Drones, sensores e fogos integrados alargaram a faixa de extremo risco na guerra entre Rússia e Ucrânia, transformaram a logística em alvo e mudaram a forma de combinar as armas
*LRCA Defense Consulting - 07/11/2026 - 18h42
Na Ucrânia, o ponto mais valioso do terreno deixou de ser a trincheira e passou a ser o abrigo de onde opera o piloto de drone. A constatação, registrada em julho de 2026 pelo Futures Lab do Center for Strategic and International Studies (CSIS), resume uma transformação mais ampla: drones de reconhecimento e ataque, artilharia, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle passaram a atuar como um conjunto, ampliando a faixa do terreno em que deslocar militares e viaturas significa risco elevado. É o que a literatura militar em língua inglesa chama de kill zone, ou zona de destruição.
Segundo o mesmo estudo, assinado por Marcus Welsch, Yasir Atalan, Benjamin Jensen e Erik Tiersten-Nyman, essa faixa alcança até cerca de 30 km a partir da linha de contato. Nela, as posições se misturam, distinguir amigo de inimigo é difícil e pequenas equipes isoladas chegam a depender inteiramente do suprimento lançado por drones. Os postos de pilotagem, por sua influência sobre a logística tática e a consciência situacional, tornaram-se alvos prioritários dos dois lados.
O tema ganhou circulação recente com uma publicação no LinkedIn de Patrick Lurtz, diretor da UFORCE, empresa de tecnologia de defesa ligada ao campo de batalha ucraniano, e ex-oficial da Bundeswehr. O infográfico divulgado por ele contrasta uma faixa de 0 a 2 km em 2022 com outra de 10 a mais de 50 km em 2025 e 2026. A mensagem central do autor, porém, é mais sólida que os números: a kill zone não é uma distância, e sim um sistema, cuja profundidade depende do terreno, dos sensores, das armas, da guerra eletrônica e da capacidade de ligar o reconhecimento a fogos eficazes.
O que o infográfico do diretor da UFORCE mostra e o que ele simplifica
A imagem de Lurtz deve ser lida com cautela. Seu próprio rodapé indica atualização em agosto de 2025, embora o título anuncie o período até 2026, e a faixa de 2 km atribuída a 2022 subestima a ameaça daquele ano: artilharia, foguetes, mísseis e aviação já alcançavam objetivos muito além da primeira linha desde o início da invasão em larga escala. O que cresceu desde então foi, sobretudo, a densidade e a persistência da vigilância tática, acompanhadas da difusão de meios baratos capazes de atacar alvos de oportunidade em profundidade.
Também é preciso separar alcance técnico de letalidade efetiva. Em janeiro de 2026, segundo o Institute for the Study of War (ISW), citado pelo Kyiv Post, a zona de risco nas proximidades de Kupiansk, na região de Kharkiv, chegava a 20 ou 25 km para viaturas russas, mas a cerca de 1 km para a infantaria. Na outra ponta, levantamento do Royal United Services Institute (RUSI) com dados das Forças Armadas da Ucrânia indica que a maior parte das destruições por drones FPV ocorre numa faixa de 3 km para cada lado da linha de posições ucranianas. Um drone capaz de voar 40 km não torna toda essa extensão igualmente perigosa; a densidade de aeronaves, a meteorologia, a vegetação, a interferência eletrônica e a reposição de meios mudam o quadro a cada setor e a cada momento.
Uma faixa que também é objetivo
A ampliação da zona de risco não é apenas consequência da tecnologia; tornou-se meta declarada. Em setembro de 2025, o então ministro da Defesa ucraniano, Denys Shmyhal, defendeu a criação de uma kill zone ao longo da linha de contato, empregando drones para deter os avanços russos. O conceito Drone Line, hoje incorporado às Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, atribui a suas unidades a missão de estabelecer uma faixa de 10 a 15 km de profundidade na qual o inimigo não consiga operar sem sofrer perdas.
O RUSI descreve o resultado como um cinturão de atrito de aproximadamente 30 km imposto pela Ucrânia na linha de frente. Em estudo de outubro de 2025, o pesquisador Jack Watling registrou que oficiais ucranianos passaram a dividir o campo de batalha em três áreas: a zona contestada, normalmente com cerca de 15 km e delimitada por terreno aberto; a área intermediária, que se estende até aproximadamente 30 km além dela e de onde operam drones de vigilância e artilharia adversários; e a profundidade, onde ficam reservas, centros logísticos e alvos industriais. Não se trata, portanto, de um cinturão homogêneo, mas de camadas com funções e ameaças diferentes.
