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19 maio, 2026

O Gepard no Exército Brasileiro e seu potencial anti-drone: uma resposta adequada para a ameaça da década

 


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LRCA Defense Consulting - 19/05/2026

Visando adequar a proteção de seus meios blindados e dentro do escopo do Projeto Estratégico Defesa Antiaérea, o Exército Brasileiro adquiriu 37 Viaturas Blindadas de Combate Antiaérea (VBC AAe) Gepard 1A2 junto ao Exército Alemão. Os sistemas foram comprados em maio de 2013 por US$ 41 milhões. Trata-se, portanto, de uma aquisição de segunda mão altamente custo-efetiva: menos de US$ 1,1 milhão por viatura, incluindo processo de revitalização realizado pelo fabricante Krauss-Maffei Wegmann antes da entrega.

Antes da entrega ao Exército Brasileiro, as viaturas foram submetidas na Alemanha a um processo de revitalização que compreendeu a instalação de um sistema de extinção de incêndios, tradução das indicações para o português do Brasil e montagem de um novo sistema de cabeamentos para permitir a instalação de sistemas de comunicações fornecidos pelo Exército Brasileiro.

Distribuição e organização
Atualmente, as viaturas estão distribuídas entre a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada (Paraná), a 6ª Brigada de Infantaria Blindada (Rio Grande do Sul) e a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (Rio de Janeiro), sendo que o ensino de operação é conduzido somente pela EsACosAAe. A concentração no sul do país reflete a lógica original de proteção das brigadas blindadas, que são justamente as grandes unidades cujo combate exige cobertura antiaérea orgânica e com mobilidade equivalente à da tropa apoiada.

O Exército Brasileiro adquiriu aproximadamente 540.000 tiros para a viatura. Equipado com dois canhões antiaéreos de 35 milímetros, com elevada cadência de tiro e alcance de 5,5 quilômetros, o Gepard faz parte do Projeto Estratégico de Defesa Antiaérea.

O problema do radar frente a alvos pequenos
Um ponto crítico que separa o emprego brasileiro do ucraniano foi revelado com incomum franqueza pela própria instituição. Na Operação Punhos de Aço 2025, no mês de outubro, foi possível adestrar as guarnições de defesa antiaérea da 6ª Brigada de Infantaria Blindada. O principal desafio se relacionou à maneira pela qual o operador realiza a designação e a apreensão do alvo, tendo em vista as capacidades dos radares atualmente disponíveis nas viaturas do inventário e o material de confecção do alvo. A VBC Gepard 1A2 possui dois radares: um de busca, com alcance horizontal de 750 até 15.750 metros, alcance vertical de 3.000 metros, operando na banda "Echo"; e um de tiro, com alcance horizontal de 300 a 15.000 metros, também com alcance vertical de 3.000 metros, operando na banda "Juliet".

Esses radares foram projetados para aeronaves tripuladas e helicópteros de ataque, alvos com seção transversal de radar (RCS) muito maior que a de um drone comercial ou de um munição errante do tipo Shahed. Os chefes de peça e os atiradores não conseguiram utilizar o processo de designação óptica e foi necessário recorrer ao método tradicional de busca de alvo de forma manual, calcado na utilização do periscópio e na execução da mira empregando precessões à frente do aeromodelo, efetuando disparos cujas trajetórias são corrigidas pela observação em tempo real. Isso faz com que o engajamento e a neutralização da ameaça se tornem tarefas bastante difíceis, exigindo habilidade, familiaridade do operador com o equipamento e bastante treino. A efetividade se relaciona também ao grande volume de fogos disparados, com um consequente alto consumo de munição.

O próprio blog do Exército, no entanto, extrai a lição correta da experiência: o Gepard será o método prioritário a ser utilizado para a supressão de ameaças advindas da abrangente gama de modelos de drones hoje facilmente adquiridos no mercado e amplamente empregados em ações hostis de toda a natureza.

