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11 setembro, 2026

Sistemas não tripulados na defesa e segurança pública brasileira: cenário, investimentos e perspectivas


*Luis Henrique Unterleider - via LinkedIn - 24/08/2026

CENÁRIO, INVESTIMENTOS E PERSPECTIVAS

O emprego de sistemas não tripulados deixou de ser uma discussão teórica para se tornar uma realidade operacional, não apenas no campo de batalha, mas nas ruas, nas fronteiras, nos rios e nas áreas acometidas por desastres naturais. A experiência ucraniana demonstrou de forma cabal que plataformas de baixo custo, descartáveis e altamente adaptáveis podem alterar a dinâmica da guerra. No Brasil, o que se observa é um momento decisivo em que Forças Armadas, órgãos de segurança pública e entidades civis avançam em iniciativas que, somadas, configuram um mercado em maturação acelerada.

DIMENSIONAMENTO DE MERCADO: OS NÚMEROS QUE IMPORTAM

Os números são expressivos em escala global e promissores em dimensão nacional. O mercado global de sistemas não tripulados foi avaliado em US$ 25,01 bilhões em 2025, com projeção de US$ 46,76 bilhões até 2030 (CAGR de 13%) segundo dados da Mordor Intelligence. Projeções mais agressivas apontam US$ 76,05 bilhões até 2035(Future Market Insights).

No segmento militar, o mercado global de drones militares deve saltar de US$ 22,49 bilhões em 2026 para US$ 52,31 bilhões até 2034 (Fortune Business Insights). Já as plataformas terrestres (UGVs) militares crescem de US$ 4,44 bilhões em 2026 para US$ 6,63 bilhões em 2030 (Research and Markets). O segmento de drones de combate a incêndios movimentou US$ 1,33 bilhão em 2025, com projeção de US$ 2,75 bilhões até 2034 (IMARC).

No segmento da segurança pública, o mercado global de drones foi avaliado em US$ 5,9 bilhões em 2025, com projeção de US$ 14,89 bilhões até 2034 (CAGR de 10,8%) segundo o Market Research Future. A pesquisa da Versaterm indica que 76% das agências de segurança pública já utilizam drones em algum grau.

No Brasil, o mercado de drones militares foi avaliado em US$ 207,7 milhões em 2026, com projeção de US$ 446,4 milhões até 2031 (CAGR de 16,5%), acima da média global (Markets and Markets). O mercado geral de plataformas voadoras (UAVs) no Brasil movimentou US$ 85,6 milhões em 2025, com projeção de US$ 157,9 milhões até 2030 (Markets and Markets). Já o mercado de drones de consumo e comercial deve alcançar US$ 3,12 bilhões até 2033 (Grand View Research). O mercado de drones agrícolas (fortemente utilizado com duplo propósito, também para vigilância e mapeamento) deve movimentar cerca de R$ 2 bilhões em 2026 (Xmobots).

O orçamento de defesa brasileiro foi de aproximadamente US$ 23,5 bilhões em 2025, com projeção de US$ 25,1 bilhões em 2026 e US$ 27,2 bilhões nos anos seguintes (Yahoo Finance). Em escala regional, o orçamento militar brasileiro de 2026 supera o somatório dos gastos de defesa de todos os demais países sul-americanos (Rio Times). O governo federal definiu a alocação de R$ 30 bilhões em investimentos estratégicos das Forças Armadas fora do teto fiscal, distribuídos em seis anos (Valor International). O Exército dobrará seu investimento anual para R$ 3 bilhões entre 2026 e 2031 (Times Brasil).

Para quem avalia oportunidade de negócio, está claro que existe disponibilidade de recursos, sendo direcionados para aquisição e desenvolvimento de sistemas não tripulados, com taxa de crescimento acima da média global e demanda reprimida em todos os níveis da administração pública.

FORÇAS ARMADAS: INICIATIVAS E CASOS DE SUCESSO

O marco normativo foi atualizado em novembro de 2025 com o Decreto 12.725/2025, que aprovou as novas versões da Política Nacional de Defesa (PND), Estratégia Nacional de Defesa (END) e do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), reorientando prioridades para tecnologias avançadas, programas espaciais e capacidades autônomas (Carlton Fields).

EXÉRCITO BRASILEIRO: CTEx COMO VETOR CENTRAL

O Centro Tecnológico do Exército – CTEx, consolidou-se como o principal polo de desenvolvimento de sistemas não tripulados terrestres e aéreos do país. Os projetos em andamento incluem: 

• Unidroid (Ambipar/Ares): UGV com lançador duplo para o míssil anticarro. Versão autônoma em estudo com o SARC Remax 4 (12,7mm).

• SARC REMAX 3 (Ares): estação de armas remotamente controlada com câmeras diurna, termal, telêmetro laser e estabilização em dois eixos.

• SVTRP 1 e SVTRP 2: financiados por FINEP/FAPEB. O SVTRP 1 é transportável por dois militares, com braço robótico para manipulação de objetos. O SVTRP 2 integra sistemas optrônicos, disparo remoto de armamento e transporte autônomo de suprimentos em zona de conflito.

• Veículo detector de radiação: parceria CTEx/IDQBRN, UGV com Raspberry Pi 5 e transmissão de dados radiológicos por rádio.

• Enxames de drones com IA: primeiro demonstrador nacional de controle coordenado de múltiplos drones por IA, apresentado em março de 2026 (DefesaNet).

O Exército já opera drones Nauru (Xmobots) de curto e médio alcance e estuda a aquisição de unidades de longo alcance armadas. Testes de drones e sistemas não tripulados da Base Industrial de Defesa (BID) nacional ganham forte destaque na Operação Perseu e estão previstos para o final de 2026. 

Fontes: Infodefensa e Exército Brasileiro.

FORÇA AÉREA BRASILEIRA:

A FAB opera um Hermes 900 há 15 anos. Trata-se de um SARP de origem israelense (Elbit) baseado em Santa Maria (RS), com mais de 1.000 km de alcance e 8h de autonomia. Foi largamente empregado na Operação Taquari, durante as enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul em 2024. Além disso, por meio do Projeto RQ-XBR sob a COPAC, a FAB busca desenvolver um SARP 100% nacional (Agência Marinha).

INDÚSTRIA NACIONAL: A BASE SENDO CONSTRUÍDA

Embora o Brasil ainda dependa significativamente de plataformas importadas para suas necessidades imediatas de sistemas não tripulados, a Base Industrial de Defesa (BID) nacional vem articulando, em ritmo acelerado, múltiplas iniciativas que incluem desde drones de reconhecimento até plataformas armadas, veículos terrestres não tripulados e sistemas anti-drone. 

As iniciativas a seguir representam uma parcela do ecossistema em construção, já que outras tantas encontram-se em estágios iniciais de desenvolvimento, sob financiamento público e parcerias público-privadas, e tendem a se multiplicar à medida que os editais de fomento e as demandas operacionais das Forças Armadas ganhem escala.

• Harpia (AdTech): Recebeu Autorização de Projeto da ANAC em abril de 2026, após quatro anos de desenvolvimento, com investimento superior a R$ 6,7 milhões (FIESC).

• Albatroz Vórtex (Stella/AERO Concepts): Drone de 4 metros de envergadura, 150 kg de carga útil, 24 horas de autonomia e motor a jato de fabricação nacional (A Tarde).

• Nauru 500C (XMobots): Adquirido pelo CENSIPAM para monitoramento da fronteira em Rondônia. Em janeiro de 2026, a empresa firmou acordo de cooperação técnica com a Marinha do Brasil e a Petrobras para adaptar drones da família Nauru a operações embarcadas em navios, com investimento de R$ 40 milhões (Tecnodefesa).

• Taurus Cyber Robotics: Apresenta proposta de modelos aéreos e terrestres, incluindo o TAS (Tactical Air Soldier), drone armado com fuzil T4, câmera 4K, designador laser e IA. Além disso, anuncia drones quadrúpedes e plataformas para operação de munições loitering/kamikaze (Infodefesa). 

• RADeCO: Drone quadrúpede para trabalhos de engenharia, remoção e manipulação de EOD (Neutralização de Artefatos Explosivos) e CBRN (Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear).

• ARES Aeroespacial e Defesa: Desenvolve o sistema Anti-SARP (Antidrone), baseado no sistema de armas remotamente controlada (SARC) REMAX 4, apresentado na LAAD 2025. O projeto conta com financiamento da FINEP por meio de dois contratos de subvenção econômica somando aproximadamente R$ 30 milhões, destinados ao desenvolvimento de capacidades de detecção, identificação e neutralização de drones e munições vagantes (Valor Econômico).

• Ambipar Robotics: Entregou ao Exército Brasileiro, em maio de 2026, o primeiro robô de Neutralização de Artefatos Explosivos (EOD) inteiramente produzido no Brasil. O sistema foi destinado ao 6º Batalhão de Engenharia de Combate e será empregado na certificação de tropas brasileiras para missões de paz da ONU (LCRA). 

• Exército Brasileiro — Enxame de Drones com IA: O Exército apresentou, em março de 2026, projeto pioneiro e nacional para o controle de enxames de drones em operações militares, com financiamento da FINEP. O sistema emprega inteligência artificial para coordenação de múltiplas plataformas em missões de reconhecimento e ataque, com expectativa de produção futura por empresas da BID nacional (DefesaNet).

FINANCIAMENTO FINEP: ACELERAÇÃO DO FOMENTO PÚBLICO

O papel da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) tem sido central na construção dessa base industrial. Historicamente, a agência já investiu cerca de R$ 100 milhões em projetos iniciais de VANTs militares, remontando ao período 2013-2014, quando os primeiros drones militares nacionais começaram a ser desenvolvidos com recursos públicos e apoio do Ministério da Defesa.

Mais recentemente, o ritmo de fomento acelerou significativamente. Em fevereiro de 2026, a FINEP e o MCTI publicaram um chamamento de R$ 300 milhões em subvenção econômica para empresas da BID. Pouco depois, em maio de 2026, foi lançada a Carta Convite MCTI/FINEP/FNDCT Promoção da Autonomia Tecnológica na Área da Defesa, com até R$ 500 milhões em recursos não reembolsáveis destinados às Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Defesa (ICTMDs), com aporte mínimo de R$ 25 milhões por proposta aprovada. O edital contempla sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados terrestres, aéreos e navais. Em conjunto, os dois editais somam R$ 800 milhões em recursos comprometidos com a defesa em menos de quatro meses, o maior aporte público unitário já destinado à BID em P&D com capital a fundo perdido.