O decisivo é o ciclo, não a plataforma
O drone tornou-se o símbolo mais visível da transformação, mas não a explica sozinho. O elemento decisivo é a integração entre busca de alvos, transmissão de dados, decisão, engajamento e avaliação de resultados. Quando esse ciclo se fecha em minutos, o tempo de exposição tolerável para tropas, viaturas e postos de comando cai na mesma proporção.
Outro estudo do CSIS, publicado em 31 de julho de 2026 por Wesley Bailey e Daniel Byman, oferece um exemplo concreto. Em 4 de junho de 2026, a Força de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia atacou a infraestrutura de lançamento de drones Shahed no aeroporto ocupado de Donetsk com base em imagens comerciais de satélite entregues diretamente aos operadores, cerca de 15 minutos após a captura e sem passar por revisão centralizada. Segundo os autores, o procedimento comprimiu o ciclo de reconhecimento e ataque em até 90%. O sistema ucraniano de consciência situacional Delta, desenvolvido por voluntários desde 2016, já havia reduzido o intervalo entre detecção e disparo de 72 horas para minutos.
O mesmo estudo mostra o contraste do lado russo, onde a autorização de tiro permanece no escalão batalhão e cria atrasos na cadeia de engajamento. A lição é organizacional antes de ser tecnológica: delegar autoridade, circular dados e processá-los com rapidez pesa tanto quanto adquirir plataformas.
Blindados: vulneráveis, mas não obsoletos
A observação persistente penaliza concentrações e deslocamentos previsíveis. Segundo o RUSI, entre 1º e 24 de agosto de 2025, a inteligência ucraniana detectou apenas 23 carros de combate russos operando a menos de 70 km da linha de frente; em maio de 2023, somente o eixo sul reunia 470. A queda, contudo, não equivale ao abandono da arma blindada. As brigadas ucranianas mantêm uma companhia de carros de combate cada e os empregam em escalão pelotão, onde seu poder de fogo para limpar posições e atrair fogos para longe da infantaria continua indispensável. Com modificações adequadas, observou o RUSI, um blindado pode suportar de 10 a 15 impactos de FPV com danos reparáveis.
Daí uma conclusão relevante para quem adquire material: comandantes ucranianos valorizam mobilidade, autonomia e, sobretudo, facilidade de reparo. Carros pesados e de manutenção complexa tendem a perder disponibilidade rapidamente, e um blindado que não volta logo ao combate acaba poupado de missões em que seria necessário.
O emprego também mudou de lógica. As unidades ucranianas de melhor desempenho estudadas pelo RUSI dividem a conquista de um setor contestado em sete fases, geralmente ao longo de cinco a dez dias: vigiar, isolar, desgastar, fixar, suprimir, cerrar e destruir, e consolidar. Os blindados entram apenas na sexta etapa, depois que a vigilância adversária foi degradada e o setor foi isolado de reforços. Segundo oficiais ouvidos pelo instituto, com base em amostra reduzida, ataques bem-sucedidos com esse método teriam perdas de 5% a 10%, contra até 50% em assaltos conduzidos sem ele.
A logística dentro da área de combate
O efeito mais duradouro da kill zone talvez seja o desaparecimento da retaguarda próxima. Caminhões de munição, ambulâncias, equipes de manutenção e vias de acesso tornaram-se alvos frequentes, e a interdição das rotas pode enfraquecer uma posição mesmo quando o adversário não consegue atacá-la diretamente. O ISW registrou, em 2025 e 2026, o esforço russo para restringir a logística ucraniana com drones FPV, incluindo aparelhos guiados por fibra óptica e modelos que aguardam alvos à margem das estradas. Na retomada de Kursk, segundo o CSIS, a unidade russa Rubicon usou drones de fibra óptica contra rotas de suprimento ucranianas em estradas estreitas, tornando o ressuprimento e a rotação de tropas proibitivamente caros.
A resposta ucraniana combina dispersão, novos percursos e veículos não tripulados. De acordo com o RUSI, o apoio de saúde passou a ser prestado a mais de 7 km das posições avançadas; os feridos são estabilizados no local e evacuados à noite, em geral por veículos terrestres não tripulados (UGV) posicionados de 2 a 5 km da frente, num trajeto que pode levar de duas a três horas. Os UGV e os drones de carga reduzem a exposição humana, mas não resolvem tudo: capacidade de carga, autonomia, relevo, obstáculos, clima e ataques inimigos limitam seu emprego, e retirar o tripulante não elimina a vulnerabilidade da cadeia logística.
