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27 fevereiro, 2026

A órbita de Pequim: China expande rede espacial sigilosa na América Latina, alerta Congresso dos EUA

Relatório do Comitê Especial sobre a China identifica 11 instalações com potencial uso militar em Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia e Chile. Itamaraty ainda não respondeu sobre o caso brasileiro  


*LRCA Defense Consulting - 28/02/2026

O Comitê Especial sobre a Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês, da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, divulgou ontem (26) uma nova investigação revelando como a China estaria utilizando infraestrutura na América Latina para avançar suas capacidades espaciais e de coleta de informações. O documento, intitulado "Pulling Latin America into China's Orbit" ("Atraindo a América Latina para a Órbita da China"), é a segunda parte de uma série de investigações sobre a atuação de Pequim no Hemisfério Ocidental.

O que o relatório revela
A investigação identificou pelo menos 11 instalações espaciais chinesas em países como Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil. Segundo o documento, a China teria desenvolvido uma extensa rede de estações terrestres espaciais e telescópios de uso duplo na América Latina, com o objetivo de coletar informações e aumentar a capacidade bélica do Exército Popular de Libertação (PLA).

O relatório aponta que "Pequim utiliza a infraestrutura espacial da América Latina para reunir informações sobre adversários e reforçar as futuras capacidades de combate do ELP." Legisladores também levantaram preocupações sobre a supervisão dos locais, observando que, em pelo menos um caso, os direitos de inspeção do país anfitrião parecem ser limitados.

O caso mais emblemático é a Argentina. Uma estação espacial chinesa na província de Neuquén, estabelecida sob um contrato de arrendamento de 50 anos assinado em 2015, inclui uma antena de 35 metros usada para rastreamento de satélites e missões espaciais profundas. A Agência Nacional Chinesa de Lançamento, Rastreamento e Controle Geral de Satélites, uma divisão das Forças Armadas da China, se estabeleceu no local de 200 hectares, flanqueado por montanhas e distante de centros urbanos, oferecendo ponto estratégico para monitorar satélites 24 horas por dia.

O Brasil no centro das acusações
Com relação ao Brasil, o documento cita a Estação Terrestre de Tucano, uma joint venture entre a startup brasileira Alya Nanosatellites e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology, localizada em Tucano (BA), mas cuja localização exata é desconhecida. O relatório menciona também o Laboratório Conjunto de Tecnologia de Radioastronomia China-Brasil, estabelecido em 2025, após o Instituto de Pesquisa em Comunicação da Rede de Ciência e Tecnologia Elétrica da China (CESTNCRI) assinar um acordo com a Universidade Federal de Campina Grande e a Universidade Federal da Paraíba.

Em 26/08/2020, conforme publicou o Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, a startup brasileira de observação da terra Alya Nanosatellites Constellation anunciou a assinatura de um acordo com a empresa aeroespacial chinesa Beijing Tianlian Space Technology Co. Ltd. para a criação de uma estação em Tucano, no nordeste do Brasil.

Num artigo de opinião publicado no portal noticioso SpaceWatch.Global, a Co-Fundadora e Diretora-Executiva da Alya, Aila Raquel, disse que as duas empresas vão cooperar na monitorização e telemetria de foguetões e acompanhamento de satélites e antenas. Segundo o portal noticioso, a responsável disse que a Alya e a Tianlian vão usar a estação em Tucano, no Estado da Bahia, para receber e processar informação vinda de satélites situados em localizações estratégicas na órbita terrestre. O objetivo da Alya, disse Aila Raquel, é disponibilizar imagens aéreas de alta resolução que possam ser usadas no desenvolvimento da agricultura e exploração mineira e na proteção e gestão ambientais. 

O relatório americano levanta preocupações sobre a possibilidade de que o sistema esteja equipado para interceptar comunicações militares e operações de guerra eletrônica, o que poderia ter implicações significativas para a segurança regional. A China ainda não reagiu à divulgação do relatório. A imprensa brasileira entrou em contato com o Itamaraty e aguardava retorno. 

Uso dual: ciência ou vigilância?
O ponto central da controvérsia é o chamado "uso dual" das instalações. O relatório argumenta que a proliferação de infraestrutura espacial chinesa na América Latina ilustra como sítios civis podem funcionar como instalações militares, ampliando a capacidade do ELP de rastrear e potencialmente interromper sistemas espaciais adversários em todo o globo.

