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07 fevereiro, 2026

A guerra entre Rússia e Ucrânia: um alerta estratégico à defesa brasileira

 


*Mauro Beirão, 07/02/2026 

Modernização tecnológica: drones, IA e guerra cibernética
Uma das lições mais evidentes é o papel central das tecnologias acessíveis e assimétricas. Na Ucrânia, drones comerciais adaptados, como os Bayraktar da Turquia e modelos iranianos Shahed, foram usados em enxames para saturar defesas aéreas, destruir blindados e realizar ataques kamikaze. Esses dispositivos, baratos e de fácil produção, mudaram o equilíbrio de forças, permitindo que uma nação menor resistisse a um invasor superior em número.   A inteligência artificial (IA) também se destacou, com ferramentas como as da Palantir² integrando dados de sensores para rastrear tropas em tempo real, melhorando a precisão de artilharia e reduzindo perdas humanas.

A ofensiva no ambiente digital, embora tenha produzido efeitos mais limitados do que muitos analistas previam, com ações russas resultando sobretudo em perturbações pontuais, evidenciou a vulnerabilidade de sistemas essenciais, como os de energia e do setor financeiro. No caso brasileiro, a baixa prontidão diante de ameaças virtuais decorre, em grande parte, devido à dependência da importação de sistemas com esse tipo de tecnologia e da insuficiência de recursos destinados à inovação tecnológica e P&D, o que torna estratégico investir em capacidades próprias de proteção para garantir a continuidade de serviços vitais em situações de instabilidade. 

Isso implica em, investir em capacidades anti-drones e em sistemas de IA para monitoramento de fronteiras e para a vigilância da Amazônia, onde o terreno difícil favorece táticas assimétricas e mais recentemente o crime organizado, por exemplo, o Ministério da Defesa brasileiro, poderia investir na adaptação de ARPs³  de categoria 4, os mesmos já incorporados pela Força Aérea Brasileira.  
 
Logística, estoques e descentralização do comando
A logística tem se revelado um elemento decisivo no conflito entre Rússia e Ucrânia, expondo vulnerabilidades iniciais e evoluções estratégicas ao longo do tempo. Em 2022, a Rússia enfrentou graves problemas decorrentes de corrupção, planejamento inadequado e linhas de suprimento excessivamente longas, o que deixou colunas de veículos expostas a emboscadas ucranianas provocando escassez crítica de combustível e munições. Esses fatores resultaram em perdas substanciais e forçaram uma mudança para uma guerra de desgaste prolongado.

Entre 2025 e 2026, Moscou implementou adaptações significativas, como o uso de drones para proteger comboios, a descentralização parcial de comandos para maior agilidade e o aumento da produção interna de materiais, reduzindo assim dependências externas. Apesar desses avanços, persistem desafios, incluindo ataques ucranianos constantes a rotas de abastecimento e depósitos, além de pressões econômicas que comprometem a sustentabilidade de longo prazo. 

Do lado ucraniano, a dependência de aliados ocidentais para 80-90% dos suprimentos gera gargalos em escala global. Desde dezembro de 2025, os bombardeios russos aos portos do Mar Negro obrigam o uso de rotas alternativas via Polônia e Romênia. Kiev recorre a estratégias assimétricas, como drones navais e inteligência artificial (IA) para otimizar fluxos logísticos, mas ainda continua enfrentando interrupções frequentes por meio de ataques cibernéticos e sabotagens.  

No contexto brasileiro, onde as Forças Armadas operam em áreas remotas muito extensas, isso sugere a necessidade de ampliar estoques de munições e equipamentos, reduzindo a dependência externa. Documentos do Exército Brasileiro já discutem lições para operações de convergência até 2040, enfatizando preparo para conflitos prolongados.  Descentralizar o comando poderia melhorar respostas a ameaças híbridas, como invasões em áreas fronteiriças ou disputas marítimas no Atlântico Sul.
 