Adicionalmente, a FINEP e o MCTI destinaram R$ 75 milhões a projetos aeroespaciais de defesa, incluindo iniciativas como o Veículo Lançador de Satélites (VLS) e sistemas correlatos.

Esses desenvolvimentos indicam que a Base Industrial de Defesa brasileira saiu de uma posição praticamente inativa nesse segmento para articular, em menos de dois anos, múltiplas iniciativas simultâneas: o primeiro robo EOD nacional, o primeiro drone armado com potencial de emprego, os primeiros testes de mísseis em drone brasileiro, o primeiro VANT de grande porte em prototipagem, e os primeiros conceitos de enxame com IA e sistemas anti-drone. O desafio agora é transformar protótipos, memorandos de intenção e autorizações regulatórias em sistemas certificados, produzidos em escala e integrados à doutrina das Forças Armadas. 

SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA CIVIL: O MERCADO QUE EMERGIU

O mercado brasileiro de sistemas não tripulados tem uma dimensão que muitas análises subestimam: a segurança pública e a proteção civil. É onde estão os volumes de aquisição mais significativos, com ciclos de compra mais curtos e demanda menos concentrada.

SENASP E A LIDERANÇA DA COORDENAÇÃO FEDERAL

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, exerce o papel de coordenadora do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e tem editado portarias estruturadoras, como a Portaria SENASP/MJSP nº 635/2025 e a Portaria SENASP/MJSP nº 648/2026, que definem padrões e diretrizes operacionais para os entes federativos (Biblioteca Digital MJ e DOU).

O Diopi (Divisão de Operações e Inteligência Policial) tem capacitado profissionais de segurança pública para operação de drones, com cursos voltados a investigações, patrulhamento ostensivo e operações.

A criação de um Programa Nacional de Drones foi aprovada para debate na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado em agosto de 2026, com audiência pública reunindo ANAC, Aeronáutica, governo e empresas (Rádio Senado). Esse é um sinal claro de que o tema migrou do campo técnico para o campo político-legislativo, isso significa, do ponto de vista comercial, que regras de mercado e incentivos estão sendo estruturadas.

POLÍCIAS MILITARES E CIVIS: A FRENTE TÁTICA

As Polícias Militares e Polícias Civis estaduais constituem o maior bloco de demanda potencial por sistemas não tripulados no segmento de segurança pública. Inúmeras iniciativas estão em curso em diversas regiões da federação, como por exemplo:

• Mato Grosso do Sul: a Sejusp investiu mais de R$ 1 milhão em drones para ampliar monitoramento, patrulhamento e operações táticas (Campo Grande News).

• Rio de Janeiro: o estado vai investir R$ 27 milhões em sistema antidrones para segurança pública, com equipamentos que detectam, rastreiam e neutralizam drones usados em ações criminosas (G1)

• Polícia Militar do Pará (PMPA): utiliza drones no monitoramento de áreas remotas, combate a crimes ambientais e apoio tático a abordagens (Revista Tópicos).

• Ponta Grossa (PR): investiu R$ 47,5 milhões em segurança, incluindo leitura de placas e rostos com drones pela Guarda Municipal (aRede).

GUARDAS MUNICIPAIS: O SEGMENTO QUE MAIS CRESCE

As guardas municipais tornaram-se, em 2025, a segunda maior força de segurança pública do Brasil em efetivo, com 107.457 integrantes, superando as Polícias Civis (Valor Econômico). São mais de 1.300 municípios com guardas ativas, constituindo um mercado fragmentado mas com enorme potencial de volume.

A cidade de Curitiba, no Paraná, destaca-se pela criação da Patrulha de Drones Aéreos da Guarda Municipal, com 32 equipamentos em operação e 80 guardas habilitados como pilotos. Investimento de R$ 500 mil, financiado por emendas parlamentares (Diário do Sudoeste).

Já em São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana utiliza drones para monitorar eventos públicos, identificar atividades suspeitas e apoio tático (ITARC). Ainda no Estado de São Paulo, a prefeitura da cidade de Diadema adquiriu um drone de R$ 365 mil (sob investigação do MP por ausência de licitação) para lançar gás lacrimogêneo em bailes funk, caso que, independente da controvérsia jurídica, ilustra a velocidade com que municípios de médio porte estão adotando a tecnologia (G1).

Para um fornecedor ou integrador, o mercado de guardas municipais é particularmente atrativo: ciclo de decisão mais rápido, financiamento por emendas parlamentares (que dispensam parte da complexidade de editais tradicionais) e necessidade crescente de soluções turnkey com capacitação inclusa.

CORPOS DE BOMBEIROS: DO COMBATE A INCÊNDIOS AO SALVAMENTO

Os Corpos de Bombeiros Militares estaduais utilizam drones desde 2018 em incêndios florestais, buscas e monitoramento de áreas de risco (ANABOM). O mercado global de drones de combate a incêndios cresce a CAGR de 8,17% e deve alcançar US$ 2,75 bilhões até 2034 (IMARC), com segmento autônomo crescendo a 19% ao ano (Strategic Market Research).

No Brasil, podemos destacar algumas iniciativas, dentre as diversas existentes:

• CBMERJ (Rio de Janeiro): incorporou drones com câmeras de alta resolução e sensores para a temporada 2025/2026 (A Tribuna).

• Bombeiros de Goiás: utilizam drone de alta tecnologia em buscas e combate a incêndios (R7).

• Defesa Civil de Erechim (RS): opera drones com geoprocessamento e integrou missão humanitária enviada à Venezuela em 2026 para avaliação de danos estruturais após terremotos (Prefeitura de Erechim).

• Dois Vizinhos (PR): Bombeiros e Defesa Civil utilizam drones no combate à dengue, mapeando focos do Aedes aegypti em áreas de difícil acesso (Prefeitura de Dois Vizinhos).

• O Governo do Estado do Paraná, por meio da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR), iniciou processo de aquisição de até 26 robôs de combate a incêndios fabricados pela empresa alemã EmiControls, em contrato avaliado em R$ 85,5 milhões, representando a maior aquisição de robôs de combate a incêndios já realizada por um estado brasileiro (Tribuna PR).

DEFESA CIVIL: O VETOR DE DUPLO PROPÓSITO

A Defesa Civil brasileira, coordenada nacionalmente pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e operada nos estados e municípios, tem sido uma das maiores beneficiárias da tecnologia de drones. O emprego do Harpia no Acre durante as cheias do Rio Acre é talvez o caso mais emblemático de uso de um sistema originalmente concebido para defesa em missão de proteção civil (FIESC). O Hermes 900 da FAB na Operação Taquari, durante as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 é outro exemplo prático desta adoção.

Esse padrão se repete: plataformas desenvolvidas para defesa sendo empregadas em desastres naturais tem implicação comercial direta: viabiliza aquisições com dupla justificativa orçamentária, abrindo fontes de recurso que vão além dos orçamentos específicos de defesa ou segurança.

O LADO DA AMEAÇA: DRONES EM MÃOS CRIMINOSAS

Não se pode discutir o mercado de sistemas não tripulados para segurança pública sem reconhecer que a criminalidade organizada também opera drones. O Comando Vermelho adquiriu drones com capacidade de transporte, descoberto pela polícia em maio de 2026 (O Globo). Durante operação policial no Complexo do Alemão ocorrida em Outubro de 2025, drones do CV sobrevoaram policiais e lançaram granadas (A Gazeta).

Isso cria uma demanda urgente e não discricionária por sistemas antidrones, um mercado global avaliado em US$ 7,1 bilhões em 2025 com projeção de US$ 31,6 bilhões até 2032 (Stratview Research). O investimento do Rio de Janeiro de R$ 27 milhões em antidrones representa o primeiro investimento estadual significativo nesse segmento.

MARCO REGULATÓRIO: O QUE ESTÁ EM JOGO

O PL 3.611/2021, em tramitação no Senado, cria regras para uso de drones por órgãos de segurança pública (Senado). A proposta proíbe acoplamento de armas e automação total nos equipamentos de segurança pública, com votação prevista para 2026.

Para a indústria, a definição desse marco é crítica. Se o armamento for liberado (mesmo que condicionado), abre-se um mercado de kits de armamento para drones de segurança pública, segmento em que a Taurus já está posicionada com o TAS. Se for mantida a proibição, o mercado se concentra em ISR (vigilância, inteligência, reconhecimento) e contra medidas.

DESAFIOS ESTRUTURAIS E LACUNAS

Fragmentação entre defesa e segurança pública: As Forças Armadas desenvolvem iniciativas sob o Ministério da Defesa; as polícias e guardas respondem ao MJSP via SENASP; e a Defesa Civil opera em estrutura paralela. Não há um programa nacional integrado de sistemas não tripulados que contemple defesa e segurança pública simultaneamente.

Descentralização federal: Estados e municípios compram isoladamente, sem escala de compra, sem interoperabilidade e sem padronização técnica. O resultado é ineficiência: Estados e Municípios comprando isoladamente em lotes pequenos, pagando mais por menos.

Dependência tecnológica externa: Subsistemas críticos (motores, sensores de alto desempenho, data links seguros, processamento de bordo, dentre outros) ainda são importados. 

Escala industrial insuficiente: A BID tem empresas competentes (Xmobots, AdTech, Taurus, Ares, Ambipar, Mac Jee/AeroID), mas a produção ainda é tímida em volume. Sem contratos plurianuais e demanda agregada, a indústria não investe em capacitação industrial nem atinge custos competitivos para exportação.

Capacidade de contramedidas: A deficiência mais crítica. O mercado global de contramedidas cresce a taxas aceleradas, e o Brasil está começando agora (R$ 27 milhões no Rio é uma gota no oceano comparado à escala da ameaça).

