Em apenas oito meses, explosão em Alcântara e duas falhas indianas consecutivas interrompem avanço do programa espacial brasileiro e colocam em xeque a retomada de parcerias internacionais
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| Imagens: Dheeraj Khandelwal |
*LRCA Defense Consulting - 17/01/2026
O Brasil encerra 2025 e inicia 2026 com um dos períodos mais sombrios de sua história espacial: três falhas consecutivas de lançamentos em menos de oito meses resultaram na perda total de 12 satélites nacionais, milhões de dólares em investimentos e anos de pesquisa acadêmica. O mais recente revés aconteceu na madrugada de segunda-feira (12), quando o foguete indiano PSLV-C62 sofreu uma anomalia crítica durante o terceiro estágio do voo, destruindo cinco nanossatélites brasileiros, exatamente o mesmo problema que levou à perda de satélites nacionais no PSLV-C61 em maio de 2025.
Apenas três semanas antes, em 22 de dezembro de 2025, o sonho do primeiro lançamento orbital comercial brasileiro desde 1999 transformou-se em pesadelo quando o foguete sul-coreano HANBIT-Nano explodiu 46 segundos após decolar do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, levando consigo ao menos dois satélites brasileiros.
Uma sequência de desastres
A série de falhas começou em maio de 2025, quando o PSLV-C61 da Organização
Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO) apresentou problemas durante o terceiro
estágio de voo. Na época, ainda não estava claro quantos satélites brasileiros
estavam a bordo, mas o padrão de falha foi registrado: queda na pressão da
câmara do motor PS3, perda de controle do veículo e desvio da trajetória de
voo.
A perda mais simbólica ocorreu em Alcântara. Depois de 26 anos sem tentativas de lançamentos orbitais, desde a falha do VLS-1 em 1999 e a tragédia que matou 21 pessoas em 2003, o Brasil apostou na Operação Spaceward como marco da retomada do seu programa espacial. O HANBIT-Nano transportava oito cargas úteis, incluindo pelo menos dois nanossatélites desenvolvidos pela Universidade Federal do Maranhão: o Jussara-K e o Pion BR2 - Cientistas de Alcântara.
O Jussara-K, desenvolvido no Laboratório de Eletrônica e Sistemas Embarcados Espaciais da UFMA, reunia diversas tecnologias nacionais e tinha como missão coletar dados ambientais de plataformas terrestres, incluindo informações sobre focos de queimadas. O Pion BR2 levava mensagens de aproximadamente 300 crianças participantes do projeto Cientistas de Alcântara ao espaço, um sonho educacional que se transformou em destroços sobre o solo maranhense.
A transmissão ao vivo pela Innospace, empresa sul-coreana responsável pelo foguete, capturou o momento exato da falha. Imagens mostraram uma grande nuvem de fogo envolvendo o veículo quando este atingiu a fase de curva gravitacional. A empresa cortou o sinal abruptamente, substituindo as imagens por uma mensagem lacônica: "Nós experimentamos uma anomalia durante o voo".
O foguete colidiu com o solo pouco após a decolagem. De acordo com a Força Aérea Brasileira, que coordenava a operação, "o veículo iniciou sua trajetória conforme o previsto. No entanto, houve uma anomalia no veículo que o fez colidir com o solo". Equipes da Aeronáutica e do Corpo de Bombeiros foram enviadas ao local para análise dos destroços. A causa exata da explosão está sendo investigada e ainda não foi esclarecida.
A repetição indiana
Menos de um mês depois, em 12 de janeiro de 2026, o Brasil viu mais cinco
satélites serem destruídos quando o PSLV-C62 falhou, e de forma
perturbadoramente idêntica ao PSLV-C61. A missão começou com uma decolagem
perfeita às 10h18 IST (1h48 horário de Brasília) do Centro Espacial Satish
Dhawan. Os dois primeiros estágios funcionaram normalmente, mas quando o
veículo transitou para o terceiro estágio, aproximadamente oito minutos após o
início do voo, o desastre se repetiu: queda acentuada na pressão da câmara do
motor PS3, aumento de perturbação na taxa de rolamento e desvio significativo
da trajetória.
Entre os 16 satélites destruídos, cinco eram brasileiros, todos integrados ao Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE 2022-2031):
Aldebaran-I: desenvolvido pela Universidade Federal do Maranhão com apoio da Agência Espacial Brasileira, era o principal destaque brasileiro na missão. Resultado de cinco anos de trabalho, o cubesat padrão 1U (um cubo de 10 centímetros) tinha como missão auxiliar na identificação de focos de queimadas e apoiar autoridades costeiras em operações de busca e resgate de pequenas embarcações pesqueiras. O nome homenageava a estrela mais brilhante da constelação de Touro.
Orbital Temple, EduSat-1, Galaxy Explorer e UaiSat: estes quatro nanossatélites representavam projetos acadêmicos de baixo custo e alta relevância social, desenvolvidos por equipes de diversas instituições brasileiras. A AlltoSpace foi responsável pela integração da constelação brasileira ao PSLV-C62.