Especialistas alertam que o esforço tem implicações não apenas econômicas, mas também para guerras futuras e a hegemonia global. Muitos países da região simplesmente não têm capacidade de acessar o espaço por conta própria, e a China preencheu essa lacuna de uma forma que os Estados Unidos não conseguiram.

O próprio Departamento de Defesa americano corrobora parte das conclusões. O relatório anual de 2025 do Departamento de Guerra ao Congresso sobre o desenvolvimento militar da China avalia que a expansão da presença espacial regional da China "quase certamente proporciona capacidades aprimoradas de vigilância do domínio espacial, inclusive contra recursos espaciais militares dos EUA no hemisfério".

Recomendações e contexto político
O comitê fez uma série de recomendações, entre elas que os EUA promovam novos acordos por meio da NASA com os países onde há presença chinesa, que as agências americanas reavaliem a cooperação espacial, de defesa e tecnologia avançada com esses países, e que o governo busque eliminar a influência de Pequim no hemisfério.

O comitê também citou a Emenda Wolf, lei aprovada em 2011 que proíbe a NASA e a Casa Branca de usar fundos federais para cooperação bilateral direta com organizações ou cientistas da China, salvo mediante autorização especial.

Veracidade das informações
As informações centrais do relatório são verificáveis e têm base documental, com as seguintes ressalvas importantes:

- O que é factual e confirmado por fontes independentes: a existência da estação de Neuquén, Argentina, operada por uma divisão militar chinesa; a expansão global da infraestrutura espacial chinesa (corroborada pelo próprio Pentágono e por think tanks independentes como o CSIS); e a criação de parcerias acadêmicas chinesas em universidades brasileiras.

- O que é alegação, não fato provado: a afirmação de que as instalações são ativamente usadas para fins de espionagem ou combate. O relatório reconhece que se baseia em "relatórios de código aberto, imagens de satélite e documentos de planejamento", não em inteligência classificada publicada. A linha entre uso civil e militar permanece não comprovada de forma conclusiva.

- Contexto político relevante: O Comitê Especial sobre a China foi criado em 2023 num ambiente de acirrada rivalidade sino-americana, e seus relatórios refletem uma perspectiva deliberadamente crítica a Pequim. Isso não invalida os dados apresentados, mas exige leitura com senso crítico.

26 fevereiro, 2026

Embraer amplia cadeia de fornecimento do Phenom 300 e reforça perspectiva de aumento de produção do jato executivo

Novo contrato de US$ 4,2 milhões para a CPI Aerostructures reforça perspectiva de aumento de produção do jato executivo líder de sua categoria pelo 15º ano consecutivo


*LRCA Defense Consulting - 26/02/2026

A Embraer acaba de sinalizar mais um passo concreto rumo à expansão da produção do Phenom 300: a fabricante brasileira firmou novos pedidos no total de US$ 4,2 milhões junto à CPI Aerostructures (NYSE: CVU) para a fabricação de conjuntos de entradas de motor (engine inlet assemblies) destinados ao jato executivo Phenom 300.

O contrato não surge do nada. As entregas deverão se estender até meados de 2026, com financiamento adicional previsto no âmbito de um Acordo de Vida de Programa (Life of Program Agreement) já estabelecido entre as duas empresas.

Um relacionamento de mais de uma década
A CPI Aero é fornecedora de entradas de motor para a Embraer desde 2012. Até dezembro de 2025, a empresa já havia entregue mais de 940 conjuntos (shipsets) para o Phenom 300. Esse histórico representa não apenas volume, mas profundo domínio técnico e operacional numa peça crítica da arquitetura do jato: as entradas de motor são responsáveis por direcionar e otimizar o fluxo de ar que alimenta as turbinas, sendo componentes de alta precisão estrutural.

"A CPI está orgulhosa da contínua confiança da Embraer para entregar subconjuntos de alta qualidade em apoio a esta aeronave líder do setor, e está pronta para aumentar a capacidade em suporte a este cliente estratégico", declarou Dorith Hakim, CEO e presidente da CPI Aero.

O Phenom 300 no topo da categoria
O gatilho mais revelador deste novo contrato está nos números de entrega da Embraer. A aviação executiva da Embraer registrou 72 unidades do Phenom 300 entregues em 2025, o maior volume em 15 anos, reforçando a perspectiva de crescimento da produção em 2026.