Sistemas de defesa antiaérea e costeira
A Ucrânia destacou a eficácia de sistemas antiaéreos avançados, como o Patriot americano, que interceptou mísseis e drones russos, restringindo o controle aéreo inimigo e permitindo operações terrestres mais seguras. Esse sucesso sublinha a necessidade de defesas em camadas, combinando radares de longo alcance, mísseis superfície-ar e contramedidas eletrônicas para neutralizar ameaças assimétricas, como enxames de drones. 

No Mar Negro, drones navais ucranianos, como os Sea Baby, afundaram navios russos, expondo fraquezas em defesas costeiras e demonstrando como tecnologias de baixo custo podem desafiar frotas convencionais. Para o Brasil, com seus 7.500 km de litoral e recursos offshore como o Pré-sal, essas lições impõem a urgência de fortalecer capacidades antinavio e antiaérea. Artigos da Escola Superior de Guerra (ESG) e análises militares brasileiras exploram como o míssil Neptune ucraniano, um sistema antinavio de precisão, poderia inspirar desenvolvimentos nacionais, como o MANSUP, ou adaptações de mísseis costeiros para proteger plataformas de petróleo e rotas marítimas. 

Além disso, o conflito revela a importância de integrar IA e sensores para detecção precoce, sugerindo que o Brasil invista em radares over-the-Horizon e baterias móveis para defender a Amazônia Azul. Sem isso, vulnerabilidades a incursões híbridas, como pirataria ou disputas territoriais, poderiam comprometer a soberania, exigindo parcerias tecnológicas com aliados como Israel ou Suécia para modernizar o arsenal e treinar forças em cenários de guerra assimétrica.

Evitar autolimitações estratégicas e construir dissuasão
Debates no Brasil identificam erros passados, como a renúncia a mísseis de longo alcance em 1995 e a adesão ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que, embora promovam a imagem pacifista, limitam opções de dissuasão em um mundo multipolar. A Ucrânia, que abdicou de seu arsenal nuclear pós-soviético em troca de garantias de segurança (Memorando de Budapeste, 1994), tornou-se vulnerável à invasão russa, ilustrando como tratados podem falhar sem poder dissuasório autônomo. Para o Brasil, isso significa revisar políticas para preservar capacidades tecnológicas, como o programa nuclear pacífico (submarinos nucleares via PROSUB), sem violar compromissos internacionais, mas garantindo independência estratégica. 

Lições adicionais incluem o desenvolvimento de armas não-nucleares estratégicas, como hipersônicas ou de precisão, para criar “dissuasão por negação”, ou seja, tornando invasões custosas demais. O conflito também alerta para riscos pós-guerra: o influxo de armas ocidentais para o crime organizado, com relatos de equipamentos da Ucrânia chegando a facções brasileiras via mercado negro, e o retorno de mercenários nacionais com expertise em drones, potencializando ameaças internas como o narcotráfico na Amazônia. 

Assim, o Brasil deve priorizar inteligência e controle de fronteiras, para proteger seus 17.000 quilômetros de fronteira seca, além de investir em doutrina de dissuasão integrada, inspirada em estudos recentes, para evitar dependências que minem a soberania em cenários de crise global.
 
Geopolítica: sanções, propaganda e alianças
As sanções ocidentais contra a Rússia tiveram efeitos limitados, graças a alianças com China, Índia e Irã, que forneceram rotas alternativas para comércio e tecnologia, demonstrando a resiliência de economias diversificadas. A propaganda russa, ao subestimar a resistência ucraniana e promover narrativas internas, levou a erros operacionais e perda de apoio global. 

Para o Brasil, que manteve neutralidade no conflito, condenando a invasão sem aderir a sanções, isso reforça a estratégia de diversificar parcerias para mitigar impactos em cenários hipotéticos, como disputas no Atlântico Sul ou pressões por recursos amazônicos. A posição prudente reflete lições de autonomia, mas exige preparo para coerções externas, como boicotes econômicos, via fortalecimento de blocos como BRICS e Mercosul. Além disso, os Acordos de Minsk falhados destacam os perigos de negociações apressadas ou assimétricas, alertando o Brasil para abordagens cautelosas em disputas regionais, como com a Venezuela ou na Antártica, priorizando diplomacia respaldada por poder militar. 