PERSPECTIVAS E OPORTUNIDADES

Para investidores, indústrias e estrategistas que avaliam o setor de sistemas não tripulados no Brasil, é possível identificar as principais frentes de oportunidade com horizontes temporais e perfis de risco-retorno distintos. O que as une é um denominador comum: a demanda não é especulativa, é estrutural, ancorada em deficiências operacionais reais das Forças Armadas e dos órgãos de segurança pública, e sustentada por fluxos de financiamento que já estão sendo liberados.

CURTO PRAZO: 

CONTRAMEDIDAS E SISTEMAS ANTI-DRONE PARA SEGURANÇA PÚBLICA

A proliferação de drones civis e militares cria demanda não discricionária e imediata por capacidades de detecção, identificação e neutralização. Estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pará constituem os mercados prioritários. O volume de emendas parlamentares destinadas à segurança pública cresceu 96% entre 2022 e 2024, passando de R$ 346 milhões para R$ 672 milhões, segundo a Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados. 

DRONES ISR PARA GUARDAS MUNICIPAIS

As guardas municipais brasileiras, representam a segunda maior força de segurança pública do país. Contudo, apenas uma fração dos municípios já adotou tecnologia de drones. Salvador implantou drones em 2025, Curitiba adquiriu 32 aeronaves em 2026 com 80 agentes habilitados e municípios do Litoral Norte de SP acessaram emendas parlamentares para o mesmo fim. O gap entre a base instalada e o universo endereçável é significativo. Cada adoção municipal envolve tipicamente aquisição de múltiplas aeronaves, treinamento certificado de operadores, integração com centros de comando e contratos de manutenção recorrente, configurando um ciclo de investimento contínuo. O PL 3.611/2021, em tramitação no Senado, deverá estabelecer o marco regulatório que estrutura o mercado, reduzindo incerteza jurídica e acelerando a curva de adoção.

CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO INTEGRADO

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) e os estados estão demandando ativamente a formação de operadores de drones para segurança pública. Curitiba habilitou 80 agentes como case inicial, mas a escala nacional exigirá centenas de turmas. O modelo de negócio mais competitivo não é o da venda isolada de equipamento, mas o do pacote integrado: curso certificado + aeronave + software de gestão + suporte técnico recorrente. Fornecedores que entregarem essa solução turnkey terão vantagem e receita via contratos de serviço plurianuais.

MÉDIO PRAZO: 

UGVS PARA BOMBEIROS E DEFESA CIVIL

Plataformas terrestres não tripuladas para manipulação de artefatos explosivos, reconhecimento em áreas contaminadas e combate a incêndios em zonas de difícil acesso representam uma categoria com demanda comprovada e oferta incipiente. A Ambipar Robotics entregou ao Exército, em maio de 2026, o primeiro robô EOD fabricado no Brasil. A Taurus anuncia veículos terrestres e quadrúpedes para armamento de médio e pesado calibre. A transição do protótipo para produção em série, especialmente para corpos de bombeiros militares e coordenadorias estaduais de defesa civil, depende de editais de aquisição que tendem a se multiplicar à medida que os sistemas ganham certificação operacional.

DRONES DE ASA FIXA DE LONGO ALCANCE PARA VIGILÂNCIA DE FRONTEIRA

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) do Exército Brasileiro está em expansão contínua, com o Nauru (XMobots) já adquirido pelo CENSIPAM para monitoramento da fronteira em Rondônia. A Consulta Pública do Estado-Maior do Exército para o SARP 3 confirma a intenção de migrar de plataformas exclusivamente de monitoramento para sistemas com capacidade de emprego de força. 

LONGO PRAZO:

DRONES 100% NACIONAIS DE COMBATE

A Comissão de Aquisições da Aeronáutica (COPAC) está mapeando a Base Industrial de Defesa para identificar capacidades nacionais em sistemas não tripulados de combate. O edital MCTI/FINEP de R$ 500 milhões contempla expressamente sistemas de guiamento, controle e navegação aplicados a veículos não tripulados. Empresas que se posicionarem agora no ecossistema de fornecedores terão vantagem quando os programas de aquisição avançarem, convertendo capacidade técnica em contratos de fornecimento de longo prazo. 

ENXAMES DE DRONES COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O Exército Brasileiro apresentou em março de 2026 um demonstrador nacional pioneiro de controle de enxames de drones com IA, financiado pela FINEP, para coordenação de múltiplas plataformas em missões de reconhecimento e ataque. A transição de protótipo para capacidade operacional cria demanda por três camadas tecnológicas: software de coordenação descentralizada, redes de comunicação mesh resilientes e IA de bordo para processamento em tempo real. Estas são competências com alto valor agregado, baixa commoditização e barreiras de entrada significativas, características que tornam o segmento atrativo para investimento em P&D e propriedade intelectual.

ROBÓTICA QUADRÚPEDE (UGVs LEGGED)

A Taurus e a RADeCO já dispõem de plataformas quadrúpedes. A demanda para essas plataformas é real e multisetorial: EOD e CBRN pelo Exército e Defesa Civil, patrulhamento de instalações críticas (infraestrutura energética, portuária, aeroportuária) e apoio a operações de Forças Especiais. A convergência entre armamento e a maturação de plataformas robóticas nacionais sugere que a integração arma-plataforma será o próximo vetor de produtos dentro de um horizonte de 3 a 5 anos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil está diante de uma janela de oportunidade que não vai permanecer aberta por muito tempo. Os recursos existem: R$ 30 bilhões fora do teto fiscal para defesa, orçamento de segurança pública estadual em expansão, guardas municipais com efetivo superior ao das polícias civis e demanda crescente por tecnologia. O marco normativo está sendo definido agora, no Senado e na ANAC. A Base Industrial de Defesa tem empresas competentes e ágeis, mas precisa de contratos plurianuais e demanda agregada para escalar.

O que fará a diferença entre um Brasil protagonista e um Brasil importador será a velocidade de execução e a capacidade de integrar iniciativas que hoje operam de forma separada: defesa de um lado, segurança pública de outro, proteção civil em terceiro. Quem conseguir estruturar uma oferta que atenda simultaneamente esses três mercados, com tecnologia nacional, preço competitivo e modelo de negócio escalável, estará posicionado em um mercado de R$ 2 bilhões (drones militares), R$ 800 milhões (UAVs gerais) e mais R$ 2 bilhões (drones comerciais/agrícolas de duplo propósito) crescendo a dois dígitos ao ano, com demanda reprimida em todo o território nacional.

Não é uma questão de se o Brasil vai investir massivamente em sistemas não tripulados. É uma questão de quando, com quem e em que escala. Para os que estão prontos, o momento é agora. 

 

*Luis Henrique Unterleider é executivo sênior com mais de 25 anos de liderança estratégica internacional em consultoria, desenvolvimento de negócios globais e otimização operacional. Com experiência consolidada em governança de conselho e decisão orientada por dados, atua nos setores de defesa, FMCG, manufatura e indústria química, com histórico comprovado de criação sustentável de valor em mercados globais complexos. 

De cargueiro a arsenal aéreo: Embraer avança com o C-390/Barracuda e leva conceito a operadores e potenciais clientes

Encontro com a Anduril na MSPO 2026 mostra que parceria anunciada em Farnborough começa a avançar para a prospecção operacional e comercial, com atenção especial à Europa e à Polônia



*LRCA Defense Consulting - 11/09/2026

Menos de dois meses depois de anunciar, no Farnborough International Airshow, um Memorando de Entendimento com a Anduril para estudar a integração do míssil de cruzeiro Barracuda-500M ao C-390 Millennium, a Embraer deu um novo passo na iniciativa. Durante a MSPO 2026, em Kielce, na Polônia, representantes seniores das duas empresas voltaram a se reunir para avançar o acordo e, principalmente, levar a proposta ao diálogo com operadores atuais e forças aéreas que avaliam a aeronave brasileira.

A novidade é relevante porque desloca o foco da parceria. Em julho, Embraer e Anduril apresentaram essencialmente um conceito tecnológico e operacional. Agora, a própria Embraer informa que as conversas na MSPO envolveram clientes e potenciais clientes do C-390, cuja questão recorrente foi a rapidez com que a nova capacidade poderia ser incorporada a uma plataforma que já operam ou estão considerando adquirir.

Do memorando à prospecção junto aos operadores 
O acordo anunciado em Farnborough, em 21 de julho, prevê a busca conjunta pela integração do Barracuda-500M paletizado ao C-390. O conceito utiliza sistemas roll-on/roll-off e procedimentos convencionais de lançamento aéreo, evitando, em princípio, a necessidade de transformar permanentemente a aeronave de transporte em uma plataforma de ataque.

A combinação permitiria que o C-390 transportasse e lançasse simultaneamente dezenas de munições de longo alcance, agregando à sua função de mobilidade aérea a possibilidade de gerar efeitos cinéticos e não cinéticos a distância. A Anduril apresenta o Barracuda como uma família concebida desde o início para fabricação simplificada, custos inferiores aos de mísseis de cruzeiro tradicionais e produção em grande escala.

Na MSPO, porém, a discussão ganhou uma dimensão comercial mais concreta. Segundo a nova publicação da Embraer, a resposta de operadores do C-390 e de forças aéreas que avaliam a aeronave reforçou o interesse pelo conceito. A pergunta sobre a velocidade de incorporação da capacidade sugere que os potenciais usuários já começam a observar o Barracuda não apenas como uma experiência tecnológica, mas como possível opção para suas próprias frotas. 

A Polônia está no centro dessa convergência 
O local escolhido para esse novo movimento não é secundário. A Polônia está avaliando o C-390 no programa DROP, destinado à renovação de sua aviação de transporte. Segundo o portal polonês Defence24, o processo poderá resultar na aquisição de até oito aeronaves. A Embraer vem ampliando sua presença industrial no País e, em março, apresentou o C-390 à WZL-2, em Bydgoszcz, no contexto da cooperação para manutenção, reparo e revisão da aeronave.

Ao mesmo tempo, a Polônia já ocupa posição central na estratégia europeia da Anduril. Em julho, a empresa norte-americana, a Polska Grupa Zbrojeniowa (PGZ) e a WZL-2 firmaram acordo para estabelecer em Bydgoszcz a montagem e, progressivamente, a produção local do Barracuda-500M lançado de superfície. A previsão divulgada pelas empresas é produzir milhares de unidades, ampliando gradualmente a participação de componentes poloneses e europeus.