Esse marco é especialmente significativo: o Phenom 300 já havia se consolidado ao longo dos anos como o jato leve mais entregue do mundo. Atingir o pico de 15 anos em 2025 indica que a demanda do mercado não só se manteve como acelerou, pressionando a Embraer a garantir o fornecimento de componentes críticos com antecedência.

Cadeia de suprimentos como alavanca estratégica
O novo pedido ilustra uma dinâmica cada vez mais comum na indústria aeronáutica de alto desempenho: quando uma OEM (Original Equipment Manufacturer) decide escalar produção, o primeiro movimento visível no mercado costuma ser a ativação ou expansão de contratos com fornecedores-chave da cadeia produtiva.

A CPI Aero atua como contratante principal do Departamento de Defesa dos EUA e como subcontratante Tier 1 de alguns dos maiores players aeroespaciais e de defesa do mundo, oferecendo engenharia, gerenciamento de programas, gestão de cadeia de suprimentos, operações de montagem e serviços de MRO (Manutenção, Reparo e Revisão). Esse perfil a torna um parceiro industrial estratégico, e não apenas um fornecedor transacional.

O fato de a Embraer ter escolhido ampliar o escopo do contrato existente, em vez de diversificar fornecedores, reforça a confiança no parceiro de Edgewood, Nova York, e indica que a prioridade é agilidade e confiabilidade de entrega, não renegociação de preço.

O que esperar daqui para frente
Com entregas confirmadas até meados de 2026 e o Life of Program Agreement ainda em vigor, o cenário aponta para continuidade e, possivelmente, para novos aportes. O próprio comunicado menciona "financiamento contínuo antecipado", sugerindo que a Embraer já trabalha com projeções de demanda que justificam manter a linha de fornecimento aquecida além do prazo atual.

Para o mercado, o contrato de US$ 4,2 milhões em si pode parecer modesto. Mas lido como termômetro da saúde produtiva do Phenom 300, e da disposição da Embraer de investir na cadeia fornecedora para sustentar um ritmo recorde de entregas, ele revela muito sobre o momento da aviação executiva brasileira: em franca expansão, com visibilidade de demanda e suprimento sendo construído agora para o crescimento de amanhã.

Embraer aposta no futuro que voa sem piloto - e não é só na Eve

Da Speedbird Aero à XMobots e ao eVTOL da Eve, a fabricante de aviões mais valiosa da América Latina constrói um ecossistema de inovação em drones que pode redefinir a logística e a mobilidade urbana do Brasil

 
 
*LRCA Defense Consulting - 26/02/2026

Há uma corrida silenciosa nos céus brasileiros. Drones cruzam rios em Aracaju levando refeições do iFood, outros vigiam fronteiras amazônicas para o Exército, e um protótipo elétrico pousou pela primeira vez em Gavião Peixoto, interior de São Paulo, em dezembro de 2025. Por trás de muito desse movimento está a Embraer, não voando ela mesma, mas financiando, orientando e aprendendo com quem voa.

Em um movimento que desafia a imagem de uma fabricante de jatos regionais, a Embraer construiu ao longo de uma década uma estratégia estruturada de corporate venture capital (CVC) voltada para a nova economia aérea. Com fundos próprios, participações em fundos independentes e uma aceleradora sediada nos Estados Unidos, a companhia já tem investimentos em mais de 40 startups; e no Brasil, dois dos casos mais emblemáticos são justamente do segmento de drones: a Speedbird Aero, focada em entregas urbanas, e a XMobots, maior fabricante de drones da América Latina.

"A Embraer está abrindo um universo que tem uma capacidade exponencial de crescimento. Nesse contexto, o céu é, literalmente, o limite." — Francisco Lyra, sócio da C-Fly Aviation

A arquitetura de um ecossistema
A estratégia de inovação da Embraer não nasceu de um único salto. Ela foi construída em camadas, ao longo de quase uma década, com diferentes instrumentos financeiros calibrados para diferentes momentos do ciclo de maturidade tecnológica.

O primeiro degrau foi o Embraer Ventures, criado em 2014 e descrito pela própria empresa como seu primeiro fundo de corporate venture capital, um veículo já totalmente investido em startups aeroespaciais. Quatro anos depois, em 2018, a companhia aportou no Catapult Ventures, um fundo sediado no Vale do Silício, nos Estados Unidos, como antena avançada para tecnologias de ponta: desde inteligência artificial até voos autônomos. Foi por essa via que chegaram investimentos indiretos em empresas como a Xnor.ai (adquirida pela Apple), a Near Earth Autonomy e a Daedalean, todas focadas em autonomia e cognição aeronáutica.