A semelhança entre as falhas do PSLV-C61 e do PSLV-C62 levanta questões críticas. O PSLV (Veículo de Lançamento de Satélites Polares) é considerado o "cavalo de batalha" da ISRO, com um histórico de 64 lançamentos ao longo de 33 anos e apenas quatro falhas em toda sua história operacional, até 2025. O foguete foi responsável por missões históricas, incluindo o Chandrayaan-1 e a primeira sonda indiana a Marte.
"Teria sido diferente se qualquer outro lançador tivesse falhado, mas uma falha do PSLV nos preocupa", comentou um cientista da ISRO após o incidente do PSLV-C62. Esta é a primeira vez que o veículo falha em duas missões consecutivas, um padrão inédito que ameaça a reputação da agência espacial indiana no mercado comercial global.
Especialistas questionam se as correções após o PSLV-C61 foram realmente implementadas antes do lançamento do PSLV-C62. Segundo a publicação The Week, o relatório de análise de falha do PSLV-C61 ainda aguardava aprovação no gabinete do Primeiro Ministro indiano quando a missão C62 foi autorizada.
A anomalia consistente no terceiro estágio (PS3) aponta para problemas sistêmicos. Telemetria de ambas as missões indicou uma queda na pressão da câmara do motor de propelente sólido, seguida de perda de controle do veículo. Especialistas levantam duas hipóteses principais: defeitos de fabricação em um lote de propelente sólido ou materiais de revestimento, ou limitações do projeto de 30 anos do PSLV ao lidar com configurações modernas mais pesadas e complexas de múltiplos satélites.
Impactos múltiplos
O prejuízo financeiro combinado das três falhas é estimado entre 300 e 400
milhões de dólares. Mas o custo transcende os números. Para universidades
brasileiras, a perda representa anos de pesquisa, desenvolvimento e formação de
recursos humanos. O Aldebaran-I, por exemplo, envolveu cinco anos de trabalho
da UFMA. O Jussara-K reunia tecnologias nacionais desenvolvidas em parceria com
instituições como a Universidade Federal de São João Del-Rei.
Para as startups e empresas do setor espacial privado brasileiro, o impacto pode ser ainda mais devastador. A sequência de falhas ameaça a confiança de investidores justamente quando o país tentava consolidar sua posição no mercado espacial comercial global.
A Agência Espacial Brasileira reconheceu em nota oficial que
"falhas dessa natureza fazem parte do ciclo de desenvolvimento de sistemas
espaciais", mas ressaltou seu compromisso em "acompanhar os
relatórios oficiais sobre as falhas" para incorporar recomendações
técnicas e adotar medidas mitigadoras em futuras campanhas.
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| Imagens: Innospace |
Alcântara: promessa e frustração
A explosão do HANBIT-Nano foi particularmente dolorosa porque representava
a retomada das operações comerciais em Alcântara após mais de duas décadas de
inatividade orbital. O Centro de Lançamento de Alcântara possui posição
estratégica a apenas dois graus da linha do Equador, o que proporciona economia
de até 30% no gasto de combustíveis, uma vantagem competitiva significativa no
mercado global.
O lançamento fazia parte da Operação Spaceward, resultado de edital de chamamento público lançado pela AEB em 2020. A Innospace assinou contrato com o Comando da Aeronáutica em 2022. O foguete HANBIT-Nano, com 21,8 metros de altura e 1,4 metro de diâmetro, já havia enfrentado três adiamentos sucessivos por problemas técnicos antes da tentativa final. Foram detectadas anormalidades em válvulas, problemas no sistema de refrigeração do oxidante e falhas nos sinais durante testes de aviônicos.
É fundamental ressaltar que a responsabilidade pelo incidente recai exclusivamente sobre a empresa sul-coreana Innospace. Toda a infraestrutura e operação brasileira, coordenada pela Força Aérea Brasileira e pela Agência Espacial Brasileira, funcionou de forma impecável.
A preparação do Centro de Lançamento de Alcântara, os procedimentos de segurança, o controle de tráfego aéreo e marítimo, a logística de apoio e todos os sistemas sob responsabilidade brasileira operaram dentro das especificações previstas. A decolagem ocorreu conforme planejado, e a falha que levou à explosão foi identificada como sendo do próprio veículo lançador sul-coreano durante sua fase de voo inicial.
Este desempenho técnico da equipe brasileira demonstra que o país possui capacidade operacional comprovada para hospedar missões espaciais internacionais, e que Alcântara está pronto para receber futuras operações comerciais de outros clientes.
Kim Soo-jong, CEO da Innospace, pediu desculpas aos acionistas pelo resultado em carta oficial, mas destacou que os dados de voo, propulsão e operação coletados serão usados para uma nova tentativa prevista para o primeiro semestre de 2026. A empresa segue o exemplo de gigantes globais do setor espacial que também enfrentaram falhas em estágios iniciais de lançamentos comerciais.