A presença simultânea desses dois movimentos cria uma convergência particularmente interessante: o País que avalia o C-390 também se prepara para produzir o Barracuda-500M. Isso não significa que exista, até agora, uma decisão polonesa de adquirir a configuração C-390/Barracuda, mas torna a Polônia um ambiente especialmente favorável para demonstrar a lógica industrial e operacional da proposta.

O C-390 como plataforma de efeitos em massa 
O conceito acompanha uma transformação mais ampla observada nas guerras recentes. Estoques limitados de armamentos sofisticados e caros passaram a conviver com a necessidade de lançar grande número de vetores, saturar defesas, manter capacidade de reposição e sustentar operações prolongadas. Nesse cenário, quantidade, custo unitário e velocidade de produção passam a integrar o próprio cálculo do poder de combate.

A proposta da Embraer e da Anduril procura inserir o C-390 nessa lógica. Em vez de desenvolver uma aeronave específica para a missão, utiliza-se uma plataforma de transporte já existente, com 26 toneladas de capacidade de carga, elevada velocidade e possibilidade de rápida reconfiguração. O armamento paletizado seria embarcado quando necessário e retirado posteriormente, preservando as demais missões do avião.

Esse aspecto é particularmente atraente para países que operam frotas relativamente pequenas. Uma mesma aeronave poderia continuar cumprindo transporte de tropas e cargas, evacuação aeromédica, reabastecimento em voo, missões humanitárias e outras tarefas, recebendo adicionalmente uma capacidade de lançamento stand-off quando a situação operacional exigisse. 


Uma rede crescente de usuários 
A estratégia também ganha importância à medida que aumenta a comunidade internacional do C-390. A aeronave já foi selecionada por Brasil, Portugal, Hungria, República da Coreia, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Uzbequistão, Suécia, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Lituânia e, mais recentemente, Colômbia. Uma capacidade modular desenvolvida para a plataforma poderia, em tese, ser oferecida a diversos desses operadores, respeitadas as decisões políticas, requisitos nacionais e autorizações aplicáveis.

É justamente essa base instalada, em expansão, que diferencia a iniciativa. O C-390 deixaria de ser visto somente como um avião que pode eventualmente lançar mísseis e passaria a constituir uma possível rede de plataformas multimissão capazes de receber rapidamente novos módulos e efeitos. Para a Embraer, isso acrescenta valor à aeronave sem descaracterizar sua função principal.

Barracuda: produção em escala como parte da capacidade militar 
A Anduril associa diretamente o Barracuda à necessidade de recompor estoques com rapidez. O primeiro teste bem-sucedido do B-500M lançado por palete ocorreu em setembro de 2024 e foi seguido, segundo a Embraer, por dezenas de outros ensaios, incluindo autonomia colaborativa em rede, engajamentos terminais e validação de cargas úteis.

Na Polônia, a estratégia industrial vai além da simples importação. O acordo com a PGZ prevê produção local do Barracuda-500M e crescente localização da cadeia de suprimentos. Durante a própria MSPO 2026, a Anduril também intensificou a oferta de outros sistemas autônomos às Forças Armadas polonesas, reforçando o País como uma de suas principais portas de entrada no mercado europeu.

O que mudou desde Farnborough 
A integração ainda não pode ser considerada um programa contratado. Embraer e Anduril não anunciaram cliente para a versão paletizada, contrato de desenvolvimento, cronograma de integração ou data para ensaios de lançamento a partir do C-390. O Memorando de Entendimento continua sendo o instrumento formal conhecido.

O que mudou é o estágio da discussão. Em Farnborough, as empresas anunciaram que pretendiam explorar a integração. Em Kielce, passaram a discutir a capacidade com quem já opera o C-390 e com quem pode comprá-lo. A pergunta deixou de ser apenas se o conceito é tecnicamente interessante e começou a incluir outra questão: em quanto tempo ele poderia chegar às frotas. 


Por que isso importa 
Se a parceria avançar para integração e testes, o C-390 poderá ampliar significativamente sua posição no mercado militar internacional. Além de competir como transporte tático e aeronave multimissão, passaria a oferecer uma capacidade de projeção de poder baseada em armamentos paletizados, de longo alcance e produzidos em escala, algo muito relevante para, por exemplo, a licitação de 60 aeronaves que está em curso na Índia. 

Para a Embraer, trata-se de uma nova camada de valor para uma plataforma que já acumula clientes na Europa, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Para a Anduril, o C-390 oferece acesso a uma aeronave moderna, em expansão internacional e capaz de transportar grande quantidade de munições. Para os operadores, a combinação promete transformar rapidamente capacidade logística em capacidade de geração de efeitos, sem exigir uma frota dedicada exclusivamente ao ataque.

A MSPO 2026, portanto, não trouxe ainda o contrato que transformará o conceito em capacidade operacional. Trouxe, porém, algo importante para o caminho até ele: a confirmação de que Embraer e Anduril estão avançando além do anúncio inicial e colocando o C-390/Barracuda diante de operadores e potenciais compradores. A partir de agora, os próximos marcos a observar serão a definição de um cliente, o financiamento da integração, os primeiros ensaios com a aeronave e um eventual cronograma de entrada em serviço.

09 setembro, 2026

Nauru 100D obtém certificação da Anac e amplia espaço para operações táticas no Brasil

Autorização para voos de até 30 km, a 6 mil pés, de dia e à noite marca nova etapa de maturidade do drone brasileiro da XMobots e fortalece uma plataforma que já evolui para versões de reconhecimento, combate reutilizável e emprego em enxame 

 

*LRCA Defense Consulting - 09/09/2026

A XMobots acaba de alcançar um marco relevante na trajetória do Nauru 100D. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorizou o projeto da aeronave não tripulada brasileira para operações com alcance de até 30 quilômetros e altitude de até 6 mil pés em relação ao nível do mar, durante o dia e à noite, dentro das condições estabelecidas pelo órgão regulador. A autorização elimina ainda a exigência anterior de permanência exclusivamente sobre áreas de solo com controle de acesso, ampliando de forma significativa o universo de emprego da plataforma.

Mais do que uma formalidade administrativa, o avanço regulatório representa um passo importante na maturidade de um sistema concebido desde a origem para Defesa e Segurança. Com apenas 9 kg de peso máximo de decolagem, decolagem e pouso vertical elétrico, sensores eletro-ópticos, inteligência embarcada e capacidade de ser transportado por uma pequena equipe, o Nauru 100D passa a reunir mobilidade tática e um envelope operacional autorizado muito mais amplo.

A certificação chega em um momento particularmente importante para a XMobots. Nos últimos meses, a companhia vem transformando o Nauru 100D de um drone tático de inteligência, vigilância e reconhecimento em uma família de sistemas capaz de evoluir para ataque de precisão e operações coordenadas com múltiplas aeronaves. 

Uma autorização que muda o patamar operacional 
Segundo o release encaminhado pela XMobots à LRCA Defense Consulting, o processo regulatório foi conduzido a partir de requisitos dos regulamentos brasileiros aplicáveis aos sistemas aéreos não tripulados, incluindo a transição do antigo RBAC-E 94 para o novo RBAC 100. A norma, publicada pela Anac em junho de 2026, substituiu a lógica predominantemente baseada no peso das aeronaves por uma abordagem proporcional ao risco operacional.

O RBAC 100 passou a dividir as operações em três categorias: Aberta, Específica e Certificada. Para operações que excedem os limites mais simples da categoria Aberta, como missões além da linha de visada visual ou acima de 120 metros, a regulamentação prevê avaliação proporcional ao risco e requisitos específicos de projeto e operação. A mudança aproxima o ambiente regulatório brasileiro de práticas internacionais e cria espaço para soluções mais complexas, desde que seus fabricantes e operadores demonstrem níveis adequados de segurança.

É nesse contexto que a autorização do Nauru 100D ganha importância. A aeronave deixa de estar associada apenas a demonstrações controladas ou a cenários restritos e passa a contar com uma base regulatória para missões de maior alcance e altitude, inclusive noturnas, respeitadas as demais autorizações e regras aplicáveis ao uso do espaço aéreo.

A XMobots afirma que, com o novo ato, torna-se a empresa brasileira com o maior número de projetos de drones certificados pela Anac. O resultado reforça uma experiência regulatória acumulada pela companhia ao longo de anos, aspecto particularmente relevante em um setor no qual não basta desenvolver uma aeronave capaz de voar: é necessário demonstrar confiabilidade, segurança, controle, navegação e capacidade de resposta a emergências.

Dois operadores, duas mochilas e três minutos 
O Nauru 100D foi concebido para reduzir a estrutura necessária ao emprego de um sistema aéreo tático. A aeronave tem 2,1 metros de envergadura, peso máximo de decolagem de 9 kg, velocidade de cruzeiro de aproximadamente 17 m/s (33 nós) e autonomia de até duas horas por bateria. O kit padrão utiliza três baterias, permitindo até seis horas de missões sucessivas, com substituição das fontes de energia entre os voos.

Todo o conjunto pode ser transportado em duas mochilas táticas. Além de acondicionar a aeronave e os equipamentos, elas integram funções de apoio, como estação de comando e controle e sistema de carregamento das baterias. A montagem é do tipo plug and play e pode colocar o sistema em condições de operação em até três minutos.

Essa combinação é particularmente importante para pequenas frações militares, forças especiais, unidades de fronteira e equipes de Segurança Pública. Um sistema que não depende de pista, catapulta ou grande estação terrestre pode acompanhar a tropa, ser lançado a partir de clareiras ou posições improvisadas e mudar de local rapidamente após a missão, reduzindo a exposição da equipe e aumentando a flexibilidade operacional. 

Sensores e inteligência embarcada 
Na configuração ISR autorizada pela Anac, o Nauru 100D pode receber o sensor SIS031A, conjunto eletro-óptico que combina câmera RGB e infravermelho termal LWIR. A solução permite operação diurna e noturna e oferece funções de detecção, acompanhamento e geolocalização de pessoas, veículos e embarcações.

A própria XMobots informa que o sistema incorpora processamento e inteligência embarcada para aplicações como rastreamento de alvos, leitura de placas, apoio a busca e salvamento e geração de coordenadas geográficas. As imagens e os dados são enviados às equipes em solo, ampliando a consciência situacional e permitindo que a aeronave funcione não apenas como um sensor aéreo, mas como um elemento integrado ao ciclo de decisão.