Estudos brasileiros enfatizam a necessidade de contrapor narrativas estrangeiras com comunicação estratégica e inteligência cibernética, evitando que a desinformação corroa a coesão nacional em tempos de tensão geopolítica. Em suma, o conflito ensina que a geopolítica moderna demanda equilíbrio entre neutralidade e prontidão, posicionando o Brasil como ator global resiliente.

Conclusão: recomendações para a defesa brasileira

A guerra Rússia-Ucrânia ensina que soberania depende de preparo autônomo: um país como o Brasil, deve estar preparado militarmente de forma independente, sem depender excessivamente de alianças externas ou tratados internacionais. Isso inclui investimentos em tecnologia, estoques e treinamento próprios, garantindo soberania e resiliência em cenários de conflito. Em essência, “pedaços de papel” (acordos) não substituem força real para deter ameaças.  

A vantagem tecnológica e operacional vem da integração de sensores, fogo de precisão, drones, EW e logística resiliente, não apenas do número bruto de blindados ou aeronaves.  O Brasil deve revisar sua Política Nacional de Defesa, investindo em modernização, estoques e dissuasão, como sugerido em estudos da ESG.  Com recursos naturais abundantes, o país não pode depender de aliados externos, como visto na Ucrânia.  Priorizar orçamento militar, parcerias tecnológicas e treinamento híbrido garantiria resiliência. Em um mundo multipolar, essas lições não são opcionais, são essenciais para preservar a paz pela força.
 

*Mauro Beirão tem formação em Engenharia Mecânica e mais de 30 anos dedicados à indústria de defesa e aeroespacial, atuando em uma das maiores companhias do setor, parte de um dos principais conglomerados globais de tecnologia e defesa. Ao longo da carreira, contribuiu para programas estratégicos das Forças Armadas Brasileiras e para o desenvolvimento de soluções aeroespaciais avançadas. Atualmente, como Gerente de Marketing da AEL Sistemas, lidera iniciativas de fortalecimento da marca e prospecção de negócios, consolidando a empresa como referência em inovação e tecnologia para a defesa nacional. 


Governo anuncia R$ 3,3 bilhões em recursos para impulsionar a Nova Indústria Brasil

 MCTI e Finep lançam 13 editais de subvenção econômica voltados à inovação tecnológica e desenvolvimento industrial em seis setores estratégicos, incluindo a BID


*LRCA Defense Consulting - 07/02/2026

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) anunciaram nesta sexta-feira um pacote de investimentos de R$ 3,3 bilhões para projetos de inovação alinhados à Nova Indústria Brasil (NIB). O anúncio foi feito durante reunião extraordinária do Movimento Empresarial de Inovação (MEI), realizada na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em São Paulo.

Os recursos, disponibilizados na modalidade de subvenção econômica (não reembolsáveis), serão distribuídos por meio de 13 editais públicos destinados a empresas brasileiras de todos os portes. A iniciativa representa mais um passo do governo federal na estratégia de reindustrialização do país, com foco em sustentabilidade, autonomia tecnológica e redução da dependência externa.

Investimento histórico em inovação
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou o volume de investimentos realizados desde o início da gestão atual. "Do início da nossa gestão até o fim de 2025, o MCTI, por meio da Finep, investiu R$ 44,3 bilhões, incluindo contrapartidas, em projetos ligados à Nova Indústria Brasil", afirmou a ministra, complementando que o novo pacote reforça o compromisso com o crescimento sustentável do país.