O que a Ucrânia já demonstrou
O emprego ucraniano é o argumento mais robusto em favor do aproveitamento do Gepard no papel anti-drone. De acordo com um adido de defesa ucraniano nos Estados Unidos, o Gepard foi usado com grande eficácia contra as munições errantes, possivelmente de fabricação iraniana ou russa, do tipo Shahed-136. Um único sistema é creditado com a destruição de mais de dez drones Shahed-136 e dois mísseis de cruzeiro. Um sistema como o Gepard é mais eficaz e, portanto, mais custo-efetivo do que sistemas de defesa aérea mais avançados e caros como o NASAMS ou mísseis IRIS-T.

Essa eficiência não é acidente. Como aponta Tim De Zitter em artigo no LinkedIn, o calibre de 35 mm ocupa o ponto de equilíbrio ideal para esse tipo de ameaça: letal o suficiente para destruir drones de forma confiável, econômico o suficiente para disparar em volume, e rápido o suficiente para criar uma densa barreira cinética antes que o alvo chegue ao seu objetivo.

A lacuna que precisa ser preenchida
O principal gargalo brasileiro não é o canhão, é o sensor. A integração do Gepard com radares modernos capazes de detectar alvos de baixa seção radar, como o Saber M60, já foi estudada conceitualmente. Uma possibilidade de operação dos Gepard para proteger um ponto estratégico envolve viaturas posicionadas com datalink a um centro de monitoramento e alarme, podendo ser um radar Saber M60. Sete Gepard assim dispostos podem cobrir uma área de 12 km². Esse conceito, desenvolvido ainda no período de chegada das viaturas, permanece válido e relativamente barato de implementar: o custo não está em comprar novos canhões, mas em integrar sensores adequados aos que já existem.

O Exército utiliza hoje equipamentos como os mísseis portáteis Igla-S e RBS-70, as viaturas blindadas de combate Gepard 1A2 e o radar Saber M60. A força já possui, portanto, os blocos básicos de um sistema anti-drone de curto alcance. O que falta é a integração efetiva entre eles para o engajamento de alvos de pequena seção radar, além de treinamento consistente no modo manual de tiro.

O contexto da modernização em curso
Atualmente, o Exército conta apenas com sistemas de baixa altitude, como o sueco RBS-70 NG e o Gepard. Esses equipamentos são eficazes contra ameaças em baixas altitudes, mas não impedem que aeronaves inimigas invadam o espaço aéreo e lancem mísseis de cruzeiro. A nova prioridade foi classificada como emergencial, o que permite a dispensa de processo licitatório.

A modernização ocorre em um contexto de transformações no cenário internacional, marcado por disputas geopolíticas entre grandes potências e o surgimento de novas tecnologias e ameaças que vêm redesenhando o ambiente global de segurança. O programa "Força 40" prevê avanços em doutrina, pessoal, capacidades e estratégia, incluindo sistemas avançados de defesa antiaérea, antimíssil e contra drones, integrados e de alta precisão.

Essa modernização, porém, envolve sistemas de médio e longo alcance, voltados a ameaças em altitude. O Gepard continuará sendo, por muitos anos, o único meio cinético autopropulsado de baixa altitude disponível ao Exército. A pergunta correta, portanto, não é quando ele será substituído, mas como aproveitá-lo melhor enquanto os novos sistemas não chegam.

O gato velho ainda caça
A análise de Tim De Zitter resume bem a situação: um bom projeto envelhece de forma diferente. O Gepard não se tornou obsoleto porque o tipo de ameaça para o qual ele é mais eficaz - o drone de médio porte voando em baixa altitude - simplesmente não existia em escala quando ele foi concebido. A guerra alcançou o seu terreno.

O Exército Brasileiro tem em mãos 37 viaturas com canhões de alto desempenho, munição em estoque e pessoal em processo de adestramento. O exercício Punhos de Aço 2025 mostrou honestamente onde estão os limites atuais, mas também mostrou que o método manual de tiro é treinável e que a instituição tem consciência da relevância do problema. 

A integração com radares aptos a detectar alvos de baixa RCS, a adoção de datalinks modernos e o treinamento intensivo no tiro contra aeromodelos são passos de custo relativamente baixo que podem transformar um sistema dos anos 1970 em uma resposta adequada para a ameaça da década de 2020, exatamente como a Ucrânia demonstrou ao mundo.