A página técnica da fabricante acrescenta características voltadas à redução da detectabilidade, com baixa assinatura visual, acústica e térmica, emprego de materiais antirreflexo e resistência a chuva forte. Em um ambiente militar, esses atributos são relevantes porque a sobrevivência de pequenos drones depende cada vez mais da capacidade de operar discretamente, permanecer pouco tempo expostos e transmitir informação antes que sejam localizados ou neutralizados.

Da vigilância ao ataque reutilizável 
A autorização agora obtida refere-se à configuração ISR do Nauru 100D. A mesma arquitetura, entretanto, serve de base para o Nauru 100D UCAV, versão de combate que a XMobots vem desenvolvendo para emprego de munições.

Em maio de 2026, durante o Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, em Brasília, a empresa demonstrou ao Exército Brasileiro uma operação coordenada entre as versões ISR e UCAV. Na simulação, o primeiro drone localizou e transmitiu as coordenadas do alvo, enquanto a aeronave armada realizou o ataque. Segundo a XMobots, a demonstração registrou erro circular provável de 1,4 metro.

O conceito apresenta uma diferença importante em relação às munições vagantes: depois de liberar a carga, o Nauru 100D UCAV pode retornar à base, ser rearmado e empregado novamente. Estão em estudo cargas de alto explosivo (HE) e antitanque (HEAT), além de correção de trajetória em tempo real. A proposta procura preservar a plataforma aérea e concentrar o custo consumível na munição, uma lógica que pode ser relevante em conflitos prolongados, nos quais custo, disponibilidade industrial e capacidade de reposição passaram a ter peso semelhante ao desempenho individual dos sistemas.

O LRCA Defense Consulting já havia destacado, em agosto, que a modularidade é um dos pontos centrais do projeto. Informações obtidas diretamente junto à empresa indicaram que as configurações ISR e UCAV utilizam a mesma célula aérea, recebendo módulos de carga útil diferentes conforme a missão. Isso abre a possibilidade de uma frota comum ser reconfigurada entre reconhecimento e ataque, simplificando treinamento, manutenção e logística. 

O próximo passo: operações em enxame 
A XMobots também trabalha no conceito Nauru 100D Swarm. A arquitetura apresentada pela companhia prevê um contêiner de 20 pés capaz de lançar até 30 aeronaves, sendo três destinadas ao reconhecimento e aquisição de alvos e outras 27 ao ataque coordenado.

O conceito, ainda em desenvolvimento, busca levar a plataforma de uma lógica de emprego individual para uma arquitetura distribuída. A empresa já divulgou alcance previsto entre 120 e 340 quilômetros para o sistema contentorizado, mas vários aspectos essenciais, como comunicações, nível de autonomia, resistência à guerra eletrônica e cronograma de produção, ainda dependem do amadurecimento do projeto e dos requisitos de futuros usuários.

A certificação da configuração ISR não significa, por si só, a certificação automática das futuras versões armadas ou do sistema em enxame. Ela, porém, consolida a célula básica, seus sistemas de navegação, comando e controle e a experiência regulatória associada à plataforma, criando uma base tecnológica mais madura sobre a qual novas configurações poderão evoluir.

Um ativo para Defesa, Segurança e soberania tecnológica 
Fundada em 2007, em São Carlos (SP), a XMobots reúne cerca de 500 profissionais, mais de 250 deles engenheiros, segundo a empresa. Seu modelo de desenvolvimento verticalizado abrange aeronaves, aviônicos, software embarcado, sensores, navegação, controle, inteligência artificial, comunicações e sistemas de missão.

O Nauru 100D é também o primeiro representante da chamada geração Delta da companhia, concebida para ampliar a produção por meio de uma arquitetura modular e processos industrializados. O LRCA Defense Consulting já mostrou que a plataforma foi desenvolvida com foco em escalabilidade, substituição rápida de componentes e fabricação em maior série, características que ganham importância diante das lições dos conflitos contemporâneos, nos quais drones passaram a ser empregados e perdidos em grande quantidade.

Nesse cenário, a autorização da Anac tem significado que vai além dos 30 quilômetros e dos 6 mil pés. Ela indica que um sistema nacional voltado a missões críticas começa a transpor a fronteira entre desenvolvimento tecnológico, demonstração militar e operação regulamentada em ambientes mais complexos.

Para o Brasil, o resultado reforça um ponto estratégico: possuir uma indústria capaz de projetar a aeronave, desenvolver sensores e inteligência embarcada, produzir sistemas de comando e controle e, ao mesmo tempo, conduzir seus produtos pelos processos regulatórios necessários à operação real. Para a XMobots, a certificação amplia a credibilidade do Nauru 100D justamente quando a plataforma avança de um pequeno drone de reconhecimento para uma família com potencial de ocupar diferentes níveis do campo de batalha não tripulado.

08 setembro, 2026

Do orçamento às fronteiras: drones ganham novo peso na Defesa brasileira

Fala de José Múcio encontra respaldo em uma das maiores dotações de investimento da Força Terrestre, com R$ 520 milhões para a ação Aviação do Exército e Drones; SISFRON recebe outros R$ 467 milhões



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LRCA Defense Consulting - 09/09/2026

A declaração do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que o Brasil deverá investir fortemente em drones para reforçar a proteção das fronteiras encontra respaldo direto na programação orçamentária proposta para 2027. O PLOA 2027 reserva R$ 520 milhões à ação “Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones” e outros R$ 467 milhões ao SISFRON, sistema destinado ao monitoramento das fronteiras terrestres.

Os valores não significam que R$ 520 milhões serão destinados exclusivamente à compra de drones. A ação 3138 reúne capacidades da Aviação do Exército e sistemas não tripulados. Ainda assim, a presença explícita de “Drones” no título da ação e sua posição entre os maiores projetos de investimento do Exército revelam uma prioridade que ganha especial significado após a manifestação do ministro. 

Múcio aponta os drones como multiplicadores de força 
Em entrevista à coluna de Matheus Leitão, publicada pelo Metrópoles em 8 de setembro, Múcio afirmou que as Forças Armadas investirão “muito” na aquisição de drones para reforçar a proteção das fronteiras. O ministro disse que o Brasil mantém atualmente cerca de 20 mil militares nessa faixa do território e considerou o contingente insuficiente diante da extensão territorial do País.

Segundo Múcio, os drones terão a função de ampliar a capacidade de vigilância sem depender exclusivamente da expansão do efetivo. Ele citou a experiência da Ucrânia e apontou China e Turquia como referências tecnológicas. O ministro também afirmou que pretende visitar fábricas de drones nesses dois países e relatou que fabricantes brasileiros já haviam apresentado equipamentos ao Ministério da Defesa. 

O orçamento já coloca os drones entre os grandes projetos do Exército 

O PLOA 2027 prevê, no âmbito do Exército, R$ 1,02 bilhão para a Implantação do Projeto Forças Blindadas, R$ 671,4 milhões para o sistema ASTROS-FOGOS, R$ 520 milhões para a Implantação do Sistema de Aviação do Exército e Drones e R$ 467 milhões para o SISFRON. A ação de Aviação do Exército e Drones, portanto, figura entre as quatro maiores iniciativas de investimento da Força Terrestre.

A proposta orçamentária não identifica fabricantes, modelos ou quantidade de drones que poderão ser adquiridos. Também não é possível atribuir toda a dotação de R$ 520 milhões a aeronaves remotamente pilotadas, pois a ação abrange outras capacidades da Aviação do Exército. O dado seguro é que o planejamento orçamentário de 2027 passa a explicitar os drones como componente próprio da ação.
 
Drones e SISFRON formam uma combinação estratégica 
A proximidade entre as duas dotações é relevante. O SISFRON foi concebido como uma arquitetura de vigilância, monitoramento, comunicações, inteligência e comando e controle para ampliar a consciência situacional ao longo da faixa de fronteira. A incorporação de SARP e outros vetores aéreos não tripulados permite levar sensores a áreas onde a presença permanente de tropas ou de infraestrutura fixa é limitada.

O PLOA 2027, nesse sentido, combina dois instrumentos complementares: uma ação de R$ 520 milhões que agora explicita os drones e uma ação de R$ 467 milhões destinada ao SISFRON. Somadas, as duas dotações alcançam R$ 987 milhões, embora constituam ações orçamentárias distintas e não possam ser tratadas como uma única verba para aquisição de drones.
 
A experiência com o Nauru 1000C coloca a XMobots em posição privilegiada 
Entre as empresas brasileiras, a XMobots apresenta o caso público mais consistente de aderência às necessidades do Exército. O Nauru 1000C foi selecionado para a Aviação do Exército como SARP Categoria 2 e passou por avaliação técnica e operacional e experimentação doutrinária. Em 2024, o sistema foi empregado em experimentação com tropa no 7º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Sant’Ana do Livramento, justamente em ambiente associado à missão de vigilância de fronteira.

O sistema reúne três aeronaves, estações de controle, sensores eletro-ópticos, radares e outros equipamentos de apoio. A XMobots informou recentemente ao LRCA que já acumulou cerca de 5 mil horas de voo e 5 mil operações em sua família de plataformas e que sua capacidade instalada supera duas mil unidades por ano, considerando as diferentes plataformas Nauru e o sensor XSIS 222A.

A empresa também vem ampliando a família Nauru. O Nauru 100D, de menor porte, emprega arquitetura eVTOL e foi apresentado em versões de inteligência, vigilância e reconhecimento e, posteriormente, como plataforma armada. Essa amplitude de portfólio pode permitir ao Exército trabalhar com diferentes categorias de SARP em uma arquitetura escalonada. 

Stella Tecnologia amplia a oferta nacional para sistemas de maior porte 
Outra empresa a ser acompanhada é a Stella Tecnologia, responsável pelo desenvolvimento do SARP Atobá. A plataforma foi concebida para missões de vigilância e monitoramento de grandes áreas e possui autonomia muito superior à de pequenos sistemas táticos. O LRCA registrou ainda a existência do projeto Condor, de maior porte e voltado ao monitoramento persistente de fronteiras.