O terceiro pilar é mais recente e tem sabor brasileiro. Em 2023, a Embraer entrou como cotista do MSW MultiCorp 2, fundo gerido pela gestora carioca MSW Capital em conjunto com Baterias Moura, BB Seguros e o fundo de desenvolvimento carioca AgeRio. A Embraer aportou inicialmente R$ 20 milhões no veículo, que já destinou R$ 10 milhões à sua principal investida: a Speedbird Aero.

Complementando essa estrutura, está a Embraer-X, a aceleradora da companhia com sede em Melbourne, Flórida, e escritórios no Brasil e na Holanda. Mais do que um hub de inovação, a Embraer-X foi a incubadora da Eve Air Mobility, hoje listada na NYSE e na B3, e é o braço executor da estratégia de open innovation que orienta os investimentos em startups.

"A gente criou um unicórnio brasileiro. E a estratégia de venture capital não necessariamente precisa estar dentro do core business da companhia; ela é um pilar de aprendizagem." — Daniel Moczydlower, presidente da Embraer-X

Drone de entrega DLV2 da Speedbird Aero sobrevoando a cidade de Aracaju

Speedbird Aero: o drone que cruza o Rio Sergipe
Em Aracaju, às margens do Rio Sergipe, dois drones realizam uma rota que parece tirada de um roteiro de ficção científica, mas é completamente real. Saindo do Shopping RioMar, as aeronaves cruzam o rio e chegam aos condomínios de Barra dos Coqueiros, município vizinho, levando pedidos do iFood. Entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, esse par de drones já acumulou mais de duas mil entregas.

A Speedbird Aero foi fundada em 2018 por Samuel Salomão e Manoel Coelho, em Franca, no interior paulista. Desde cedo, a startup se diferenciou por tratar a logística com drones como uma operação séria e certificada, e não como uma demonstração de marketing. Em 2019, a empresa iniciou testes com o iFood em Campinas; hoje, a parceria se tornou uma operação comercial contínua. A Speedbird foi também a primeira empresa brasileira a obter autorização da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para entregas comerciais com drones.

Para o CEO Manoel Coelho, há uma linha clara que separa o que é drone delivery de verdade do que é fantasia de startup. "Você vê gente colocando um drone pequeno para levar cerveja ou sushi na varanda. Isso não é drone delivery, isso não é logística com drone. É a mesma coisa que pegar um carrinho de mão e colocar uma pessoa em cima: não é transporte público, não é regularizado", afirmou em entrevista recente.

A empresa opera hoje uma frota de 35 drones próprios, com certificações em 14 países. Além do iFood, atende Vale (transporte de amostras de minério em Carajás, no Pará), Petrobras (plataformas offshore), e o Grupo Fleury (transporte de amostras de exames em Salvador e Belo Horizonte). O modelo é de complementaridade: os drones não substituem entregadores humanos, mas cobrem rotas onde o transporte convencional é ineficiente.

O papel da Embraer: mais que capital
A entrada da Embraer no capital da Speedbird, via fundo MSW MultiCorp 2, trouxe muito mais do que dinheiro. A startup mudou sua sede para São José dos Campos, vizinha ao maior complexo aeronáutico da América Latina, e passou a ter acesso à expertise técnica acumulada em décadas de desenvolvimento de aeronaves certificadas.

"A Embraer, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, será como o irmão mais velho e experiente para ajudar a Speedbird nessa jornada", afirmou Moises Swirski, sócio-fundador da MSW Capital, ao anunciar o investimento em 2023.

Em fevereiro de 2026, a Speedbird anunciou uma nova rodada de US$ 5,8 milhões (R$ 30,2 milhões) — um investimento-ponte liderado pelo iFood e seis outros fundos, incluindo novamente a participação indireta da Embraer. O objetivo é capitalizar a empresa e prepará-la para uma Série B prevista para o fim de 2026. A meta imediata: replicar o modelo de Aracaju para a região metropolitana de São Paulo. 'Se a gente consegue fazer em São Paulo, consegue replicar em qualquer lugar do mundo', declarou Coelho.

A expansão internacional já tem endereço. A Speedbird possui equipamentos em Portugal, Israel e Itália, e planeja desembarcar nos Estados Unidos, liderada pelo ex-CEO da Eve Air Mobility, André Stein, uma escolha que fecha o círculo do ecossistema Embraer.