Guerra eletrônica e a corrida das contramedidas
Interferir no enlace entre operador e drone tornou-se uma das principais formas de proteção, e a reação veio rápido. Drones FPV guiados por fibra óptica dispensam o enlace de rádio para comando e transmissão de imagens, o que neutraliza os interferidores convencionais contra essas funções. Não são invulneráveis: podem ser abatidos, têm limitações de alcance e esbarram em obstáculos do terreno. Nenhuma contramedida isolada, porém, oferece proteção duradoura; a defesa precisa combinar detecção, medidas eletrônicas, cobertura física, armas de interceptação, dispersão e procedimentos.
Há ainda um custo interno. O RUSI observa que a interferência eletrônica degrada também os drones amigos e exige coordenação com as demais armas, por vezes até o escalão pelotão; sem essa sincronização, o fratricídio eletrônico é inevitável. A disputa é, além disso, industrial: sistemas consumíveis exigem reposição em escala, componentes disponíveis e atualização frequente de software e equipamentos.
O que a experiência sugere ao Exército Brasileiro
As condições ucranianas não se transferem automaticamente para outros teatros. Planícies abertas, cinturões fortificados e uma frente relativamente estável diferem muito da selva amazônica, do Pantanal, da campanha gaúcha ou dos grandes centros urbanos onde a Força Terrestre pode ser empregada. Ainda assim, a lógica do problema, isto é, operar sob observação quase contínua, interessa a qualquer exército.
O tema já aparece na produção da própria Força. Em janeiro de 2026, artigo publicado no EBlog pelo general de brigada André Dias e pelo major Jefferson Andrade Lima da Silva examinou o emprego do SARP de categoria 2 Nauru 1000C, com alcance de até 60 km e até oito horas de voo, no reconhecimento e na vigilância da zona de reunião de uma brigada blindada. Os autores apontam a ocupação, a permanência e a saída da zona de reunião como a fase mais vulnerável da tropa blindada e lembram que o Exército dispõe de apenas duas brigadas blindadas: a 6ª Brigada de Infantaria Blindada, em Santa Maria (RS), e a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, em Ponta Grossa (PR).
A experiência ucraniana acrescenta a outra face dessa questão. Uma zona de reunião situada a 20 ou 30 km da linha de contato estaria, pelos parâmetros descritos pelo RUSI, dentro da área intermediária, ao alcance dos drones de vigilância e de ataque adversários. Protegê-la exige, além dos SARP próprios, defesa antidrone, guerra eletrônica, dispersão, camuflagem e controle de assinaturas.
Nesse campo, há passos recentes. Em agosto de 2026, o Exercício Sagitta Primus, conduzido pelo Comando de Defesa Antiaérea do Exército no Campo de Instrução de Formosa (GO), com mais de 500 militares de 23 organizações militares, incluiu pela primeira vez uma experimentação doutrinária de seção anti-SARP, coordenada pelo Centro de Doutrina do Exército (CDOUT). O objetivo foi combinar soluções cinéticas e não cinéticas no conceito de proteção em camadas; foram empregados os bloqueadores SCE 0100, da IACIT, e SCJ 2000M, da AICOX, operados pelo 1º Batalhão de Guerra Eletrônica, e empresas da Base Industrial de Defesa (BID) demonstraram torres de análise de sinais, fuzis de interferência e drones de interceptação.
No mesmo mês, entre 19 e 25 de agosto, o Curso de Engenharia da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) realizou um workshop sobre SARP que incluiu palestra da Diretoria de Material de Engenharia sobre as prospecções da Força, instrução com um sistema antidrone da IACIT no Batalhão Escola de Comunicações, visita aos simuladores do Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx) e à fabricante XMobots, responsável pelos Nauru 1000, Nauru 500 e 100-D. O Programa Estratégico Aviação do Exército, por sua vez, inclui projeto destinado a incorporar sistemas remotamente pilotados para inteligência, reconhecimento, vigilância, aquisição de alvos e ataque.