A parceria da Stella com a Thales e a Omnisys acrescenta uma dimensão importante: sensores, sistemas de bordo, comunicações e integração de capacidades. Isso reforça a possibilidade de que futuros programas sejam estruturados não apenas em torno da aeronave, mas de todo o sistema de missão. 

Harpia amplia as opções da BID para vigilância de longo alcance 
Outro sistema que merece atenção nesse cenário é o Harpia, desenvolvido pela brasileira Advanced Technologies Security & Defense (AdTech SD). O SARP de asa fixa foi concebido para missões de vigilância e reconhecimento em grandes áreas e apresenta características particularmente adequadas às dimensões e às condições geográficas brasileiras.

O Harpia possui autonomia de até 12 horas, pode ser lançado por catapulta e recuperado por paraquedas e airbag, dispensando pista convencional. Seu sistema de comunicação foi certificado para operações BVLOS a até 180 quilômetros da estação de pilotagem, enquanto a aeronave pode percorrer distâncias muito superiores em sua autonomia de voo. A plataforma também pode receber diferentes cargas úteis, incluindo sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radar de abertura sintética e equipamentos de guerra eletrônica.

A maturidade do sistema é outro fator relevante. Em abril de 2026, o Harpia recebeu a Autorização de Projeto da ANAC, permitindo sua produção em série, e posteriormente obteve o Certificado de Aeronavegabilidade Especial de RPA. A AdTech SD é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa, enquanto o Harpia integra a relação de Produtos Estratégicos de Defesa.

A plataforma também já apresenta experiência operacional. O Governo do Acre adquiriu o sistema para emprego integrado pelos órgãos estaduais de segurança, e o Harpia vem sendo considerado para aplicações em outras regiões de difícil acesso. Em julho de 2026, o sistema participou da Operação Furnas, da Marinha do Brasil, onde foi empregado em missões de vigilância, observação e reconhecimento em ambiente ribeirinho. A participação ocorreu em meio à avaliação do equipamento para o futuro Programa SARP-E da Marinha.

Para o Exército, o interesse potencial é evidente. As mesmas características que tornam o Harpia adequado ao monitoramento de áreas ribeirinhas, florestais e de difícil acesso também podem ser aplicadas à vigilância de extensos trechos de fronteira. Seu emprego poderia ocupar uma camada intermediária entre pequenos drones táticos e sistemas de maior porte, oferecendo autonomia elevada, mobilidade e capacidade de operar sem infraestrutura aeroportuária convencional.

Akaer, AEL Sistemas e Santos Lab também permanecem relevantes nesse ecossistema. A Akaer possui competências em engenharia aeronáutica e sistemas não tripulados; a AEL Sistemas reúne experiência em SARP, sensores, comunicações e integração de sistemas; e a Santos Lab mantém uma posição consolidada no segmento de plataformas menores, como a família Carcará. O ponto central é que a BID brasileira não depende de uma única solução: há um conjunto crescente de empresas capazes de atender diferentes camadas de uma futura arquitetura nacional de sistemas não tripulados.

Uma arquitetura em camadas pode ser mais provável do que um único drone 
A extensão das fronteiras brasileiras e a variedade de missões sugerem que uma eventual expansão não deverá depender de um único modelo. Pequenos sistemas podem apoiar unidades em missões de reconhecimento local; SARP de Categoria 2 podem proporcionar vigilância tática e operacional; plataformas de maior porte podem realizar missões persistentes sobre grandes áreas.

Nessa arquitetura, a aeronave é apenas um dos elementos. Sensores eletro-ópticos e infravermelhos, radares, enlaces de dados, estações de controle, processamento de imagens, inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações seguras e integração com o SISFRON são componentes igualmente importantes.

O impacto potencial para a Base Industrial de Defesa
A dimensão dos recursos previstos pode produzir efeitos que vão muito além da eventual compra de aeronaves. Um programa de expansão de SARP tende a movimentar fornecedores de sensores, aviônicos, comunicações, software, inteligência artificial, propulsão, estruturas, baterias, estações de controle, logística e manutenção.

Esse aspecto é especialmente relevante porque o Brasil já possui uma cadeia tecnológica capaz de fornecer parte considerável desses elementos. O desafio será transformar competências dispersas em uma arquitetura integrada, com produção em escala, disponibilidade operacional, atualização tecnológica e capacidade de sustentação durante todo o ciclo de vida.

A XMobots é um exemplo dessa verticalização. Segundo informações divulgadas pela própria empresa e repercutidas pelo LRCA, mais de R$ 220 milhões foram destinados desde 2022 ao desenvolvimento de soluções de Defesa e Segurança. A empresa também afirma possuir uma estrutura que integra engenharia aeronáutica, software embarcado, aviônicos, sensores, inteligência artificial, estruturas e propulsão.
 
O que ainda não está definido 
É importante evitar interpretações que o PLOA não permite sustentar. A proposta não informa quantos drones serão comprados, quais modelos serão selecionados, quais empresas participarão de futuras concorrências ou qual parcela dos R$ 520 milhões será efetivamente aplicada em sistemas não tripulados.

Além disso, o PLOA é uma proposta. O texto ainda passa pelo Congresso Nacional, pode sofrer alterações e, depois de aprovado e sancionado, sua execução dependerá da programação financeira e da disponibilidade efetiva de recursos.
 
Uma mudança de patamar 
Mesmo com essas ressalvas, há uma mudança qualitativa. O Exército já emprega SARP nacionais e vem experimentando sua utilização em diferentes ambientes. O PLOA 2027 agora explicita “Drones” no nome de uma das maiores ações de investimento da Força Terrestre, ao mesmo tempo em que mantém uma dotação robusta para o SISFRON.

A declaração de José Múcio, portanto, deve ser lida menos como uma ideia isolada e mais como uma manifestação política que converge com uma linha de planejamento já refletida na proposta orçamentária. Se os recursos forem preservados e transformados em contratos, o País poderá assistir a uma expansão significativa do emprego de sistemas não tripulados na vigilância das fronteiras.

Para a Base Industrial de Defesa, a oportunidade é ainda maior: o programa poderá representar não apenas a aquisição de aeronaves, mas a consolidação de uma cadeia nacional de sistemas autônomos, sensores e comando e controle. Nesse cenário, o desafio será fazer com que o investimento em drones se traduza em capacidade operacional permanente, autonomia tecnológica e maior presença brasileira em um dos segmentos que mais rapidamente transformam a guerra e a vigilância territorial.

SIATT e Safran avançam para cooperação estratégica em defesa no Brasil

Acordo entre a SIATT, empresa do EDGE Group, e a Safran Electronics & Defense prevê explorar mísseis, munições de permanência, defesa costeira e tecnologias críticas, com destaque para a criação de capacidade brasileira de desenvolvimento e produção de motores-foguete de propelente sólido 
 


*LRCA Defense Consulting - 08/09/2026

A SIATT, empresa brasileira do EDGE Group especializada em sistemas de armas inteligentes e integração de sistemas, assinou nesta terça-feira, 8 de setembro, um Memorando de Entendimento (MoU) com a Safran Electronics & Defense para explorar uma nova frente de cooperação tecnológica e industrial no Brasil. O acordo envolve sistemas de mísseis, munições vagantes (loitering munitions), defesa costeira e tecnologias associadas, mas seu ponto de maior alcance estratégico está na intenção de estabelecer, em território brasileiro, capacidade para desenvolver e produzir motores-foguete de propelente sólido. 

Motores-foguete passam ao centro da nova parceria 
Segundo o anúncio do EDGE, a cooperação deverá avaliar a implantação dessa capacidade nas instalações da SIATT no Brasil. O entendimento também abrange tecnologias consideradas críticas para sistemas de armas modernos, entre elas unidades de medição e navegação inercial, receptores GNSS, atuadores, miras eletro-ópticas e sistemas de busca e aquisição de alvos (seekers).

A iniciativa ainda está em fase exploratória. O MoU não representa, por si só, um contrato de produção, uma joint venture já constituída ou a definição de um sistema de armas específico. O que está formalmente estabelecido é um marco para estudar projetos e formas de cooperação. Essa distinção é importante porque o comunicado não informa cronograma, investimento, modelo societário ou quais produtos serão desenvolvidos inicialmente.

O momento industrial da SIATT 
A assinatura ocorre apenas 13 dias depois de a SIATT colocar em operação a Fase 1 de sua nova unidade industrial em Caçapava, no Vale do Paraíba. A planta, com 6.200 m² de área construída nessa primeira etapa, foi concebida para desenvolver, fabricar, integrar, testar e qualificar mísseis, foguetes guiados, motores-foguete e outros sistemas propulsivos destinados aos setores de Defesa e Espaço. 

A coincidência temporal não prova que o MoU com a Safran tenha sido motivado diretamente pela nova fábrica, mas cria uma conexão industrial evidente: a SIATT passa a contar justamente com uma infraestrutura projetada para ampliar sua atuação em propulsão e, agora, anuncia uma parceria com uma das maiores empresas europeias do setor aeroespacial e de defesa para estudar a criação de uma capacidade específica de motores-foguete sólidos.

Segundo o LRCA Defense Consulting, a nova unidade de Caçapava faz parte de um processo de expansão industrial do EDGE no Brasil e foi planejada em três fases. Ao final da implantação, a previsão divulgada é de 640 empregos, sendo 160 diretos e 480 indiretos. 

Nova unidade em Caçapava (SP)

Uma lacuna histórica da indústria brasileira 
A propulsão de mísseis é uma das áreas mais sensíveis de uma cadeia de defesa. O motor-foguete não é apenas um componente de um míssil, mas um elo determinante para desempenho, alcance, aceleração, armazenamento e disponibilidade operacional do sistema. A capacidade de projetar e fabricar esse componente em escala industrial reduz dependências externas e pode facilitar a evolução de diferentes famílias de armas.

No caso brasileiro, o MANSUP é um exemplo particularmente relevante. O programa contou historicamente com a participação da AVIBRAS no desenvolvimento do motor-foguete e da integração dos protótipos, enquanto a SIATT ficou responsável pelo sistema de guiagem, navegação, controle e telemetria.

Isso significa que a nova iniciativa não deve ser interpretada como simples repetição do que a SIATT já fazia no MANSUP. O movimento anunciado agora aponta para a possibilidade de a empresa ampliar sua competência industrial em propulsão, potencialmente transformando uma capacidade vinculada a programas específicos em uma competência transversal aplicável a diferentes sistemas.