Para o presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, a estratégia vai além do simples aporte financeiro. "O propósito dessa oferta de recursos não reembolsáveis é fomentar a inovação, reduzir assimetrias regionais, promover a transferência de tecnologia e ampliar a competitividade nacional, para que a Nova Indústria Brasil alcance resultados concretos", explicou.

Setores contemplados
Os editais abrangem os seis eixos estratégicos da Nova Indústria Brasil: cadeias agroindustriais, saúde, infraestrutura, transformação digital, transição energética e defesa nacional. A distribuição dos recursos segue critérios que priorizam áreas consideradas críticas para o desenvolvimento tecnológico do país.

O setor de Transição Energética receberá a maior fatia individual, com R$ 500 milhões. Em seguida, cinco áreas foram contempladas com R$ 300 milhões cada: Cadeias Agroindustriais, Saúde, Tecnologias Digitais, Base Industrial de Defesa e a Chamada Regional, esta última voltada à redução de assimetrias entre as regiões do país.

Outros segmentos também foram incluídos no pacote: Transformação Mineral, Economia Circular e Cidades Sustentáveis, Mobilidade Sustentável, Semicondutores e Desafios Tecnológicos, cada um com valores específicos a serem detalhados nos respectivos editais.

Como participar
As empresas interessadas poderão apresentar propostas de desenvolvimento tecnológico que incluam gastos com pessoal qualificado, serviços de consultoria especializada, aquisição de equipamentos e material de consumo necessários à execução dos projetos.

Seis chamadas públicas já estão disponíveis para consulta no site da Finep, e as demais serão lançadas nas próximas semanas. Para esclarecer dúvidas sobre os editais, a Finep realizará uma série de lives com sua equipe técnica, transmitidas pelo canal oficial da instituição no YouTube.

Objetivos estratégicos
A iniciativa busca posicionar o Brasil como protagonista em setores estratégicos da economia global, promovendo a geração de empregos qualificados e renda, ao mesmo tempo em que fortalece a capacidade tecnológica nacional. A estratégia governamental aposta na inovação como motor do desenvolvimento econômico sustentável.

Além do impacto econômico direto, os investimentos pretendem criar um ecossistema de inovação mais robusto no país, estimulando a cooperação entre empresas, universidades e centros de pesquisa, e reduzindo a vulnerabilidade tecnológica brasileira em áreas consideradas estratégicas para a soberania nacional.

Saiba mais:

Empresas interessadas podem acessar os editais disponíveis em: www.finep.gov.br/chamadas-publicas

As lives de esclarecimento serão transmitidas pelo canal: youtube.com/@finepcomunica conforme o seguinte cronograma:


 



 

Empresa japonesa AirX optou por adquirir até 50 aeronaves eVTOL Eve, num investimento de US$ 250 milhões

Aeronaves elétricas serão utilizadas para voos de transferência e turísticos em Tóquio


*AIN, por Chad Trautvetter - 04/02/2026

A AirX, corretora de fretamento aéreo com sede em Tóquio, firmou um pedido de duas aeronaves eVTOL da Eve Air Mobility e opções para mais 48 — um negócio potencialmente avaliado em US$ 250 milhões (a preços de tabela estimados) — na quarta-feira, durante o Singapore Airshow. A AirX utilizará as aeronaves elétricas principalmente para voos de transferência e turismo no Japão, com foco na região da Baía de Osaka. A entrega das duas primeiras eVTOLs está prevista para 2029.

A AirX organiza esse tipo de voo em helicópteros por todo o Japão, operados por empresas parceiras com licença de operador aéreo, há quase 11 anos, por meio de sua plataforma de reservas online Airos Skyview. As reservas na empresa são divididas igualmente entre voos de transferência e voos turísticos. Um aplicativo, com lançamento previsto para o segundo trimestre, oferecerá uma interface mais amigável que facilitará as reservas pontuais de mobilidade aérea avançada (MAA), disse Kiwamu Tezuka, fundador e CEO da AirX, à AIN .