São sinais de atenção institucional, mas não medem, isoladamente, a prontidão da Força para operar sob ameaça permanente de drones. As perguntas mais relevantes continuam abertas: se as unidades de manobra estão preparadas para atuar sob observação adversária; se a proteção antidrone alcançará os escalões táticos ou permanecerá concentrada na artilharia antiaérea e na guerra eletrônica especializada; como sensores e fogos serão integrados e em que escalão estará a autoridade para engajar; quão resilientes são as comunicações; e se o adestramento já reproduz ambientes de guerra eletrônica e ataques simulados. A ênfase ucraniana na facilidade de reparo dos blindados também merece lugar nos critérios de obtenção.
Implicações para a Base Industrial de Defesa
A experiência mostra que a variedade de plataformas não substitui a integração. O CSIS registra que a Ucrânia opera mais de 550 tipos de sistemas não tripulados, muitos deles não integrados ao Delta, num modelo ágil, porém difícil de sustentar. Para a BID, a lição é desenvolver soluções interoperáveis e atualizáveis, em vez de tratar drones, interceptadores, sensores e enlaces como aquisições independentes. Empresas como XMobots, IACIT, Stella Tecnologia, Mac Jee, Akaer, Avibras Aeroco, Taurus, SkyDrones e outras já participam da cadeia; o desafio é a velocidade com que equipamentos e software conseguem ser modificados diante de uma ameaça que muda em meses.
O que muda e o que permanece
A expansão da kill zone não revogou os princípios da guerra terrestre, mas tornou mais difícil aplicá-los. A surpresa passou a exigir controle de assinaturas; a concentração de poder de combate, proteção e sincronização; a manutenção do terreno, suprimento resistente à interdição; e a manobra, janelas de superioridade local, ainda que breves, sobre sensores e fogos adversários. Destruir viaturas e desgastar unidades não equivale, por si só, a conquistar e manter uma posição; isso continua a depender da infantaria, apoiada por todas as demais armas.
Lurtz encerra sua publicação perguntando se estruturas de força, ambientes de instrução e processos de aquisição estão se adaptando com rapidez suficiente. Para o Exército Brasileiro, a resposta não está em reproduzir o modelo ucraniano, mas em testar, nas condições nacionais, como as armas combinadas poderão operar num campo de batalha cada vez mais transparente. O futuro da manobra terrestre dependerá menos de uma plataforma revolucionária do que da capacidade de integrar meios, adaptar a doutrina e preparar pessoas para uma ameaça em permanente transformação.
Na Ucrânia, o ponto mais valioso do terreno deixou de ser a trincheira e passou a ser o abrigo de onde opera o piloto de drone. A constatação, registrada em julho de 2026 pelo Futures Lab do Center for Strategic and International Studies (CSIS), resume uma transformação mais ampla: drones de reconhecimento e ataque, artilharia, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle passaram a atuar como um conjunto, ampliando a faixa do terreno em que deslocar militares e viaturas significa risco elevado. É o que a literatura militar em língua inglesa chama de kill zone, ou zona de destruição.
Segundo o mesmo estudo, assinado por Marcus Welsch, Yasir Atalan, Benjamin Jensen e Erik Tiersten-Nyman, essa faixa alcança até cerca de 30 km a partir da linha de contato. Nela, as posições se misturam, distinguir amigo de inimigo é difícil e pequenas equipes isoladas chegam a depender inteiramente do suprimento lançado por drones. Os postos de pilotagem, por sua influência sobre a logística tática e a consciência situacional, tornaram-se alvos prioritários dos dois lados.
O tema ganhou circulação recente com uma publicação no LinkedIn de Patrick Lurtz, diretor da UFORCE, empresa de tecnologia de defesa ligada ao campo de batalha ucraniano, e ex-oficial da Bundeswehr. O infográfico divulgado por ele contrasta uma faixa de 0 a 2 km em 2022 com outra de 10 a mais de 50 km em 2025 e 2026. A mensagem central do autor, porém, é mais sólida que os números: a kill zone não é uma distância, e sim um sistema, cuja profundidade depende do terreno, dos sensores, das armas, da guerra eletrônica e da capacidade de ligar o reconhecimento a fogos eficazes.
O que o infográfico do diretor da UFORCE mostra e o que ele simplifica
A imagem de Lurtz deve ser lida com cautela. Seu próprio rodapé indica atualização em agosto de 2025, embora o título anuncie o período até 2026, e a faixa de 2 km atribuída a 2022 subestima a ameaça daquele ano: artilharia, foguetes, mísseis e aviação já alcançavam objetivos muito além da primeira linha desde o início da invasão em larga escala. O que cresceu desde então foi, sobretudo, a densidade e a persistência da vigilância tática, acompanhadas da difusão de meios baratos capazes de atacar alvos de oportunidade em profundidade.