Muito além do KC-390: como a Embraer Defesa & Segurança se transformou em um conglomerado estratégico de defesa, espaço, cibernética e inteligência

 Uma gigante tecnológica que a maioria dos brasileiros ainda desconhece

 

*LRCA Defense Consulting - 19/05/2026

Para o grande público, a Embraer é sinônimo de aviões de passageiros. Para quem acompanha a indústria de defesa, o nome evoca o cargueiro militar KC-390 Millennium e o turboélice de ataque leve A-29 Super Tucano. Mas existe um universo paralelo, igualmente impressionante, que raramente ocupa manchetes: a extensa teia de tecnologias, subsidiárias, consórcios e participações acionárias estratégicas que compõe a Embraer Defesa & Segurança. Satélites, radares de fabricação nacional, sistemas de controle de tráfego aéreo, cibersegurança, fragatas de guerra, aviões de alerta precoce, monitoramento de fronteiras, aviônicos de combate e até aviação agrícola. Este é o retrato de uma empresa que poucos conhecem de verdade.

No encerramento de 2025, a divisão de Defesa & Segurança respondeu por cerca de 14% da receita total da Embraer, mas cresce consistentemente: registrou alta de 10% em comparação com o ano anterior, com carteira de pedidos da ordem de US$ 3,9 bilhões. Esses números, contudo, subvalorizam o peso estratégico do segmento para o Brasil, cujos desdobramentos vão da soberania territorial à infraestrutura espacial.

As aeronaves de combate: o rosto mais conhecido

✈ KC-390 Millennium
O KC-390 Millennium é hoje o carro-chefe de exportação da divisão. Produzido em parceria com a Força Aérea Brasileira, o bimotor a jato de transporte multimissão foi concebido para substituir o C-130 Hércules em diversas frotas. Desde que entrou em operação com a FAB em 2019, acumula taxa de conclusão de missão superior a 99%. A aeronave já foi selecionada por doze forças aéreas, incluindo vários países da OTAN: Brasil, Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Coreia do Sul, Suécia, Eslováquia, Emirados Árabes Unidos, Lituânia (processo de aquisição em pausa) e Uzbequistão. No acumulado de 2025, foram entregues três unidades. Em 2025, o F-39 Gripen e o KC-390 foram certificados para missões de reabastecimento em voo no âmbito da Operação Samaúma, confirmando a interoperabilidade entre as duas aeronaves-símbolo do rearmamento brasileiro.

Em fevereiro de 2026, a Embraer anunciou parceria com a Northrop Grumman para aprimorar as capacidades de reabastecimento aéreo do KC-390 para a Força Aérea dos EUA e de nações aliadas. O acordo prevê sistema de reabastecimento aéreo autônomo avançado, comunicações aprimoradas, consciência situacional e recursos de autoproteção, sinalizando que a aeronave mira o disputadíssimo mercado norte-americano.

Parceiros: FAB (cliente e coprojetista), Northrop Grumman (EUA), Elbit Systems/AEL Sistemas (sistemas de autoproteção DIRCM), Rohde & Schwarz (rádios).

 A-29 Super Tucano
O Super Tucano é o turboélice de ataque leve e treinamento avançado mais bem-sucedido de sua categoria. Com mais de 290 pedidos e 580 mil horas de voo acumuladas, sendo 60 mil em combate, o A-29 opera com forças aéreas de América Latina, África, Oriente Médio e Europa. Em 2024, a Embraer anunciou vendas para Portugal (versão A-29N, certificada para uso pela OTAN), Uruguai, Paraguai e dois clientes não revelados. O coração tecnológico da aeronave é a suíte aviônica desenvolvida e integrada pela AEL Sistemas, de Porto Alegre, que inclui displays multifuncionais coloridos compatíveis com óculos de visão noturna, Head-Up Display (HUD) e sistemas de comunicação segura. Essa integração transforma o A-29 em uma plataforma tripla: ataque leve, ISR armado e treinamento avançado, além da versão antidrone que está desenvolvimento final.

Parceiros: FAB, AEL Sistemas (aviônicos completos), Sierra Nevada Corporation/SNC (EUA, variantes americanas).