Nauru 500C, da XMobots

XMobots: do agro ao campo de batalha
Se a Speedbird é a face urbana dos investimentos da Embraer em drones, a XMobots representa a aposta no ecossistema de maior complexidade técnica e maior abrangência geográfica. Fundada em 2007 em São Carlos, no interior de São Paulo, pelo empreendedor Giovani Amianti, a empresa foi pioneira em tornar os drones uma realidade cotidiana para o agronegócio e as geotecnologias no Brasil.

Em setembro de 2022, a Embraer anunciou um primeiro investimento em rodada Série A na XMobots, tornando-se acionista minoritária, com opção de aportes futuros, o que realmente aconteceu posteriormente em janeiro de 2024. Os valores não foi divulgados, mas o negócio foi estruturado por meio de um fundo exclusivo da Embraer. Segundo fontes ouvidas à época do primeiro investimento, a XMobots vinha recebendo propostas de fundos de venture capital quando a Embraer entrou na jogada e mudou completamente a perspectiva.

"Trata-se de smart money na veia para uma empresa que aposta em mobilidade aérea. Além do dinheiro, há troca de experiências e desenvolvimento de tecnologia em conjunto." - NeoFeed, setembro de 2022

Hoje classificada como a 6ª maior empresa de drones do mundo (ela chegou a ser a 14ª no momento do investimento), a XMobots conta com mais de 600 colaboradores e uma rede de mais de 200 revendas no Brasil. Seus drones patrulham fronteiras amazônicas para o Exército Brasileiro (Nauru 1000C), monitoram queimadas para a Receita Federal, inspecionam linhas de transmissão elétrica e pulverizam lavouras de cana, soja e algodão.

Sistema aéreo de pulverização agrícola SPAD 150

De São Carlos às Forças Armadas
O portfólio da XMobots revela a amplitude de sua ambição. A família Nauru de drones VTOL (decolagem e pouso vertical) é o carro-chefe para defesa e segurança. O Nauru 1000C já equipa o Exército Brasileiro e participou de sua primeira missão oficial durante a Operação Perseu, o maior exercício militar do país. O modelo Nauru 500C foi entregue à Marinha, à Receita Federal e à Polícia Militar de Santa Catarina.

Em março de 2025, na LAAD Defense & Security, a empresa foi além: lançou a XMobots Defense como divisão autônoma, apresentando ao mercado global um novo UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicle) militar, resultado de três anos de desenvolvimento: o Nauru 100D. A empresa também assinou um memorando de entendimento com a MBDA, gigante europeia fabricante de mísseis, para desenvolver a versão armada do Nauru 1000C com mísseis Enforcer. Do laboratório de São Carlos ao campo de batalha, a trajetória é vertiginosa.

No agronegócio, a XMobots lançou em 2025 a divisão XMobots Agriculture, com estande de 700 m² na Agrishow, recorde da empresa. O SPAD 200B, sistema que transporta dois drones de pulverização e 1.000 litros de insumos, operado por apenas um piloto e um auxiliar, simboliza a maturidade industrial atingida. O mercado de drones agrícolas no Brasil, com potencial de R$ 96 bilhões até 2028, segundo projeções do setor, é o principal motor de crescimento da empresa.

eVTOL da Eve Air Mobility
Eve: o filho que virou unicórnio
Nenhum investimento da Embraer em mobilidade aérea teve a escala e o impacto do que gerou a Eve Air Mobility. Nascida dentro da Embraer-X em 2017, a Eve é hoje uma empresa independente listada na Bolsa de Nova York (NYSE: EVEX) e na B3 (EVEB31), com uma carteira de 2.900 intenções de compra avaliada em US$ 14,5 bilhões e a ambição de colocar táxis aéreos elétricos nas cidades brasileiras a partir de 2027.

Em 19 de dezembro de 2025, um marco histórico: o protótipo em escala real do eVTOL da Eve decolou pela primeira vez em voo livre no complexo da Embraer em Gavião Peixoto. A aeronave, movida por oito rotores para sustentação vertical e uma hélice traseira para cruzeiro, pousou após aproximadamente um minuto de voo pairado a 12 metros de altitude. 'Eve voou. Este é um marco histórico para nossos funcionários, clientes, investidores e todo o ecossistema', afirmou Johann Bordais, CEO da Eve.

