CTEx conclui desenvolvimento de fonte eletroquímica 100% brasileira para o sistema de guiamento do MAX 1.2 AC, primeiro míssil antitanque de médio alcance projetado e fabricado integralmente no país
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O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) anunciou na terça-feira (12) o desenvolvimento de pilhas térmicas de alta densidade de energia com tecnologia 100% nacional, voltadas ao uso em sistemas de mísseis das Forças Armadas. A conquista, divulgada pelo próprio CTEx em suas redes sociais, representa um marco na política de nacionalização de componentes críticos e reduz uma dependência estratégica que o Brasil mantinha de fornecedores estrangeiros para esse tipo de tecnologia.
A aplicação imediata é o Míssil MAX 1.2 AC, oficialmente denominado Míssil Superfície-Superfície 1.2 Anticarro (MSS 1.2 AC), propriedade intelectual do Exército Brasileiro. A pilha é responsável por alimentar o sistema de controle e guiamento do artefato, componente sem o qual a precisão do míssil fica comprometida.
O que são pilhas térmicas
e por que são estratégicas
Ao contrário das baterias
convencionais, as pilhas térmicas são fontes eletroquímicas do tipo reserva:
permanecem eletricamente inertes durante o armazenamento e são ativadas por um
elemento pirotécnico no momento do disparo, que funde o eletrólito de sal
metálico e inicia a reação química. Esse mecanismo garante vida útil de
armazenamento praticamente ilimitada sem degradação de desempenho.
As principais características que tornam essa tecnologia indispensável para uso militar são a elevada densidade energética em curtíssimo período de operação, a alta confiabilidade e a capacidade de funcionar em condições mecânicas e climáticas severas como vibrações intensas, acelerações bruscas e variações extremas de temperatura. Essas propriedades fazem das pilhas térmicas a alternativa preferencial para sistemas de guiamento, propulsão e acionamento de mísseis, torpedos e outros armamentos inteligentes em todo o mundo.
A tecnologia é hoje dominada por poucos países, predominantemente as grandes potências ocidentais. Fabricantes especializados, como a norte-americana EaglePicher, atendem a praticamente todos os principais programas de defesa dos Estados Unidos há décadas. O acesso a esses componentes por países em desenvolvimento frequentemente envolve restrições políticas e comerciais, tornando a dependência de importação uma vulnerabilidade real em cenários de conflito ou sanção.
O CTEx e o pioneirismo
brasileiro na pesquisa eletroquímica
O Laboratório de Química
Militar (LQM) do CTEx é o único núcleo de pesquisa no Brasil a desenvolver
pilhas térmicas. A trajetória do grupo começou há anos, com projetos que foram
sendo aprimorados geração a geração. Em 2016, o Grupo de Fontes Eletroquímicas
concluiu o desenvolvimento da Pilha Superfície-Superfície Térmica para
Circuitos Eletrônicos (PSSTCE), produto gerado inteiramente dentro do CTEx.
O anúncio desta semana indica que o laboratório avançou para o que é descrito como pilhas térmicas de terceira geração, o estado da arte na tecnologia. O salto qualitativo, segundo o CTEx, permitiu atender aos requisitos operacionais do Míssil MAX 1.2 AC, um sistema de maior complexidade e exigência energética do que os projetos anteriores.
O Laboratório de Química Militar também conduz pesquisas em propelentes, explosivos e pirotécnicos, incluindo o desenvolvimento de composições para vetores balísticos e propelentes de baixa toxicidade, o que demonstra a amplitude das competências científicas acumuladas dentro do CTEx ao longo de décadas.
O MAX 1.2 AC: o míssil que
deu urgência ao projeto
Desenvolvido em parceria com
a empresa brasileira SIATT (Sistemas Integrados de Alto Teor Tecnológico),
sediada em São José dos Campos (SP), o MAX 1.2 AC é descrito como o primeiro
míssil antitanque brasileiro de médio alcance projetado e fabricado integralmente
no país. Com alcance superior a dois quilômetros, o sistema utiliza guiamento a
laser, tecnologia que reduz a vulnerabilidade a contramedidas eletrônicas e
aumenta a precisão no engajamento de alvos blindados.
O programa tem raízes no MSS 1.2 da antiga Orbital Engenharia, que foi absorvido e modernizado pela SIATT. Em fevereiro de 2025, SIATT e Exército Brasileiro formalizaram contrato para a produção em série do primeiro lote do sistema. Em março do mesmo ano, uma portaria do Comando do Exército oficializou a adoção do míssil como material de dotação da Força Terrestre.
Entre os dias 21 e 24 de outubro de 2025, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), no Rio de Janeiro, foram realizados tiros com o MAX 1.2 AC com o objetivo de qualificar fornecedores de componentes e subsistemas, incluindo a nova pilha térmica nacional. Os resultados confirmaram desempenho consistente e confiabilidade em condições operacionais reais. No último dia dos testes, a 1ª Tenente Beatriz Luberiaga Bezerra, engenheira militar da Seção de Mísseis e Foguetes do CTEx, realizou um lançamento real do míssil, tornando-se a primeira mulher do Exército Brasileiro a fazê-lo.
Soberania tecnológica e o
contexto geopolítico
A nacionalização da pilha
térmica vai além da economia em importações. Em um cenário internacional
marcado por disputas geopolíticas, restrições de exportação e uso de tecnologia
como instrumento de pressão entre nações, o domínio interno de componentes críticos
é considerado condição essencial para a soberania operacional das Forças
Armadas. Um país que depende de fornecedores externos para peças fundamentais
de seus sistemas de armas fica sujeito a interrupções de abastecimento em
momentos exatamente críticos.
O avanço do CTEx integra o esforço mais amplo de fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Analistas do setor apontam que o domínio de tecnologias eletroquímicas estratégicas representa um dos pilares da moderna indústria de defesa, e que investimentos nessa área frequentemente produzem efeitos indiretos sobre a economia civil, impulsionando pesquisa aplicada em química avançada, engenharia de materiais, eletrônica e sistemas embarcados.
O CTEx foi criado em 16 de outubro de 1979 pelo Decreto nº 84.095, com a missão de suprir as necessidades do Exército em pesquisa e desenvolvimento de materiais militares. Hoje, o centro opera 16 laboratórios com certificação internacional e trabalha de forma integrada com universidades, empresas da BID e agências de fomento como a FINEP. O resultado desta semana é, em certa medida, o produto de décadas de investimento científico silencioso, agora convertido em capacidade operacional concreta.