Segundo Masato Kikuchi, especialista em inovação e aquisição da AirX, os planos preveem que a empresa alugue os eVTOLs Eve para operadores parceiros que os operarão. O serviço de Mobilidade Aérea Avançada (AAM) com a aeronave elétrica de quatro a seis passageiros deverá começar na região metropolitana de Tóquio nos próximos cinco anos, dependendo da obtenção da certificação, observou ele.

Questionado sobre o custo dos voos com Mobilidade Aérea Avançada (AAM) em uma aeronave Eve, Tezuka disse que ele e sua equipe "estão tentando descobrir isso agora". No entanto, ele observou que a demanda existe: "Já recebemos muitos pedidos de voos de transferência usando helicópteros".

Luiz Mauad, vice-presidente de serviços, soluções operacionais, design estratégico e ecossistema da Eve, detalhou a demanda por Mobilidade Aérea Aérea (AAM) na região Ásia-Pacífico, onde a Eve prevê uma necessidade de 12.200 aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOLs) — 41% da frota mundial projetada. Ele observou que cidades com alto congestionamento impulsionarão essa demanda.

Mauad afirmou que oito das dez maiores cidades do mundo estão nessa região, com Tóquio no topo da lista. Além disso, a população da Ásia deverá disparar de 2 bilhões em 2020 para 3,5 bilhões no final desta década, levando a um aumento do congestionamento urbano que os eVTOLs podem ajudar a aliviar.

Segundo Mauad, os eVTOLs reduzirão significativamente o tempo de deslocamento em cidades como Tóquio. Por exemplo, ele afirmou que uma aeronave eVTOL da Eve poderia voar do Aeroporto de Haneda, em Tóquio, até um vertiporto no centro da cidade em 15 minutos, em vez de mais de uma hora de carro. A aeronave da Eve possui um compartimento de bagagem com capacidade para duas malas despachadas e duas de mão, facilitando esses traslados aeroportuários, acrescentou.

“A região Ásia-Pacífico tem uma enorme demanda por Mobilidade Aérea Avançada (AAM) eVTOL, incluindo voos de passageiros e de carga leve”, disse Mauad.

06 fevereiro, 2026

Do campo de batalha ucraniano à indústria brasileira: XMobots adota impressão 3d industrial na vanguarda da defesa nacional

Parceria estratégica com SKA e HP coloca fabricante brasileira de drones no seleto grupo de países que dominam manufatura aditiva para aplicações militares 


*LRCA Defense Consulting - 06/02/2026

Enquanto a Ucrânia revoluciona a guerra moderna com drones produzidos em impressoras 3D espalhadas por fábricas secretas próximas à linha de frente, o Brasil dá um salto estratégico na mesma direção, mas com uma vantagem: a capacidade de construir essa tecnologia crítica em ambiente controlado, antes que seja necessário utilizá-la sob pressão de conflito.

A XMobots, maior fabricante de drones da América Latina, acaba de consolidar uma parceria que posiciona o país na fronteira tecnológica da manufatura aditiva para defesa. A aliança com a SKA Automação de Engenharias, representante da HP no Brasil, traz para o chão de fábrica brasileiro impressoras 3D industriais de última geração, a mesma tecnologia que tem permitido à Ucrânia produzir milhares de drones por mês em condições extremas.

Da linha de frente ao laboratório industrial
Na Ucrânia, a guerra transformou a impressão 3D de promessa em infraestrutura crítica. Empresas como Wild Hornets operam fazendas de impressoras (dezenas de equipamentos Bambu Lab e Elegoo funcionando 24 horas por dia) para produzir componentes de drones interceptadores Sting que combatem os Shaheds iranianos. A Wild Hornets afirma ter neutralizado 1.738 ativos inimigos no valor de US$ 1,69 bilhão, incluindo 448 UAVs adversários.

Outras fabricantes ucranianas, como a TAF Drones, operam instalações secretas no oeste da Ucrânia onde mais de 100 funcionários produzem cerca de 1.000 drones diariamente usando tecnologias de manufatura que incluem impressoras 3D. O país já produz mais de quatro milhões de drones anualmente, estabelecendo novos paradigmas para a indústria global.