 

 F-39 Gripen: montagem nacional e aviônicos brasileiros
Embora o Gripen seja um produto da sueca Saab, a Embraer ocupa papel central no programa: é responsável pela linha de montagem final no Brasil, instalada em Gavião Peixoto (SP). Os 36 exemplares F-39E/F encomendados pela FAB serão produzidos nessa fábrica até 2032. Em março de 2026, o primeiro F-39 Gripen montado pela Embraer foi entregue formalmente à FAB, marcando um marco histórico para a aviação de combate brasileira. A aeronave realizou os primeiros disparos reais do míssil Meteor, o mais avançado míssil ar-ar de longo alcance em serviço no mundo. Aqui, novamente, a AEL Sistemas desempenha papel decisivo, fornecendo o Wide Area Display (WAD), uma tela panorâmica de alta resolução que é o principal painel do cockpit, além do HUD e dos sistemas relacionados ao Link-BR2.

Parceiros: Saab (Suécia, fabricante e licenciadora), AEL Sistemas (displays e integração aviônica), Rohde & Schwarz (rádios Soveron AR5000), MBDA (míssil Meteor).

AEL Sistemas: o sócio israelense-brasileiro no coração dos aviônicos nacionais
Pouco conhecida do grande público, a AEL Sistemas é uma das empresas mais estratégicas da Base Industrial de Defesa brasileira. Sediada em Porto Alegre e com mais de quatro décadas de existência, a empresa é controlada pela israelense Elbit Systems Ltd. (listada na NASDAQ e na Tel Aviv Stock Exchange), tendo a Embraer Defesa & Segurança como acionista minoritária. Essa estrutura dual confere à AEL uma posição singular: é uma empresa genuinamente brasileira em sua operação, com engenheiros e técnicos nacionais no centro do desenvolvimento, mas com acesso às tecnologias de ponta de um dos maiores conglomerados de defesa do mundo.

A relação entre Embraer e AEL é muito anterior à participação acionária. A AEL foi uma das primeiras fornecedoras de sistemas eletrônicos para o Tucano e o caça AMX (A-1) nas décadas de 1980 e 1990. O acordo formal de participação societária e cooperação estratégica foi anunciado na LAAD de 2011, quando as duas empresas também firmaram intenção de explorar conjuntamente o mercado de veículos aéreos não tripulados (VANTs), com a criação da Harpia Sistemas, que chegou a ter também a Avibras como sócia minoritária (9%), antes de ser encerrada em 2016 por restrições orçamentárias.

 Presença em toda a frota militar brasileira
Hoje, a AEL Sistemas está embarcada em praticamente toda a aviação militar brasileira. No A-29 Super Tucano, forneceu a suíte aviônica completa. Nos caças F-5M, modernizados pela própria Embraer para a FAB, integrou aviônicos digitais. No F-39 Gripen, produz o Wide Area Display e o HUD. No programa E-99M, participou da modernização dos sistemas aviônicos de bordo. No KC-390, o grupo Elbit Systems fornece o sistema de autoproteção DIRCM (Directional Infrared Countermeasures), que protege a aeronave contra mísseis de infravermelhos em voo.

 

 Link-BR2: o datalink tático brasileiro
Um dos projetos mais estratégicos nos quais a AEL está envolvida é o Link-BR2, o sistema de enlace de dados tático criptografado e de desenvolvimento nacional que permitirá às aeronaves da FAB trocar informações em tempo real entre si e com centros de comando e controle em terra e no mar. O Link-BR2 é o equivalente brasileiro do Link-16 da OTAN. O desenvolvimento foi iniciado pela Mectron Communication, empresa que, em 2017, foi adquirida pela AEL Sistemas e passou a integrar seu grupo. A Mectron Communication, sediada em Porto Alegre, assumiu a liderança técnica do programa. Quando plenamente operacional, o Link-BR2 conectará o F-39 Gripen, o A-29 Super Tucano, o E-99M e o KC-390 em uma rede tática integrada, multiplicando exponencialmente a eficácia de cada plataforma individual.

Parceiros do Link-BR2: AEL Sistemas/Mectron Communication (liderança), FAB/COPAC (contratante), Rohde & Schwarz (rádios compatíveis).