A parceria EDGE e Safran ganhou velocidade em 2026 
O acordo anunciado no Brasil é mais um capítulo de uma aproximação que ganhou força ao longo de 2026. Em fevereiro, EDGE e Safran Electronics & Defense assinaram um Memorando de Entendimento para explorar o desenvolvimento, a produção e a comercialização de sistemas avançados de armas ar-superfície, com possibilidade de evolução para sistemas superfície-ar e uma nova geração de armas inteligentes.

Em junho, durante a Eurosatory 2026, em Paris, os grupos assinaram um Acordo de Cooperação Estratégica mais amplo. No dia seguinte, anunciaram os termos para duas possíveis joint ventures, uma nos Emirados Árabes Unidos e outra na França, além de uma linha de desenvolvimento conjunto de uma arma guiada de maior alcance baseada na família Hammer. 

A extensão dessa parceria ao Brasil, por meio da SIATT, amplia geograficamente a cooperação e acrescenta uma dimensão industrial que interessa diretamente à Base Industrial de Defesa brasileira. O próprio EDGE afirmou que o acordo brasileiro leva sua rede global de parcerias para o País e associa a Safran à SIATT na construção de capacidade de motores-foguete em território nacional.

Tecnologias críticas além da propulsão 
Outro aspecto relevante do MoU é a amplitude das tecnologias mencionadas. Sistemas de medição inercial e navegação são fundamentais para determinar a posição, atitude e trajetória de um míssil ou veículo, enquanto receptores GNSS podem complementar a navegação em determinados perfis de missão. Atuadores transformam os comandos do sistema de controle em movimentos físicos, e sensores eletro-ópticos e buscadores podem fornecer informações para aquisição, acompanhamento ou guiagem do alvo.

A Safran já possui presença industrial consolidada no Brasil. A empresa informa ter mais de 750 empregados no País, distribuídos por quatro unidades, e atua em equipamentos aeronáuticos, aviônicos, optrônicos, sistemas de navegação e motores de helicópteros. O Ministério da Defesa também incluiu, em maio de 2026, diversos produtos da Safran Electronics & Defense Brazil na relação de Produtos Estratégicos de Defesa, incluindo sistemas de navegação inercial, miras panorâmicas, telêmetros e equipamentos de observação. 

Portanto, o novo entendimento reúne duas bases industriais complementares: de um lado, a Safran, com décadas de presença e conhecimento tecnológico no País; de outro, a SIATT e o EDGE, com crescente capacidade de desenvolvimento, integração, produção e internacionalização de sistemas de armas.

O que pode surgir dessa cooperação 
O comunicado não identifica quais mísseis ou munições serão desenvolvidos, nem informa se algum projeto existente será adaptado. Ainda assim, a combinação das áreas citadas permite visualizar algumas possibilidades industriais: novos mísseis de alcance ampliado, sistemas de defesa costeira, munições de permanência e armas guiadas que utilizem diferentes combinações de navegação, sensores e propulsão.

Há também uma dimensão potencialmente importante para o setor espacial. A nova unidade de Caçapava foi planejada para atuar simultaneamente em Defesa e Espaço, inclusive com motores-foguete e outros sistemas propulsivos. O compartilhamento de competências entre esses dois domínios pode ampliar a escala econômica de tecnologias de alto valor e contribuir para a retenção, no País, de conhecimento relacionado à propulsão.

Brasil ganha capacidade, mas a autonomia dependerá da execução 
Sob a ótica da Base Industrial de Defesa, o aspecto mais significativo do anúncio é menos o nome da parceria e mais a possibilidade de transformar cooperação tecnológica em capacidade industrial permanente. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece a defesa como setor estratégico para soberania, inovação, geração de empregos qualificados e reindustrialização, além de destacar a inserção competitiva do Brasil em cadeias globais de valor.

A entrada de uma empresa como a Safran pode acelerar a maturação de competências da SIATT e abrir acesso a mercados e tecnologias que seriam mais difíceis de desenvolver isoladamente. Ao mesmo tempo, o resultado para a autonomia tecnológica brasileira dependerá do grau de transferência efetiva de conhecimento, da participação de profissionais e fornecedores nacionais, da propriedade intelectual estabelecida em cada projeto e da capacidade de manter no País etapas críticas de desenvolvimento, produção, testes e qualificação.

Por enquanto, portanto, o anúncio deve ser lido como o início de uma nova frente de cooperação, e não como uma capacidade já operacional. Mas o momento em que ele ocorre é significativo: a SIATT acaba de colocar em funcionamento uma planta preparada para mísseis e motores-foguete, o EDGE está ampliando sua presença industrial brasileira e a Safran procura aprofundar sua cooperação com o grupo. Se os estudos previstos no MoU forem convertidos em projetos concretos, o Brasil poderá ganhar um novo polo de competência em propulsão e tecnologias críticas para armas guiadas.

Um movimento que reforça a posição do Vale do Paraíba 
O acordo também reforça a concentração, em São José dos Campos e no entorno, de competências brasileiras e internacionais relacionadas a defesa, aeroespacial e espaço. A região já reúne empresas, universidades, institutos de pesquisa e organizações ligadas a sistemas complexos. A expansão da SIATT, somada à crescente presença do EDGE e à histórica atuação da Safran no País, acrescenta mais um elemento a esse ecossistema.

O principal indicador a acompanhar daqui para frente será a passagem do entendimento para contratos, programas e investimentos. Se isso ocorrer, o MoU de 8 de setembro poderá ser lembrado não apenas como mais uma parceria empresarial, mas como o ponto de partida para uma capacidade industrial brasileira de motores-foguete sólidos associada a uma cadeia mais ampla de sensores, navegação, controle e sistemas de armas.

07 setembro, 2026

Avibras pode assumir montagem dos 36 obuseiros ATMOS do Exército

Proposta apresentada pela Elbit prevê participação da empresa de Jacareí na montagem dos dois exemplares de avaliação e das 34 viaturas de série, abrindo uma nova frente de negócios para a fabricante do sistema ASTROS 

Imagem meramente ilustrativa renderizada por IA


*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A Avibras Aeroco poderá assumir em Jacareí (SP) a montagem dos 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 2000 de 155 mm que o Exército Brasileiro pretende adquirir da israelense Elbit Systems. A proposta que incorpora a empresa brasileira ao arranjo industrial foi apresentada ao Comando Logístico do Exército (COLOG) no fim de agosto e agora deverá passar por análise jurídica antes de qualquer contratação.

A informação foi revelada pelo jornalista Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, em reportagem publicada nesta segunda-feira (7). Segundo a apuração, a solução prevê que os dois exemplares destinados ao lote de amostra e as 34 viaturas de série sejam montados em Jacareí pela Avibras, enquanto a produção de munições ficará associada à IMBEL. O valor estimado da aquisição é de aproximadamente R$ 800 milhões.

Uma licitação que espera há dois anos 
A proposta representa uma tentativa de destravar uma aquisição que permanece sem contrato desde 2024, embora o ATMOS tenha sido formalmente classificado em primeiro lugar na concorrência internacional conduzida pelo Exército. O resultado oficial, publicado em abril daquele ano, colocou o sistema da Elbit à frente do Zuzana 2, da Excalibur International, do CAESAR, da KNDS France, e do SH15, da Norinco. A Elbit foi então convocada para a assinatura do contrato inicial do lote de amostra.

O processo, entretanto, não avançou para a contratação definitiva. A escolha do equipamento israelense passou a sofrer forte pressão política em razão da guerra em Gaza e da deterioração das relações entre o governo brasileiro e o governo de Israel. Paralelamente, a KNDS questionou o resultado da concorrência. Os recursos apresentados pela empresa francesa não alteraram a classificação final, e o Tribunal de Contas da União também não acolheu a tentativa de suspender o processo.

A Avibras entra na equação 
A nova solução procura preservar a escolha técnica realizada pelo Exército sem modificar as condições essenciais da proposta vencedora. Segundo a reportagem de Godoy, a proposta apresentada pela Elbit e pela AEL Sistemas já previa a participação de uma empresa brasileira na montagem dos obuseiros, embora não identificasse previamente qual empresa seria. Esse desenho permitiria, segundo a avaliação feita pelo Exército, incorporar a Avibras ao arranjo industrial sem alterar as condições fundamentais da oferta vencedora.

A aproximação entre Elbit/AEL e Avibras, portanto, não surgiu com a reportagem desta segunda-feira. O LRCA Defense Consulting já havia informado, em julho, que as empresas negociavam uma solução para a nacionalização da montagem do ATMOS em Jacareí. O portal também havia acompanhado o interesse da Elbit em ampliar sua presença industrial no Brasil.

Uma escolha com lógica industrial 

A escolha da Avibras apresenta uma lógica industrial particularmente forte. O ATMOS é um obuseiro autopropulsado de 155 mm sobre rodas, projetado para operar em diferentes configurações de chassis. A Elbit informa que o sistema pode ser integrado a caminhões 6x6 ou 8x8 escolhidos pelo cliente e que possui automação de pontaria, navegação e carregamento. A configuração brasileira foi associada à família Tatra T-815 6x6, uma plataforma com a qual a Avibras possui experiência acumulada no programa ASTROS.

Embora o obuseiro e o sistema de artilharia de foguetes sejam plataformas distintas, a experiência da empresa com integração de sistemas militares, fabricação de veículos e trabalho sobre chassis Tatra constitui uma base relevante para absorver a montagem do novo equipamento.

A parceria já vinha sendo construída 
A própria história da concorrência reforça essa conexão. A proposta do Zuzana 2, segunda colocada no processo, havia previsto uma parceria com a Avibras para a montagem nacional. A participação da empresa brasileira na produção de um obuseiro 155 mm sobre rodas, portanto, já fazia parte das alternativas industriais consideradas durante a competição, antes mesmo da escolha do ATMOS.

A aproximação entre a Avibras e a Elbit ganhou novo impulso em 2026, quando a empresa brasileira retomou suas atividades industriais em Jacareí. Em julho, o LRCA registrou as tratativas entre AEL Sistemas, Elbit Systems e Avibras Aeroco para viabilizar a montagem local do ATMOS.