Também é preciso separar alcance técnico de letalidade efetiva. Em janeiro de 2026, segundo o Institute for the Study of War (ISW), citado pelo Kyiv Post, a zona de risco nas proximidades de Kupiansk, na região de Kharkiv, chegava a 20 ou 25 km para viaturas russas, mas a cerca de 1 km para a infantaria. Na outra ponta, levantamento do Royal United Services Institute (RUSI) com dados das Forças Armadas da Ucrânia indica que a maior parte das destruições por drones FPV ocorre numa faixa de 3 km para cada lado da linha de posições ucranianas. Um drone capaz de voar 40 km não torna toda essa extensão igualmente perigosa; a densidade de aeronaves, a meteorologia, a vegetação, a interferência eletrônica e a reposição de meios mudam o quadro a cada setor e a cada momento.
Uma faixa que também é objetivo
A ampliação da zona de risco não é apenas consequência da tecnologia; tornou-se meta declarada. Em setembro de 2025, o então ministro da Defesa ucraniano, Denys Shmyhal, defendeu a criação de uma kill zone ao longo da linha de contato, empregando drones para deter os avanços russos. O conceito Drone Line, hoje incorporado às Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, atribui a suas unidades a missão de estabelecer uma faixa de 10 a 15 km de profundidade na qual o inimigo não consiga operar sem sofrer perdas.
O RUSI descreve o resultado como um cinturão de atrito de aproximadamente 30 km imposto pela Ucrânia na linha de frente. Em estudo de outubro de 2025, o pesquisador Jack Watling registrou que oficiais ucranianos passaram a dividir o campo de batalha em três áreas: a zona contestada, normalmente com cerca de 15 km e delimitada por terreno aberto; a área intermediária, que se estende até aproximadamente 30 km além dela e de onde operam drones de vigilância e artilharia adversários; e a profundidade, onde ficam reservas, centros logísticos e alvos industriais. Não se trata, portanto, de um cinturão homogêneo, mas de camadas com funções e ameaças diferentes.
O decisivo é o ciclo, não a plataforma
O drone tornou-se o símbolo mais visível da transformação, mas não a explica sozinho. O elemento decisivo é a integração entre busca de alvos, transmissão de dados, decisão, engajamento e avaliação de resultados. Quando esse ciclo se fecha em minutos, o tempo de exposição tolerável para tropas, viaturas e postos de comando cai na mesma proporção.
Outro estudo do CSIS, publicado em 31 de julho de 2026 por Wesley Bailey e Daniel Byman, oferece um exemplo concreto. Em 4 de junho de 2026, a Força de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia atacou a infraestrutura de lançamento de drones Shahed no aeroporto ocupado de Donetsk com base em imagens comerciais de satélite entregues diretamente aos operadores, cerca de 15 minutos após a captura e sem passar por revisão centralizada. Segundo os autores, o procedimento comprimiu o ciclo de reconhecimento e ataque em até 90%. O sistema ucraniano de consciência situacional Delta, desenvolvido por voluntários desde 2016, já havia reduzido o intervalo entre detecção e disparo de 72 horas para minutos.
O mesmo estudo mostra o contraste do lado russo, onde a autorização de tiro permanece no escalão batalhão e cria atrasos na cadeia de engajamento. A lição é organizacional antes de ser tecnológica: delegar autoridade, circular dados e processá-los com rapidez pesa tanto quanto adquirir plataformas.
Blindados: vulneráveis, mas não obsoletos
A observação persistente penaliza concentrações e deslocamentos previsíveis. Segundo o RUSI, entre 1º e 24 de agosto de 2025, a inteligência ucraniana detectou apenas 23 carros de combate russos operando a menos de 70 km da linha de frente; em maio de 2023, somente o eixo sul reunia 470. A queda, contudo, não equivale ao abandono da arma blindada. As brigadas ucranianas mantêm uma companhia de carros de combate cada e os empregam em escalão pelotão, onde seu poder de fogo para limpar posições e atrair fogos para longe da infantaria continua indispensável. Com modificações adequadas, observou o RUSI, um blindado pode suportar de 10 a 15 impactos de FPV com danos reparáveis.