 Uma parceria de dupla via
Para a Embraer, a participação acionária na AEL representa acesso privilegiado a tecnologias de eletrônica embarcada, sensores e guerra eletrônica que ela mesma não possui em casa. Para a AEL, a associação com a Embraer garante volume de contratos, escala industrial e o prestígio de integrar os programas mais importantes da defesa brasileira. Para o Brasil, o arranjo significa que tecnologias sensíveis são desenvolvidas e produzidas no país, com engenheiros nacionais, mesmo que sob a égide de um grupo israelense. É uma das formas mais eficazes de transferência e retenção tecnológica que o país conhece.

Os "olhos" das Forças Armadas: inteligência aérea

 E-99M: o avião-radar brasileiro
Bem menos comentada que o KC-390, a frota de aeronaves AEW&C (Alerta Aéreo Antecipado e Controle) da FAB é uma das mais sofisticadas do mundo em sua categoria. Baseado no jato regional ERJ-145, o E-99 foi desenvolvido nos anos 1990 para integrar o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) e entrou em operação em 2002. A FAB adquiriu cinco aeronaves do tipo AEW (designação original R-99A, rebatizadas E-99 em 2008) e três do tipo reconhecimento e sensoriamento remoto (R-99B, hoje R-99).

Em 2012, contrato de R$ 430 milhões deu início ao programa E-99M, modernização completa da frota. O quinto e último exemplar, na configuração FOC (Full Operational Capability), foi entregue em novembro de 2023. O E-99M passou a contar com o radar Erieye ER da Saab, capaz de detectar aeronaves em voo rasante a 450 km de distância e alvos em altitude a mais de 700 km, sete rádios V/UHF definidos por software, sistema de Guerra Eletrônica NCOM, novo transponder IFF e Data Link atualizado. Além do Brasil, o EMB-145 AEW&C também é operado pelas forças aéreas da Índia, México e Grécia.

Parceiros: Saab (radar Erieye ER, Suécia), AEL Sistemas (aviônicos de bordo e sistemas de missão), Rohde & Schwarz (comunicações), Atech (sistema de comando e controle e estações de planejamento de missão).

 R-99: reconhecimento e sensoriamento
O R-99, versão de reconhecimento e sensoriamento remoto do ERJ-145, é equipado com radar de abertura sintética capaz de produzir imagens de alta resolução do solo. Integra o SIVAM junto ao E-99, monitorando garimpos ilegais na Amazônia, movimentações de tráfico de drogas e missões humanitárias.

 P600 AEW&C: o próximo passo
Em 2019, durante o Paris Airshow, a Embraer firmou acordo de cooperação estratégica com a IAI/ELTA Systems, de Israel, para desenvolver o P600 AEW&C, versão militar do jato executivo Praetor 600. Com alcance civil de cerca de 8,7 mil km e teto de 45 mil pés, o P600 é proposto como plataforma de alerta antecipado mais ágil e econômica que as soluções baseadas em aeronaves de maior porte. O radar GaN AESA digital de Banda S oferece cobertura de 240° com dois arranjos de antenas dorsais back-to-back, IFF civil e militar integrado e cobertura 360° via ADS-B. O sistema foi apresentado em conferências internacionais como solução de ISR economicamente viável para países que não comportam o custo de frotas AEW de grande porte. A Índia avaliou o sistema em conjunto com o programa Netra Mk2.

Parceiros: IAI/ELTA Systems (Israel, radar ELM-2096 e sistemas de missão).

Radares e sistemas terrestres: a soberania que vem do chão
O Brasil pertence a um seleto grupo de países que domina a tecnologia de fabricação de radares. Essa conquista foi construída ao longo de décadas em parceria entre a Embraer, por meio da Bradar (hoje incorporada à Savis), e o Exército Brasileiro.

