenvolve um kit de guiamento e planeio para bombas da família MK (MK-81, MK-82 e MK-89), além de um foguete supersônico de artilharia e do já mencionado veículo lançador de satélites, em parceria com o consórcio liderado pela Cenic.
O míssil de curto e médio alcance tem alcance estimado entre 200 e 300 quilômetros, velocidade de Mach 0,80 e altitude de voo em torno de 20 mil pés. É propulsionado pelo motor turbojato TJ-200, da Turbomachine, e incorpora asas retráteis, aletas de controle em configuração cruciforme e entrada de ar inferior. O armamento emprega guiamento bidirecional com datalink, cabeça de guerra de fragmentação e erro circular provável (CEP) de 30 metros. O projeto tem como base o míssil de cruzeiro Caburé 300, desenvolvido pela própria Turbomachine e apresentado na LAAD 2015, o que indica linhagem de mais de uma década para o conceito.
Já o míssil de longo alcance, alvo principal desta matéria, mantém velocidade de Mach 0,75, carga útil de 200 quilos e o motor TJ-1000. Incorpora asas e superfícies de controle retráteis, lançamento a partir de canister e ogiva de fragmentação. O sistema conta ainda com sensor infravermelho para a fase terminal, CEP estimado em 2 metros, dispositivo de autodestruição e possibilidade de emprego de booster de aceleração, além da opção de lançamento a partir de uma unidade física dedicada.
A turbina TJ-200, por sua vez, é uma microturbina a gás de apenas 180 milímetros de diâmetro, com 12 quilos de peso e capacidade de gerar 220 libras-força de empuxo, suficiente para os 300 quilômetros declarados de alcance do míssil de menor porte.
Um papel potencial no ecossistema do ASTROS, mesmo com a Avibras reativada
O trabalho acadêmico do Exército situa a PlasmaHub dentro de um contexto institucional mais amplo: a crise da Avibras, fabricante histórica do sistema ASTROS, que entrou em recuperação judicial em 2022 por uma dívida de aproximadamente R$ 600 milhões. Essa crise comprometeu por anos o suprimento de munição e a manutenção do sistema, levando o Exército a mapear empresas alternativas da base industrial de defesa capazes de assumir funções antes exclusivas da Avibras.
Desde a conclusão do estudo, porém, o quadro mudou: em maio de 2026, a empresa, agora sob nova governança e rebatizada Avibras Aeroco, retomou suas operações após receber um aporte de R$ 300 milhões do grupo J&F e encerrar uma greve de 1.280 dias. A retomada inclui a continuidade do MTC-300 (AV-TM 300) e do próprio sistema ASTROS, que segue propulsionado pelo motor TJ-1000 da Turbomachine sob licença de fabricação, sem indicação de substituição por um motor próprio da empresa.
Mesmo com a reativação da Avibras Aeroco, o mapeamento institucional que apontava a PlasmaHub como possível solução para a manutenção dos sistemas lançadores do ASTROS, dada sua expertise em plataformas e em sistemas lançadores, segue relevante: a base industrial de defesa brasileira tende a se manter diversificada, com a PlasmaHub, a SIATT, a Mac Jee e a Modirum Gespi mapeadas como possíveis fornecedoras complementares de munição, e com a PlasmaHub citada também na integração de sistemas de comunicações, meteorologia e cálculo de tiro, ao lado de RF Com e SIATT. Isso sugere que a empresa não atua apenas como desenvolvedora independente de um míssil próprio, mas também como possível ator de apoio dentro do ecossistema industrial que sustenta um dos principais sistemas de artilharia do Exército Brasileiro.
Uma visão mais ampla da PlasmaHub
O míssil de longo alcance é apenas uma frente da PlasmaHub. A empresa, formada por engenheiros com passagens pela Embraer, pela Avibras e pela Mectron, atua também no setor espacial: integra o consórcio liderado pela Cenic Engenharia responsável pelo desenvolvimento do MLBR (Microlançador Brasileiro), o veículo lançador de pequeno porte (VLPP) financiado pela Finep, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com participação da Agência Espacial Brasileira (AEB).
No consórcio, a PlasmaHub contribui com o banco de controle de lançamento, projetos aeroespaciais e montagem de módulos. O programa já passou pela Preliminary Design Review (PDR), em junho de 2024, e pela Critical Design Review (CDR), concluída com sucesso em 29 e 30 de maio de 2025, marco que autorizou o início da fase de construção e testes. Em janeiro de 2026, o MLBR concluiu também um teste de resistência do motor. A próxima etapa é a Systems Qualification Review (SQR), que avaliará a qualificação dos principais subsistemas do veículo.
Vale notar que o projeto concorrente ao MLBR, o VLN-AKR, liderado pela Akaer, foi cancelado por irregularidades na prestação de contas, o que deixou o MLBR como o único projeto privado em andamento no Brasil para o desenvolvimento de um microlançador.
O polo industrial de Paracuru
Outra frente
relevante é a expansão territorial do projeto. A PlasmaHub e a Turbomachine pretendem construir um complexo
industrial de engenharia espacial em Paracuru, no Ceará. O município
fica a aproximadamente 80 quilômetros de Fortaleza e relativamente próximo do
Centro de Lançamento de Alcântara (MA), o principal ativo espacial estratégico
do país.
A presença da Turbomachine no complexo sugere integração vertical entre as duas empresas, unindo produção de propulsão e integração de sistemas no mesmo polo. Reportagens anteriores já haviam destacado que a PlasmaHub descreve seu míssil de cruzeiro como um projeto “100% nacional”, reforçando a lógica de soberania tecnológica que também orienta o programa MLBR.














.jpg)