O peso estratégico da munição 155 mm 
Para além das viaturas, a munição constitui um componente estratégico da negociação. A proposta vencedora do ATMOS contempla participação industrial brasileira na produção de munições de artilharia. A IMBEL aparece como protagonista desse eixo, o que amplia o alcance industrial do programa para além da fabricação das próprias viaturas.

A possibilidade de desenvolver no País competências relacionadas ao calibre 155 mm pode ser tão relevante, no longo prazo, quanto a montagem dos 36 obuseiros. Trata-se de uma capacidade que interessa diretamente à autonomia logística da artilharia e à formação de uma cadeia nacional de fornecedores.

KNDS volta a procurar a Avibras 

A movimentação da KNDS acrescenta outra dimensão ao cenário. Segundo Godoy, a empresa francesa voltou a procurar a Avibras e teria apresentado uma possibilidade de parceria envolvendo o CAESAR e transferência de tecnologia para munições dos calibres 105 mm, 120 mm e 155 mm.

A aproximação recupera uma relação industrial anterior entre as duas empresas, que chegaram a trabalhar juntas no conceito do sistema Tupã, derivado do CAESAR. A iniciativa francesa mostra que a Avibras voltou a ser percebida como um ativo industrial relevante e que a empresa brasileira pode se tornar novamente uma parceira disputada por grandes grupos internacionais de defesa.

Ainda não há contrato 
É importante, contudo, separar o que está definido do que ainda depende de decisão. O Exército já definiu o ATMOS como vencedor da concorrência, mas a participação da Avibras ainda está vinculada à análise da proposta apresentada ao COLOG. Segundo a apuração do Estadão, a expectativa no Estado-Maior do Exército é que o primeiro contrato, relativo aos protótipos, seja assinado ainda em 2026. Depois dos testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), seria negociado o contrato para as demais 34 viaturas.

Assim, ainda não é correto afirmar que a Avibras tenha recebido ou assinado o contrato dos ATMOS. O que existe, neste momento, é uma proposta formal apresentada ao COLOG, apoiada por uma solução industrial que procura conciliar a decisão técnica do Exército, as restrições políticas envolvendo Israel e a necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa brasileira.

Mais que uma linha de montagem 
Para a Avibras Aeroco, a eventual contratação teria importância que ultrapassa o valor financeiro do programa. Um programa de 36 viaturas criaria uma linha de produção e integração de sistemas de artilharia, preservando competências de engenharia e ampliando a carteira de encomendas da companhia.

O verdadeiro alcance da oportunidade, porém, dependerá do conteúdo da transferência tecnológica. Quanto maior for a participação brasileira em engenharia, fabricação de componentes, integração, manutenção e desenvolvimento de munições, maior será o efeito estruturante do programa sobre a empresa e sobre a Base Industrial de Defesa.

O caso também ilustra uma característica cada vez mais importante dos grandes programas militares: o equipamento selecionado é apenas uma parte da decisão. A capacidade de gerar produção local, domínio tecnológico, cadeia de fornecedores, autonomia logística e condições para futuros desenvolvimentos pode determinar o verdadeiro valor estratégico de uma aquisição.

No caso do ATMOS, a entrada da Avibras pode transformar uma compra que estava travada por razões políticas e geopolíticas em um programa com impacto direto sobre a indústria brasileira de defesa. A próxima etapa, portanto, será acompanhar a análise do COLOG e verificar se a proposta se converterá, de fato, em contrato.

BRVANT desenvolve o Carvalho, novo drone de ataque e vigilância com lançamento em enxame

Projeto brasileiro, ainda sem protótipo funcional, deriva da experiência com a munição inteligente Hunter e prevê emprego a partir de um veículo terrestre inspirado no conceito do ASTROS 

 Drone Carvalho em imagem renderizada por IA baseada na original exposta

*LRCA Defense Consulting - 07/09/2026

A BRVANT Soluções Tecnológicas está desenvolvendo o Carvalho, uma nova plataforma aérea não tripulada concebida para missões de vigilância e ataque. O projeto, apresentado publicamente em 2026, ainda está em fase de desenvolvimento e não possui protótipo funcional, mas já incorpora uma concepção operacional que combina lançamento terrestre, emprego em enxame e diferentes alternativas de propulsão.

As informações mais recentes sobre o sistema foram apresentadas pelo gestor de projetos da BRVANT, Nilton Calete, em entrevista realizada na Base Aérea de Brasília a Roberto Caiafa, jornalista especializado em Defesa (vídeo abaixo). Segundo ele, o Carvalho surgiu de um projeto embrionário relacionado à família Hunter e entrou agora em uma segunda fase de desenvolvimento. O nome é uma homenagem a um coronel Carvalho, apontado pela empresa como um dos idealizadores do programa ASTROS.

Propulsão por hélice ou por turbina e com características multimissão, mas ainda não operacional 
De acordo com Calete, o Carvalho foi concebido para desempenhar tanto funções de vigilância quanto de ataque a estruturas. A plataforma poderá ser configurada com propulsão por hélice ou por turbina, conforme os requisitos do emprego. A empresa também prevê um sistema auxiliar para o lançamento, independentemente da configuração de propulsão adotada.

Um dos aspectos mais relevantes do projeto é sua integração com um sistema terrestre de lançamento. A BRVANT pretende utilizar um caminhão de concepção semelhante à dos sistemas do programa ASTROS, com pelo menos quatro Carvalhos por veículo, permitindo o lançamento em enxame. A mesma arquitetura poderá ser empregada em missões de vigilância, ataque ou, conforme a entrevista, em outras funções definidas pelo usuário.

A concepção aproxima o Carvalho de uma nova tendência observada nos conflitos contemporâneos: a combinação de veículos aéreos não tripulados de baixo custo relativo, lançamento múltiplo e emprego coordenado para produzir efeitos sobre alvos a distância. A comparação visual com os drones de ataque Shahed-136 e Geran-2, feita por fontes especializadas e também associada ao projeto nas redes sociais, ajuda a situar sua proposta, mas não significa que o sistema brasileiro seja uma cópia daqueles modelos.

A BRVANT ainda não divulgou uma ficha técnica definitiva do Carvalho. Não há, portanto, dados oficiais consolidados sobre alcance, velocidade, autonomia, massa máxima de decolagem ou precisão. Também não se deve tratar como especificação fechada a possibilidade de uma cabeça de guerra de 30 kg. Na entrevista, Calete explicou que uma carga dessa ordem poderá ser instalada caso seja definida como requisito pelo cliente. 

A mesma entrevista esclareceu que o Carvalho ainda está longe da fase operacional. Questionado sobre a previsão para o primeiro protótipo, Calete afirmou que ele ainda não é funcional e informou que a empresa apresentou uma proposta para captação de recursos junto à Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). Assim, as características hoje apresentadas devem ser entendidas como parte de um projeto em evolução, sujeito a mudanças durante o desenvolvimento.


Experiência ligada à família Hunter
A experiência que sustenta o Carvalho está ligada à família Hunter, desenvolvida pela BRVANT como munição inteligente. O Hunter V1 utiliza motorização elétrica e possui uma asa que se abre após o lançamento por gravidade. Na entrevista, a empresa informou que a versão V1 utiliza uma cabeça de guerra de 580 gramas, enquanto a V2 pode empregar uma cabeça de guerra de 2 kg. A plataforma pode ser empregada contra alvos terrestres e também como interceptador.

Informações publicadas pela Janes acrescentam que a família Hunter recebeu financiamento da FINEP e possui recursos como sensores eletro-ópticos, piloto automático, telemetria criptografada, unidade de medição inercial e receptor GPS. A publicação também registra capacidades de navegação autônoma e voo em enxame. Esses dados ajudam a compreender a base tecnológica a partir da qual a BRVANT pretende avançar para uma plataforma de maior porte, embora não permitam concluir que todas essas capacidades já estejam incorporadas ao Carvalho.

Uma IA que pretende ser 100% brasileira
Outro ponto de interesse é o desenvolvimento de inteligência artificial. Na entrevista, Calete afirmou que a BRVANT está desenvolvendo no Brasil a inteligência artificial empregada em suas munições inteligentes. Segundo ele, o treinamento utiliza ativos militares e busca atender a requisitos de assertividade superiores a 90%. A empresa também prevê a possibilidade de manter o ser humano no circuito, permitindo controle manual quando necessário.

Essa informação, contudo, precisa ser tratada com precisão. A entrevista confirma o desenvolvimento nacional da inteligência artificial, mas não estabelece, de forma inequívoca, que toda a tecnologia descrita já esteja embarcada no Carvalho. A expressão “IA 100% brasileira”, utilizada pelo jornalista Roberto Caiafa ao apresentar o sistema nas redes sociais, é mais abrangente do que a formulação feita pelo representante da empresa na entrevista.

Passo que amplia significativamente o potencial operacional da tecnologia Hunter
O Carvalho representa, portanto, um passo de maior escala dentro da trajetória de sistemas não tripulados da BRVANT. A empresa já atua no desenvolvimento de VANTs e outros sistemas não tripulados e é reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa. A evolução da família Hunter para um sistema maior, com possibilidade de propulsão a hélice ou turbina e lançamento múltiplo a partir de veículo terrestre, amplia significativamente o potencial operacional da tecnologia.

Mais do que a semelhança externa com o Shahed-136, o aspecto que merece atenção no Carvalho é a arquitetura do sistema. Se o projeto evoluir conforme a concepção apresentada pela BRVANT, o Brasil poderá dispor de uma plataforma capaz de ser lançada em grupos, receber diferentes configurações de missão e combinar autonomia, inteligência artificial e controle humano. Trata-se, entretanto, de uma capacidade ainda em desenvolvimento, cuja viabilidade dependerá das próximas etapas de financiamento, engenharia, construção e testes.

Por enquanto, o Carvalho deve ser visto como um projeto promissor da Base Industrial de Defesa brasileira, e não como um sistema de armas já pronto. O primeiro marco decisivo será a construção e o voo do protótipo funcional. A partir daí será possível avaliar, com dados concretos, se a proposta conseguirá transformar a experiência acumulada pela BRVANT com a família Hunter em uma plataforma de maior alcance, carga e relevância operacional.

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