 Família Saber de radares
A linha de radares Saber, inteiramente desenvolvida no Brasil, abrange diferentes faixas de missão. O Saber M60 é um radar de vigilância e defesa aérea de baixa altitude, ideal para detectar aeronaves e drones em voos rasantes. O Saber M200 Vigilante é um radar de vigilância e alerta aéreo antecipado de longo alcance. Ambos já foram entregues ao Exército Brasileiro no âmbito do Programa Estratégico de Defesa Antiaérea. Em 2021, Embraer e o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT) assinaram acordo de cooperação técnica para o desenvolvimento conjunto do Sistema Radar de Contrabateria, destinado a localizar morteiros, obuses e foguetes inimigos em tempo real.

Parceiros: Exército Brasileiro (DCT, principal contratante e coprojetista).

 SISFRON: a sentinela das fronteiras
O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras é um dos maiores programas de vigilância de fronteiras em execução no planeta. O SISFRON cobre os 16.886 quilômetros de fronteira terrestre do Brasil com uma rede integrada de radares, câmeras, sensores, postos de observação e centros de controle conectados em rede segura. A Embraer é a principal integradora do sistema, responsável pelos radares, pelos Centros de Comando e Controle (CC2) e pela arquitetura tecnológica como um todo.

Na Fase 1, o foco foi o trecho entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai, com resultados expressivos no combate ao crime organizado. Na Fase 2, o programa se expandiu para o restante do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e a Amazônia. Em novembro de 2025, a Embraer entregou ao Exército as primeiras quatro unidades do Centro de Comando e Controle Móvel (CC2), instaladas em viaturas táticas climatizadas. Esses CC2 integram rádios táticos de longo, médio e curto alcance, enlaces de dados, comunicações satelitais e redes IP com camadas de segurança militar, criando postos de comando avançados próximos à área de interesse.

Parceiros: Exército Brasileiro (contratante principal), Savis (empresa do grupo Embraer, especializada em monitoramento de fronteiras e proteção de estruturas estratégicas), Atech (sistemas de C2).

 

 Savis-Bradar: o braço de radares e vigilância
A Savis Tecnologia e Sistemas, sediada em Campinas (SP), foi consolidada pela Embraer Defesa & Segurança em 2016 junto com a Bradar Indústria, empresa de base tecnológica especializada no desenvolvimento e produção de radares SAR (Synthetic Aperture Radar). A fusão reuniu a capacidade de integração de sistemas da Savis com a engenharia de radares da Bradar, formando um único braço focado em projetos de defesa e vigilância territorial. Ambas compunham o Consórcio TEPRO, responsável pela implantação do SISFRON.

Atech: a "system house" invisível que está em todo lugar
Adquirida pelo grupo Embraer em 2013, a Atech Negócios em Tecnologia S.A. é descrita como uma "system house" brasileira, empresa capaz de integrar sistemas complexos de missão crítica para aplicações civis e militares. Ela está presente em praticamente todos os grandes programas do grupo.

 Controle do espaço aéreo
A Atech é responsável pelos dois sistemas-espinha-dorsal do controle de tráfego aéreo brasileiro. O SAGITARIO (Sistema Avançado de Gerenciamento de Informações de Tráfego Aéreo e Relatório de Interesse Operacional) processa dados de radares e satélites em tempo real, exibindo uma visão integrada do espaço aéreo para os controladores dos CINDACTAs e centros de aproximação do país. O SIGMA (Sistema Integrado de Gestão de Movimentos Aéreos) gerencia planos de voo, capacidade das aerovias e distribuição do tráfego. Em julho de 2024, durante o Farnborough Airshow, a Atech assinou contrato de US$ 17 milhões com o DECEA para modernizar ambos os sistemas. A Atech é uma das dez empresas no mundo que dominam tecnologia de controle de tráfego aéreo, garantindo ao Brasil autonomia na gestão do próprio espaço aéreo.

Parceiros: DECEA/FAB (contratante), CISCEA (Comissão de Implantação Sistema Controle Espaço Aéreo).

 Submarino e reator nuclear da Marinha
A Atech atua no LABGENE (Laboratório de Geração de Energia Nuclear) da Marinha do Brasil, desenvolvendo os sistemas de Controle e Proteção do reator nuclear que alimentará o futuro submarino de propulsão nuclear da classe Álvaro Alberto. O contrato, avaliado em R$ 231 milhões, representa um dos projetos estratégicos mais sensíveis da defesa brasileira.