O modelo ucraniano demonstrou que a impressão 3D permite iteração em ciclos curtíssimos: imprimir, montar, testar e modificar projetos quase em tempo real. Um protótipo que funciona hoje pode ser ajustado até amanhã, com peças impressas localmente ou provenientes de fornecedores regionais, comprimindo ciclos de desenvolvimento que poderiam levar anos na fabricação aeroespacial tradicional em questão de semanas.

Essa agilidade não passou despercebida pelas forças da OTAN. O Tenente-Coronel Ben Irwin-Clark, comandante do 1º Batalhão Irish Guards do Exército Britânico, afirmou que a decisão de investir em produção interna de drones foi "definitivamente uma lição que aprendemos da Ucrânia". Os britânicos já imprimiram seu primeiro corpo completo de drone e treinam 78 soldados como pilotos ou instrutores.

XMobots: da prototipagem à produção em série
É nesse contexto global que a parceria entre XMobots, SKA e HP ganha relevância estratégica. Durante visita recente à fábrica em São Carlos (SP), representantes da SKA conheceram a integração das impressoras HP de última geração aos processos produtivos da empresa, uma tecnologia ainda rara no Brasil.

Participaram do encontro Jeisiane Valério, COO da XMobots, e Gabriel Setim Porto Alegre, vice-presidente de Programas, além de Paulo Ricardo, gerente de Projetos e Manufatura; Gustavo Francisco Nuñez Reyna Junior, gerente de P&D em Sistemas Elétricos e Eletrônicos; e Gustavo Sulino, supervisor de Produção Mecânica.

A XMobots deixou de usar impressão 3D apenas como ferramenta de prototipagem para tratá-la como pilar central da manufatura de seus sistemas de defesa. Com a SKA como parceira tecnológica, a empresa acessa um ecossistema de softwares, processos e materiais que permitem fabricar em série componentes de alta precisão, com repetibilidade e rastreabilidade, exatamente o tipo de requisito que diferencia um laboratório experimental de uma linha de produção militar certificada.

A família Nauru: casos de uso da Manufatura Aditiva
As soluções aplicam-se diretamente ao desenvolvimento dos drones da família Nauru, especialmente os modelos Nauru 100D ISTAR, Nauru 500C ISR e Nauru 1000C ISTAR, plataformas táticas pensadas para missões de inteligência, vigilância, reconhecimento e aquisição de alvos.

O Nauru 1000C ISTAR, por exemplo, é o drone VTOL (decolagem e pouso vertical) de categoria 2 selecionado pelo Exército Brasileiro para missões de monitoramento de fronteiras. Com envergadura de 7,7 metros, autonomia de 10 horas e capacidade de carga útil de 18 kg, o sistema integra sensores eletro-ópticos, infravermelho, telêmetro laser e sistemas SAR e GMTI para vigilância.

A XMobots também firmou parceria com a MBDA, maior empresa europeia de mísseis, para desenvolver a versão armada do Nauru 1000C com mísseis Enforcer Air, tornando-o o primeiro drone brasileiro a integrar capacidade de ataque guiado de precisão.

A impressão 3D industrial entra como facilitadora em diversos pontos críticos:

  • Produção de carenagens, suportes internos, pods de sensores e estruturas secundárias complexas: geometrias que seriam inviáveis ou extremamente custosas com processos tradicionais;
  • Redução de ferramental, gabaritos e dispositivos de montagem, acelerando a entrada em produção;
  • Iteração rápida de novas geometrias, hardpoints, dutos e layouts internos, encurtando drasticamente o ciclo entre projeto e validação em campo. 