O legado da tragédia de 2003
O acidente de dezembro de 2025 inevitavelmente evoca memórias da maior
tragédia do programa espacial brasileiro. Em 22 de agosto de 2003, um
acionamento intempestivo de uma pequena peça causou a explosão do VLS-1
(Veículo Lançador de Satélite) ainda no prédio de montagem, matando 21 técnicos
civis e destruindo o Centro de Lançamento de Alcântara. O desastre paralisou as
atividades espaciais brasileiras por anos e deixou cicatrizes profundas no
programa nacional.
"Ainda não era nem no lançamento, ali era a preparação do veículo lançador de satélite dentro do prédio de montagem", lembra o senador Astronauta Marcos Pontes. "A gente precisa aprender com os acidentes. Então aquele acidente eu tenho certeza que ele ensinou muita coisa pro próprio instituto".
Antes de 2003, houve outras tentativas frustradas. Em 1997, o primeiro VLS nacional falhou ao tentar lançar um satélite coletor de dados. Em 1999, uma falha no segundo estágio do segundo VLS obrigou o cancelamento do lançamento do satélite SACI-2.
ISRO sob pressão
Para a ISRO, as falhas consecutivas do PSLV representam não apenas um
desafio técnico, mas uma crise de confiança. Todos os lançamentos do PSLV foram
suspensos até pelo menos meados de fevereiro de 2026, enquanto um Comitê de
Análise de Falhas investiga por que o estágio PS3, tradicionalmente a parte
mais estável do foguete, está falhando repentinamente.
A agência enfrenta uma corrida contra o tempo para restaurar a confiança no PSLV, especialmente com missões de grande destaque como as expansões Gaganyaan (programa de voos tripulados) e NavIC (sistema de navegação por satélite) que se aproximam. O impacto sobre o setor espacial comercial indiano pode ser duradouro. Prêmios de seguros para lançamentos indianos devem subir entre 20 e 30%, ameaçando a vantagem de custo que tornou a ISRO líder global no mercado de pequenos satélites.
O presidente da ISRO, V. Narayanan, prometeu divulgar um relatório detalhado após a conclusão da análise, mas críticos argumentam que a transparência deveria ter sido maior após a primeira falha. A NewSpace India Limited, braço comercial da ISRO, enfrenta agora um acúmulo massivo de missões adiadas.
Um futuro incerto
A sequência de falhas levanta questões fundamentais sobre a estratégia
espacial brasileira. Durante décadas, o país dependeu de parceiros
internacionais para lançar seus satélites, dada a falta de um veículo lançador
nacional operacional. O VLS-1 nunca foi bem-sucedido, e o projeto foi
oficialmente encerrado após a tragédia de 2003.
A tentativa de usar Alcântara como plataforma para lançamentos comerciais de empresas estrangeiras, possibilitada pelo Acordo de Salvaguardas Tecnológicas assinado em 2019, era vista como caminho pragmático para retomar a atividade espacial brasileira e gerar receita. A explosão do HANBIT-Nano questiona essa abordagem.
Ao mesmo tempo, a dependência histórica do Brasil em relação ao PSLV indiano para lançar satélites nacionais enfrenta agora sua própria crise. Com dois lançamentos indianos consecutivos falhando da mesma forma, surge a pergunta: onde o Brasil lançará seus próximos satélites?
A Agência Espacial Brasileira reafirmou seu compromisso em apoiar iniciativas nacionais que promovam capacitação, inovação e acesso ao espaço. Apesar da perda do Aldebaran-I e dos demais satélites, os projetos geraram avanços relevantes, incluindo a formação de mão de obra especializada e a realização de ensaios de qualificação alinhados ao PNAE.
Pedro Pallotta, divulgador científico e especialista em temas espaciais, resume o desafio: "Temos um potencial muito grande desperdiçado ao longo das últimas décadas, que hoje é um problema em relação a outros países, como EUA, Rússia, China, Índia, entre outros".
Próximos passos
Para a Innospace, uma nova tentativa de lançamento do HANBIT-Nano está
prevista para o primeiro semestre de 2026, com foco em correções tecnológicas
baseadas nos fenômenos observados no voo de dezembro, verificações adicionais
para garantir estabilidade operacional e acúmulo de maturidade técnica seguindo
o exemplo de gigantes globais do setor.
Para a ISRO, o "cavalo de batalha" permanece no chão até que o "fantasma" do PS3 seja finalmente exorcizado. A agência prometeu transparência na divulgação dos resultados da investigação.
Para o Brasil, resta aguardar, recalibrar e, mais uma vez, reconstruir. Enquanto os destroços dos 12 satélites perdidos orbitam como lixo espacial ou viraram cinzas na atmosfera, a comunidade científica nacional se pergunta quando e como o país conseguirá finalmente retomar sua jornada ao espaço.
A pergunta que permanece ainda sem resposta é: qual será a próxima oportunidade de colocar satélites nacionais em órbita, e em qual veículo lançador o país poderá confiar?