Parceiros: Marinha do Brasil, CTMSP (Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo), Atlas Elektronik (em projetos navais complementares).

 Helicóptero naval e demais projetos
A Atech forneceu o sistema tático de missões de combate para o H225M/H-XBR Super Cougar da Marinha do Brasil. Também participou do programa de modernização dos P-3 Orion da FAB, em parceria com a Cassidian (braço de defesa da EADS/Airbus Group), e integrou sistemas de missão dos E-99M.

Visiona: o braço espacial da Embraer
Criada em 2012, a Visiona Tecnologia Espacial é uma joint venture entre a Embraer Defesa & Segurança (51%) e a Telebras (49%). Com sede no Parque Tecnológico de São José dos Campos, a Visiona tem por missão integrar sistemas espaciais e prestar serviços baseados em satélites para atender ao Programa Espacial Brasileiro e demandas de mercado.

 SGDC-1: o satélite geoestacionário estratégico
O principal marco da Visiona até hoje é o Programa do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), lançado em 2017 a bordo de um foguete Ariane 5. O satélite oferece cobertura de telecomunicações para todo o Brasil, com banda Ka destinada ao programa Banda Larga nas Escolas e com capacidade reservada para comunicações estratégicas das Forças Armadas. A Visiona gerenciou o programa, num contrato estimado em US$ 500 milhões.

Parceiros: Thales Alenia Space (fabricante, França/Itália), Arianespace (lançamento), Telebras (co-acionista e operadora).

 VCUB1: o primeiro satélite projetado pela indústria nacional
Em abril de 2023, a Visiona lançou o VCUB1 a bordo de um foguete Falcon 9 da SpaceX, na missão Transporter-7. Com 12 kg, o nanossatélite de observação da Terra foi o primeiro totalmente projetado por uma empresa brasileira. Em outubro de 2024, as primeiras imagens foram divulgadas, confirmando o sucesso da missão. O satélite foi descomissionado em fevereiro de 2025, após cumprir sua missão de validação tecnológica.

Parceiros: SpaceX (lançamento), D-Orbit (veículo de transferência orbital ION).

 SatVHR: o próximo salto
A Visiona lidera atualmente o projeto do satélite de observação da Terra de altíssima resolução (SatVHR), com apoio da FINEP e ampla participação de empresas e ICTs brasileiras. Quando lançado, colocará o Brasil entre os países com capacidade independente de imageamento de alta resolução para defesa, agricultura, monitoramento ambiental e gestão de desastres.

 

Consórcio Águas Azuis: Embraer no mar
O Consórcio Águas Azuis, formado pela Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS), pela Embraer Defesa & Segurança e pela Atech, venceu a concorrência do Programa Corvetas Classe Tamandaré e assinou contrato com a EMGEPRON para fornecer quatro fragatas modernas à Marinha do Brasil, por valor estimado em US$ 1,6 bilhão.

Os navios são baseados no conceito da classe MEKO, desenvolvida pela TKMS, com 82 corvetas e fragatas entregues a 14 Marinhas desde 1982. A divisão de responsabilidades é clara: a TKMS lidera a engenharia naval; a Atech é responsável pelo CMS (Combat Management System) e pelo IPMS (Integrated Platform Management System); a Embraer Defesa & Segurança responde pela integração de sensores e armamentos. Os quatro navios serão finalizados no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro, com grau de nacionalização de 31,6% a 41%.

Paralelamente, a Atech desenvolve para a Marinha os sistemas de controle e proteção do LABGENE, o laboratório que testa em escala real a planta nuclear do futuro submarino Álvaro Alberto.

Parceiros: Thyssenkrupp Marine Systems (Alemanha), Atlas Elektronik (sistemas eletrônicos navais), L3 MAPPS (sistemas de plataforma), Estaleiro Oceana (construção local), EMGEPRON e Marinha do Brasil.