Drone Nauru 1000C, da XMobots, armado com mísseis Enforcer Air produzidos pela MBDA

Manufatura Aditiva para defesa: casos globais
A adoção da impressão 3D pela indústria de defesa não é novidade nos países desenvolvidos. A HP anunciou recentemente a disponibilidade geral do material HP 3D HR PA 11 Gen2 para seus sistemas Multi Jet Fusion, oferecendo até 80% de reusabilidade de pó e até 40% de redução nos custos variáveis de peças, confirmando sua prontidão para componentes aeroespaciais, de defesa e energia.

A HP também lançou sua primeira impressora industrial de filamento, a HP IF 600HT, projetada especificamente para materiais de alta temperatura para fabricar peças complexas para ambientes exigentes como aeroespacial e defesa.

Empresas como BMW, John Deere e Schneider Electric já utilizam as impressoras HP Multi Jet Fusion para produção em série de componentes finais, não apenas protótipos. Na defesa, a tecnologia permite produzir desde brackets e jigs até peças estruturais certificadas para voo.

Soberania tecnológica em defesa
Para o Brasil, a parceria XMobots–SKA–HP representa mais do que um avanço tecnológico pontual. Ela sinaliza:

- Soberania industrial em um dos segmentos mais críticos da defesa contemporânea, reduzindo dependência de cadeias externas para modificações ou lotes especiais de componentes;

- Alinhamento com as melhores práticas que emergem do "laboratório de guerra" ucraniano, mas adaptadas à realidade de um grande país em paz, com capacidade de construir essa infraestrutura em ambiente controlado;

- Capacidade de resposta rápida a novas demandas das Forças Armadas e de clientes internacionais, uma vantagem competitiva crucial em mercados onde o tempo de desenvolvimento determina contratos.

Fundada em 2007 e incubada no CIETEC-USP, a XMobots emprega hoje cerca de 700 funcionários e é líder no desenvolvimento de aeronaves remotamente pilotadas na América Latina, ocupando o 6º lugar no ranking mundial da Drone Industry Insights. A empresa recebeu investimento da Embraer em 2022, consolidando sua posição estratégica no setor aeroespacial brasileiro.

Drone Nauru 500C

O futuro da guerra... e da indústria
Enquanto a Ucrânia demonstra que a impressão 3D pode sustentar produção quase artesanal, mas em grande escala de drones militares, a XMobots mostra que o Brasil é capaz de transformar essa lógica em política industrial: uma fábrica digital de defesa, com robôs industriais, linhas seriadas e manufatura aditiva integrada.

Em um cenário em que a próxima geração de conflitos será protagonizada por enxames de drones projetados, fabricados e modificados em ciclos cada vez mais curtos, ter uma XMobots conectada à SKA e à HP, dominando impressão 3D industrial no Brasil, é jogar na mesma liga de quem hoje redefine a guerra na Ucrânia, só que com a vantagem de construir essa capacidade desde já, em ambiente controlado, para quando o país precisar.

A mensagem é clara: o Brasil não está apenas observando a revolução da manufatura aditiva na defesa. Está construindo, em São Carlos, um dos pilares dessa nova era.


Sobre a XMobots
Fundada em 2007, a XMobots é a maior fabricante de drones do Brasil e da América Latina, com sede em São Carlos (SP). A empresa desenvolve 100% da tecnologia presente em seus produtos: mecânica, hardware, software e inteligência artificial. Com aproximadamente 700 funcionários, a XMobots atende os mercados de agricultura, defesa, segurança pública e geotecnologia.

Sobre a SKA Automação de Engenharias
A SKA é representante oficial da HP no Brasil para soluções de impressão 3D industrial, oferecendo consultoria técnica, implementação de processos e suporte especializado para manufatura aditiva em diversos segmentos industriais.

Sobre a HP 3D Printing
A HP é líder global em soluções de manufatura aditiva, com tecnologias Multi Jet Fusion (MJF) e Metal Jet que atendem indústrias aeroespacial, automotiva, de bens de consumo e defesa. A empresa investe continuamente em novos materiais e plataformas para expandir as aplicações de impressão 3D na produção industrial em série.

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