A empresa foi capitalizada ao longo de sua trajetória com mais de US$ 400 milhões levantados no IPO, além de US$ 96 milhões em 2024 aportados pela própria Embraer e pela japonesa Nidec, e R$ 200 milhões do BNDES. A produção será em Taubaté, São Paulo, com capacidade inicial de 120 unidades por ano, expansível para 480, e a certificação pela Anac está prevista para 2027.

O eVTOL da Eve tem 2.900 encomendas confirmadas de 30 clientes em 13 países, a maior carteira do segmento em nível global.

A estratégia por trás dos investimentos
O presidente da Embraer-X, Daniel Moczydlower, define a lógica dos investimentos com clareza: a empresa não busca apenas retorno financeiro, mas aprendizado estratégico em áreas onde o gigante aeroespacial não seria competitivo por conta própria. 'É um mercado que, com certeza, a Embraer não seria competitiva, mas a gente está aprendendo muito com eles', disse sobre a Speedbird. E sobre a XMobots: 'A gente aumentou a participação na empresa. O agro brasileiro é uma potência da nossa economia e cada vez mais sofisticado do ponto de vista da tecnologia'.

As apostas temáticas do CVC da Embraer revelam os grandes eixos de transformação que a empresa identifica no setor: sistemas autônomos com inteligência artificial; eletrificação e descarbonização da aviação (com investimento em combustíveis sustentáveis em parceria com a United Airlines nos EUA); e a chamada 'última milha aérea', onde entregadores voadores e táxis elétricos disputam espaço com os modelos tradicionais de transporte.

Os números do mercado reforçam a lógica. O mercado global de drones para entregas deve movimentar US$ 18,65 bilhões até 2028, segundo projeções do setor. O mercado de eVTOLs, avaliado em US$ 4,2 bilhões em 2025, deve atingir US$ 39 bilhões até 2033. E no contexto mais amplo, o mercado de drones civis pode ultrapassar US$ 35 bilhões nos próximos anos.

A Embraer entende que não consegue capturar esses mercados sozinha. Mas pode ser o 'irmão mais velho', como usou a metáfora a MSW Capital, de quem está construindo o futuro. Uma posição elegante para uma empresa de 56 anos que prefere aprender a errar.

Cenário regulatório: o habilitador invisível
Por trás de cada rota de drone que cruza rios ou patrulha lavouras, há um arcabouço regulatório sem o qual nada seria possível. No Brasil, o marco decisivo foi a publicação do RBAC 94 pela Anac em 2017, que passou a permitir operações além da linha de visada do piloto, as chamadas BVLOS (Beyond Visual Line of Sight). Foi essa regulamentação que abriu caminho para que empresas como Speedbird e XMobots estruturassem operações comerciais contínuas.

A XMobots foi pioneira: o Nauru 500C foi o primeiro drone brasileiro autorizado para voos BVLOS acima de 400 pés e operações noturnas. Mais recente, a empresa obteve autorização para operações de até 60 km de distância durante a noite, o primeiro projeto no país a conseguir essa habilitação. Esse tipo de avanço regulatório, construído com anos de diálogo com a Anac, é parte do ativo intangível mais valioso dessas startups.

Para o eVTOL da Eve, a Anac demonstrou entusiasmo incomum. Em setembro de 2025, o presidente da agência, Tiago Faierstein, manifestou intenção de acelerar a certificação para 2026, um ano antes da meta da própria empresa. O Brasil, historicamente um mercado regulatório conservador em aviação, pode se tornar um dos primeiros países do mundo a ter táxis aéreos elétricos operando comercialmente.

O mapa do que está por vir
A Embraer chegou ao século XXI com uma identidade clara: fabricante de jatos regionais para 70 a 150 passageiros, com forte presença no mercado de defesa e aviação executiva. Mas a economia aérea do futuro é outra: descentralizada, elétrica, autônoma e conectada ao cotidiano das cidades e do campo.

Ao investir em Speedbird, XMobots e Eve, e ao aprender com cada uma delas, a Embraer está comprando apólices de seguro tecnológico e, ao mesmo tempo, construindo os alicerces de um ecossistema que pode tornar o Brasil um protagonista global na mobilidade aérea do século XXI. É uma aposta de longo prazo, feita por uma empresa que sabe melhor do que ninguém o tempo que leva para uma aeronave sair do papel e chegar ao céu.

Da pulverização de soja no Mato Grosso ao taxi aéreo em São Paulo, passando por entregas de exames em Salvador, o portfólio da Embraer em drones e eVTOLs esboça o contorno do que será a aviação brasileira nas próximas décadas.

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