 

Tempest Security Intelligence: a cibersegurança sob o guarda-chuva da Embraer
Em 2020, a Embraer se tornou acionista majoritária da Tempest Security Intelligence, a maior empresa especializada em cibersegurança e prevenção a fraudes digitais do Brasil. Fundada em 2000 no Recife por pesquisadores da UFPE, a Tempest já tinha participação indireta da Embraer desde 2016 por meio do FIP Aeroespacial, fundo criado em parceria com o BNDES, a FINEP e a Agência de Desenvolvimento Paulista.

Com escritórios em Recife, São Paulo e Londres, a Tempest atende mais de 600 empresas e conta com mais de 600 colaboradores. Um de seus produtos emblemáticos, o "Allow Me", está embarcado em mais de 30 milhões de smartphones brasileiros, integrando o sistema de autenticação do internet banking. O investimento da Embraer abriu à Tempest novos mercados em defesa, indústria aeroespacial e infraestrutura crítica.

Parceiros históricos: BNDES, FINEP e Desenvolve SP (via FIP Aeroespacial).

Centros móveis de operações táticas: o C2 vai ao campo
A Embraer Defesa & Segurança desenvolve e fornece Centros de Comando e Controle (CC2) móveis, instalados em viaturas táticas ou abrigos transportáveis. No âmbito do SISFRON Fase 2, as primeiras quatro unidades foram entregues ao Exército Brasileiro em 2025. Cada CC2 embarca estações de trabalho redundantes, servidores, sistemas de visualização georreferenciada, múltiplos meios de comunicação seguros (rádios táticos de longo, médio e curto alcance, enlaces de dados, comunicações satelitais e redes IP) e camadas de cibersegurança compatíveis com requisitos militares. A mobilidade permite que o comandante acompanhe o cenário em tempo quase real, mesmo em deslocamento ou após rápida instalação em terreno adverso.

 

Aviação agrícola: o Ipanema e um segmento à parte
A aviação agrícola é uma divisão própria da Embraer, tecnicamente separada da Defesa & Segurança, mas merece menção pelo peso histórico e pela peculiaridade de conter a única aeronave certificada e produzida em série no mundo movida a etanol. O Ipanema, fabricado na Unidade Botucatu (SP), herdeira da Neiva (adquirida em 1980), está em sua quinta geração. O modelo EMB-203 pulveriza mais de 200 hectares por hora. Em novembro de 2025, a empresa celebrou a entrega da unidade 1.700. O Ipanema detém 60% de participação no mercado nacional de pulverização aérea.

Parceiros: Koppert (bioinsumos), BNDES (financiamento via Fundo Clima), Sabri e Agroefetiva (consultorias técnicas).

A dimensão do conglomerado: síntese estratégica
Olhando para o conjunto, a Embraer Defesa & Segurança emerge como um dos mais completos ecossistemas de defesa e tecnologia do Hemisfério Sul. Ela não é apenas fabricante de aeronaves: é integradora de sistemas navais complexos, desenvolvedora de satélites, gestora do espaço aéreo civil e militar, guardiã das fronteiras terrestres, parceira estratégica do programa nuclear da Marinha, controladora da maior empresa de cibersegurança do país e acionista de uma das empresas mais críticas para a eletrônica de combate brasileira, a AEL Sistemas.

A internacionalização avança em múltiplas frentes. O KC-390 está presente em três continentes. O E-99M e o P600 AEW&C disputam mercados na Europa, Ásia e Oriente Médio. O Super Tucano segue como referência global. Os sistemas de controle de tráfego aéreo da Atech atraem interesse internacional. E o Link-BR2, em desenvolvimento pela AEL/Mectron Communication, promete conectar toda a aviação de combate brasileira em uma rede tática de última geração.

Para além dos números, o que esses programas representam é uma cadeia de transferência de tecnologia, formação de competências e consolidação de capacidades industriais que dificilmente poderiam ser reconstruídas do zero. A participação acionária cruzada, como a que une Embraer e AEL Sistemas, cria laços que vão além de contratos: são estruturas que garantem que o conhecimento permaneça no Brasil, que engenheiros brasileiros dominem tecnologias sensíveis e que o país mantenha autonomia nas decisões mais críticas de sua defesa. Em um mundo que se remilitariza a passos largos, isso tem um valor que nenhum balanço contábil consegue capturar inteiramente.

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