Daí uma conclusão relevante para quem adquire material: comandantes ucranianos valorizam mobilidade, autonomia e, sobretudo, facilidade de reparo. Carros pesados e de manutenção complexa tendem a perder disponibilidade rapidamente, e um blindado que não volta logo ao combate acaba poupado de missões em que seria necessário.
O emprego também mudou de lógica. As unidades ucranianas de melhor desempenho estudadas pelo RUSI dividem a conquista de um setor contestado em sete fases, geralmente ao longo de cinco a dez dias: vigiar, isolar, desgastar, fixar, suprimir, cerrar e destruir, e consolidar. Os blindados entram apenas na sexta etapa, depois que a vigilância adversária foi degradada e o setor foi isolado de reforços. Segundo oficiais ouvidos pelo instituto, com base em amostra reduzida, ataques bem-sucedidos com esse método teriam perdas de 5% a 10%, contra até 50% em assaltos conduzidos sem ele.
A logística dentro da área de combate
O efeito mais duradouro da kill zone talvez seja o desaparecimento da retaguarda próxima. Caminhões de munição, ambulâncias, equipes de manutenção e vias de acesso tornaram-se alvos frequentes, e a interdição das rotas pode enfraquecer uma posição mesmo quando o adversário não consegue atacá-la diretamente. O ISW registrou, em 2025 e 2026, o esforço russo para restringir a logística ucraniana com drones FPV, incluindo aparelhos guiados por fibra óptica e modelos que aguardam alvos à margem das estradas. Na retomada de Kursk, segundo o CSIS, a unidade russa Rubicon usou drones de fibra óptica contra rotas de suprimento ucranianas em estradas estreitas, tornando o ressuprimento e a rotação de tropas proibitivamente caros.
A resposta ucraniana combina dispersão, novos percursos e veículos não tripulados. De acordo com o RUSI, o apoio de saúde passou a ser prestado a mais de 7 km das posições avançadas; os feridos são estabilizados no local e evacuados à noite, em geral por veículos terrestres não tripulados (UGV) posicionados de 2 a 5 km da frente, num trajeto que pode levar de duas a três horas. Os UGV e os drones de carga reduzem a exposição humana, mas não resolvem tudo: capacidade de carga, autonomia, relevo, obstáculos, clima e ataques inimigos limitam seu emprego, e retirar o tripulante não elimina a vulnerabilidade da cadeia logística.
Guerra eletrônica e a corrida das contramedidas
Interferir no enlace entre operador e drone tornou-se uma das principais formas de proteção, e a reação veio rápido. Drones FPV guiados por fibra óptica dispensam o enlace de rádio para comando e transmissão de imagens, o que neutraliza os interferidores convencionais contra essas funções. Não são invulneráveis: podem ser abatidos, têm limitações de alcance e esbarram em obstáculos do terreno. Nenhuma contramedida isolada, porém, oferece proteção duradoura; a defesa precisa combinar detecção, medidas eletrônicas, cobertura física, armas de interceptação, dispersão e procedimentos.
Há ainda um custo interno. O RUSI observa que a interferência eletrônica degrada também os drones amigos e exige coordenação com as demais armas, por vezes até o escalão pelotão; sem essa sincronização, o fratricídio eletrônico é inevitável. A disputa é, além disso, industrial: sistemas consumíveis exigem reposição em escala, componentes disponíveis e atualização frequente de software e equipamentos.
O que a experiência sugere ao Exército Brasileiro
As condições ucranianas não se transferem automaticamente para outros teatros. Planícies abertas, cinturões fortificados e uma frente relativamente estável diferem muito da selva amazônica, do Pantanal, da campanha gaúcha ou dos grandes centros urbanos onde a Força Terrestre pode ser empregada. Ainda assim, a lógica do problema, isto é, operar sob observação quase contínua, interessa a qualquer exército.
O tema já aparece na produção da própria Força. Em janeiro de 2026, artigo publicado no EBlog pelo general de brigada André Dias e pelo major Jefferson Andrade Lima da Silva examinou o emprego do SARP de categoria 2 Nauru 1000C, com alcance de até 60 km e até oito horas de voo, no reconhecimento e na vigilância da zona de reunião de uma brigada blindada. Os autores apontam a ocupação, a permanência e a saída da zona de reunião como a fase mais vulnerável da tropa blindada e lembram que o Exército dispõe de apenas duas brigadas blindadas: a 6ª Brigada de Infantaria Blindada, em Santa Maria (RS), e a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada, em Ponta Grossa (PR).
A experiência ucraniana acrescenta a outra face dessa questão. Uma zona de reunião situada a 20 ou 30 km da linha de contato estaria, pelos parâmetros descritos pelo RUSI, dentro da área intermediária, ao alcance dos drones de vigilância e de ataque adversários. Protegê-la exige, além dos SARP próprios, defesa antidrone, guerra eletrônica, dispersão, camuflagem e controle de assinaturas.
Nesse campo, há passos recentes. Em agosto de 2026, o Exercício Sagitta Primus, conduzido pelo Comando de Defesa Antiaérea do Exército no Campo de Instrução de Formosa (GO), com mais de 500 militares de 23 organizações militares, incluiu pela primeira vez uma experimentação doutrinária de seção anti-SARP, coordenada pelo Centro de Doutrina do Exército (CDOUT). O objetivo foi combinar soluções cinéticas e não cinéticas no conceito de proteção em camadas; foram empregados os bloqueadores SCE 0100, da IACIT, e SCJ 2000M, da AICOX, operados pelo 1º Batalhão de Guerra Eletrônica, e empresas da Base Industrial de Defesa (BID) demonstraram torres de análise de sinais, fuzis de interferência e drones de interceptação.
No mesmo mês, entre 19 e 25 de agosto, o Curso de Engenharia da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) realizou um workshop sobre SARP que incluiu palestra da Diretoria de Material de Engenharia sobre as prospecções da Força, instrução com um sistema antidrone da IACIT no Batalhão Escola de Comunicações, visita aos simuladores do Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx) e à fabricante XMobots, responsável pelos Nauru 1000, Nauru 500 e 100-D. O Programa Estratégico Aviação do Exército, por sua vez, inclui projeto destinado a incorporar sistemas remotamente pilotados para inteligência, reconhecimento, vigilância, aquisição de alvos e ataque.
São sinais de atenção institucional, mas não medem, isoladamente, a prontidão da Força para operar sob ameaça permanente de drones. As perguntas mais relevantes continuam abertas: se as unidades de manobra estão preparadas para atuar sob observação adversária; se a proteção antidrone alcançará os escalões táticos ou permanecerá concentrada na artilharia antiaérea e na guerra eletrônica especializada; como sensores e fogos serão integrados e em que escalão estará a autoridade para engajar; quão resilientes são as comunicações; e se o adestramento já reproduz ambientes de guerra eletrônica e ataques simulados. A ênfase ucraniana na facilidade de reparo dos blindados também merece lugar nos critérios de obtenção.
Implicações para a Base Industrial de Defesa
A experiência mostra que a variedade de plataformas não substitui a integração. O CSIS registra que a Ucrânia opera mais de 550 tipos de sistemas não tripulados, muitos deles não integrados ao Delta, num modelo ágil, porém difícil de sustentar. Para a BID, a lição é desenvolver soluções interoperáveis e atualizáveis, em vez de tratar drones, interceptadores, sensores e enlaces como aquisições independentes. Empresas como XMobots, IACIT, Stella Tecnologia, Mac Jee, Akaer, Avibras Aeroco, Taurus, SkyDrones e outras já participam da cadeia; o desafio é a velocidade com que equipamentos e software conseguem ser modificados diante de uma ameaça que muda em meses.
O que muda e o que permanece
A expansão da kill zone não revogou os princípios da guerra terrestre, mas tornou mais difícil aplicá-los. A surpresa passou a exigir controle de assinaturas; a concentração de poder de combate, proteção e sincronização; a manutenção do terreno, suprimento resistente à interdição; e a manobra, janelas de superioridade local, ainda que breves, sobre sensores e fogos adversários. Destruir viaturas e desgastar unidades não equivale, por si só, a conquistar e manter uma posição; isso continua a depender da infantaria, apoiada por todas as demais armas.
Lurtz encerra sua publicação perguntando se estruturas de força, ambientes de instrução e processos de aquisição estão se adaptando com rapidez suficiente. Para o Exército Brasileiro, a resposta não está em reproduzir o modelo ucraniano, mas em testar, nas condições nacionais, como as armas combinadas poderão operar num campo de batalha cada vez mais transparente. O futuro da manobra terrestre dependerá menos de uma plataforma revolucionária do que da capacidade de integrar meios, adaptar a doutrina e preparar pessoas para uma ameaça em permanente transformação.


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